12 de abril de 2010

Esta parte automática de nós, que age sem nos pedir opinião…

Um ideal relativamente comum é o ideal de desprogramação: «Ai, as cassetes com que nos encheram a cabeça!; ai, a maneira como nos programaram para isto e para aquilo!; ah, como seria bom libertarmo-nos de tudo isso, tomar cada coisa pelo que ela é sem projectar sobre ela nenhuma ideia que dela já tenhamos, ver cada árvore como o primeiro homem viu uma árvore pela primeira vez, deitar fora todo o preconceito e todos os automatismos!»

Pois…

De facto, é um ideal que não faz muito sentido, a não ser que se acredite nalguma parte imutável de nós que constitua a nossa real essência (uma alma...); ou então que se adopte uma posição budista radical e o fim último da desprogramação seja sermos… nada – não sermos nada. Pois o que fica senão nada, se tirarmos de nós o que somos (que, metafísica à parte, não pode ser senão a maneira como o que já vinha dentro de nós à partida se foi depois modelando, aqui e ali, com os jeitinhos que o mundo lhe foi dando)?

Desprogramar-se, deitar fora gestos e pensamentos automáticos? Bom, depende de quais, mas há muitos que é melhor cultivar do que deitar fora. Quando se muda de casa, como eu mudei agora, é que se vê: o tempo que a gente perde a fazer o jantar, por falta de automatismos, de pré-conceitos. Temos de pensar tudo de cada vez, como o primeiro homem que viu uma cozinha pela primeira vez. A faca de legumes, onde estará, e onde estão guardadas as cebolas? Perdoem-me agora dividir em dois cada pessoa, e acabar por cair assim no que criticava ali atrás, mas é só uma força de expressão: dá às vezes muito jeito esta parte automática de nós que age sem nos pedir opinião…

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