15 de novembro de 2010

Melhorar o mundo: a moral e a ciência (um pequeno manifesto contra as filosofias new age e afins)

Foi em Sucre, na Bolívia, em 1999 ou 2000, não me lembro bem. A Karen e eu tínhamos sido convidados para jantar em casa de um casal amigo, ela chilena e ele dinamarquês, e havia mais dois convidados, ambos bolivianos e colegas de trabalho do nosso anfitrião dinamarquês. Depois do jantar, a conversa foi parar ao tema do desenvolvimento, como não podia deixar de ser. Tirante a minha pessoa, eram todos técnicos de cooperação e esta gente, mesmo nas horas vagas, fala sempre de desenvolvimento, de tão a peito que levam o seu trabalho.
“O trabalho de desenvolvimento”, disse a certa altura um dos bolivianos, “é como o trabalho político – bem poucos frutos dá. Tem contribuído mais para a melhoria da vida das pessoas o avanço da medicina e da ciência em geral do que todo o trabalho político e de desenvolvimento.”
O senhor, ex-militante da esquerda boliviana, era o que se chama um desiludido da política. Eu não. Sou um moralista e, por isso, continuava – e continuo – a acreditar no trabalho político como maneira de melhorar o mundo. E reagi, claro, a uma tão radical descrença na política – mais do que a uma tão radical apologia da ciência redentora. Não me lembro de como argumentei, mas sou capaz de ter ido ao ponto de dizer que, sem aumento da justiça e da igualdade, os outros progressos todos deixam muito a desejar, porque nada nos garante que sejam distribuídos equitativamente. 
Não é que tenha, desde essa altura, mudado radicalmente de opinião. Mas as muitas conversas que tenho tido ultimamente mais ou menos directamente relacionadas com este tema levaram-me a escrever este texto, como forma de reavaliar a minha própria posição sobre como se equilibram moral e conhecimento científico na melhoria do mundo.
Numa entrevista que dá a reddit.com (transcrição aqui), Noam Chomsky diz a certa altura o seguinte, numa resposta sobre o que pensa do movimento anarquista norte-americano:
A tendência anticiência no anarquismo, que existe mesmo, é completamente contraproducente no que respeita a [tentar resolver a crise ambiental emergente]. Ou seja, vai ser preciso tecnologia sofisticada e descobertas científicas para criar a possibilidade de a sociedade humana sobreviver – quer dizer, a não ser que decidamos que, bom, não tem de sobreviver, que devemos ficar reduzidos a, está a ver, 100 000 caçadores-recolectores ou uma coisa assim. Ok, tirando essa possibilidade, se se tiver uma atitude séria, bem vê, relativamente aos milhares de milhões de pessoa no mundo – e os filhos e os netos dessas pessoas –, vão ser necessário avanços científicos e tecnológicos.
Não sou anarquista (já assim me defini, mas foi há muitos anos…), nem sou fã incondicional de Chomsky (concordo muito com ele às vezes, outras vezes discordo bastante) e não faço de ideia de qual seja a situação do movimento anarquista americano. Se trago aqui a citação de Chomsky é porque acho que se aplica a bem mais do que apenas ao anarquismo americano. Não partilho o pessimismo de Chomsky relativamente à possibilidade de aniquilação do género Homo, mas partilho a sua crença de que precisamos mesmo da ciência. Ora, no meu círculo de amigos e relações (uns mais de esquerda, outros menos, mas que não são nunca conservadores e se assumem, por isso, como pessoas que gostariam de ver o mundo mudado – para melhor, naturalmente), observo às vezes essa mesma atitude anticiência – e pasmo. 
É claro que há muitas coisas a rever e a alterar no uso que actualmente se fez de conhecimentos científicos sob a forma de tecnologias. Há sempre. Mas é só mais uma razão para louvar e defender a ciência, porque sempre foi ela e só pode ser ela a fazer esse trabalho – a não ser que se acredite que bastam as intuições de cada um e não é precisa nenhuma evidência sólida que as valide. A crítica séria à ciência vem sempre do próprio meio científico. Uma das vantagens da ciência relativamente a outras formas de tentar conhecer o mundo é essa, a enorme capacidade de autocrítica e de incorporar nova evidência e novas teorias.
Mas não é só relativamente à sobrevivência do mundo como ele agora existe que importa realçar a importância da ciência. É também preciso insistir no papel fundamental que tem tido a ciência para termos hoje as melhores condições de vida de toda a História dos seres humanos. Ou antes: é preciso que entendamos a importância que a ciência teve no nosso progresso para percebermos a importância que não pode deixar de ter no progresso que daqui para a frente possa haver (mesmo que esse progresso não seja crescimento económico, que não deve – nem pode, provavelmente, continuar). E quero agora reconhecer que, se analisarmos a História do bem-estar, chamemos-lhe assim, a História da melhoria das condições de vida dos seres humanos, somos mesmo obrigados a dar alguma razão ao meu companheiro de jantar boliviano que referi no início do texto.
Não toda: O aumento das igualdades, a melhoria dos sistemas de justiça, as melhores condições de trabalho, o decréscimo da violência, o aumento dos direitos de um número cada vez maior de pessoas resultam de mudanças políticas fundamentais para a melhoria da vida das pessoas. É frequentemente subestimada, por exemplo, a influência dos movimentos sindicais na melhoria do bem-estar dos países ricos e estou convencido que uma das causas de atraso no desenvolvimento em países como Moçambique, por exemplo, é a ausência de uma tradição sindical (é só uma ideia vaga, a explorar, até porque nunca li nada sobre o assunto, mas parece-me um bom projecto de reflexão).
Muito bem. Mas outros avanços fundamentais são a descoberta dos microrganismos patogénicos, os antibióticos, as vacinas, a melhoria das técnicas de produção, de construção e de transporte – que resultam do avanço do conhecimento científico! Insisto: é inestimável o trabalho que sindicatos, associações e partidos fizeram para melhorar a vida das pessoas; mas um trabalho provavelmente tão importante como esse fizeram-no os antibióticos, as vacinas, os meios de diagnóstico e o controlo da qualidade e higiene dos produtos alimentares.
Tenho um bom exemplo, que tem sido ultimamente notícia nos jornais – a vacina antipalúdica. No que diz respeito à África subsaariana, toda agente concorda que há muito a melhorar politicamente, tanto ao nível dos seus próprios sistemas políticos como ao nível das políticas internacionais com impacto directo na vida sua gente. Mas uma vacina contra a malária (e campanhas mais eficazes de vacinação em geral) seria, em termos da melhoria da qualidade de vida da esmagadora maioria dos africanos, um progresso tão grande como desenvolvimentos políticos positivos.
Quem quis melhorar o mundo sempre defendeu o realismo baseado em observáveis e a tecnologia assente na ciência. Não há, a meu ver, nenhuma razão, para que deixe agora de o fazer.
À laia de complemento do que acabo de defender, deixo aqui uma palestra TED de Michael Specter: The danger of science denial (“O perigo de recusar a ciência”) – estão disponíveis legendas em português brasileiro, para quem não compreender inglês.
Algumas das posições de Michael Specter são discutíveis (é sempre assim em ciência e ainda bem!), mas a questão colocada pela palestra é precisamente a que coloco acima: qual o papel da ciência no progresso (ou em fazer do mundo um lugar melhor, se não gostarem muito da palavra  progresso)? Parece-me que, como Chomsky e muitos outros afirmam, deveria ser óbvio para toda a gente – mas infelizmente não é…. – que a recusa da ciência não leva a lado nenhum. É também chocante que a recusa da ciência, nomeadamente sob a forma da recusa das vacinas (ainda por cima por pessoas que se dizem progressistas...) esteja a matar tanta gente.
Desculpem a insistência, para rematar: para criar um mundo melhor, há, é claro, necessidade de mudança política. Muita e drástica. Todos estamos de acordo sobre isso, mesmo que não concordemos sobre qual a mudança necessária. Mas também precisamos de conhecimento racional, assente em observáveis, em vez de crenças dogmáticas e superstições. Uma banalidade, talvez, mas uma banalidade em que é necessário fazer finca-pé.

13 de novembro de 2010

Da ignorância das novas gerações, mais uma vez

Fizeram há alguns meses um teste à cultura geral dos jovens americanos. Já é um teste standard, desde 1998 que o fazem todos os anos; e este ano, mais uma vez, muita gente se escandalizou com os seus resultados: para os jovens americanos, apregoavam indignados vários jornais, Beethoven não é senão um cão [*] e Miguel Ângelo (Michelangelo, seja) não é nem sequer uma tartaruga ninja mas apenas um vírus informático. E eu pergunto-me: sinceramente, é um problema muito grande? Porquê? Porque é que as pessoas acham que eles deviam mesmo saber isso? «Faz parte da nossa cultura geral», respondem-me, «dos conhecimentos mínimos que qualquer pessoa deve ter. E depois, se fosse só isso que eles não sabem…», insistem, «Mas é que não sabem nada…»
 
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Bom, a maior parte do teste é tão americano que não faz grande sentido para mim. Pelos vistos, parece mal não saber que o Dr. Kevorkian já teve licença para exercer medicina; que antigamente não havia automóveis coreanos nos Estados Unidos; que os insultos recíprocos de Leno e Letterman nem sempre existiram; que houve outros comissários da Liga de Beisebol antes de Bud Selig; que batata já se escreveu potato em Nova Jérsei, antes de um decreto vice-presidencial lhe apor um e final; que Ruth Bader Ginsburg nem sempre esteve no Tribunal Supremo; e que nem sempre houve Hondas a disputar as primeiras posições em Indianápolis. É claro, podia adivinhar que nem sempre existiram os tais Leno e Letterman, Bud Selig e Ruth Bader Ginsburg, mas os jovens inquiridos também sabem, com toda a certeza, que as pessoas nascem, crescem e morrem… Hmm, como lhes terão feito as perguntas – ou como estão a apresentar as respostas?...
Ok, mas conhecimentos mais gerais? É ou não uma vergonha não saber que John McEnroe jogou ténis, que Clint Eastwood foi um carismático actor antes de ser realizador, que houve uma altura em que nos supermercados Walmart se vendiam armas ao balcão? Taalvez, mas eu não sei, sinceramente, se acho que toda a gente devia saber História do Ténis, História do Cinema e História das Armas nos EUA.
 Mas vá, enfim, coisas mesmo importantes: os jovens americanos não sabem que houve um país chamado Jugoslávia, nem outro chamado Checoslováquia, nem sabem que a Alemanha nem sempre foi uma só [**]! É verdade que faz falta saber História e a Geografia política que lhe está associada e acho que fazia muito  bem aos jovens americanos terem uma ideia da História do mundo, pelo menos nos últimos cem anos; mas também é verdade que quem agora leva as mãos à cabeça perante a tão grande ignorância dos jovens é capaz de não ser o sabichão que pretende ser. 
 A maior parte das pessoas que acha ridículo não se saber que Beethoven foi um dos maiores compositores da tradição musical europeia (que depois se veio a transformar em ocidental), se eu lhe puser à frente um bocado de Schubert ou de Brahms, ou mesmo de Dvořak ou Prokofiev; e lhes disser que é Beethoven, aposto que acreditam… A maior parte dessas pessoas acreditava, não só se eu lhes mostrasse pinturas ou esculturas menos conhecidas de Leonardo da Vinci, Donatello ou Rafael (para ficarmos na onda das tartarugas ninja), e lhes dissesse que eram de Miguel Ângelo, mas era até bem capaz de aceitar também que era de Miguel Ângelo alguma estátua de Bernini, Thorvaldsen ou Frederic Leighton… A maior parte dessas pessoas que se queixam de a rapaziada nova já não saber o que era a Jugoslávia, e Checoslováquia e as Alemanhas de Leste e de Oeste tinha ela própria muito pouca ou nenhuma ideia de como era a Europa antes do seu tempo e era capaz de pensar que a Checoslováquia, a Jugoslávia e a Alemanha tinham sempre existido. Aliás, essas pessoas eram muito capazes de dizer que Beethoven (o compositor, não o cão) tinha nascido na Alemanha, por nem sonharem que ele nasceu num Estado chamado Eleitorado de Colónia, antes de haver Alemanha; e de dizerem que o Miguel Ângelo nasceu em Itália, quando ainda vinha tão longe o país Itália no tempo do Miguel Ângelo… As mesmas pessoas que acham problemático os jovens portugueses não saberem nada no 25 de Abril (e quero sublinhar que eu sou uma delas!!!) sabem muito pouco ou nada do que aconteceu de importante na política portuguesa quinze anos antes de elas nasceram. Estou a exagerar? Acho que não. E onde quero eu chegar com isto? A que não acredito que haja nenhum défice de conhecimentos das novas gerações relativamente às gerações anteriores: cada geração sabe coisas diferentes e sempre assim foi. É bem provável até que, dado o aumento dos níveis de escolarização por todo o lado e do enorme aumento do acesso à informação, os jovens saibam de facto mais do que sabiam os seus pais. Não sabem as mesmas coisas, pois não, e porque haviam de as saber? Li algures que a finalidade deste inquérito Mindset era – e, provavelmente ainda é – alertar as autoridades na área da Educação para o facto simples de que as referências culturais se evaporam. Pois é, evaporam mesmo, mas isso toda a gente sabe, por muito que cada geração se esforce por preservar as suas referências culturais como as mais importantes… É isso que significa deitar as mãos à cabeça, não é? «Eles não sabem aquilo que eu sei!»
Imaginem o Mindset em Portugal, organizado por mim. Resultados: já ninguém sabe o que é fava-rica, quanto mais um moço de fretes; Carlos Seixas e Joly Braga Santos devem ser apresentadores de televisão ou ciclistas profissionais. Barahona da Fonseca? “Não era aquele gajo que fazia sketches humorísticos?
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Agora, se perguntassem aos jovens americanos sobre Kepler? Será que diziam que Kepler também era um cão? De facto, William e Margaret Huggins tinham um cão chamado Kepler, que ficou famoso por adivinhar os números em que as pessoas pensavam (é a lenda, que quereis?, é a lenda...). Não sei se os jovens americanos teriam respondido que Kepler era um cão, mas o facto é que ninguém lhes perguntou nada sobre Kepler. E muitos menos sobre William e Margaret Huggins. Serão menos importantes que McEnroe e o Dr. Death? Kepler também? Ok, admitamos que mesmo Kepler não é muito importante (???), mas, sei lá, Steve Jay Gould, Stephen Hawking, Jared Diamond ou Richard Dawkins, um desses nomes mais conhecidos, enfim, da ciência e sua divulgação, não é mais importante conhecê-los do que conhecer Snoop Doggy Dogg?
A cultura que se deve ter é música e artes plásticas clássicas, desporto americano e cinema americano, muitas outras coisas americanas e um bocadinho de História e Geografia europeia. Também podiam fazer tudo americano, já agora: Charles Ives, William Grant Still e Aaron Copeland eram cães ou compositores? E Jean Ritchie e Alex Chilton, quem eram? Alexander Calder era um escultor ou um vírus de computador? A Califórnia sempre foi um estado dos Estados Unidos?
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Brincadeiras à parte, acho bom saber quem eram Beethoven, Bruckner, Varèse, Respighi, Joly Braga Santos e Schnittke, sim senhor (ou, pelo menos, não acho mal), e quem eram Miguel Ângelo, Maillol, Modigliani e Mirò. Mas não acho menos importante saber qual é a diferença entre um vírus, uma bactéria, um fungo e um parasita, como fazer uma pesquisa eficaz na Internet, como se organiza o sistema político e judicial do seu país, para onde vão os impostos que se paga, a quem compete administrar e reparar estradas, bibliotecas e espaços públicos em geral e aprovar construções, o que é uma alimentação equilibrada e quais os malefícios da obesidade, o que é preciso para uma estatística ter valor ou se dar por razoavelmente provada uma experiência científica, quais as diferenças políticas reais entre os partidos políticos, como vive a maioria das pessoas nos países pobres do terceiro mundo e o que se passa de facto no conflito entre israelitas e palestinianos, como se amanha peixe e como não repetir todos os dias as mesmas receitas desenxabidas   coisas básicas todas elas, mas, por isso mesmo, indispensáveis [***]. Agora McEnroe e Snoopy Dogg, doces e carros de corrida, o que é que isso importa mesmo para o bem-estar dos jovens americanos no teste?…
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Ah, uma curiosidade final: perguntei há bocado ao meu filho Alex, de 11 anos, quem eram Beethoven e Miguel Ângelo e ele respondeu-me que o primeiro era um gajo que fazia música e que o segundo era um desenhador. Não está mal. É sinal de que vive, o rapaz, num lar onde se gosta de música e artes plásticas, dois agradáveis passatempos para quem deles se agrada mas que não servem para grande coisa a quem por eles se não interesse…
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[*] E não explicavam mais nada, partindo do princípio que o leitor, como os jovens americanos, conheceriam esse Beethoven que é cão. Como não era o meu caso, tive de investigar; e fiquei a saber que há uma série de comédias, iniciadas em 1992, cujo protagonista é um cão chamado Beethoven. É este o Beethoven conhecido dos jovens nascidos no mesmo ano em que a comédia nasceu; o outro, nascido duzentos e vinte e tal anos antes, não sabem quem seja…
[**] Bom, se isso significa que eles sabem que há agora uma Eslováquia e uma República Checa, e conhecem a Bósnia e Herzegovina, a Croácia, o Cossovo, a Macedónia, o Montenegro, a Sérvia e a Eslovénia, não é nada mau – sabem mais do que muita gente que se admira com a ignorância deles. Mas não deve significar nada disso…
[***] Ora aqui está um apelo à colaboração dos leitores: contribuam lá com perguntas que faltam no Mindset sobre conhecimentos tão importantes como saber quem foi Beethoven ou Miguel Ângelo.

7 de novembro de 2010

Uma velha nota descoberta no sótão: Livre-arbítrio? Que remédio…

Noutro dia, pus no meu mural do Facebook o seguinte texto:
Há algumas horas, pus aqui a canção “Cérebro eletrônico”, de Gilberto Gil, um tradicional elogio romântico dos das nossas dúvidas e dos nossos sentimentos “humanos”, comparando-os com a fria racionalidade de um cérebro electrónico. Estava a ouvir essa canção enquanto estava a lavar a louça depois do jantar e tive de repente a ideia de que tinha de a pôr aqui
Depois disso, pus aqui um link para uma palestra TED (“Gero Miesenboeck reengineers a brain”). É uma conversa sobre uma abordagem mecanicista da mente, mas é também, de certa maneira, sobre controlo do cérebro com um raio de luz (?)... Tinha visto a palestra ontem, mas só hoje tive o impulso de aqui pôr o link.
Depois, escolhi um filme para ver. Escolhi Shutter Island. O filme já ali estava na sala há algum tempo, mas só hoje decidi vê-lo. Não fazia ideia do que tratava. Já viram esse filme?...
Agora (teoria da conspiração!...), isto não é tudo demasiada coincidência? Bom, tenho o sentimento claro e intenso de que, de facto, não escolhi nenhuma destas três coisas, Mas deixo-vos decidir porquê: haveria alguém a controlar-me a mente com um raio de luz ou, em ultima análise, o conceito de livre-arbítrio não faz muito sentido, se se aceitar que cada estado mental é o único resultado possível do estado mental anterior e que, além dessa sequência de estados mentais, não há mais nenhum “eu” que decida? A única resposta que não aceito é o disparate dualista de que os meus sentimentos (ou cérebro ou mente…) me enganaram, porque me recuso a aceitar que eu e os meus sentimentos claros e intensos (ou cérebro ou mente…) sejamos duas entidades diferentes…
Não houve comentário nenhum. E que comentário podia haver? De facto, a ideia do texto era mais causar estranhamento do que lançar discussão – se bem que a discussão do livre-arbítrio seja, para mim, das mais fascinantes que há.
Por coincidência (mais uma, a teoria da conspiração vai-se robustecendo…), fui logo a seguir dar com uma velha nota escrita por mim há quase 25 anos:
 A eterna questão do determinismo versus livre-arbítrio deixa de se pôr quando tomamos consciência de que somos, por um lado, completamente determinados (o que cada um de nós é foi forjado do princípio ao fim, biológica, social, cultural, individual e etceteramente) e, por outro, livres, ainda assim, de agir como formos decidindo em cada momento: somos máquinas programadas para escolher e é a escolha permanente que constitui, afinal, o nosso fado.
Não me lembro do que me teria levado a escrever uma coisa assim. Não creio que, na altura, tivesse muita informação sobre a questão e nem sequer que tivesse reflectido muito sobre ela. Foi, provavelmente, umas daquelas inspirações de que só os nossos cérebros são capazes e não os cérebros electrónicos – porque são os nossos cérebros e não os cérebros electrónicos que para isso estão programados, não é assim?
Rodolfo Llinás postulou que o cérebro evoluiu para controlar movimentos complexos, para os organismos vivos não chocarem constantemente uns com os outros ou com objectos. A hipótese é, no mínimo, muitíssimo razoável, até porque é para controlar movimentos, precisamente, que mais o usamos. Aceitando esta lógica, pode aceitar-se a seguir sem grande dificuldade que, para os organismos se moverem, o cérebro precisa de estar permanentemente a tomar decisões, que deverão, na sua forma mais simples, ser a escolha entre duas possibilidades.
Dizia lá atrás que a discussão do livre-arbítrio é, para mim, das mais fascinantes que há. Eis uma pequena contribuição para ela: creio que uma boa maneira de encarar a questão é, precisamente, negar a oposição entre livro arbítrio e determinismo como o fazia na minha nota de há vinte anos: somos determinados para escolher, não podemos decidir não o fazer.