15 de dezembro de 2010

Crónicas de Chocas-Mar e Ilha de Moçambique, 97, 98 e 99

Vamos depois de amanhã de férias para o Norte. Primeiro vamos passar uns dez dias em Chocas-Mar e na Ilha de Moçambique e depois subimos até Pemba e às Quirimbas. Fui hoje reler extractos de cartas aos amigos de 97, 98 e 99, e resolvi que ficavam bem aqui na Travessa, como documento da minha descoberta de Moçambique. Deixei ficar os preços da altura para verem que, parecendo que não, já foi há muito tempo…
[Junho de 1997]
«Passámos uma semana de férias na praia, num sítio chamado Chocas‑Mar, entre Nacala e a Ilha de Moçambique. Chocas foi um lugar de veraneio – se é que faz sentido falar de veraneio num sítio em que há calor todo o ano – no tempo colonial e as vivendas ainda lá estão, umas nacionalizadas, outras reprivatizadas, umas vazias, outras ocupadas, umas a cair e outras em reabilitação. Há‑de ser, toda a gente assim o espera, um centro turístico importante. Praias de areia fina e corais, orladas de coqueiros como o paraíso dos cartazes turísticos que todos conhecemos, peixe e marisco fresco a preços de pechincha. Há‑de ser. Até lá, meia dúzia de pessoas que vêm passar o fim-de-semana, se têm a coragem de enfrentar 21 km de um caminho tipo percurso de trial: alguns cooperantes, às vezes com uma namorada moçambicana de ocasião, que ficam num parque de bungalows que há (350 contos por noite – ± 5800$00) e alguns outros estrangeiros ou moçambicanos com mais posses, que são os donos de umas quantas vivendas habitáveis. E uma calma benfazeja, um silêncio revigorante, cortado só ao princípio da madrugada pelo apelo muçulmano à oração. Vida de luxo.
Uma história gira: um dia, decidimos ir um bocadinho mais longe até às últimas praias do lado sul, quase em frente já da Ilha de Moçambique, por caminhos de areia entre salinas e coqueiros, e ficámos na praia o dia todo. À tarde, quando queríamos voltar, a terra tinha desaparecido, o mar tinha enchido o interior da terra. Estranha sensação – era um destes terrenos alagadiços de mangue e, na maré baixa, nós não tínhamos dado por nada. Mas lá nos safámos, por entre dunas e água – estes four-by-four são uma grande invenção...
No penúltimo dia antes do regresso a Nampula, decidimos passar pela Ilha de Moçambique, apesar da impressão negativa que a Karen tinha de umas horas que tinha lá passado e de toda a gente me ter dito que aquilo estava deprimente de degradação. Mais uma vez, fiquei agradavelmente surpreendido: é verdade que a Ilha está toda em ruínas ou quase, que é triste ver aquela vilazinha branca e brilhante que foi durante séculos e séculos, antes dos portugueses e depois deles, um ponto privilegiado de mistura de todo o tipo de pessoas, africanos, árabes, indianos, europeus, comerciantes, soldados, piratas, sei lá, ver aquela vila ir‑se degradando sem que ninguém queira fazer nada por ela, saber que o dinheiro que já houve para recuperar alguns edifícios históricos desapareceu misteriosamente no bolso de alguém, tudo isso. Mas a Ilha está cheia de vida e de uma vida que apetece descobrir. Um dia, com mais tempo...
Quando se entra, parece que se saiu de África. A parte física da Ilha é tão portuguesa que faz confusão – se não fosse o estado de conservação das casas, éramos capazes de julgar que estávamos numa qualquer pequena vila portuguesa: igrejas e edifícios administrativos, passagens com arcadas, pequenos cafés, praças com estátuas e fontes. O resto é mais asiático: um mar de gente muito pobre, os bandos de crianças que não nos largam, a pedir dinheiro, as dezenas de vendedores insistentes de artesanato “histórico”, como eles dizem. As pessoas têm feições de todo o tipo, desde macuas até árabes, algumas com traços orientais. Mesmo o macua que se fala é muito diferente do macua do continente, explica‑me alguém: tem mais palavras de origem portuguesa.
No museu local, de que um cooperante dinamarquês é agora responsável, a história da ocupação portuguesa da Ilha. No meio de mobília indiana e chinesa e de meia dúzia de quadros de amador, um retrato de D. Luís do Malhoa. Moçambique é cheio de surpresas.»

[Abril de 1998]
«Roubaram‑me a carteira. Grande chatice! Foi assim: Dia 7 de Abril foi feriado (Dia da Mulher Moçambicana) e calhou a uma terça‑feira. A Karen meteu a segunda-feira de férias e fomos para a praia. Chocas‑mar, a nossa praia favorita, de que aliás já vos falei na primeira carta. Desta vez não ficámos no complexo onde costumamos ficar, fomos acampar para a praia. Há um rapaz chamado M. que fez uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costuma lá ficar, com ou sem tenda. O M. trabalha como guarda e como cozinheiro e depois as pessoas dão‑lhe qualquer coisa. É bom para todos: para os turistas, é muito mais agradável que a vida no “complexo” e, ao M., dá‑lhe um salário, digamos, de luxo. Compra‑se peixe ou marisco aos pescadores que passam por ali, é uma maravilha. E nunca há problemas, é uma zona muito sossegada, sem gatunos, sem confusões. E então tinha que ser eu, não é verdade?, o primeiro desgraçado a ser ali roubado. Tinha posto os calções com a carteira em cima duma árvore, junto com mais roupa, e alguém conseguiu esgueirar‑se até lá sem ser visto e surripiar‑me a carteira. Só a carteira, note‑se, o que significa que quem me roubou devia ter estado a observar‑nos há um bocado e devia, mais concretamente, ter‑me visto tirar a carteira do bolso e tirar dinheiro da carteira para pagar um peixe a um pescador e umas lulas a outro, porque, senão, como é que sabia que estava ali e carteira e que ela tinha dinheiro?
Seja como for, a pessoa foi vítima dos seus preconceitos: partiu do princípio que o homem é que tem o dinheiro e nem lhe passou pela cabeça deitar a mão à mala da Karen, que estava lá ao pé e que, como ela ia fazer compras para o projecto em Nampula, tinha lá dentro o correspondente a mais de duzentos contos portugueses...
Agora, arranjar segundas vias de documentos custa aqui um dinheirão, para além, é claro, da chatice que dá, que é o pior. O M., quando eu lhe contei a história ficou furioso, porque ficou com medo que, propagando‑se a notícia, nunca mais ninguém quisesse ficar lá no lugar dele. Disse que havia de falar com o curandeiro e que havia de apanhar o ladrão e castigá-lo. E repetiu várias vezes: “Ele está lixar mô vida...”. As pessoas falam muito pouco português naquela zona.»

[Janeiro de 1999]
«De volta ao sítio do M. Eu dizia‑vos, noutra carta, que o M. tinha feito uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costumava lá ficar, mas esta informação precisa de algum desenvolvimento e de pequenas rectificações. De facto, foi assim: alguma malta que morava em Nampula e que trabalhava para uma organização irlandesa chamada Concern começou a ir passar regularmente uns fins-de-semana a esta praia da Carrusca. Conheceram então o M., um rapaz duma aldeia ali perto chamada Cabaceira Pequena, e começaram a financiar‑lhe um pequeno projecto, digamos assim, que, ao fim de alguns anos, ainda se mantém: o sítio do M. Além da latrina melhorada e da palhota para fazer sombra à tenda, há ainda um poço de água doce para uma pessoa tomar banho ao fim do dia.
O M. é da Cabaceira mas não é pescador, ao contrário dos outros homens da aldeia. Ele tem medo do mar, não quer ir à pesca. Foi pastor, mas o patrão uma vez esteve vários meses sem lhe pagar o salário e ele decidiu que aquele patrão não lhe interessava. Agora, vive do sítio.
A coisa que mais o fascina é nós conseguirmos beber dezenas de cervejas e continuar normais.
“As pessoas aqui, quando bebem uma ou duas, ou começam logo a lutar ou caem ali no chão, não aguentam…”.
Ele não bebe, porque é muçulmano. Mas é muçulmano por acaso.
“Eu sou muçulmano porque as pessoas aqui são muçulmanas. Se eu fosse para a Europa, lá são todos cristãos, então eu seria também cristão. Porque o que interessa é Deus e Deus é o mesmo em todo o lado.”
O que ele é  realmente é uma pessoa religiosa, um místico. Passa a vida a falar da alma das pessoas, das coisas e dos animais. E o que lhe importa é não fazer mal a ninguém, porque ele acredita que o mal que nos acontece é sempre um castigo pelo mal que fazemos.
“O que eu quero, diz o M., é aprender sempre coisas novas, como por exemplo aquela amêijoa [ele está a falar de umas amêijoas à Bulhão Pato que eu tinha feito], porque a gente não sabe quando é que podemos precisar dessas coisas que aprendemos. Pode vir uma pessoa que quer aquelas amêijoas assim, então eu já sei preparar…”
É uma pessoa muito agradável, como diz a Karen quando fala português. Parece que toda a gente que por ali passou gosta dele. Até chegam a telefonar para a central telefónica das Chocas, para deixar recado para ele estar lá às tantas horas para voltarem a telefonar, só para saberem dele. E ele também se lembra muito bem de todos eles: “A Dona S. da Concern tinha uma faca igualzinha a essa!”, disse‑me ele quando viu a minha Opinel. Igualzinha, não: é uma faca que eu troquei à S. por um blusão de ganga, em Lisboa…
Um dia, conhecemos o Sr. C., que bem podia ser uma personagem do Corto Maltese. Fomos à Cabaceira à noitinha à procura de peixe seco para a Zia, a nossa cadela. Por acaso, nesta zona eles têm um peixe seco muito bom, muito pequenininho, muito prateado, muito estaladiço, que até se come bem assim cru e tudo, a acompanhar uma cervejola, tipo tremoços. Parámos o carro onde o M. nos indicou, em frente a um muro alto de cimento caiado. Devia ser a melhor casa da aldeia, com cobertura de telha e portão de ferro. Não sabíamos que havia gente “rica” a morar na cabaceira. Está claro, tinha de ser um branco… Um velhote dos seus setenta anos, com uma tshirt toda rota e uma capulana enrolada à cintura, que é aqui a roupa de casa dos homens.
O homem ficou muito contente de nos ver e não nos deixou ir embora sem nos fazer um resumo da sua vida, num português impecável mas com um forte sotaque italiano. Muito resumidamente, é assim:
“Ainda jovem, quando acabei o seminário, fui para a Amazónia, viver entre os índios. Foi a experiência mais enriquecedora da minha vida. Que gente maravilhosa! Fiquei lá dez anos. Depois, a minha congregação chamou‑me de novo a Itália, onde fiquei mais uns anos. Mas eu já não queria viver na Itália. Lá consegui que me mandassem para África. Vim parar aqui a Moçambique, ainda durante o tempo colonial. Fiz muita coisa por esta gente, construí poços, escolas, postos de saúde. Isto aqui nada funciona, nada. Esta gente não sabe organizar‑se, não sabe tomar conta das coisas. A gente bem os pode ajudar, mas se não forem eles a continuar o nosso trabalho, não vale a pena. E eles não estão interessados em continuar o nosso trabalho…”
Mas então, porque é que fica num país onde nada funciona, onde ninguém sabe fazer nada?
“Bem, eles têm coisas boas. Outras coisas. São pessoas muito boas e, sobretudo, têm tempo uns para os outros, que é uma coisa que nós não temos na Europa.”
Ao lado do Sr. C., está uma mulher dos seus trinta e tal anos, com um bebé ao colo.
“Esta é a minha senhora e esta é a minha filha mais nova. Estes são os meus filhos mais velhos.”
Aponta para dois adolescentes, o mais velho dos quais não deve ser filho biológico dele, porque não parece ter nada de mestiço.
“Sabem, um dia, cheguei à conclusão que não tinha vocação para ser padre. Cheguei à conclusão que a minha forma de espalhar a fé cristã havia de ser outra, através de uma família, de uma descendência… Voltei a Itália e renunciei aos meus votos. Fiquei lá uns anos a arranjar uns dinheiritos, para fazer esta casinha que aqui vêem e para comprar uns terrenozitos que me permitissem subsistir. E depois voltei, para constituir família. Fazemos um bocadinho de milho, um bocadinho de feijão, uns legumes, cá vamos vivendo… Mas agora estou com medo, sabem? Veio aí no outro dia um homem, um português, que disse que era irmão do senhor a quem eu comprei estas terras e que o irmão dele tinha vendido tudo sem autorização da família e que agora a família quer outra vez as terras.”
Evidentemente, não se pode saber se a história do português é verdade ou não. Mas é uma história que, com nuances de pormenor, se ouve de vez em quando: que tenha sido o irmão que vendeu sem autorização da família ou que tenham acabado de herdar de um avô colonial, aparecem portugueses a querer recuperar terras abandonadas há muito tempo. Sosseguei o Sr. C., explicando‑lhe os direitos dele, de acordo com a Lei da Terra. Comprámos o peixe para a Zia e fomos embora.
(…)
Em frente à baía onde ficam a Carrusca e a Cabaceira, é a Ilha de Moçambique. Não se assustem, não me vou lançar em mais um elogio nem em mais uma descrição da Ilha, ela aparece agora aqui como pretexto e contexto de uma anedota do Samora Machel. Aqui também as há, pois é claro, só que, como o Samora é uma figura consensualmente querida e respeitada em Moçambique, são ao contrário das suas congéneres portuguesas. Esta, dizem que verdadeira, é sobre os riquexós. Pouco tempo depois da independência, o presidente Samora (é assim que ele é normalmente referido pelos seus admiradores) disse que não queria ver mais moçambicanos a puxar riquexós, que acho que só existiam na Ilha, e que eram aí uma verdadeira instituição. “Riquexó é trabalho de escravo!,” declarou o presidente.
Uma jornalista portuguesa perguntou‑lhe nessa altura se ele não estaria a exagerar um pouco, acabando assim com uma coisa que fazia parte da tradição da Ilha e que era, além disso, o ganha‑pão de umas quantas famílias.
“Minha senhora, eu não acabei com nada. Eu apenas disse que puxar riquexó é trabalho de escravo, e que não quero ver moçambicanos a fazer isso. Nunca disse que não queria ver mais riquexós. Os portugueses, por exemplo, podem puxar riquexó à vontade…”
(…)
Não íamos passar o fim do ano na praia, pois não? Fomos ao bailarico. Era um grupo de baile de Nampula com muitos músicos, que se iam revezando e que tocavam todos bastante mal. Mas foi muito engraçado! Há uma altura que a banda ataca o Chico Fininho. Só que o vocalista não tinha, obviamente, percebido nada da letra (que não deve ser nada fácil para um moçambicano, convenhamos) e então inventava umas palavras mais ou menos aproximadas, tipo João Mendes em vez de joanetes e coisas assim. E as surpresas não ficaram por aí. A meio da soirée, no meio dos habituais clássicos angolanos e cabo‑verdianos e de umas quantas marrabentas, a banda ataca de repente o “Ai, cachopa, se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita!” do Conjunto de António Mafra. Eu deliro! A Karen, evidentemente, não percebe porquê. Mas vocês percebem, ou não? Eh pá, estamos nas Chocas‑Mar, distrito de Mossuril, África Austral, Oceano Índico!»

3 comentários:

beijo de mulata disse...

Delicioso! Absolutamente delicioso! Obrigada por partilhar estes instantes de vida connosco.

(um) beijo de mulata

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Obrigado eu. Pelos elogios e também pela partilha de instantes de vida - mais e mais bonitos do que estes. É o que eu acho, sinceramente.

Carlos Ribeiro disse...

Linda foto! Acredito que esta praia paradisíaca supere qualquer contra-tempo.
Parabéns pelo teu blogue!
Abraços