6 de dezembro de 2010

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 2: Um comportamento pouco racional


O meu celular não funcionava. Nada a fazer – nem mandar nem receber mensagens, nada. Talvez fosse o roaming que não funcionasse fora de Moçambique, talvez estivesse num naqueles dias em que a rede desaparece… O telefone do quarto de hotel também não queria funcionar. Tive de pedir para me fazerem a ligação da recepção, mas, por qualquer razão, também dos telefones da recepção não a conseguiram fazer. Desisti.
Quando terminei o que tinha de fazer, depois de almoço, fui ao centro comercial perto do hotel para comprar um cartão SIM sul-africano. Mas não havia: a loja de telefones estava fechada e nenhuma outra loja vendia cartões SIM.
Quando voltei ao hotel, a recepcionista que tinha tentado fazer-me a ligação de manhã perguntou-me se eu já tinha telefone. Contei-lhe da loja fechada e da impossibilidade de comprar um cartão SIM sul-africano ali nas redondezas.
“Também não quero meter-me agora num táxi para ir à procura de um cartão SIM, não vale a pena.”
“Eu arranjo-lhe um cartão SIM”, disse ela. “Aliás, já pedi um a um amigo. Quando chegar, eu entrego-lho.”
Agradeci, naturalmente, uma tão grande amabilidade e perguntei o preço.
“Não tem de pagar. Sou eu que ofereço.”
“O hotel oferece?”
“Não o hotel, eu pessoalmente. Eu ofereço-lhe o cartão SIM.”
“Não”, recusei eu, “não me vai agora oferecer o cartão SIM, tenho de lhe pagar!”
“Não tem de pagar. Eu quero oferecer-lhe o cartão. Não posso oferecer-lhe o cartão SIM?”
Quando, à noite, contei a história a um amigo meu, o comentário dele foi que a recepcionista estava a ter uma atitude pouco racional. Mas era, sem dúvida, uma atitude simpática.
“É claro que, se insiste mesmo, me pode oferecer o cartão SIM. E eu fico-lhe imensamente agradecido, é muito simpático da sua parte!”
Fiquei no hotel 6 dias. Todos os dias via a recepcionista e nos cumprimentávamos, mas ela nunca me deu nenhum cartão SIM, nem nunca voltou a falar-me do assunto.

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