27 de outubro de 2010

Silabadas e cantigas: o que eu podia argumentar e não argumento

Vi no outro dia um anúncio a um curso de escrita de canções em português, em que o formador anunciava que se aprenderia, entre outras coisas, a fazer corresponder os acentos tónicos da letra com as acentuações da melodia. Achava um erro as silabadas, que é o que em gramática se chama às acentuações tónicas incorrectas, como [rúbrica] em vez de [rubrica], e que, aplicado às canções, definia como “sílabas acentuadas que não o deviam ser (…), por exemplo, preposições que aparecem com tempos fortes da música…”.
Há muita gente que pensa o mesmo. Até há uma canção que, como eu a entendo (mas ela não é tão transparente que eu tenha total confiança na minha interpretação), parece criticar precisamente isso: “Arrocachula”, de José Mário Branco, em que parece afirmar-se que as silabadas são uma prática nova e corrente na música moderna cantada em português:
São as mesmíssimas palàvrâs, só os acentus é que mudàrão / o agudo é esdruxulu e o esdruxulu agora é gràve (pronunciado [gra’vɨ])
A verdade é bem diversa: as silabadas são normais em português há muito tempo e eu até podia, se estivesse para aí virado, defender as silabadas, porque nunca percebi que delas venha algum mal às canções…
Podia começar, por exemplo, por argumentar que o acento tónico é irrelevante quando as melodias são cantadas numa língua com redução vocálica, em que o timbre das vogais marca o seu carácter átono*; mas, além de demasiado técnica, a objecção é tão discutível que nem eu próprio tenho a certeza de acreditar nela – bem vistas as coisas, isso tem apenas a ver com a eventual pertinência fonológica do acento tónico e, nas canções, como veremos claramente mais à frente, nos exemplos que dou de canções em francês e em castelhano, tudo isso se pode ignorar…
Ou podia argumentar antes com a tradição. Não com a tradição enquanto norma a seguir, que eu não sou propriamente um tradicionalista e nunca me lançaria num argumento dessa natureza, mas com a tradição enquanto fonte de experiência – muitos anos a ver como soa melhor alguma coisa nos hão-de ensinar. E podia constatar que as silabadas são comuns na chamada canção tradicional. Poder-se-ia, é claro, considerar que isso acontece por ela ser popular, precisamente, por ser feita por gente sem grandes conhecimentos de composição de canções, e defender que o que se admite aos autores das canções folclóricas é inadmissível aos cultos autores de canções de autor. Independentemente das muitas questões que levanta essa postura (haverá mesmo quem a tenha?), quero fazer notar que esta distinção é, em grande medida, artificial, porque muitas canções populares são tão sofisticadas como as canções de autor. Aliás, dizer de uma canção que é tradicional significa apenas que não se sabe quem é o autor da canção**. Tom Paxton contava, num concerto que fez com Annie Hills em Chicago em Maio de 2005, uma história bastante instrutiva que se passou com a sua filha Kate, num pub na Escócia: quando Kate agradeceu ao cantor de serviço ter cantado uma canção do pai dela, “The last thing on my mind”, o cantor respondeu-lhe que isso era impossível, porque o que ele tinha cantado era uma canção tradicional escocesa… Mas que excursões, maldita tendência… Onde eu quero chegar é que uma canção como “Não me mandeis à segada”, de autor desconhecido, é uma canção, lírica e musicalmente pelo menos tão rica como qualquer canção de Frederico de Freitas/Júlio Dantas, e ter silabadas (exemplo: a negrito a sílaba átona acentuada, com repetição da vogal, ainda por cima) não lhe tira em nada essa riqueza;
Não me mandeis à segada / que eu não sei talhar o eito, ai!
E depois, a famosa canção “Timpanas”, da dupla de compositor e poeta consagrados referida no parágrafo anterior, também tem silabada, pelo menos na voz da não menos consagrada Amália Rodrigues, porque ela acentua “a reinar com toda a malta” em vez de cantar “a reinar com toda a malta” e eu acho que faz bem, porque fica melhor assim a melodia...
Pois, poderia argumentar tudo isto, se para aí estivesse virado, e poderia até acrescentar, nem que à laia de curiosidade enciclopédica, que há uma tradição de canções numa língua quase igual à nossa que leva ao extremo a acentuação das sílabas átonas. Em muita música popular sul-americana, vai-se ao ponto de fazer rimar as vogais átonas finais das palavras:
Papel de plata tuvie / Tinta de oro compra / Para escribirle a mi ama / La amarga vida que yo lle (Papel de plata tuviera / Tinta de oro comprara / Para escribirle a mi amado / La amarga vida que yo llevo)
Mas não é nada que os sul-americanos tenham inventado, com certeza, porque, embora sem chegar ao ponto de fazer rimar vogais átonas, se encontra o mesmo fenómeno na música tradicional espanhola:
En la Sierra de Aroche, sierra de florés, / donde cantan los mozos coplas de amorés (En la Sierra de Aroche, sierra de flores, / donde cantan los mozos coplas de amores)
E poderia também, se quisesse defender as silabadas, invocar a meu favor cantautores que, em vez de se revoltarem contra essa tradição, a seguem, mesmo quando não precisam dela. As rimas de Violeta Parra são suficientemente perfeitas para não precisarem de “rimar” nas vogais postónicas, mas, mesmo assim, ela não desdenha fingir essas falsas rimas populares com óbvias silabadas, por exemplo, na célebre canção “Volver a los diecisiete”:
Se va enredando, enredan, / como en el muro la hiedrá, / y va brotando, brotan, / como el musguito en la piedrá (Se va enredando, enredando, / como en el muro la hiedra, / y va brotando, brotando, / como el musguito en la piedra)
E não só ela. O exemplo extremo de abuso do condenado processo é Brassens que faz rimar a conjunção átona que com o pronome (átono? hmmm…) eux***:
Non, les braves gens n’aiment pas que / L’on suive une autre route qu’eux.
E vai mais longe até, em “Tempête dans un bénitier”, ao fazer rimar mère de (assim mesmo, um de em fim de verso no fim do refrão!) com emmerdent:
O très Sainte Marie, mère de / Dieu, dites à ces putains / de moines qu’ils nous emmerdent / sans le latin
Mas é natural que o façam em francês, responderiam alguns, se eu fosse buscar tais argumentos. É uma língua de acento fixo e, sem silabadas, era muito difícil fazer letras para cantigas. Pode ser. Mas é o mesmo em português, poderia eu contra-argumentar. E poderia até explicar: é que isso é normal quando se trabalha com métricas curtas, como costumam ter as letras em português, em que predominam as redondilhas maiores e menores, porque é muito difícil acertar as acentuações interiores de versos tão pequenos.
Tenho alguma experiência de escrita de versos com métrica certa, também para canções, e, da única vez que experimentei acertar ao pormenor os acentos interiores num número razoável de versos em redondilha maior, tive de desistir. Tinha-me sido encomendado um libreto para uma ópera e tinha assentado com o compositor que a acentuação havia de ser rigorosíssima e que daria à fala de cada personagem uma métrica determinada. Não tive problemas com os versos mais compridos (alexandrinos, clássicos ou românticos; decassílabos, heróicos ou sáficos; e mesmo octossílabos), mas quando se tratou de manter o acento interior de versos de sete sílabas, ponhamos, sempre na quarta sílaba, foi tão difícil que acabei por desistir… Quando comuniquei a minha desistência, respondeu-me logo o compositor que com versos de sete sílabas não havia problema – eram pequenos demais para se poder exigir essa regularidade. Pessoa de bom senso.
Poderia então explicar, dizia eu, que, se a melodia da estrofe mantiver uma rítmica certa e o acento interno do verso hesitar entre, por exemplo, a quarta e a quinta sílaba, bem pode haver silabada, se não houver muitos monossílabos. E poderia terminar insistindo que, seja por esta razão, seja por outra razão qualquer que agora não descortino, não são só bons fazedores de canções em francês e em espanhol que acentuam sílabas átonas com as suas melodias; que o mesmo fazem, claro está, alguns dos melhores cantautores portugueses. José Afonso, por exemplo. Nunca repararam que “Grândola, vila morena” tem silabadas?
En ca / ‘squina um amigo / em ca/ rosto i/gualdade / Grando/ Vila morena
Será que é mais feia por causa disso? Não me parece… Segue apenas o que é natural nas canções em português…
...
Silabadas, portanto: Eu podia argumentar muita coisa para as defender, mas não argumento nada. Quem não gosta, não gosta, e acabou-se. Agora que seja um erro
Ah, só mais uma coisa: Cada cabeça sua sentença, como costuma dizer-se, e o que eu acho que fica realmente feio é encavalitar a melodia para evitar uma silabada…
___________
* A hipótese da irrelevância fonológica da acentuação tónica no português europeu é uma hipótese, no mínimo, digna de consideração; e é por causa deste fenómeno simples que a letra de José Mário Branco falha o alvo, porque, desde que o primeiro a de mudaram se pronuncie [á], a palavra será sempre entendida como um pretérito perfeito simples e não como futuro; e a palavra grave, independentemente de onde seja acentuada, entende-se sempre como ela própria, se o e final for pronunciado [ɨ] como os ee átonos são em português...
** Se se tratar de uma canção antiga e muito “gasta” pelo uso, pode a versão original ter sido alterada e/ou fragmentada em muitas variantes, mas isso é outra história.
*** O resto da canção, já agora, também está cheio de acentuações deslocadas, como muitas canções em francês… E assinale-se que, com o mesmo à-vontade e com a mesma elegância, Paco Ibañez retoma o radical processo de Brassens na sua versão castelhana da canção, que Brassens chegou também a gravar: no, a la gente no gusta que / uno tenga su propia fe.

24 de outubro de 2010

Recomendações

Em princípio, não tenho nada contra recomendações. Bom, sei que gosto que os amigos me recomendem coisas e também sei que às vezes fico um bocadinho irritado quando o Google Reader ou a Amazon me vêm lá com as recomendações deles, mas o facto é que às vezes utilizo essas recomendações. E acho que é uma pena que essas recomendações automáticas sejam feitas para corresponder ao que os programas que as fazem pressupõem ser o nosso gosto. Não tenho a certeza de que as pessoas reagiriam bem se lhe fosse recomendado o contrário daquilo de que gostam («estou a ver que vai a muitos sites religiosos, daqui para a frente só lhe recomendo sites ateístas», ou vice-versa), mas seria muito mais enriquecedor  que lhe fossem recomendadas coisas sem relação com as suas preferências: «Música, banda desenhada e ciência? Porque não experimenta alguns sites sobre xadrez, criação de avestruzes ou automóveis antigos?»

19 de outubro de 2010

Eu acredito nas bruxas, mas que não existem, não existem

Nas notas finais a Land of mist, de 1926, escreve Arthur Conan Doyle o seguinte:
A história do Pithecanthropus [uma fantástica e aterrorizadora criatura ectoplásmica que aparece na história] é tirada do Bulletin de l'Institut Métapsychique. Uma senhora conhecida descreveu-me como se sentia a pressão da criatura entre ela e a pessoa que estava ao lado dela e como pôs a mão na pele peluda do ser. Pode encontrar-se um relato desta sessão em L'Ectoplasmie et la Clairvoyance de Geley (Felix Alcau), p.345. Na página 296, há uma fotografia de uma estranha ave de rapina sobre a cabeça do médium. Seria necessária a credulidade de um MacCabe para imaginar que tudo isto é impostura. Estes vários tipos de animais podem assumir formas muito estranhas. Num manuscrito por publicar do Coronel Ochorowitz, que tive o privilégio de ver, descrevem-se algumas evoluções que não só são formidáveis como também diferentes de qualquer criatura que conheçamos. Dado que formas animais desta natureza se materializaram na presença dos médiuns Kluski e Guzik, a sua formação parece antes depender de um dos presentes na sessão do que dos médiuns, a menos que os possamos desligar completamente do círculo. Costuma ser axioma entre espiritualistas que os espíritos que visitam um círculo representam de alguma forma a tendência mental e espiritual do círculo. Assim, em quase quarenta anos de experiência, nunca ouvi uma palavra obscena ou blasfema numa sessão, porque essas sessões têm sido realizadas de uma forma reverente e religiosa. Pode então surgir a questão: as sessões que sejam realizadas para fins puramente científicos e experimentais, sem o menor reconhecimento da extrema religiosidade do seu significado, não podem evocar manifestações menos desejáveis de força psíquica?
Quem não conheça esta faceta de Arthur Conan Doyle ficará com certeza espantado – então ele acreditava em espiritismo? Creio que há que compreender o espírito da época e a crença difundida entre vários intelectuais desse tempo que os fenómenos paranormais, nomeadamente a existência de entidades espirituais sob a forma de ectoplasmas eram, afinal, fenómenos naturais e a que a ciência podia vir a dar uma explicação razoável. Mas interessa-me notar, no discurso de Conan Doyle, esta interessante observação: Não será que, se quisermos só estudar racionalmente o além, sem a reverência religiosa que se deve aos espíritos, o além nos tentará dissuadir de tal atitude blasfema mandando-nos o que de mais perigoso e assustador lá tem? Há alguma originalidade neste raciocínio. A asserção mais comum entre cultores do paranormal quanto à dificuldade do seu estudo científico é, estou eu em crer, que os espíritos não se manifestam a quem não creia neles – a eventuais cientistas presentes para medir energia psíquica ou para os filmar, por exemplo.

A crença na possibilidade de estudo científico do paranormal nasceu em meados do séc. XIX com as teorias espíritas de Kardec e conseguiu atrair gente ilustre e intelectual e até alguns cientistas, como Charles Robert Richet, Nobel de Medicina. Creio não me enganar muito se disser que veio depois a popularizar-se mais no âmbito da chamada contracultura dos anos 60, através de vários best-sellers que difundiam ideias sobre a possível origem extraterrestre de formas “alternativas” de conhecimento e de energia, e teorias afins. O mercado de livros foi inundado por obras que punham outra vez a tónica no paranormal (só a expressão paranormal merece uma análise filosófica cuidada, mas deixo-a às minhas leitoras e aos meus leitores, que a farão sem dúvida tão bem como eu…) como área de investigação científica. E porque não havia de o ser? Bem vistas as coisas, tudo é passível de estudo científico. As conclusões dos estudos rigorosos é que podem ser decepcionantes para muita gente... Pode chegar-se à conclusão, por exemplo, de que não há ali nada a estudar que não sejam crenças e superstição e que deve ser, portanto, a antropologia ou a sociologia a fazer o seu trabalho e não a física nem a biologia…

Uma história exemplar, que acho que toda a gente devia conhecer e que por isso, aqui divulgo, é a de Susan Blackmore, a psicóloga que escreveu Consciousness: An Introduction. Digo divulgo, porque não sou eu que a conto, limito-me a dar a palavra à própria Susan Blackmore. O texto que se segue é uma tradução do texto originalmente publicado como resposta à pergunta anual do World Question Center de Edge.org para 2008 "What have you changed your mind about?", “Sobre que mudou de opinião?”.
Ora imaginem-me lá no Oxford de 1970; acabada de entrar para a faculdade, vibrando com o ambiente intelectual, a roupa freak, quartos a cheirar a incenso, noitadas, aulas de manhãzinha, e a abertura de espírito que a cannabis me dava.

Entrei para a Sociedade de Pesquisa Psíquica e fiquei fascinada como ocultismo, os médiuns e o paranormal – ideias que chocavam perturbadoramente com a fisiologia e a psicologia que eu andava a estudar. Uma noite, aconteceu então uma coisa muito estranha. Estava sentada com amigos, a fumar, a ouvir música e a curtir a vívida imagem de descer muito depressa por um túnel escuro em direcção a uma luz brilhante, quando um amigo meu falou comigo. Não consegui responder.

"Onde estás tu, Sue?", perguntou ele, e, de repente, parecia que eu estava no tecto a olhar cá para baixo.

"Projecção astral!", pensei e foi então que eu (ou algum eu voador imaginado) parti em viagem sobre Oxford, sobre o país e bem mais além. Durante mais de duas horas, mergulhei por estranhas cenas e estados místicos, livre do tempo e do espaço e acabando por me perder a mim própria. Foi uma experiência extraordinária, dessas que mudam a vida de uma pessoa. Tudo aquilo parecia mais luminoso, mais real e com mais sentido do que as coisas da vida normal e eu queria compreendê-lo.

Mas tirei de repente todas as conclusões erradas. Duma forma talvez compreensível, parti do princípio que o meu espírito tinha saído do corpo e que isso provava tudo e mais alguma coisa – a vida depois da morte, a telepatia, a clarividência e muito, muito mais. Decidi, com aquele esplêndido excesso de confiança típico da juventude, tornar-me parapsicóloga e provar que todos os meus tacanhos professores de ciências estavam enganados. Arranjei um lugar para doutoramento, comecei a ganhar dinheiro para o pagar dando aulas e comecei a testar a minha teoria da memória de Percepção Extra-Sensorial. E foi aí que mudei de ideias – e de sentimentos e de tudo o mais.

Fiz as experiências. Testei telepatia, precognição e clarividência; só obtive resultados aleatórios. Formei outros estudantes em técnicas de visualização mental e testei-os de novo; resultados aleatórios. Testei gémeos aos pares; resultados aleatórios. Trabalhei em infantários com crianças muito jovens (as mentes naturalmente telepáticas das crianças ainda não foram deformados pela educação, estão a ver?); resultados aleatórios. Aprendi a ler o tarot e testei as leituras; resultados aleatórios.

De vez em quando, tinha algum resultado significativo. Oh que excitação! Reagia, como penso que qualquer cientista reage, verificando possíveis erros, voltando a calcular as estatísticas e repetindo as experiências. Mas acabava sempre por encontrar o erro responsável ou não conseguia reproduzir os resultados. Quando o meu entusiasmo esvanecia ou começava a duvidar das crenças de que partira, havia sempre mais qualquer coisa a tentar – sempre alguém me dizia "Mas deves tentar xxx". Demorei provavelmente três ou quatro anos a gastar todos os xxx.

Lembro-me do momento exacto em que tive esse clique (ou devo antes dizer "Parece que me lembro…", não vá tratar-se se uma falsa recordação de uma revelação). Estava deitada na banheira a tentar fazer encaixar os meus últimos resultados nulos na teoria do paranormal, quando me ocorreu pela primeira vez que podia estar completamente enganada e terem razão os meus professores. Talvez não houvesse nenhuns fenómenos paranormais.

Ao que me lembro, demorei algum tempo a aceitar este assustador pensamento. Fiz mais experiências e obtive mais resultados aleatórios. Os parapsicólogos chamavam-me uma experimentadora psi-inibitória, querendo com isso dizer que não obtinha resultados paranormais porque não acreditava o suficiente.
Aqui temos, mais uma vez, a estranha ideia que referi atrás de que, embora os fenómenos paranormais sejam reais e observáveis, só o são de facto se acreditarmos neles, ou seja, são só observáveis por aqueles a quem eles não precisam de ser provados, porque crêem neles à partida. A fé é mais bela do que Deus, como dizia Claude Nougaro (e Lutero era capaz de quase concordar…). Mas voltemos à história de Susan Blackmore, para a concluir:
Estudei os resultados de outras pessoas e encontrei mais erros, e fraude pura e simples. Quando acabei o meu doutoramento, já me tinha tornado céptica.

Até àquela altura, toda a minha identidade estava ligada ao paranormal. Tinha posto de lado um bom doutoramento e tinha dado cabo da possibilidade de fazer carreira na Academia (como o meu orientador em Oxford gostava de dizer). Tinha andado à caça de fantasmas e poltergeists, tinha estudado para bruxa, tinha frequentado igrejas espiritualistas e tinha ficado a cismar diante de bolas de cristal. Agora, isso era tudo para deitar fora.

Depois de tomada a decisão, até foi de facto bastante fácil. Como muitas grandes mudanças na nossa vida, esta era assustadora antes de realizada mas revelou-se simples. Rapidamente me tornei "céptica de aluguer" e comecei a aparecer na televisão a explicar como funcionam as ilusões, porque é que não existe telepatia e como explicar experiência de quase-morte através do que se passa no cérebro.

O que mantenho até hoje é um tipo de abertura às provas. Por muito que acredite firmemente numa teoria (sobre a consciência, os memes ou seja lá o que for); por muito que me identifiquem com uma determinada posição ou determinado postulado, sei que o mundo não se desmorona se tiver de mudar de ideias.
Num estudo realizado há relativamente pouco tempo, demonstrava-se que, nos Estados Unidos, os ateus sabem mais sobre religião dos que os crentes. A explicação dada ao New York Times por Dave Silverman, presidente da associação American Atheists, é que é porque sabem de religião que as pessoas se tornam ateias: "Dei uma Bíblia à minha filha e agora ela há-de tornar-se ateia", diz ele. É capaz de haver um fundo de verdade na brincadeira. E o raciocínio parece aplicar-se bem ao domínio do paranormal: a melhor maneira de deixar de acreditar nele é começar a estudá-lo. Ou, dito de outra maneira: basta observar um pouco à nossa volta e é claro que as pessoas que ainda acreditam nas várias paranormalidades que por aí adejam nunca fizeram tentativas de demonstrar a sua existência de forma organizada e convincente.

Além disso, se se pode mesmo provar a existência do paranormal, quem é capaz de o fazer é muito desligado dos bens materiais. Há prémios no valor total de mais de 2,6 milhões de dólares, oferecidos por associações de cépticos e racionalistas a quem apresente estas provas, mas estão todos por receber. É claro, pode-se sempre argumentar que os ectoplasmas não se rebaixam ao ponto de se deixar fotografar para fins tão vilmente materiais…

18 de outubro de 2010

O ataque à Mîrî: uma história de outro tempo, o tempo da História e os nacionalismos

Nas últimas férias, li um livro interessante: Corsário e Piratas Portugueses, Aventureiros nos Mares da Ásia, de Alexandra Pelúcia (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2010). Transcrevo a seguir uma história que aí se conta entre as páginas 30 e 32*:
Foi no dia 29 de Setembro [de 1502] que as acções de patrulha marítima [dos portugueses no Norte da costa do Malabar] produziram resultados de monta ao detectar-se a circulação de uma importante e rica presa, a nau Mîrî. Nela se faziam transportar umas poucas centenas de muçulmanos, entre homens, mulheres e crianças, que vinham de cumprir […] o haji, ou seja, a peregrinação à cidade santa de Meca […]. Entre os passageiros da Mîrî achavam-se […] abastados membros da comunidade de mercadores islamitas de Calecut, incluindo um que ali serviria de feitor ao próprio sultão mameluco do Cairo. Houve, pois, interesses de monta a sopesarem na decisão de declarar a rendição logo que os canhões portugueses efectuaram alguns disparos, tanto mais perceptíveis quanto Tomé Lopes [testemunha ocular que registou por escrito o acontecimento] afiança que a vela tacada estava municiada com artilharia.

A esperança que animava os muçulmanos acossados era a abertura de um processo de diálogo. Se tudo corresse bem garantiriam a sua integridade física em troca do pagamento de um elevado resgate. A abertura verificada por parte do almirante [português] foi, no entanto, nula: declinou todas as ofertas e que lhe foram apresentadas e exigiu, sem quaisquer contemplações, a entrega dos valores transportados. Consumado o acto e porque do seu lado tinha tanto o argumento da superioridade da força como o móbil de ripostar à violência de que os compatriotas tinham sido alvo em Calecut, quase dois anos antes [ataque de 16 de Dezembro de 1500 em que morreu Pêro Vaz de Caminha, quando na região se encontrava a armada de Pedro Álvares Cabral], o capitão-mor determinou que algumas chalupas arrastassem a Mîrî para longe da esquadra portuguesa, retirassem as armas existentes a bordo e lhe deitassem fogo, sem permitir a retirada da esmagadora maioria das pessoas que lá estavam dentro.

Os acontecimentos subsequentes fugiram, em boa parte, ao controlo, e, inclusive, à compreensão dos portugueses envolvidos. Em desespero de causa, os muçulmanos esforçaram-se por apagar os focos de incêndio e investiram contra as chalupas com todas as armas de arremesso que encontraram à mão, obrigando-as mesmo a afastarem-se. A bordo, havia quem continuasse a tentar persuadir os cristãos a serem misericordiosos, sobretudo as mulheres, que gesticulavam fazendo oferta das suas jóias e carregando os filhos para que deles houvesse dó, mas também homens que insistiam nas propostas de resgate. [O comandante português] assistiu a tudo de semblantes imperturbável, ao contrário do que aconteceu a Tomé Lopes, a quem ocorreu a ideia que por aquele meio se poderia ter ganho o suficiente para “remir todos os cristãos que estavam prisioneiros no reino de Fez, e que depois ainda restariam grandes riquezas ao rei nosso senhor”.

Chegara-se, entretanto, ao dia 3 de Outubro, que o mencionado [Tomé Lopes] apontou como “uma data da qual me recordarei todos os dias da minha vida”. Tendo a nau em que ele se encontrava que partir em socorro das chalupas atacadas a partir da Mîrî, os muçulmanos redobraram o ímpeto ofensivo com o alento próprio de quem não tem nada a perder, excepção feita à honra. O objectivo que tinham em mente era conseguir a aproximação ao vaso luso, mais baixo, a fim de cometer uma abordagem, a qual acabou por ser concretizada.

O tinir das armas arrastou-se durante horas a fio, até ao cair da noite. Os adversário causaram fortíssima impressão pela tenacidade e pelo ardor que demonstraram na luta, ignorando até ao limiar do suportável as feridas que lhes iam enchendo os corpos ou indo de encontro à morte com absoluto desdém, único caso em que os gritos emudeciam nas respectivas gargantas. Em face de tamanha ferocidade, os cerca de quinze portugueses que defendiam o castelo da proa, na zona dianteira da nau, viram-se forçados a bater em retirada, todos eles feridos e derramando sangue. A situação estava longe de ser mais brilhante do lado oposto, no castelo de popa, onde havia homens a terem de se lançar à água e a serem recolhidos pelas chalupas, enquanto outros eram golpeados ou mesmo abatidos.

As coisas estavam neste estado periclitante quando interveio a nau Jóia, através de movimentações navais e de tiros de artilharia, que surtiram o efeito de obrigar os muçulmanos sobreviventes a retroceder para dentro da Mîrî. [O comandante português], cuja irritação devia estar ao rubro, resolveu então afectar cerca de um terço da armada à perseguição daquela nau. Ao fim de quatro dias inteiros consumou-se, finalmente, a respectiva destruição. Com bastante ironia à mistura, as labaredas que a devoraram foram ateadas por um desertor muçulmano, que antes nadara até à nau Leonarda de modo a chegar à fala e a acordo com [o capitão-mor da armada portuguesa], o que lhe permitiu salvar a vida. Deveras perturbado, Tomé Lopes registou: “e foi assim, após tantos combates, que com muita crueldade e sem nenhum piedade o Almirante fez queimar esta nau com toda a gente que aí se encontrava”.

Como a Mîrî não era um vaso de guerra e, de qualquer modo, não havia guerra declarada entre Portugal e a nação a que a Mîri pertencia, o ataque é um acto de pirataria e não de corso, por muito que tenha sido perpetrado por uma armada portuguesa e não por um capitão privado. O comandante da armada portuguesa, cujo nome fui omitindo até agora, num artifício retórico primitivo de criação de suspense, era Vasco da Gama, agora na sua segunda viagem à Índia na nova qualidade de Almirante e Dom, que recebera como recompensa da primeira e que viria a ser vice-rei do estado da índia em 1524. Um herói nacional, portanto, um pilar dos mitos nacionalistas portugueses. Mas duvido que haja muitos portugueses actuais, por mais nacionalistas que sejam, que não fiquem surpreendidos com a acção de Gama, e menos ainda que encontrem maneira de a aprovar.

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Num conto de ficção científica de cordel que escrevi há alguns anos, a narradora e personagem principal, uma dinamarquesa chamada Rikke, recebe, no dia do seu 29º aniversário, em 1985, uma carta que o seu ex-namorado Ib, agora exilado no passado, lhe escreveu em 1806. O penúltimo parágrafo da carta diz o seguinte:
Finalmente, quero dizer-te que o tempo é uma dimensão tão duramente material como o espaço. Viver noutro tempo é como viver noutro lugar. Não há nada tão estúpido no nacionalismo como procurar no passado uma identidade, porque os nossos ancestrais eram tão diferentes de nós como as gentes de longe. Uma das coisas que me faz querer sair daqui e ir à aventura para as Américas é sentir-me tão pouco à vontade neste país. Nota que nem sequer é por causa das condições de vida concretas, que também são às vezes chocantes para um dinamarquês do futuro – doença, uma falta de higiene enorme, repressão, censura. Isso é o menos. É mesmo a maneira de ser da gente que é estranha. Pensam e agem de uma maneira que eu não compreendo, riem-se de coisas que não percebo – sem exagero absolutamente nenhum, não me sinto em nada mais próximo desta gente do que me sentia da gente local, quando vivi na Índia, ou dos peruanos ou bolivianos, quando andei a dar aquela grande volta pelos Andes.
É uma história de ficção científica de cordel, mas o que neste parágrafo se afirma não é ficção nenhuma. Ficção é o contrário, pretender-se que existe alguma coisa suficientemente estável através da história dos povos de um determinado lugar para justificar uma identidade. É essa a ficção básica em que assenta o mais das vezes o conceito de pátria, ou nação: a ideia de uma história que é nossa, como se a cultura portuguesa, por exemplo (seja lá o que for que isso queira dizer…) e os protagonistas dessa “nossa” História estivessem, afinal, fora da História, e um português do século XV fosse, com a sua cultura portuguesa do séc. XV, um ser mais próximo de um português do séc. XX, do que este é de um indiano ou de um canadiano actuais. Mesmo a língua, que serve muitas vezes de espinha dorsal a essa ficção, era tão diferente da que a agora se fala que muitos portugueses de hoje não a reconheceriam, se a ouvissem falada, como sendo português…

Pelo que observo à minha volta, custa muito à maior parte das pessoas aceitar o que eu acabo de dizer. Das mais variadíssimas formas, a questão da identidade histórica parece inquestionável. Às vezes com um sinal claramente positivo (o orgulho nacional dos “nossos” feitos grandiosos), às vezes com um sinal claramente negativo (o denunciar dos “nossos” crimes históricos), assume-se quase sempre, explícita ou implicitamente, a existência de um nós trans-histórico. Que insisto eu, é ficcional…

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Há outro conto meu que acaba assim:
Enquanto não vinha o autocarro, que só devia chegar lá para a meia noite, Niklas foi beber umas cervejas num bar que havia mesmo ao lado da paragem.
O bar estava quase vazio. Havia um tipo sentado ao balcão, que mirou Niklas de alto a baixo quando ele entrou, e um casal numa mesa ao fundo, a namorar. Niklas sentou se a uma mesa em frente ao balcão e pediu uma cerveja.
O homem que estava sentado ao balcão levantou-se e veio sentar-se à mesa dele.
“Posso?”, perguntou ele, já depois de se ter sentado.
“Esteja à sua vontade”, respondeu Niklas, um bocado contrariado, porque não estava com muita disposição para conversas.
“Você não é daqui, pois não?”
“Não, sou de muito longe. Estou aqui só de passagem. Aliás, estou só à espera do autocarro?”
“Donde é que você é?”
“Da Suécia. Sabe onde é que isso fica?”
“Na Europa. Você é europeu...”
“Exactamente....”
“E o que é que veio fazer aqui?”
“Ora, passear, dar uma volta...”
“Eu estive na Europa, sabe... Estive em Espanha e em França. Trataram-me como se eu fosse merda, só por eu ser assim como sou... Eu sou índio, não vê?”
“Há muita estupidez dessa na Europa. É triste.”
“É triste? Então você é europeu e está-me a dizer que é triste?”
Havia agora uma nítida agressividade na fala e na postura do homem, que se tinha chegado à frente, antebraços e peito apoiados na mesa.
“É o que eu acho...”, respondeu Niklas, que tentava acalmar-se.
“Os europeus vieram aqui e tiraram-nos tudo. Tudo! E agora dizem que querem ajudar-nos... Vêm com programas de auxílio, que vontade de rir...”
“Mas não foram os europeus todos que colonizaram a América...”, contestou Niklas, não sem algum orgulho nacionalista.
“Não foram todos? Foram todos, meu amigo, todos – espanhóis, portugueses, franceses, holandeses, alemães, diga lá quem é que não foi?”
“A Suécia nunca teve colónias na América.”
“Ora, vá contar isso a outro! Levaram-nos tudo e agora tratam-nos como merda nos países deles. Vocês, europeus, enquanto houver um índio vivo, não descansam enquanto não lhe tirarem tudo. Tudo!”
Niklas não se conteve mais. Chegou-se ele também à frente e começou a falar mais baixinho, mais pausadamente, num tom ameaçador.
“Oiça uma coisa, meu amigo. Eu estava aqui muito sossegadinho a beber a minha cerveja, não me meti consigo nem com ninguém. Eu não sou os europeus, ‘tá a ouvir? Eu sou uma pessoa que é diferente de todas as outras pessoas e eu, eu, nunca lhe fiz mal nenhum a si nem a ninguém nesta terra, e não lhe admito, ‘tá a perceber?, não lhe admito que me venha agora acusar do que fizeram outras pessoas que eu não conheço e não sei quem são! Por isso, conversa acabada! A mim, você só me pode acusar do que eu tiver feito, eu, mais nada!”
Parou um momento, e continuou, já mais calmo:
“Diga lá, se o seu avô tiver cometido algum crime, você acha que pode pagar por isso?”
O outro levantou-se.
“Pois está claro que posso! Porque é que não hei-de poder?”
“Ora, você está mas é com os copos, deixe-me lá sossegado! Além disso, se lhe interessa saber, também nenhum avô meu veio para a América do Sul...”
“Os europeus são todos ladrões...”, murmurou o outro enquanto se sentava outra vez ao balcão, ainda virado para o Niklas, “roubaram-nos o ouro, a prata, tudo...”
Niklas pagou e saiu. E teve de ficar muito tempo cá fora à espera: o autocarro, nessa noite, chegou atrasado quase duas horas.
A questão da responsabilidade histórica é complexa e não a vou discutir agora. Em princípio, porém, creio que cada um é culpado dos seus actos apenas, mesmo que admitamos que existem responsabilidades colectivas; porque essas responsabilidades colectivas, a existirem, só podem ser assumidas pelo colectivo, o que é muito diferente de uma assunção individual multiplicada pelos indivíduos que formam esse colectivo. A conversa do parágrafo anterior baseia-se em acontecimentos reais e, das várias vezes que fui acusado de “colonizador” nunca consegui descobrir em mim nem o mais pequeno sentimento de culpa – pela simples razão de que eu não tenho, de facto, culpa nenhuma de nenhuma colonização.

Além disso, se todas as colonizações que conheço são altamente condenáveis, é porque são sistemas ditatoriais e normalmente racistas de imposição do domínio de uma minoria. Toda a tentativa de fazer assentar a recusa do colonialismo e a defesa do direito à autodeterminação em conceitos de tipo nacionalista (a partir de critérios de identidade histórica, étnicos ou de anterioridade na ocupação de um território) em vez de a fazer depender de conceitos morais está, a meu ver, sujeito às contradições de todo o nacionalismo. Ora de facto, o direito à autodeterminação não precisa de nenhuma justificação daquele tipo – é apenas uma extensão natural do direito básico de cada pessoa a decidir sobre a sua vida, já que é apenas o direito de uma comunidade a decidir sobre a sua vida.

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Quanto mais penso no assunto, mais chego à conclusão de que a única solução para as contradições dos conceitos de identidade nacional, étnica e afins é uma versão radical (radical significa que vai à raiz da questão!) do conceito republicano de cidadania: o nós da cidadania é “as pessoas que vivem no mesmo espaço que eu”.

Pode haver, naturalmente, haver diferentes círculos de identidade, concêntricos ou não, e é claro, que pode haver outros tipos de identidade. As ideológicas, por exemplo: posso, a esse nível, identificar-me com todos os materialistas, cépticos e ateus em todos os períodos da História e todos os lugares da Terra. Mas dessa conversa não fazem parte essencial topónimos e gentílicos…

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* Sobre as fontes, diz a obra referida: «Os eventos […] foram registados a posteriori pela pena de cronistas de referência [V. Ásia, I, vi, 4; História, I, I, xlv, e Damião de Góis, Crónica d’El-Rei D. Manuel, vol. I, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1949, I, lxviii], mas a narrativa que se destaca pelos pormenores discriminados e pela eloquência das palavras foi assinada por uma testemunha ocular, Tomé Lopes, escrivão da nau capitaneada pelo florentino Giovanni Buonagrazia [Perdeu-se o rasto ao texto original redigido em língua portuguesa. O conhecimento do respectivo teor ficou assegurado para a posterioridade através de uma tradução italiana, dada pela primeira vez à estampa, em Veneza, no ano de 1550, a qual integrava a famosa colectânea das Navigagazioni e Viaggi, organizada por Giambattista Ramusio. Reporto-me, todavia, à edição francesa contemporânea, subordinada ao título “Le récit de Tomé Lopes” e publicada no livro Voyages de Vasco da Gama: Relation des Expéditions de 1497-1499 et 1502-1503, eds. Paul Teyssier e Paul Valentin, com prefácios de Jean Aubin, Paris, Éditions Chandeigne, 1995, em particular aos capítulos vii a ix, pp. 222-231.].»