16 de abril de 2010

«Se você disser que eu desafino, amor…»: Jazz, tradução e percepção

“Quando se começa a aprender jazz”, dizia-me uma vez um músico meu amigo, “uma das primeiras coisas que se aprende é que, quando uma pessoa se engana e dá uma nota ao lado, uma solução óbvia é repetir o prego: não só um erro repetido deixa de ser um erro, porque passa a haver intencionalidade, como ainda, do ponto de vista perceptivo, uma coisa estranha, ou considerada errada, começa a fazer sentido à medida que se vai repetindo.” Toda a gente sabe isso, penso eu, mesmo que nunca o tenha conceptualizado de forma clara. E com a língua (e com muitas outras coisas, naturalmente...) é o mesmo: depois de muito se repetir ou ouvir repetida uma palavra ou expressão, já não se sabe se desafina ou não. Um exemplo de ontem:

Pela milésima vez, tenho de traduzir service providers, às vezes reduzido a providers apenas, e pela milésima vez hesito. Não gosto de nada do que me vem à cabeça. Pela milésima vez, vejo nos dicionários e fóruns de tradução que costumo utilizar. Prestador de serviços é obviamente a opção mais consensual. E não lhe consigo encontrar nada de mal, até porque, relexicalizando as proposições onde a expressão ocorre com verbo em vez de nome, usaria sempre prestar serviços sem hesitar. Mas não gosto. Vejo rapidamente o número de ocorrências em Google, usando -br pt, como opção rápida para diminuir os números de páginas brasileiras (não tenho absolutamente nada contra o português do Brasil, mas não é para português do Brasil que estou a traduzir e não é, portanto, a norma brasileira que procuro). Resultados: “prestadores de serviços”, 3.640.000 ocorrências; “fornecedores de serviços”, 765.000; “provedores de serviços”, 126.000; “empresas de prestação de serviços”, 15.400. No fundo, ainda é esta última expressão a que prefiro, mas tem a desvantagem, é verdade, de ser mais pesada e menos abrangente, porque pode-se pensar em prestadores de serviços que não sejam empresas… Fica prestadores de serviços. A expressão ocorre 75 vezes num texto pequeno de pouco mais de 3000 palavras. E dou-me conta do seguinte: ao escrever prestadores de serviços pela vigésima vez, já a expressão me parece perfeitamente normal. Chegado ao fim da tradução, não encontro nada na expressão que me desagrade. Não tenho a mínima dúvida, aliás: é assim que se diz service providers em português. Mas será mesmo? Se não for, eu deixei de ser capaz de o notar...

1 comentário:

Sandra Monteiro disse...

Eu nesta expressão já nem reconheço esse processo, mas em tantas outras, de que maneira! É tal e qual, parece uma forma de domesticação.