15 de dezembro de 2010

Ser ou não ser, eis a questão

Há quem diga que a língua tem uma lógica que lhe é própria e que é diferente da lógica propriamente dita, mas eu duvido muito dessa asserção. Penso que é possível encontrar na língua uma lógica que se enquadra perfeitamente na lógica da lógica, se se pode dizer assim. É claro, depende muito de como olhamos para a língua, de que princípios lógicos partimos ao analisá-la. Agora, como se diz na Wikipédia, este texto é sobre o verbo ser e é um texto mais para quem se interesse por coisas de língua; se procura algo sobre a frase de Shakespeare, talvez seja melhor dirigir-se, por exemplo, à Wikipédia, precisamente. Mas isto não é correr com ninguém, note-se, longe de mim tal ideia! Não, não, fique mais um bocadinho e leia o texto, já agora, talvez até ache graça ao pequeno delírio que se segue…
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O verbo ser está longe de ser obrigatório em todas as línguas [1] ou pode, nalgumas delas, desdobrar-se em vários verbos. Muitas vezes, também as construções com o verbo ser correspondem directamente a construções com outros verbos (por exemplo “ensino no Barreiro” ou “dou aulas no Barreiro” corresponde a “sou professor no Barreiro”).
De facto, o verbo ser pode até ser dispensável em certos tipos de frases. Por exemplo, se quero dizer “eu sou português”, posso dispensar o sou e dizer “eu português” sem deitar fora nenhum bocado de significado. Deito fora é a gramaticalidade da frase em português, que é uma coisa diferente. Há línguas, porém (como, por exemplo, o russo), em que a omissão da cópula é gramatical e é a maneira normal de construir a frase. Já o mesmo não acontece na frase “ele tinha sido soldado, quando o conheci”, porque, sem o tempo que vem agarrado ao verbo ser, não distingo esta frase de “ele era soldado, quando o conheci”, que tem um significado diferente. Na maior parte das vezes, é para isso que servem os chamados verbos copulativos: para incluir, na conjugação, marcas de tempo e outras. Mas não têm um significado específico eles próprios.
Podemos ser tentados a dizer que o verbo ser é como um sinal de igual apenas, mas é, de facto, uma maneira pouco rigorosa de o descrever, como tento demonstrar a seguir. Aliás, mais do que pouco rigorosa, é uma maneira de descrever o verbo ser que pode atrapalhar bastante a tentativa de analisar logicamente certas frases simples em que ele aparece.  
Para começar, é fácil constatar que a frase “o leão é um mamífero” não significa, como toda a gente sabe, que “um mamífero é o leão”. Da mesma forma, perante um grupo de seis professores, se, respondendo a quem me pergunta o que fazem dois deles, o Rui e a Ana, eu disser que “eles são professores”, isto não significa obviamente que “professores são eles”, que é uma frase que reservarei para quando quiser insinuar que os outros quatro não sabem ensinar.
Ser é então mais como uma seta do que como um sinal de igual – o que se diz de alguma coisa ou de alguém tem uma direcção. Há um sujeito de quem se diz alguma coisa e um nome predicativo que diz alguma sobre o sujeito (nunca percebi por que se chama sempre nome mesmo quando é um adjectivo ou um sintagma preposicional …). O sujeito e o seu nome predicativo não são, como vimos, intersubstituíveis e têm casos diferentes: o sujeito é nominativo, como o sujeito sempre é, e o nome predicativo do sujeito é acusativo, como os complementos directos. Por isso é que houve até já quem propusesse considerar o verbo ser um verbo transitivo. Mas parece que não funciona, por que este nome predicativo tem características diferentes dos complementos directos: quando se transforma em pronome, fica sempre no masculino. Dizemos “a Ana é professora da minha irmã e é-o já há muito tempo” e não “a Ana é professora da minha irmã e é-a já há muito tempo”. Além disso, é com este sintagma acusativo que se faz a concordância do verbo, que, noutros tipos de frases, é forçosamente com o sujeito. Como toda a gente sabe, “a vida são dois dias e o Carnaval são três” e não “a vida é dois dias e o Carnaval é três” (por muito que os correctores ortográficos nos queiram para aí puxar). Como se explicarão estas anomalias?
Há apenas um tipo de frases, ditas equativas, que têm a propriedade especial de se poder nelas trocar livremente o que fica dos dois lados do verbo ser sem alterar em nada o sentido: “a Ana é a professora de português da minha irmã” é o mesmo que “a professora de português da minha irmã é a Ana”. Mas então, nestas frases, o verbo ser é mesmo um sinal de igual, ou não? Creio que não. A verdade é que se torna extremamente difícil descrever frases deste tipo se partirmos do princípio que se trata de uma relação de igualdade entre duas expressões referenciais, considerando que “a professora de português da minha irmã” refere uma pessoa que é a mesma que o que é referida por “a Ana”[2].
De facto, é muito mais produtivo, na minha opinião, considerar que esta frase é o resultado de uma sequência de predicações anteriores, que, quando não enunciadas, são pelo menos forçosamente assumidas pelos intervenientes na conversa[3], a saber: “eu tenho uma irmã”, “essa minha irmã tem uma professora de português”, “essa professora de português chama-se Ana” e “nós conhecemos essa professora de português”. Na realidade, uma expressão definida nunca é uma expressão referencial simples, já que o artigo definido é uma anáfora, isto é, retoma forçosamente uma expressão introduzida previamente no discurso como expressão indefinida. Se isso não acontece no próprio enunciado oral ou escrito, é porque é implicitamente assumido por quem o diz/escreve e por quem o ouve/lê. Se eu, ao ouvir a frase “olha, encontrei ontem a Ana”, perguntar “a Ana?, qual Ana?” é porque não eu não tinha esse conhecimento prévio presumido pelo meu interlocutor (ou não conheço nenhuma ou conheço várias Anas que o meu interlocutor também conhece) e a Ana tem de ser apresentada ou individuada antes de o enunciado começar a significar o que deve.
Também são interessantes as frases, aparentemente equativas, em que um nome indefinido se identifica com ele próprio, como “um homem é um homem!”. À primeira vista, parece uma frase desprovida de informação (uma tautologia básica, x=x), mas a nossa intuição de falantes diz-nos que ela diz alguma coisa, por muito que não saibamos explicar com exactidão o que sentimos que ela diz. Uma maneira de explicar a frase, desfazendo a aparente taulogia sem isolar uma pretensa “lógica linguística” do resto da lógica, é postular que as duas ocorrências de homem na frase “um homem é um homem” são distintas. Parecem a mesma coisa, mas são de facto duas coisas que podem ser ditas com as mesmas palavras. Dito de uma maneira simplificada, o primeiro um homem, à esquerda do verbo, pode referir uma entidade específica do mundo real (se digo a frase referindo um amigo que começa a chorar, por exemplo) ou indicar cada uma das ocorrências possíveis da noção (todos os homens, cada homem); a segunda ocorrência de homem, à direita do verbo, refere a propriedade [ser] homem em abstracto, ou seja, o conjunto de traços abstractos definidores de homem. Perante essa relação, ou i) o verbo deixa de descrever a realidade apenas e ganha um sentido deôntico de deve ser e a frase significa, pois, “tu/os homens em geral devem ter as propriedades atribuíveis a um verdadeiro homem”; ou ii) a frase quer dizer “este homem está a ter ou teve propriedades atribuíveis a um verdadeiro homem”: que talvez sejam não chorar, ou não se rebaixar perante outros, ou talvez impor a sua vontade à mulher – o sentido da frase costuma ser bastante machista, mas o grau de machismo efectivo do seu uso depende da situação em que a frase é dita e do conceito de homem de quem a diz… Essa é que é essa!
Pois, essa é que é essa, eis a questão...
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[1] Vários linguistas e pensadores afirmaram, na senda de Benveniste (ver “Catégories de pensée et catégories de langue”, in Les Études philosophiques 4, Out.-Dez. 1958) e levando bem longe a hipótese de Benjamin Lee Whorf de que o pensamento é determinado pela língua, que a ontologia ocidental é fundada por uma coincidência linguística: o facto de o grego ter um verbo ser, que nem todas as línguas têm, e de ter, além disso, a possibilidade de substantivar o infinitivo, que também é um fenómeno que está muito longe de ser universal. Não perfilho a ideia whorfiana (e muito menos esta sua versão mais forte) de que a estrutura linguística ou mesmo o léxico determinem o pensamento e não me parece em absoluto que a relação de causalidade defendida por Benveniste se possa provar.
[2] Usando como exemplo a frase “Scott foi o autor de Waverley”. Bertrand Russell expõe, no seu famoso texto On denoting, os problemas que surgem se se considerar que ambos os segmentos de uma frase equativa são referenciais e referem a mesma entidade do mundo real, e propõe uma solução para esses problemas. O texto de Russell é de leitura difícil, e não deve ser só para mim, porque o próprio Russell prevê que o texto assim seja considerado: “Só peço ao leitor que não se decida contra esta perspectiva – uma vez que pode ser tentado a fazê-lo, devido ao seu aparente excesso de complicação”. A razão dessa dificuldade porém, é a dificuldade intrínseca da questão tratada: [A] tentativa [de] construir uma teoria sua sobre o tema da denotação (…) convencê-lo-á de que, seja qual for a teoria, não pode ter a simplicidade que dela se poderia esperar à partida.” Não há dúvida de que estamos perante uma questão intrinsecamente complexa, talvez mais ainda para um lógico do que para um linguista, que não tem atrás dele toda uma tradição de discussão dos valores de verdade das proposições; mas também é possível que se possa evitar alguma complicação abandonando a ideia de que as expressões definidas são referenciais (expressões denotativas, na terminologia russelliana), como se propõe no último parágrafo deste texto…
[3] Uma predicação anterior a um enunciado, que não é dita pelos intervenientes na situação de enunciação mas que é pressuposta por ambos, chama-se um pré-construído na teoria do linguista Antoine Culioli. São dele as propostas apresentadas nos dois últimos parágrafos do texto, tendo-me eu limitado a tentar simplificar as suas explicações para leitores não familiarizados com a sua teoria ou com teorias linguísticas em geral.

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