23 de fevereiro de 2010

Do passado ficam-nos coisas que estranhamos…

Do passado ficam-nos coisas que estranhamos – o que é que isto está aqui a fazer? Fechar um guarda-chuva aberto que encontrei à entrada da despensa, por exemplo, porque fui treinado (pelos vistos, bem treinado) para o fazer. É que um guarda-chuva aberto dentro de casa, não sei se sabem, dá azar... E estas coisas ficam, malvadas, coladas a nós sem que a gente dê por isso...

Agora, ou aceitamos que somos assim, ou então, se somos um bocadinho mais exigentes connosco próprios, temos de estar sempre atentos e negar-nos constantemente (era a expressão que usava um amigo meu que era sábio). É uma proposta mais que batida, esta de deixar de obedecer a superstições e a medos, e a tudo o que, dentro de nós, não tem razão de ser (nos vários sentidos da palavra razão) nem tem o carimbo da nossa moral, mas isso não é motivo para não se continuar a insistir nela.

E depois, rai’s nos partam!, o que custa levar isto à prática! Nem que seja só (só?) treinar-se para não fechar involuntariamente o guarda-chuva que se encontra aberto à entrada da despensa só por medo de que ele dê azar, e fechá-lo antes com a consciência de estar assim a eliminar um perigo do seu quotidiano, pois, porque guarda-chuvas abertos dentro de casa, e com miúdos, ainda por cima, uma vareta num olho, eu sei lá… Mas guarda-chuvas abertos dentro de casa ainda são o menos. O pior são os sentimentos que descobrimos dentro de nós sem os aprovarmos. As simpatias e as antipatias, as paixões e os ódios, todas essas amoralidades!... Do passado – às vezes, até de um passado tão distante que nem o conseguimos conceber, de muitos milhares de anos antes de nós sermos o ser que pensa nisto… – ficam-nos coisas que estranhamos e que temos de negar, negar, negar, se quisermos ser um bocadinho (só um bocadinho…) melhores. Independentemente, isso é que é curioso, do que queiramos dizer com isso de “ser melhores”.

Uma conversa sobre advérbios (2)

Num post anterior, defendia eu que algumas “palavras” normalmente consideradas advérbios talvez não o fossem de facto – mas sem com isso pretender recusar a existência da categoria no seu todo.

Continuo agora essa conversa, sugerindo que talvez seja mais sensato falar em verdadeiros e falsos advérbios. A questão é que, tanto considerando o advérbio uma “classe de palavras” como considerando-o uma categoria apenas sintáctico-semântica, não deixam de se levantar dúvidas (pelo menos) quanto à validade da inclusão de muitas palavras consideradas advérbios numa categoria definida como de “modificadores”, mesmo que alarguemos o sentido de “modificar” de modo a incluir a quantificação, a duração, etc.

É que há advérbios de todos os tipos: há os que não “modificam” nenhuma parte da frase, como ; há os que podem ter no seu escopo qualquer elemento da frase, embora a palavra “modificar” se lhes aplique mal, como TAMBÉM e os advérbios ditos de dúvida; há os que “modificam” apenas o predicado, como muitos advérbios ditos de modo; há os que remetem forçosamente para enunciados anteriores, como DEPOIS.

A primeira coisa que podemos fazer é eliminar à partida, por demasiado espúrios, os que não modificam coisa nenhuma, como o propunha a saudosa Professora Henriqueta Costa Campos*:
(...) Fará muito sentido falar de advérbio, por exemplo, a propósito de na frase Ele já se levantou, em que já não modifica de forma alguma a frase, marcando antes a construção de uma localização no plano enunciativo? (...) E a definição de advérbio é, sem dúvida, demasiado insuficiente para ser atribuída a mesmo na frase Não, aqui assim na vila, a maioria, mesmo casadas, trabalham, uma vez que, ainda que a palavra mesmo determine a maioria e não casadas, esta determinação é inseparável de um pré construído enunciativo que diz respeito ao estatuto social das mulheres casadas – em princípio, mulheres casadas não trabalham”.
Henriqueta Costa Campos mostra também, no resto do artigo, que TAMBÉM e ATÉ (no seu uso dito adverbial) não podem, com propriedade, ser considerados advérbios.

Veja-se também o caso de EMBORA, entre outros passíveis de discussão. Provavelmente, não há acordo sobre como classificar EMBORA em frases como “Vou-me embora às cinco” ou “Cheguei lá, vim-me logo embora”, mas é, o mais das vezes, considerado um advérbio (à semelhança, por exemplo, do AWAY inglês em “He went away”, ao passo que o EN francês de “Il s’en alla” é considerado normalmente um “pronome adverbial”, para complicar mais as coisas…). Repare-se que, também neste caso, nem sequer de uma função adverbial se pode falar, uma vez que EMBORA não modifica nada, apenas vem preencher o lugar deixado vazio pela omissão de um locativo (donde que se pudesse considerá-lo, como o EN francês, um “pronome adverbial”, se alguém se tivesse lembrado disso…; mas talvez seja melhor nunca ninguém se ter lembrado de tal coisa…). De facto, IR e VIR podem ocorrer não-reflexivamente com um locativo, respectivamente de destino ou de origem, ou (quase sempre) reflexivamente com EMBORA e sem esse locativo: diz-se “Bem, eu vou para casa” ou “Bem, eu vou-me embora”, mas, pelo menos em português europeu moderno, ninguém diz só “Eu vou-me” e muitos menos “Eu vou”.

Mudemos de assunto e entremos então na última parte desta conversa: outra coisa que é interessante constatar é a instabilidade na distribuição de adjectivos e advérbios. O julgamento da gramaticalidade de uma frase como “Ele fez aquilo muito rápido” varia, entre falantes do português europeu. No entanto, esta frase é normalmente considerada bem formada por falantes de outras variantes do português, e a sua correspondente directa é também considerada bem formada por um grande número de falantes de uma língua muito próxima, o castelhano. Tenho um dicionário Oxford bilingue espanhol-inglês (Superlex para Windows, 1996, talvez o dicionários bilingue mais bem concebido que já vi, para o utilizador comum) que considera, aliás, RÁPIDO também um advérbio, de uma forma talvez pouco ortodoxa, mas que, de acordo com a intenção expressa no editorial, dá efectivamente conta do “espanhol (...) falado e escrito nos anos 90 do séc. XX de ambos os lados do Atlântico”. Eis a entrada do dicionário (omito o que não tem correspondência directa em português):
rápido –da advhablar/trabajar › quickly, fast; ‹ conducir › fast; ¡vamos, rápido, que es tarde! quick o hurry, we’re late!; tráeme un trapo ¡rápido! bring me a cloth, quick!; ¿puedes ir un poco más rápido? can you go a bit faster?; vámonos rápido de aquí let’s get out of here quickly o (colloq) quick.
É claro, não posso deixar de estranhar a possibilidade de flexão de um advérbio (ou mesmo, se se preferir, a possibilidade de flexão do uso adverbial de um adjectivo)... Não vejo como se possa usar alguma vez em contextos do mesmo tipo do dos exemplos dados a palavra RÁPIDA. Trata-se de um erro. Mas basta tirar o feminino e a proposta está correctíssima! Não considerariam gramaticais as frases directamente correspondentes em português? A mim, nenhuma delas me choca.

Mas enfim, como eu dizia, os juízos de gramaticalidade dividem-se muito nestas situações… Não deixa de ser curioso, porém, que haja absoluta coincidência de todas as opiniões quanto à gramaticalidade do uso adverbial de certos adjectivos, como em “Ele está a cantar muito alto”. Repare se ainda que o uso da forma adverbial correspondente no mesmo contexto sintáctico é reconhecida como agramatical, ou, em certos dialectos, como significando uma coisa diferente: um sinónimo de “muito bem”: ninguém diz “*Ele está a cantar muito altamente” como o sentido de “Ele está a cantar muito alto”, se bem que se possa ouvir “Ele está a cantar altamente” com o sentido de “Ele agora está a cantar muito bem”, em certas variantes do português.

No Brasil, há um célebre anúncio de cerveja, que diz: “X, a cerveja que desce redondo”. É uma frase que choca algumas pessoas, sobretudo se forem falantes do português de Portugal. Mas é muito difícil responder à pergunta: “Então, se não está bem, como é que devia ser?”. “A cerveja que desce redonda”? Parece que não soa tão bem, não é? Além de que continua a ser um adjectivo a ter a função adverbial (“Como é que a cerveja desce?” “Redonda.”)... “A cerveja que desce redondamente”? Nem pensar, quem aceitasse uma frase assim estaria redondamente enganado relativamente à sua gramaticalidade! Então? “A cerveja que desce de uma forma redonda”? “A cerveja que desce de um modo redondo”? “A cerveja que desce de uma maneira redonda”? Continua a ser muito discutível que tenhamos assim uma frase mais aceitável para quem não gostava do uso adverbial de redondo. O que é indiscutível é que perdemos uma frase publicitária...

P.S.: Quando andava a tentar descobrir se a frase da cerveja que desce... como desce... ainda era usada, porque as notas a partir das quais fiz este texto eram já antigas, descobri, no site Sua Língua, um excelente exemplo de como se tratam questões de língua de uma maneira ao mesmo tempo acessível e rigorosa.
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* “Pour une définition de quelques faux adverbes à partir de la description d’opérations énonciatives sous jacentes”, in Actes du XVIIIe Congrès Internationale de Linguistique et de Philologie Romanes, Université de Trèves (Trier), 1986, Tome II, Tübingen: Max Niemmeyer, 1991, traduzo eu.

20 de fevereiro de 2010

Uma conversa sobre advérbios (1)

Tinha prometido num post anterior que havia de aqui falar de advérbios. E fiz mesmo dois pequenos textos sobre o assunto, este e outro que há-de aparecer aqui muito em breve.

O advérbio é definido de um modo geral como sendo uma palavra invariável que modifica um adjectivo, um verbo ou outro advérbio, e que expressa relações de lugar, tempo, modo, causa, grau, etc. Admite-se nalgumas definições considerar o advérbio não uma palavra mas antes um sintagma e que possa também ser um modificador de frase. Uma das perguntas que podemos fazer-nos sobre a categoria advérbio é se é uma categoria morfológica, sintáctica ou semântica. Normalmente, o advérbio é considerado uma “parte do discurso”, ou uma “classe de palavras”, ao mesmo nível que artigo, nome, adjectivo, verbo, preposição, conjunção, pronome, numeral e interjeição.

Esta tipologia clássica tem sido muito discutida, nomeadamente quanto à pertinência de categorias como pronome, advérbio e interjeição e um das afinações mais comuns que lhe é proposta consiste em juntar numa categoria única (determinante) os artigos, os numerais, uma parte do que são tradicionalmente considerados, às vezes, pronomes e, outras vezes, adjectivos, e ainda uma parte dos advérbios clássicos (quantificadores). A hipótese de que não haja, de facto, advérbios, enquanto categoria morfológica, e de que a categoria advérbio seja apenas sintáctico-semântica, por muito que possa chocar algumas pessoas e seja, claro está, muito polémica, não se pode considerar desarrazoada, tendo em conta não só propostas menos tradicionais de tipologia morfológica, mas também outras evidências triviais, como o facto de haver línguas em que a distinção entre advérbio e adjectivo não é marcada morfologicamente (não é preciso ir muito longe, o neerlandês é uma delas), ou o facto de serem muitas vezes usados sintagmas preposicionais e até mesmo adjectivos com uma função tipicamente adverbial.

Não é essa hipótese, porém, que quero discutir neste pequeno texto. Não pretendo, de modo algum, recusar a existência do advérbio enquanto classe de palavras, mas discutir a pertinência de classificar como advérbios determinadas expressões. Parece-me que estamos, muitas vezes, perante locuções prepositivas (com funções adverbiais, seja, mas locuções prepositivas) que só a tradição ortográfica, ao unificá-las como “palavras”, nos leva a encarar como unidades morfológicas.

Há casos óbvios e casos menos óbvios. Entre os casos óbvios, temos o caso de DEMAIS, que não é de facto senão DE MAIS. Por vezes, diz-se que DEMAIS “advérbio” se escreve junto por oposição a DE + MAIS + nome, sintagma preposicional, e dá-se como truque prático para reconhecer facilmente a diferença entre os dois casos a possibilidade de opor DE MAIS a DE MENOS no mesmo contexto (“Eu gosto de mais sal na comida”, “Eu gosto de menos sal na comida”). Ora, não só o truque prático funciona mal para o caso de DE + MAIS + nome, por exemplo quando MAIS signfica “outros” (“Eu sei de mais sítios onde há este tipo de planta”, *Eu sei de menos sítios onde há este tipo de planta.”), como a oposição a DE MENOS constitui, precisamente, um argumento forte a favor da não existência de nenhum DEMAIS que seja uma unidade morfológica indivisível: é que DEMAIS pode sempre opor-se a DE MENOS, que nunca ninguém achou que se devesse escrever *demenos…: “Ele come demais e é por isso que é tão gordo”, “Ele come de menos e é por isso que é tão magro”.

Evidentemente, é possível argumentar que não há possibilidade de inserir entre o DE e o MAIS de DEMAIS nenhum outro elemento: Diz-se “Eu gosto de muito mais sal na comida” e “Eu sei de muitos mais sítios onde há este tipo de planta”, mas não se pode dizer “*Ele come de muito mais e é por isso que é tão gordo”. Mas é de notar que se passa o mesmo com DE MENOS nas mesmas circunstâncias: “Eu gosto de muito menos sal na comida” funciona, mas “*Ele come de muito menos e é por isso que é tão magro” já não.

De facto, o “advérbio” DEMAIS e a “locução” DE MENOS devem ser encarados como fazendo parte de um paradigma de sintagmas preposicionais de que também fazem parte (pelo menos) A MAIS e A MENOS, que não aceitam quantificadores entre a preposição e o “advérbio”, mas que podem, nalguns casos raros, aceitar certos tipo de qualificação/quantificação exteriores ao sintagma. Diz-se “Isto está aqui a mais”, mas nunca “*Isto está aqui a muito mais.” Aceita-se, porém “Isto está aqui claramente a mais, acredita, é um exagero!” e muitas pessoas aceitarão também “Isto está aqui bem a mais, acredita, é um exagero!”

Evidentemente, resultaria daqui propor que DEMAIS se escreva sempre DE MAIS, para criar coerência com DE MENOS, A MAIS e A MENOS...

Não é muito diferente a questão relativamente a alguns outros “advérbios”. Vejamos mais um exemplo, o caso de DEPRESSA e DEVAGAR. Também aqui me parece que só a convenção ortográfica junta numa única “unidade lexical” uma preposição e um nome. É verdade que, mais uma vez, o teste de quantificação do advérbio nos mostra, no entanto, que a preposição não se pode separar do nome, mas isso é o mesmo que se passa com À PRESSA: Diz-se “Ele fez o trabalho depressa”, mas não se pode dizer “*Ele fez o trabalho de muita/grande pressa”. E diz-se também “Ele fez o trabalho à pressa”, mas também não se pode dizer “*Ele fez o trabalho a muita/grande pressa”. Já com outros sintagmas do mesmo paradigma (COM PRESSA, SEM PRESSA, COM VAGAR, SEM VAGAR) as coisas se passam doutra forma: tanto se diz “Ele fez o trabalho sem pressa” como “Ele fez o trabalho sem muita/grande pressa”.

Nas minha opinião, a indivisibilidade dos sintagmas DEPRESSA e DEVAGAR pode e deve ser explicada a partir das suas características semânticas, sem postular, de uma forma que me parece simplista, que DEPRESSA e DEVAGAR constituem uma unidade lexical – isso não explica, por exemplo, a indivisibilidade de À PRESSA. Ou então, se acharmos que é esse, precisamente, o critério para a classificação do sintagma como um advérbio, devia escrever-se também APRESSA… Digamos que cada uma das locuções tem características sintáctico-semânticas diferentes. Note-se, por exemplo, que SEM admite facilmente a pluralização de PRESSA, ao passo que o seu aparente oposto directo, COM, não a admite: “Ele fez o trabalho sem pressas, no seu ripanço...” está bem, mas “*Ele fez o trabalho com pressas, queria era despachar-se...” não está…

Vejamos agora a questão de uma grande parte dos advérbios, os que têm o traço morfológico comum da terminação em -mente. O que eu proponho aqui é que os advérbios em -mente também não constituem unidades morfológicas de base, mas que se trata antes de sintagmas preposicionais “[semi]cristalizados”: RAPIDAMENTE = (DE) RAPIDA MENTE.

Se digo “semicristalizado” é porque há o desaparecimento da preposição DE (que, numa fase anterior da língua, justificava a forma do sintagma), mas não a fusão do adjectivo e do nome, ao contrário do que pretende a morfologia tradicional. Encontro evidência trivial para justificar este postulado no facto de o pretenso “sufixo” se separar do adjectivo, o que não poderia acontecer se fosse um verdadeiro sufixo, isto é, um morfema preso: do ponto de vista morfológico, PURA E SIMPLESMENTE porta-se como PURA E SIMPLES VERDADE, e não como PURISTA E SIMPLISTA. Além disso, é dificilmente explicável, a partir da proposta clássica o facto de o pretenso sufixo se juntar à forma feminina do adjectivo, o que não acontece com nenhum outro sufixo. A explicação segundo a qual a fusão dos morfemas se deu numa fase anterior da língua parece não ser muito válida, porque continua a haver a possibilidade de criar novos “advérbios de modo em -mente”, mesmo com adjectivos surgidos na língua depois dessa pretensa fusão. Note-se que a classificação proposta (sintagma preposicional cristalizado) pode aplicar-se a outras expressões, como EMBORA.

E por hoje, é esta conversa sobre advérbios. Mas continua em breve.

3 notazinhas principalmente sobre a liberdade individual

1. Tínhamos, quando morávamos na Dinamarca, uma vizinha que, por causa de uma crença que ela lá tinha, não vacinava as filhas. «E então?» Muita gente achará que não há problema nenhum em permitir que quem não queira vacinar os filhos não o faça. No caso concreto que refiro, não havia, em princípio, grande problema, porque todas as outras crianças com quem as filhas da tal senhora contactavam estavam imunizadas. A questão é que, havendo apenas uma percentagem pequena de crianças não imunizadas contra uma determinada doença, essas crianças não a apanham porque ela não existe no meio. Estão a receber uma “vacina indirecta”, digamos assim, a apanhar uma boleia. Mas, e se houvesse muita gente que, como ela, em nome das suas convicções, e com base no seu diz que inalienável direito a decidir sobre a sua própria vida (que inclui, neste caso, outras vidas), não vacinasse os filhos? Bom, se as crianças não vacinadas ultrapassarem uma determinada percentagem, começa a haver um risco grande de que todas apanhem a doença. Trata-se aqui da velha discussão (complicada, mas das mais interessantes que há, na minha opinião) do equilíbrio, ou das fronteiras, se quiserem, entre a liberdade individual e a liberdade do grupo. Quando a liberdade individual de uns pode resultar numa privação da liberdade de outros, o colectivo tem ou não direito a impor as vacinas aos que não querem ser vacinados? E é preciso ser maioria para o fazer? Aceita-se que, por hipótese, 60% de pessoas que não querem vacinar os filhos imponham o risco de doença aos filhos dos 40% restantes?

2. “Aceitem, por favor, a minha demissão. Não quero pertencer a um clube que me aceite como sócio.” A frase de Groucho Marx é famosa, se calhar por ser tão ambígua, mas a discussão que mais interessa, e que está relacionada com a questão anterior, não é se devemos aceitar ser sócios dos clubes que nos querem como sócios, mas antes se devemos ou não ser sócios dos clubes que nos querem obrigar a ser sócios; ou, dito doutra maneira, se se pode obrigar alguém a fazer parte de um clube. Creio que, de acordo com o espírito dos tempos, é relativamente fácil, para a maior parte das pessoas, aceitar, como eu, em abstracto, o aceito, que não se deve obrigar ninguém a fazer parte de nenhum clube, mesmo que o clube seja uma associação de classe. Há, inclusive, decisões de tribunais, nacionais e internacionais contra a prática, relativamente normal em certos países de, seguindo acordos formais ou informais entre patronato e sindicatos, fazer depender a contratação dos trabalhadores da adesão ao sindicato único ou ao sindicato que tenha o monopólio da negociação com o empregador. Mas continua a haver gente que não concorda com o princípio; e a questão, que parece simples à primeira vista, é de facto mais complicada do que parece, sobretudo porque, por exemplo no caso dos sindicatos ou de outras organizações de defesa de interesses de colectivos, os benefícios que essas associações conseguem são sempre para as todas pessoas que fazem parte desses colectivos, queiram ou não fazer parte da associação, sejam efectivamente membros dela ou não…

3. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação? Bom, há uma excepção fundamental que a esmagadora maioria – se não a totalidade – das pessoas aceita sem protestar: ser cidadão de uma nação. E quando vejo as posições radicais de muitos ultraliberais, surpreendo-me que nunca cheguem ao ponto de propor que deva ser cada um a decidir se quer ou não ser cidadão do país. É curioso, parece que nunca chega aí a defesa da liberdade individual de escolha. Até à recusa da obrigatoriedade das vacinas, não sei, mas é provável que sim; até à recusa da obrigatoriedade de pertencer a sindicatos, de certeza absoluta; mas até à recusa da obrigatoriedade de cidadania, acho que não. Ora quem considera a liberdade individual um valor de base, o valor de base, não deveria propor que cada pessoa possa escolher o Estado que mais jeito lhe dê?…

Alguma doença há-de ser…

Hoje, a Travessa do Fala-Só arma-se em revista não sei bem de quê, para ver se tenho jeito para jornalista. Mas é uma vez sem exemplo, garanto-vos eu…

No nº 51 da revista Neurology, de 1998, Juan Gomez-Alonso publicou um artigo chamado “Uma possível explicação para a lenda dos vampiros”, cujo resumo diz o seguinte:
No século XVIII, a crença em vampiros – pessoas supostamente mortas que saíam dos túmulos e matavam pessoas e animais – causou grandes preocupações nos Balcãs e um amplo debate na Europa. Este fenómeno histórico não foi ainda completamente explicado. Este artigo defende que a raiva pode ter tido um papel fundamental na formação da lenda dos vampiros, dada a coincidência dos fenómenos no tempo e as espantosas semelhanças entre eles.
Segundo Gomez-Alonso, as histórias “dos mortos-vivos sedentos de sangue” surgiram no início da década de 1730, “poucos anos depois de se ter registado na Hungria uma grande epidemia de raiva entre cães e animais bravios”. Além disso, argumenta ele, a raiva provoca, como a condição de vampiro, insónias e aumento da pulsão sexual, e, às vezes, vê-se escorrer da boca das vítimas da doença saliva ensanguentada.
A raiva não é, porém, a única (e nem a primeira) doença invocada para explicar as lendas de vampiros. Em 1964, L. Illis publicou no jornal da Sociedade Real de Medicina do Reino Unido, um artigo chamado “Sobre a porfiria e a etiologia dos lobisomens”, estabelecendo pela primeira vez uma relação entre este grupo de doenças e nocturnas criaturas de terror; e o bioquímico David Dolphin viria a retomar e a desenvolver esta ideia no seu artigo “Porfiria, vampiros e lobisomens: a etiologia de lendas europeias de metamorfoses”, que foi apresentado em 1985 numa palestra na Associação Americana para o Avanço da Ciência. A relação que este autor estabelece entre as porfirias e a condição de vampiro assenta em várias ideias: os vampiros não toleram a luz do sol, revelando a mesma fotossensibilidade que os pacientes de alguns tipos de porfiria, pelo que prefeririam sair só depois de o sol se pôr; um tratamento comum para alguns tipos da doença é uma injecção de um produto sanguíneo, o hemo, e é natural que, quando esse tratamento não existia, os doentes de porfiria procurassem instintivamente hemo mordendo pessoas e bebendo-lhes o sangue (o que, segundo o próprio Dolphin, não lhes serviria de nada, mas enfim…); e, finalmente, um doente de porfiria pode ter medo de alho, porque o alho contém uma substância química que agrava os sintomas da doença. Ora aí está.

Agora, também há quem não se mostre convencido com nenhuma das explicações clínicas para as lendas de vampiros. É discussão em que não me meto, porque não percebo nada do assunto. Mas uma coisa me parece certa: para uma pessoa andar aí de noite, de um lado para o outro, à procura de um desgraçado ou de uma desgraçada qualquer a quem possa chupar um bocado de sangue, de alguma doença há-de sofrer. E grave!

19 de fevereiro de 2010

Língua, identidade e empréstimos

[Nota prévia: Este texto não foi escrito para fazer publicidade ao meu glossário de moçambicanismos, mas tenho de aconselhar, a quem não conhecer os muitos moçambicanismos que nele aparecem, que o consulte, pois então…]

Normalmente, vamos buscar uma palavra a outra língua, quando ela descreve algo que não sabemos descrever com a nossa língua (ou que não sabemos descrever bem com a nossa língua) ou quando há uma pressão linguística muito grande à nossa volta: de facto, uma minoria linguística acaba sempre por incorporar palavras da língua da maioria circundante. No primeiro caso, cabem subcasos: a palavra que tomamos emprestada pode designar um objecto ou um ser cuja designação não existe na nossa língua, como uma matchessa ou um alacavuma; ou pode ser que designe um tipo especial de coisa que nós podemos designar na nossa língua, mas que, numa realidade cultural diferente, sentimos que não designamos adequadamente. Por exemplo, quando vivia na Bolívia, conhecia alguns jovens americanos do Peace Corps e constatei que, falando entre eles no seu inglês materno, diziam sempre mercado em vez de market, porque, obviamente os mercados bolivianos eram tão diferentes dos americanos que lhes soava falso referir os mercados bolivianos com o termo market.

O que fica dito atrás justifica bem o uso, no português de Moçambique, de palavras como ocanho, cacana, quizumba ou macaiaia, e mesmo banja, madala ou muquero, se se pensar que uma banja é outra coisa que não exactamente uma assembleia, ou se se sentir que há no termo madala uma carga cultural que ultrapassa a da referência à idade ou que o vaivém para a Suázi não é exactamente contrabando. Mas há outros factores além da necessidade de designar ou de designar com mais rigor que podem ter influência na incorporação de termos doutras línguas no português falado em Moçambique*. Um desses factores é a criação de identidade.

Diria que uma parte da adopção de léxico banto pelos falantes nativos do português em Moçambique (ou que o usavam como sua principal língua de comunicação ou como língua literária) é ideológica, no sentido em que visa, conscientemente ou não, contribuir para estabelecer uma identidade distinta através da criação de uma maneira de falar sua, ligada à terra com que se querem identificar por palavras que eles consideram como sendo realmente dessa terra. Quero esclarecer que uso aqui ideológico sem qualquer valorização positiva ou negativa e num sentido lato, cobrindo um leque amplo de espaço ideológico no sentido mais comum do termo – não só o relacionado com as ideias africanistas, autonomistas, nacionalistas, mas provavelmente também, por exemplo, com a criação de identidade colonial moçambicana.

Não conheço suficientemente bem o assunto para poder ter uma opinião muito firme, mas parece-me óbvio que, nas últimas décadas, se alterou muito a relação do português com as línguas bantas. Se houve um tempo em que uma grande percentagem dos utilizadores do português em Moçambique eram pessoas que o tinham como língua materna, que o dominavam muito bem ou que, não o dominando tão bem, o utilizavam sobretudo para contactar com falantes nativos da língua, hoje há uma muito maior percentagem dos seus utilizadores que o tem como língua segunda, e que o aprendeu e o fala sobretudo com pessoas que o têm também como língua segunda. O que resulta desta situação é a normal influência das línguas bantas no português, uma influência de substrato canónica, digamos assim. Se no falar destas pessoas continua a haver, naturalmente (em qualquer sentido da palavra naturalmente…), empréstimos às línguas bantas, o valor simbólico desses empréstimos como afirmação de identidade parece ter dominuído ou até desaparecido. Curiosamente, para as novas gerações de moçambicanos, a criação da sua identidade linguística parece já não passar tanto pelo cultivar da inclusão de termos bantos no seu discurso.

É interessante comparar dois textos, ambos relativamente recentes, de autores não identificados, que circulam pela net (do segundo que aqui transcrevo, conheço até várias versões) e que talvez já tenham recebido na vossa caixa de correio electrónico: um sobre o acordo ortográfico, escrito quase de certeza por alguém que conheceu o português de Moçambique noutra era e que se esforçou muito por bantizar o seu texto como forma de afirmar a sua moçambicanidade; e outro em que a moçambicanidade se afirma cotejando o português de Moçambique com o que o/a autor/a assume como sendo português (europeu) standard.

Texto 1
Eh Oena, Lhe Can,

Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aquele tocolocma do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila. Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não é bongolo não; o moçambicano estiva xilande. Essa bulabula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, se vai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é o xitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família.

E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem “autocarro” e está no dicionário; no Brasil falam “bus” e está no dicionário; aqui em Moçambique falamos “machimbombo” e não está no dicionário. Porquê? O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Sócrates que pensa que é chibante e que fuma nos tape, junto com o chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Sócrates não pensa, só faz tchócótchá com o th’xouco dele e aquilo que sai é só matope.

Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.

Bayete Moçambique!

Hambanine.
Texto 2
São 6 da manhã. Moçambicano não dorme, ferra. O despertador toca. Ele não se levanta cedo, madruga. E não vai tomar duche, vai duchar. E não se arranja, grifa-se bem. Depois, não toma pequeno-almoço, mata-bicha. E não bebe café solúvel e pão com doce, toma café batido e bread com jam.

Não sai de casa para ir trabalhar, vai no serviço. E quando chega ao local de trabalho não pede desculpa por ter atrasado, diz sorry lá, que tive problema de transporte. E não trabalha até ao meio dia, djoba até àquela hora das 12. E aí não pede ementa, pede menu. E não come, tacha. Não come batata frita, come chips. Não come salsichas, come vorse. Não come costeleta, come t-bone. E não bebe uma laurentina preta, toma uma escura.E não fala com o amigo sobre a namorada, bate papo "brada, minha dama". E não gosta muito, grama maningue. E na saída do restaurante não vê as mulheres que passam, aprecia as damas. E não seduz, paquera. E não faz convite, pede contacto. E não a segue, vai à sua trás. E não encontra um conhecido mais velho, apanha um jon cota. Na rua não compra cajú, compra castanha. E não tira fotografias, fota.

No escritório, a empregada não despeja o lixo, no ofice trabalhadora vai deitar. E não traz o jornal, leva. E não põe insecticida, baygona. E não tem reuniões, tem meetings. E no computador ele não escreve, taipa. E depois não faz impressão, printa. E não trabalha as fotografias em Photoshop, fotoshopa. E para fazer um intervalo não vê o patrão, tcheka o boisse. E não sai para dar uma volta, dá um djiko. E não escreve sms para a amiga colorida, manda mensagem para a pita. E não mente dizendo que está ocupado, mafia que tá bizi.

Moçambicano não trai, cornea. Não caminha, estila. Não se faz de difícil, jinga. Não acaba uma tarefa, ultima. E no fim do trabalho não vai, baza. E com os amigos não tem negócios, tem bizne com bro. E ao fim do dia não vai ao ginásio, djima. E não está musculoso, tá big. E não tem bicicleta, tem bikla. E não faz saudação batendo na mão do amigo, deketa. E não gosta de aproveitar a vida, enjoya laifa.

De tarde não bebe chá e come pão com manteiga e queijos, toma chá. E não vai buscar a namorada que está num cabeleireiro distante, a arranjar as unhas e a fazer tranças no cabelo, vai apanhar dama que faz unha e entrança láaaaaaa no salão. E não bebem um refrigerante, tomam refresco. E a namorada não usa mini-saia e saltos altos e anda descapotável, põe sainha e uns saltos e tá descartável. E não lhe diz que é bonita, diz "tens boas". Isto é o verdadeiro moçambicano!
Dois breves comentários:

No comentário ao primeiro texto, como ele aqui está por causa da forma e não do conteúdo, passo por cima do que ele diz com o comentário apenas de que para recusar o acordo ortográfico não é preciso chamar nomes a ninguém. Quanto a como diz o que diz, é de notar que, se a intenção do texto é, muito provavelmente, ser difícil de compreender para não-moçambicanos, o facto é que são nele utilizadas várias expressões que são também incompreensíveis para a maioria dos moçambicanos (já fiz a experiência…). Mas tem também algumas que são efectivamente de uso corrente e atestado no discurso em português desde pelo menos o início do séc. XX, como canganhiça, milando e mufana, por exemplo.

O segundo texto, se bem que dê uma imagem mais realista do português de Moçambique actual, apresenta como moçambicanismos muitas palavras que o não são. É sempre assim, aliás: a consciência da nossa identidade é sempre distorcida e é normal pensarmos que são exclusivamente nossas determinadas características que partilhamos com outros. De facto, neste último texto, há angolanismos, como cota e bazar (incorporados também pelo português europeu e muito provavelmente chegados a Moçambique através dele), há brasileirismos, como paquerar, há calão do português europeu, como ferrar ou tachar, e há expressões cuja origem desconheço, mas que sei serem comuns a várias variantes do português, como mafiar e bicla. E há até português muito canónico, como madrugar e menu… («Menu, português canónico, xô Santos? Então mas menu não é francês?»)
_______________

* E noutros lugares, evidentemente, mas aqui é de Moçambique que se trata. Também os empréstimos às línguas moçambicanas não são a única maneira de criar identidade linguística. Sempre houve e continua a haver outros processos de moçambicanização do português, como a criação de moçambicanismos de raiz portuguesa, para não referir inovações de pronúncia e de sintaxe, mas deixo agora de lado essas questões.

17 de fevereiro de 2010

Tipologias, interjeições e outras complicações

No texto “El idioma analítico de John Wilkins”, incluído em Otras inquisiciones, Jorge Luís Borges refere uma enciclopédia chinesa, o Empório celestial de conhecimentos benévolos, segundo a qual se poderia dividir os animais em a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães soltos, h) incluídos n[aquela] classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, l) et cetera, m) que acabam de partir o jarrão e n) que de longe parecem moscas.

Parece evidente à maior parte das pessoas que é uma tipologia concebida para causar estranhamento no leitor e que é por isso que se alinham ao mesmo nível categorias em princípio sem relação entre elas. O que é interessante é que não é só nos devaneios literários borgianos que se encontram tipologias deste tipo. Quando, há muitos anos, analisei a Poética de Aristóteles para a reduzir a um quadro (é possível!), afigurou-se-me óbvio que a obra – um tratado muito influente em toda a reflexão ocidental sobre língua e literatura! –, está, às vezes, organizada com uma desorganização do mesmo tipo da da enciclopédia chinesa de Borges. Por exemplo: os mitos dividem-se, quanto às partes que os compõem, em catástrofe, peripécia e reconhecimento, e os reconhecimentos dividem-se em reconhecimento por sinais, reconhecimento urdido pelo poeta, reconhecimento pelo despertar da memória; reconhecimento que provém de um silogismo; ou reconhecimento combinado com um paralogismo [!].

Longe de mim querer discutir aqui Aristóteles ou propor regras para elaboração de tipologias. Isto é só uma introdução demasiado grande e talvez um bocadinho despropositada ao tema das interjeições. O que se encontra na maior parte das tipologias de classes gramaticais, desde a Wikipedia até à Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, é uma divisão em dez categorias de base, seis variáveis (substantivo, artigo, adjectivo, numeral, pronome, verbo) e quatro invariáveis (advérbio, preposição, conjunção e interjeição). A interjeição é, pois, normalmente considerada uma classe de palavras. Será... Mas, então, uma classe de palavras algo estranha, difícil de definir...

Se querem uma tipologia senão mais surrealista pelo menos tão ilógica (ou desorganizada, seja…) como a da enciclopédia chinesa de Borges, vejam a entrada "Interjeição" da Wikipédia. Fica-se aí a saber que “[a]s interjeições são palavras invariáveis que exprimem estados emocionais, ou mais abragentemente: sensações e estados de espírito; ou mesmo, servem como auxiliador expressivo para o interlocutor, já que permite a ele a adoção de um comportamento que pode dispensar estruturas linguísticas mais elaboradas”, o que, tirando estar assim escrito exactamente como aqui ponho [tudo sic, foi copy & paste...] não difere muito de outras definições de interjeição mais bem escritas.

Vejamos alguns dicionários. O Priberam online diz que interjeição é “voz, palavra ou locução que exprime com energia os afectos/afetos do ânimo”. O Porto Editora diz que interjeição é “vocábulo ou expressão de carácter sugestivo usada para traduzir um sentimento ou reacção súbita (dor, alegria, admiração, etc.), para dar uma ordem, para chamar a atenção ou ainda para imitar um som; exclamação”. O dicionário da Real Academia Espanhola define interjección como sendo uma “classe de palavras que exprime alguma impressão súbita ou um sentimento profundo, como assombro, surpresa, dor, arrelia, amor, etc. Serve também para apelar ao interlocutor, ou como fórmula de saudação, despedida, acordo, etc.; por exemplo, eh, olá”. Como se pode ver, a definição é muito semelhante à da Porto editora, com a vantagem de referir só palavras, não expressões nem locuções, e ter lá os exemplos de eh e olá no fim. Já o Oxford Concise define interjection apenas como “uma exclamação, especialmente como parte do discurso” (entendendo-se parte do discurso como “categoria morfossintáctica de base”, “classe de palavras”), que é uma definição muito mais elegante, mas, dos dois exemplos que dá, ah! e dear me!, é difícil aceitar que o segundo corresponda a um componente mínimo do discurso. Enfim… Já a definição de interjeição do Houaiss, que também me parece confusa, acrescenta uma coisa que acho importante e que sublinho: “palavra invariável ou sintagma que, com entoação particular, geralmente sem combinar-se gramaticalmente com elementos da oração, formam, por si sós, frases que exprimem uma emoção, uma sensação, uma ordem, um apelo, ou descrevem um ruído (p. ex. psiu!, oh!, coragem!, meu Deus!)”.

Essa ideia de que a interjeição é uma frase é partilhada por diversos autores (a minha casa aqui em Chimoio é um vazio de livros, terão de me desculpar, só posso citar o que consigo apanhar online, mas acho que chega…), como Mattoso Câmara, que, no seu Dicionário de Linguística e Gramática, afirma que a interjeição é uma “verdadeira palavra-frase, pela qual o falante, impregnado de emoção, procura exprimir o seu estado psíquico num momento súbito, em vez de se exprimir por uma frase logicamente organizada,” e Jean Dubois, que diz, no seu Dicionário de Linguística, que “[se chama] interjeição a uma palavra invariável, isolada, que forma uma frase por si mesma”. Aliás, até a tal confusa página "Interjeição" da Wikipedia reconhece, a certa altura, que “a interjeição é considerada palavra-frase, caracterizando-se como uma estrutura à parte” e que a interjeição “não desempenha função sintática”.

Na minha opinião, o que torna problemático encaixar a interjeição nas “classes de palavras” ou nas “categorias morfossintácticas” ou nas “partes do discurso” ou lá como queiram chamar aos componentes mínimos de frase é que, às vezes, parece de facto fazer mais sentido considerar uma interjeição uma frase completa (sintética, se se quiser, porque cristalizada ou truncada), mas, noutros casos, apenas um tipo de predicador. Uma amiga minha, professora de português, contou-me de um aluno, não sei se dela se de quem, que tinha certa vez defendido que ai era um verbo, porque se conjugava: ai de mim, ai de ti, ai dele, etc. É muito provável que a maior parte das pessoas ache cómica a afirmação, mas o facto é que o rapaz tinha uma intuição linguística apurada e estava muito próximo da verdade: numa frase como “ai de ti, se voltas a fazer isto!”, ai é claramente o núcleo de predicação da oração principal, ou seja, desempenha a função mais comummente desempenhada por um verbo!

Embora compreenda a dificuldade de classificação das interjeições, não posso aceitar que se misturem tanto os critérios classificatórios (ou que se misturem tantos critérios classificatórios…): se se define interjeição como classe de palavras, há que a definir através das suas propriedades morfossintáticas (invariabilidade ou não, posições sintácticas em que pode ocorrer, antes e depois de que outras classes, etc.); se se considera que o que conta para a definição de interjeição é o que ela exprime (emoções várias, ordem, encorajamento, etc. etc.), então interjeição é uma noção semântica (uma cetegoria modal?) e aí sim, podem facilmente pôr-se ao mesmo nível palavra isoladas e frases longas. O artigo "Interjeição" da Infopédia ([Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-02-15], para o citar como me indicam que devo) afirma que “[a] proposta trazida pela gramática tradicional de classificação das interjeições segundo a emoção por elas expressa aguarda revisão e esclarecimentos à luz da análise do discurso e da pragmática”; e eu acrescento que também à luz de uma proposta de classificação mais rigorosa das classes de palavras…

Digamos assim: Quando uma pessoa está mesmo aflita, como eu às vezes fico, ai, ai, ai, sem saber onde arrumar uma palavra, paciência, aceita-se que lance mão da pasta de arquivo interjeição. Não me choca que se classifiquem assim um Hmmm... ou um Eh, eh, eh! Também não me satisfaz, mas enfim, na falta de melhor… Que se classifique assim algum uso específico e relativamente anómalo de palavras com outra classificação morfossintáctica, como Bem... Ou Bolas!, eis outra coisa que eu também, na falta de melhor, não só aceito como chego a praticar. Mas que não se exagere, ok?, porque se se cair em definições como uma da Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Cunha e Cintra, segundo a qual as interjeições são “uma espécie de grito com que traduzimos de modo vivo as nossas emoções”; se se seguir a lógica que faz classificar “silêncio!” como interjeição; e se se admitir, como há muito quem faça, a existência de locuções interjectivas, eh pá, acabamos por encaixar na categoria uma expressão como “Valha-me Santo Euplúsio de Catânia e mai-los santinhos todos dos céus, então mas eu fiz algum mal a alguém para estar agora a levar com isto, não querem lá ver?”.

Interjeição? Pois, eu percebo… mais ou menos, mais ou menos..., onde se quer chegar. Mas não sei o que é…Uma coisa é certa (agora para terminar mais ou menos onde comecei): embora a pouco rigorosa classificação tradicional das classes de palavras tenha na Poética de Aristóteles uma das suas origens principais, precisamente, pelo menos a ele ninguém o pode acusar de ter incluído as interjeições nas “classes gramaticais”, já que, para ele, as “partes” em que se divide a “elocução”são: letra, sílaba, conjunção, nome, verbo, artigo, flexão e proposição. Mais uma tipologia muito estranha, mas de que não fazem parte nem as interjeições nem os advérbios, que são outra categoria polémica, se não claramente abusada… Mas os advérbios ficam para outro dia.

13 de fevereiro de 2010

Dona Chica, Senhor Pires

Lembram-se desse maravilhoso dueto que se chamava “Dona Chica, Senhor Pires”? Não sei quem o cantava nem quem o escreveu, mas, se não me falha a memória, a letra da cantiga era pouco mais ou menos assim:

D. Chica: Só me dizia insolências / e a bater não era peco…
Sr. Pires: E hoje, vejam lá bòscências, sou fadista papo-seco!
D. Chica: Já só usa roupa fina / e até seda, quando calha!
Sr. Pires: Camisas de popelina / e as cirolhas são de malha...
D. Chica: Desprezou o canivete, / está mais manso que uma pomba…
Sr. Pires: Rapo a fuça c’a gillette / e ponho cremes na tromba.
D. Chica: Andava sempre co’a malta, / encharcado em água-pé…
Sr. Pires: Pois agora só me falta / ir tomar chá à Garrett!

Refrão
D. Chica: Aconselho-te a que tires o chapéu / quando na rua me vires!
Sr. Pires: Quem? Eu? Oiça: / Isto agora é outra loiça – Dona Chica!…
D. Chica: Sr. Pires!


Disto, já não se faz… Não que digo que seja melhor do que o que se faz agora, não é isso. Mas disto, assim desta maneira, já não se faz. E é pena, para quem, como eu, se delicia com este estilo de escrever letras que havia. O refrão, principalmente, é uma maravilha, porque, como isto agora é outra loiça, com chá na Garrett e tudo, então D. Xícara e Sr. Pires, precisamente! Ou só a mim é que isto soa assim?

Agora, mudando um bocadinho de assunto, mas só um bocadinho pequenino:

Quando não tenho nada que fazer, escrevo novelas faz de conta que policiais. É um hobby que eu tenho. É mesmo muito raro não ter nada para fazer, de maneira que é mesmo muito raro escrever novelas faz de conta que policiais – ainda bem para o mundo e ainda bem para mim, porque não há nada mais recomendável do que andar razoavelmente ocupado. Mas adiante. Na última novela faz de conta que policial que eu escrevi, havia uma passagem assim:

Jason Bothmann telefonou aos colegas enquanto Yvonne Toffler telefonava a Nelson Thorpes e depois meteram-se no carro, e dirigiram-se para o número 468, 2º Esq. da Rua Lutosławski, a residência e escritório de Per Aage Tence. Quando chegaram, já lá estavam Thorpes e os dois colegas de Bothmann.
Thorpes e Yvonne ficaram cá fora à espera, enquanto os três polícias subiram para ir buscar Per Aage Tence.
“Deus queira que eu me engane, chefe”, disse Yvonne a Thorpes, “mas é ele que está por trás disto tudo.


Quando acabei de escrever isto, notei que não havia, no que acabava de escrever, nada que chamasse a atenção de ninguém – e foi isso que me chamou a atenção. «Será que sou só eu a escrever assim?», interroguei-me. E fui verificar. Não sou: é bastante normal, quando se refere com um nome só as personagens de uma narrativa, que a mulher seja designada pelo nome próprio e o homem pelo apelido: a Yvonne e o Thorpes, a Chica e o Pires. E depois, como os pensamentos são como as cerejas, pus-me a pensar, que, em português, praticamente nunca se diz Senhora Pires nem Dona Pires. Nem nas novelas nem fora delas: É Dona Francisca ou Senhora Francisca. O homem é que, independentemente de usar ou não ceroulas de malha, tanto pode ser Senhor Pires como Senhor Francisco. E tudo isto me cheira a esturro, se querem saber... Bom, pelo menos não temos aquilo que há noutros lados de chamar Senhora Francisco Pires à mulher do Senhor Francisco Pires, valha-nos isso!…

P. S. P. (post scriptum do post):
Outra coisa do género, perdão, outra coisa de género: Fui há bocado almoçar a uma pizaria e lembrei-me de outro fenómeno enigmático: o feminino de pizzaiolo é tão raro que eu nunca vi uma mulher a fazer pizas numa pizaria. Isto não é esquisito?

9 de fevereiro de 2010

Acordo ortográfico: o mystério do abysmo...

Eu não me queria meter na conversa, não queria, mas acabo por ceder: vou aqui dizer qual é minha posição relativamente ao famigerado acordo ortográfico. Bom, já aqui dei uma vez a minha opinião sobre a questão ortográfica. No post Contradições ou sem elas? (cuja leitura aconselho, porque complementa o presente texto), abordei a questão das diversas opções ortográficas e das vantagens e desvantagens de cada uma. Mas dizia, nesse texto, que não queria discutir o acordo ortográfico proposto, porque não tinha nada interessante a acrescentar ao muito que tinha sido dito e escrito sobre o assunto. E continua a ser verdade: não digo agora nada de novo. O que se alterou não foi a minha capacidade de contribuir para a discussão, mas a vontade de o fazer. «No man is an island entire of itself…», et cætera, et cætera, et cætera

Mas deixemo-nos de circunlocuções! A minha posição é esta: tanto me faz, sinceramente. Sobrevivi bem à reforma ortográfica de Fevereiro de 73, em que foram «eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se [assinalavam] as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo -mente e com os sufixos iniciados por z», embora, como a toda a gente, ao princípio me tivesse custado. Basicamente, há regras de que discordo na actual maneira de escrever (e não só ao nível da escolha das letras e acentos com que escrever as palavras…) e há de continuar a havê-las na nova ortografia* – e posso, a meu bel-prazer, continuar a violá-las ou não, conforme os apetites e as situações (um texto de blogue ou um requerimento, por exemplo…). Aí têm a minha posição.

Evidentemente, posso, na minha qualidade de cidadão de um país de língua oficial portuguesa, propor e defender uma proposta ortográfica que eu considere mais coerente e mais lógica do que as existentes, pois posso, mas para quê? Não há prova nenhuma de que ortografias coerentes e lógicas dêem mais felicidade a ninguém nem saúde a nenhuma língua, nem tenham implicações no ensino. Vejam o caso do inglês, que se expande sem parar, também como língua de ensino, apesar de ter a ortografia menos lógica que é possível imaginar, que reflecte (quando reflecte alguma coisa…) uma pronúncia de há quinhentos anos, perfeitamente incompreensível para os falantes actuais…

A discussão da questão ortográfica assenta sobretudo na paixão e é por isso que, tanto no blogue como na vida quotidiana, quis – até agora… – manter-me fora dela. Acredito em discussões com convicção, mas não acredito em discussões sobretudo apaixonadas. Reconheço, porém, que a abordagem apaixonada da questão, se é vã, é também inevitável. Sempre assim foi e sempre assim será, e é pena que muitas pessoas não tenham consciência de que a ortografia que querem preservar hoje é apenas uma etapa histórica, que, quando foi introduzida, foi criticada por pessoas que queriam conservar a ortografia que tinham – e de que gostavam! Como eu dizia no post que referia atrás, Teixeira de Pascoaes recusava a reforma ortográfica republicana argumentando que abismo não podia alguma vez representar a profundidade, a escuridão e o mistério de abysmo. Alteraram-se mesmo a profundidade e o mistério da palavra, perdão, a sua capacidade de os referir? Aí está uma questão metafísica demais para o meu gosto. Mas posso garantir-vos que a pronúncia não se alterou desde o tempo de Teixeira de Pascoaes – de uns séculos antes dele, de facto.

E tenho aqui uma deixa para o tema da influência da grafia na pronúncia. Não digo que ela seja impossível, mas só se dá em condições muito especiais e, no geral, essa influência é, simplesmente, tão ínfima que se pode desprezar**. Tenho visto, nomeadamente, que há um medo de que, no português europeu, o desaparecimento de certas letras não pronunciadas, mas que serviriam, segundo alguns, para marcar o timbre da vogal que está antes delas, venha a afectar a pronúncia dessa vogal. É um temor infundado. Desde que desapareceram as marcas de abertura das vogais átonas pretónicas dos advérbios em -mente, não se modificou em nada a sua pronúncia, pois não? Ou alguém passou a pronunciar comodamente [kumuða'mẽt] em vez de [kmuða'mẽt]? Uma palavra como esquecer, que, por razões históricas, tem uma abertura anómala do e átono, resiste há séculos à tendência de redução das vogais átonas sem precisar de marcas gráficas a ajudar (evidentemente, podia propor-se *esqueccer…). E podia dar muitos outros exemplos, mas não me quero alongar muito. Por outro lado, a presença do sinal gráfico não impediu que certas vogais se fechassem, seguindo as regras fonéticas normais da língua, como no caso de actuar, que, em Portugal, ninguém pronuncia [àtuar]. Além disso, se a ideia é marcar consequentemente as vogais átonas abertas, porque não propor uma marca outra que não grafemas (p, c) que têm, noutras situações, outro valor? Recuperar, por exemplo, o acento grave... Enfim, mais paixão do que razão, como eu dizia…

Eu sei que custa a muita gente aceitar que um sistema ortográfico seja puramente convencional, no sentido em que se pode alterar por decreto (ao contrário de uma língua, que não há decretos que alterem), e que há um número virtualmente infinito de maneiras de transcrever graficamente uma língua. Mas, por muito que lhes desagrade, é um facto. Tanto que há línguas que se escrevem (de facto!) com mais do que um sistema de escrita. E se se passasse a escrever português com outro alfabeto, hem? Ερα διβερτιδω! Ou Эра дивертиду? (Para ficar pelos mais parecidos com o nosso…)


[Nota a 9 de maio de 2015: Escreveu Pascoaes:
Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mistério... Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abismo, é transformá-lo numa superfície banal.» (“A fisionomia das palavras”, in A Águia, ano 1, I.ª série, n.º 5, de 1 Fevereiro 1911.) 
Na versão anterior deste texto, o exemplo do apego emotivo de Pascoaes à ortografia antiga, que o levava a dar às letras um estranho valor simbólico e a recusar, assim, a reforma ortográfica, era dado com a alegada asserção de que lirio não podia representar a elegância de lyrio. O facto é que, embora tivesse encontrado esta informação em textos em princípio fiáveis, nunca consegui encontrar uma referência exata ao texto de Pascoaes em que ele tivesse feito essa afirmação. Encontrei agora na Internet uma transcrição de um texto de José Lourenço de Oliveira de 1933, em que o autor, a certa altura, “transmit[e] aos estetas o que v[ê] em Álvaro Pinto A nova ortografia e o desacordo reinante (1931)” e onde se vê, no meio de uma citação do texto de Pascoaes que refiro acima, uma nota (não se percebe bem se de José Lourenço de Oliveira se citada por ele de Álvaro Pinto) que diz o seguinte a propósito da afirmação de Pacoaes de que «[n]a palavra lágryma... a forma do y é lacrymal»:
(NOTA - Esqueceu-se Pascoais [sic] (ou não o quis fazer) de citar as palavras lyrio e cysne. Em lyrio, no y é que se concentra toda a grácil e clara beleza daquela flor, na haste! E como o y de cysne imita o longo e recurvo pescoço da ave, nadando no "manso lago azul" do poeta Júlio Salusse!).
Talvez seja esta a origem da ideia de que Pascoaes falou do y de lyrio, quando talvez só tenha falado do y de abysmo e de lagryma. Ou talvez não, mas, pelo sim pelo não, dou antes o exemplo de abysmo, que sei, esse, que Pascoaes deu, e onde; e funciona no meu texto tão bem como o outro.]

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* Mas a supressão do hífen em há-de, que uso neste texto pela primeira vez, a título experimental!, é com certeza uma melhoria, porque aquele hífen é mesmo disparatado!

** Se o problema da influência da grafia na pronúncia não se coloca, no geral, nos países onde o português é língua materna, é provável que não seja de desprezar nos casos em que o contacto com a língua se dá sobretudo na escola e pela primeira vez na escola (como aqui em Moçambique). Mas, quanto a isso, não vislumbro bem o que se possa fazer… Uma escrita mais fonética? Valerá a pena, sobretudo quando, como também já aqui recordei a lógica da ortografia portuguesa não é fonética mas sim fonológica, isto é, a escrita dá mais conta do sistema abstracto que está por baixo da pronúncia do que da pronúncia propriamente dita? Talvez se pudesse começar a escrever com u todos os oo finais, como se escreve noutras línguas latinas onde se deu a mesma redução, porque isso já não tem implicações fonológicas… Mas teriam de se alterar as regras de acentuação, que confusão… Ná, é melhor deixar estar assim…Quer dizer, nos casos onde a escrita pode provavelmente influenciar a pronúncia, vai basicamente dar ao mesmo usar-se a actual norma ortográfica ou a reforma proposta…

Tic tac tic tac

Nada mais preciso, mais regular, menos dado a desarrazoamentos. Tem, pois, toda a razão a minha filha Joana ao chamar-lhe relógico.

7 de fevereiro de 2010

Pão fresco

[É um texto um bocado atrasado, porque as férias já vão longe, mas tarde é melhor que nunca, ao que oiço dizer]


Foto de Søren Madsen

Se o pão nosso de cada dia nos for dado hoje – sendo hoje cada dia, precisamente –, é sempre pão fresco; o tal que, segundo uma famosa adivinha, quanto mais o é (fresco, quero eu dizer), mais quente está. Em Morrungulo, um sítio turístico da província de Inhambane, há um anúncio de uma padaria artesanal, que diz pão fresco em 26 línguas. Os turistas que lá vão, porém, são, na sua grande maioria, sul-africanos, pelo que lhes são especificamente dirigidos os anúncios nº 8 [inglês] do poste da (vossa) esquerda e 2º [afrikaans] e 7º [zulu] do poste da (vossa) direita. É claro, também há alguns zimbabueanos, e é a eles que se dirige, além da mesma 8ª placa do poste da esquerda, a 8ª do poste da direita, em chona (ou cishona, se preferirem, a mesma língua que se fala aqui na região de Chimoio). Na língua que se fala em Morrungulo, tsua (ou xitshwa, se preferirem), pão fresco diz-se pão ya kuhissa, 4ª placa do poste da direita.

Agora, eu que pensava que, em cinco minutos na Internet, descobria logo em que línguas estavam escritas todas as placas… Nada! Tirando o que eu reconheço sem grandes problemas (alemão, castelhano, dinamarquês, finlandês, francês, italiano, neerlandês e sueco, grande poliglota do pão fresco que eu vos saí, não foi?), foi fácil descobrir que tarm hats é arménio, mas o resto já foi mais complicado. Tenho dúvidas relativamente a friss kenyér e a verske leib, que creio que são húngaro e estónio, respectivamente, mas sem o conseguir confirmar; e quanto a frśkí kru, estou convencido de que é croata mal escrito, e que devia ser friški kruh, mas também não tenho a certeza (talvez o nosso correspondente na Croácia se queira pronunciar sobre isso…). E mais misteriosas são ainda, para mim, as expressões cērstuý chlēb e frisk brud. A primeira é com certeza eslava, mas não consigo identificar ao certo que língua será; e a segunda é obviamente germânica, mas em que idioma?

Pois… Diz que Deus diz que dá o fresco pão nosso de cada hoje… E se Deus não dá? Ainda bem que há o padeiro. Ah, e outra coisa: isso do pão nosso de cada dia também é uma mania, porque o pão que eu faço dura-me uma semana!