6 de dezembro de 2010

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 3: Toda a gente sabe dizer, mas ninguém sabe escrever

Em francês, há um exemplo famoso de uma frase que se pode dizer mas não se pode escrever: « Un sot avait pour mission de faire parvenir le sceau d'un seigneur à son roi. Il le mit dans un seau et partit à cheval. Le cheval fit un saut et les trois [so] tombèrent ! »
Para quem não saiba francês, aqui fica a tradução e a explicação: “Um pateta tinha como missão levar ao rei o selo do seu senhor. Pô-lo num balde e partiu a cavalo. O cavalo deu um salto e os três [so] caíram.” Como as palavras sot, “idiota, pateta, parvo”, sceau, “selo, carimbo, chancela” e seau, “balde” se pronunciam da mesma maneira ([so], como a palavra sou em português europeu standard), podem aglutinar-se na pronúncia as três, mas não há maneira de as aglutinar na escrita.
Passatempo de quem não tem mesmo nada para fazer a não ser passar o tempo: Como traduzir isto para português, sem o peso da explicação? O resultado é meio ingénuo e meio disparatado, mas enfim, mais longe que isto não consegui ir:
“S. começou a cozer ovos para o pequeno-almoço e Z. foi coser a alça da jardineira da miúda, que se tinha descosido no dia anterior. Demoraram os dois exactamente o mesmo tempo a [kuzer] o que tinham de [kuzer].”  

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