6 de dezembro de 2010

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 4: Em que tempo está o verbo?

É uma história que um amigo meu gostava de contar: tinha um professor de português no liceu que uma vez disse isto ao entrar na sala:   
«Bom dia! Em que tempo está o verbo?»
A resposta que ele queria ouvir era que o verbo (que ele provavelmente consideraria “subentendido”, de acordo com a terminologia em voga na época) estava no presente do conjuntivo, porque, explicava ele, a frase completa seria “Que tenham um boa dia!”.
É claro, isto é muito discutível. Qualquer aluno poderia ter argumentado, se tivesse tido presença de espírito para tal e coragem para contradizer o professor, que o verbo “subentendido” estava no presente do indicativo: “Desejo(-vos) um bom dia!”
Agora, há outra maneira, mais complicada, mas talvez não menos lógica, de entender o “subentendido” da frase “Bom dia!”. Em vez de ser “Que tenham um bom dia!” ou “Desejo(vos) um bom dia!”, pode argumentar-se que a frase completa é, na realidade, “Quero que/Desejo(-vos) que tenham um bom dia!”, especificando quem deseja o quê a quem.   
Se assim for, a pergunta deixa de ser “Em que tempo está o verbo?” para passar a ser “Em que tempo estão os verbos?”. Resposta que agradaria ao professor do meu amigo: «Um no presente do indicativo, outro no presente do conjuntivo.» O que, segundo alguns, significa antes que o primeiro está no presente e o outro não tem tempo, porque também se pode considerar que o modo conjuntivo não tem propriamente tempo.
Não é bem esta a minha maneira de ver as coisas. Prefiro considerar que tempo e modo são categorias ambas forçosamente presentes em todas as frases de todos os enunciados. Aliás, vou ainda mais longe e considero que tempo e modo são de facto categorias presentes em todas as proposições de todos os enunciados e não apenas nas frases no seu todo. É que, se assim não for, não se pode explicar a diferença de sentido (de que creio que ninguém duvida) entre “Espero que não esteja a chover”, “Espero que não chova”, “Espero que não tenha chovido”, etc. Para mim, faz sentido perguntar em que tempo estão os verbos na frase “[Espero que/Desejo(-vos) que tenham um] Bom dia!” e a resposta é a seguinte: O primeiro está no presente e o segundo está no futuro – a não ser que a frase seja entendida como significando “Espero que/Desejo(-vos) que estejam a ter um bom dia”, caso em que estariam no presente os dois verbos…
A questão, estão a ver, é que não havia nada para fazer em Joanesburgo, uma cidade enorme onde eu não conhecia ninguém, e escrever um texto sobre a frase “Bom dia!” é um passatempo tão bom como outro qualquer.
No dia anterior a começar este texto, fui jantar com um amigo neerlandês, que estava, por coincidência, também de passagem por Joanesburgo, e uns colegas dele. Como os colegas dele eram franceses, surgiu, ao abordarmos a refeição, uma conversa sobre bom proveito e bon appétit.
«Como é que se diz em português “Bon appétit !”?», perguntaram eles.
«O que se diz antes de começar a refeição é “Bom proveito!”», disse eu. «Mas agora, quando vou a Portugal, ouço cada vez mais “Bom apetite!”. É isso que dizem as pessoas mais novas. Acho que “Bom proveito!” há-de acabar por desaparecer e há-de passar a dizer-se “Bom apetite!”»
Reflecti uns segundos e continuei:
«E eu acho mal, sinceramente – devia antes dizer-se “Bom proveito!”».
Os meus convivas são bem capazes de ter pensado o que alguns de vocês estão agora a pensar: Aqui temos mais um purista, que insiste que a língua deve ser sem negócios de import-export, daqueles que acha que as novas gerações enfeiam sempre o que era antes tão bonito… Nada disso, minhas caras e meus caros, não é de purismo conservador que se trata, mas sim de sentido lógico: o que eu expliquei depois foi que não é só em português que não se deveria dizer “Bom apetite!”; em francês também não se deveria dizer “Bon appétit !”.
Dizer “Bom apetite!” é, no fundo, dizer “Espero que esteja com um bom apetite”, com dois presentes. Bom, também pode significar “Espero que venha a ter um bom apetite”, com um presente e um futuro*, mas creio que não é assim que se entende normalmente a frase. Ora para quê desejar a alguém que esteja com apetite? Ou está ou não está e, se não se estiver, que não se obrigue a pessoa a comer contra vontade. A não ser que seja mesmo por doença que o apetite tenha desaparecido… “Bom apetite!” soa-me mais como coisa que se deseje a quem padeça de facto da algum mal que lhe tire o apetite…
Para a maior parte da comida que se come (e sobretudo se for num restaurante na África do Sul…) e para a maior parte das situações em que se come, “Bom proveito!” é que é o voto que faz sentido, o “Bom dia!” à refeição. “Espero que a comida lhe faça bem, que tire dela bom proveito; que lhe dê a energia de que precisa e que essa gordura toda que você para aí está a comer não lhe entupa os vasos sanguíneos, minha amiga ou meu amigo!” O segundo verbo está no futuro e é um futuro que se deseja saudável. Um futuro a que o tal professor do tal amigo meu havia de querer chamar presente do conjuntivo.      
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* Sobretudo se pensarmos que “o apetite vem quando se come” (“l’appétit vient en mangeant”), que é como os franceses dizem que “o comer e o coçar, a questão é começar”…

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