15 de dezembro de 2010

Crónicas de Chocas-Mar e Ilha de Moçambique, 97, 98 e 99

Vamos depois de amanhã de férias para o Norte. Primeiro vamos passar uns dez dias em Chocas-Mar e na Ilha de Moçambique e depois subimos até Pemba e às Quirimbas. Fui hoje reler extractos de cartas aos amigos de 97, 98 e 99, e resolvi que ficavam bem aqui na Travessa, como documento da minha descoberta de Moçambique. Deixei ficar os preços da altura para verem que, parecendo que não, já foi há muito tempo…
[Junho de 1997]
«Passámos uma semana de férias na praia, num sítio chamado Chocas‑Mar, entre Nacala e a Ilha de Moçambique. Chocas foi um lugar de veraneio – se é que faz sentido falar de veraneio num sítio em que há calor todo o ano – no tempo colonial e as vivendas ainda lá estão, umas nacionalizadas, outras reprivatizadas, umas vazias, outras ocupadas, umas a cair e outras em reabilitação. Há‑de ser, toda a gente assim o espera, um centro turístico importante. Praias de areia fina e corais, orladas de coqueiros como o paraíso dos cartazes turísticos que todos conhecemos, peixe e marisco fresco a preços de pechincha. Há‑de ser. Até lá, meia dúzia de pessoas que vêm passar o fim-de-semana, se têm a coragem de enfrentar 21 km de um caminho tipo percurso de trial: alguns cooperantes, às vezes com uma namorada moçambicana de ocasião, que ficam num parque de bungalows que há (350 contos por noite – ± 5800$00) e alguns outros estrangeiros ou moçambicanos com mais posses, que são os donos de umas quantas vivendas habitáveis. E uma calma benfazeja, um silêncio revigorante, cortado só ao princípio da madrugada pelo apelo muçulmano à oração. Vida de luxo.
Uma história gira: um dia, decidimos ir um bocadinho mais longe até às últimas praias do lado sul, quase em frente já da Ilha de Moçambique, por caminhos de areia entre salinas e coqueiros, e ficámos na praia o dia todo. À tarde, quando queríamos voltar, a terra tinha desaparecido, o mar tinha enchido o interior da terra. Estranha sensação – era um destes terrenos alagadiços de mangue e, na maré baixa, nós não tínhamos dado por nada. Mas lá nos safámos, por entre dunas e água – estes four-by-four são uma grande invenção...
No penúltimo dia antes do regresso a Nampula, decidimos passar pela Ilha de Moçambique, apesar da impressão negativa que a Karen tinha de umas horas que tinha lá passado e de toda a gente me ter dito que aquilo estava deprimente de degradação. Mais uma vez, fiquei agradavelmente surpreendido: é verdade que a Ilha está toda em ruínas ou quase, que é triste ver aquela vilazinha branca e brilhante que foi durante séculos e séculos, antes dos portugueses e depois deles, um ponto privilegiado de mistura de todo o tipo de pessoas, africanos, árabes, indianos, europeus, comerciantes, soldados, piratas, sei lá, ver aquela vila ir‑se degradando sem que ninguém queira fazer nada por ela, saber que o dinheiro que já houve para recuperar alguns edifícios históricos desapareceu misteriosamente no bolso de alguém, tudo isso. Mas a Ilha está cheia de vida e de uma vida que apetece descobrir. Um dia, com mais tempo...
Quando se entra, parece que se saiu de África. A parte física da Ilha é tão portuguesa que faz confusão – se não fosse o estado de conservação das casas, éramos capazes de julgar que estávamos numa qualquer pequena vila portuguesa: igrejas e edifícios administrativos, passagens com arcadas, pequenos cafés, praças com estátuas e fontes. O resto é mais asiático: um mar de gente muito pobre, os bandos de crianças que não nos largam, a pedir dinheiro, as dezenas de vendedores insistentes de artesanato “histórico”, como eles dizem. As pessoas têm feições de todo o tipo, desde macuas até árabes, algumas com traços orientais. Mesmo o macua que se fala é muito diferente do macua do continente, explica‑me alguém: tem mais palavras de origem portuguesa.
No museu local, de que um cooperante dinamarquês é agora responsável, a história da ocupação portuguesa da Ilha. No meio de mobília indiana e chinesa e de meia dúzia de quadros de amador, um retrato de D. Luís do Malhoa. Moçambique é cheio de surpresas.»

[Abril de 1998]
«Roubaram‑me a carteira. Grande chatice! Foi assim: Dia 7 de Abril foi feriado (Dia da Mulher Moçambicana) e calhou a uma terça‑feira. A Karen meteu a segunda-feira de férias e fomos para a praia. Chocas‑mar, a nossa praia favorita, de que aliás já vos falei na primeira carta. Desta vez não ficámos no complexo onde costumamos ficar, fomos acampar para a praia. Há um rapaz chamado M. que fez uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costuma lá ficar, com ou sem tenda. O M. trabalha como guarda e como cozinheiro e depois as pessoas dão‑lhe qualquer coisa. É bom para todos: para os turistas, é muito mais agradável que a vida no “complexo” e, ao M., dá‑lhe um salário, digamos, de luxo. Compra‑se peixe ou marisco aos pescadores que passam por ali, é uma maravilha. E nunca há problemas, é uma zona muito sossegada, sem gatunos, sem confusões. E então tinha que ser eu, não é verdade?, o primeiro desgraçado a ser ali roubado. Tinha posto os calções com a carteira em cima duma árvore, junto com mais roupa, e alguém conseguiu esgueirar‑se até lá sem ser visto e surripiar‑me a carteira. Só a carteira, note‑se, o que significa que quem me roubou devia ter estado a observar‑nos há um bocado e devia, mais concretamente, ter‑me visto tirar a carteira do bolso e tirar dinheiro da carteira para pagar um peixe a um pescador e umas lulas a outro, porque, senão, como é que sabia que estava ali e carteira e que ela tinha dinheiro?
Seja como for, a pessoa foi vítima dos seus preconceitos: partiu do princípio que o homem é que tem o dinheiro e nem lhe passou pela cabeça deitar a mão à mala da Karen, que estava lá ao pé e que, como ela ia fazer compras para o projecto em Nampula, tinha lá dentro o correspondente a mais de duzentos contos portugueses...
Agora, arranjar segundas vias de documentos custa aqui um dinheirão, para além, é claro, da chatice que dá, que é o pior. O M., quando eu lhe contei a história ficou furioso, porque ficou com medo que, propagando‑se a notícia, nunca mais ninguém quisesse ficar lá no lugar dele. Disse que havia de falar com o curandeiro e que havia de apanhar o ladrão e castigá-lo. E repetiu várias vezes: “Ele está lixar mô vida...”. As pessoas falam muito pouco português naquela zona.»

[Janeiro de 1999]
«De volta ao sítio do M. Eu dizia‑vos, noutra carta, que o M. tinha feito uma palhota e uma latrina na praia e muita gente costumava lá ficar, mas esta informação precisa de algum desenvolvimento e de pequenas rectificações. De facto, foi assim: alguma malta que morava em Nampula e que trabalhava para uma organização irlandesa chamada Concern começou a ir passar regularmente uns fins-de-semana a esta praia da Carrusca. Conheceram então o M., um rapaz duma aldeia ali perto chamada Cabaceira Pequena, e começaram a financiar‑lhe um pequeno projecto, digamos assim, que, ao fim de alguns anos, ainda se mantém: o sítio do M. Além da latrina melhorada e da palhota para fazer sombra à tenda, há ainda um poço de água doce para uma pessoa tomar banho ao fim do dia.
O M. é da Cabaceira mas não é pescador, ao contrário dos outros homens da aldeia. Ele tem medo do mar, não quer ir à pesca. Foi pastor, mas o patrão uma vez esteve vários meses sem lhe pagar o salário e ele decidiu que aquele patrão não lhe interessava. Agora, vive do sítio.
A coisa que mais o fascina é nós conseguirmos beber dezenas de cervejas e continuar normais.
“As pessoas aqui, quando bebem uma ou duas, ou começam logo a lutar ou caem ali no chão, não aguentam…”.
Ele não bebe, porque é muçulmano. Mas é muçulmano por acaso.
“Eu sou muçulmano porque as pessoas aqui são muçulmanas. Se eu fosse para a Europa, lá são todos cristãos, então eu seria também cristão. Porque o que interessa é Deus e Deus é o mesmo em todo o lado.”
O que ele é  realmente é uma pessoa religiosa, um místico. Passa a vida a falar da alma das pessoas, das coisas e dos animais. E o que lhe importa é não fazer mal a ninguém, porque ele acredita que o mal que nos acontece é sempre um castigo pelo mal que fazemos.
“O que eu quero, diz o M., é aprender sempre coisas novas, como por exemplo aquela amêijoa [ele está a falar de umas amêijoas à Bulhão Pato que eu tinha feito], porque a gente não sabe quando é que podemos precisar dessas coisas que aprendemos. Pode vir uma pessoa que quer aquelas amêijoas assim, então eu já sei preparar…”
É uma pessoa muito agradável, como diz a Karen quando fala português. Parece que toda a gente que por ali passou gosta dele. Até chegam a telefonar para a central telefónica das Chocas, para deixar recado para ele estar lá às tantas horas para voltarem a telefonar, só para saberem dele. E ele também se lembra muito bem de todos eles: “A Dona S. da Concern tinha uma faca igualzinha a essa!”, disse‑me ele quando viu a minha Opinel. Igualzinha, não: é uma faca que eu troquei à S. por um blusão de ganga, em Lisboa…
Um dia, conhecemos o Sr. C., que bem podia ser uma personagem do Corto Maltese. Fomos à Cabaceira à noitinha à procura de peixe seco para a Zia, a nossa cadela. Por acaso, nesta zona eles têm um peixe seco muito bom, muito pequenininho, muito prateado, muito estaladiço, que até se come bem assim cru e tudo, a acompanhar uma cervejola, tipo tremoços. Parámos o carro onde o M. nos indicou, em frente a um muro alto de cimento caiado. Devia ser a melhor casa da aldeia, com cobertura de telha e portão de ferro. Não sabíamos que havia gente “rica” a morar na cabaceira. Está claro, tinha de ser um branco… Um velhote dos seus setenta anos, com uma tshirt toda rota e uma capulana enrolada à cintura, que é aqui a roupa de casa dos homens.
O homem ficou muito contente de nos ver e não nos deixou ir embora sem nos fazer um resumo da sua vida, num português impecável mas com um forte sotaque italiano. Muito resumidamente, é assim:
“Ainda jovem, quando acabei o seminário, fui para a Amazónia, viver entre os índios. Foi a experiência mais enriquecedora da minha vida. Que gente maravilhosa! Fiquei lá dez anos. Depois, a minha congregação chamou‑me de novo a Itália, onde fiquei mais uns anos. Mas eu já não queria viver na Itália. Lá consegui que me mandassem para África. Vim parar aqui a Moçambique, ainda durante o tempo colonial. Fiz muita coisa por esta gente, construí poços, escolas, postos de saúde. Isto aqui nada funciona, nada. Esta gente não sabe organizar‑se, não sabe tomar conta das coisas. A gente bem os pode ajudar, mas se não forem eles a continuar o nosso trabalho, não vale a pena. E eles não estão interessados em continuar o nosso trabalho…”
Mas então, porque é que fica num país onde nada funciona, onde ninguém sabe fazer nada?
“Bem, eles têm coisas boas. Outras coisas. São pessoas muito boas e, sobretudo, têm tempo uns para os outros, que é uma coisa que nós não temos na Europa.”
Ao lado do Sr. C., está uma mulher dos seus trinta e tal anos, com um bebé ao colo.
“Esta é a minha senhora e esta é a minha filha mais nova. Estes são os meus filhos mais velhos.”
Aponta para dois adolescentes, o mais velho dos quais não deve ser filho biológico dele, porque não parece ter nada de mestiço.
“Sabem, um dia, cheguei à conclusão que não tinha vocação para ser padre. Cheguei à conclusão que a minha forma de espalhar a fé cristã havia de ser outra, através de uma família, de uma descendência… Voltei a Itália e renunciei aos meus votos. Fiquei lá uns anos a arranjar uns dinheiritos, para fazer esta casinha que aqui vêem e para comprar uns terrenozitos que me permitissem subsistir. E depois voltei, para constituir família. Fazemos um bocadinho de milho, um bocadinho de feijão, uns legumes, cá vamos vivendo… Mas agora estou com medo, sabem? Veio aí no outro dia um homem, um português, que disse que era irmão do senhor a quem eu comprei estas terras e que o irmão dele tinha vendido tudo sem autorização da família e que agora a família quer outra vez as terras.”
Evidentemente, não se pode saber se a história do português é verdade ou não. Mas é uma história que, com nuances de pormenor, se ouve de vez em quando: que tenha sido o irmão que vendeu sem autorização da família ou que tenham acabado de herdar de um avô colonial, aparecem portugueses a querer recuperar terras abandonadas há muito tempo. Sosseguei o Sr. C., explicando‑lhe os direitos dele, de acordo com a Lei da Terra. Comprámos o peixe para a Zia e fomos embora.
(…)
Em frente à baía onde ficam a Carrusca e a Cabaceira, é a Ilha de Moçambique. Não se assustem, não me vou lançar em mais um elogio nem em mais uma descrição da Ilha, ela aparece agora aqui como pretexto e contexto de uma anedota do Samora Machel. Aqui também as há, pois é claro, só que, como o Samora é uma figura consensualmente querida e respeitada em Moçambique, são ao contrário das suas congéneres portuguesas. Esta, dizem que verdadeira, é sobre os riquexós. Pouco tempo depois da independência, o presidente Samora (é assim que ele é normalmente referido pelos seus admiradores) disse que não queria ver mais moçambicanos a puxar riquexós, que acho que só existiam na Ilha, e que eram aí uma verdadeira instituição. “Riquexó é trabalho de escravo!,” declarou o presidente.
Uma jornalista portuguesa perguntou‑lhe nessa altura se ele não estaria a exagerar um pouco, acabando assim com uma coisa que fazia parte da tradição da Ilha e que era, além disso, o ganha‑pão de umas quantas famílias.
“Minha senhora, eu não acabei com nada. Eu apenas disse que puxar riquexó é trabalho de escravo, e que não quero ver moçambicanos a fazer isso. Nunca disse que não queria ver mais riquexós. Os portugueses, por exemplo, podem puxar riquexó à vontade…”
(…)
Não íamos passar o fim do ano na praia, pois não? Fomos ao bailarico. Era um grupo de baile de Nampula com muitos músicos, que se iam revezando e que tocavam todos bastante mal. Mas foi muito engraçado! Há uma altura que a banda ataca o Chico Fininho. Só que o vocalista não tinha, obviamente, percebido nada da letra (que não deve ser nada fácil para um moçambicano, convenhamos) e então inventava umas palavras mais ou menos aproximadas, tipo João Mendes em vez de joanetes e coisas assim. E as surpresas não ficaram por aí. A meio da soirée, no meio dos habituais clássicos angolanos e cabo‑verdianos e de umas quantas marrabentas, a banda ataca de repente o “Ai, cachopa, se queres ser bonita, arrebita, arrebita, arrebita!” do Conjunto de António Mafra. Eu deliro! A Karen, evidentemente, não percebe porquê. Mas vocês percebem, ou não? Eh pá, estamos nas Chocas‑Mar, distrito de Mossuril, África Austral, Oceano Índico!»

Ser ou não ser, eis a questão

Há quem diga que a língua tem uma lógica que lhe é própria e que é diferente da lógica propriamente dita, mas eu duvido muito dessa asserção. Penso que é possível encontrar na língua uma lógica que se enquadra perfeitamente na lógica da lógica, se se pode dizer assim. É claro, depende muito de como olhamos para a língua, de que princípios lógicos partimos ao analisá-la. Agora, como se diz na Wikipédia, este texto é sobre o verbo ser e é um texto mais para quem se interesse por coisas de língua; se procura algo sobre a frase de Shakespeare, talvez seja melhor dirigir-se, por exemplo, à Wikipédia, precisamente. Mas isto não é correr com ninguém, note-se, longe de mim tal ideia! Não, não, fique mais um bocadinho e leia o texto, já agora, talvez até ache graça ao pequeno delírio que se segue…
***
O verbo ser está longe de ser obrigatório em todas as línguas [1] ou pode, nalgumas delas, desdobrar-se em vários verbos. Muitas vezes, também as construções com o verbo ser correspondem directamente a construções com outros verbos (por exemplo “ensino no Barreiro” ou “dou aulas no Barreiro” corresponde a “sou professor no Barreiro”).
De facto, o verbo ser pode até ser dispensável em certos tipos de frases. Por exemplo, se quero dizer “eu sou português”, posso dispensar o sou e dizer “eu português” sem deitar fora nenhum bocado de significado. Deito fora é a gramaticalidade da frase em português, que é uma coisa diferente. Há línguas, porém (como, por exemplo, o russo), em que a omissão da cópula é gramatical e é a maneira normal de construir a frase. Já o mesmo não acontece na frase “ele tinha sido soldado, quando o conheci”, porque, sem o tempo que vem agarrado ao verbo ser, não distingo esta frase de “ele era soldado, quando o conheci”, que tem um significado diferente. Na maior parte das vezes, é para isso que servem os chamados verbos copulativos: para incluir, na conjugação, marcas de tempo e outras. Mas não têm um significado específico eles próprios.
Podemos ser tentados a dizer que o verbo ser é como um sinal de igual apenas, mas é, de facto, uma maneira pouco rigorosa de o descrever, como tento demonstrar a seguir. Aliás, mais do que pouco rigorosa, é uma maneira de descrever o verbo ser que pode atrapalhar bastante a tentativa de analisar logicamente certas frases simples em que ele aparece.  
Para começar, é fácil constatar que a frase “o leão é um mamífero” não significa, como toda a gente sabe, que “um mamífero é o leão”. Da mesma forma, perante um grupo de seis professores, se, respondendo a quem me pergunta o que fazem dois deles, o Rui e a Ana, eu disser que “eles são professores”, isto não significa obviamente que “professores são eles”, que é uma frase que reservarei para quando quiser insinuar que os outros quatro não sabem ensinar.
Ser é então mais como uma seta do que como um sinal de igual – o que se diz de alguma coisa ou de alguém tem uma direcção. Há um sujeito de quem se diz alguma coisa e um nome predicativo que diz alguma sobre o sujeito (nunca percebi por que se chama sempre nome mesmo quando é um adjectivo ou um sintagma preposicional …). O sujeito e o seu nome predicativo não são, como vimos, intersubstituíveis e têm casos diferentes: o sujeito é nominativo, como o sujeito sempre é, e o nome predicativo do sujeito é acusativo, como os complementos directos. Por isso é que houve até já quem propusesse considerar o verbo ser um verbo transitivo. Mas parece que não funciona, por que este nome predicativo tem características diferentes dos complementos directos: quando se transforma em pronome, fica sempre no masculino. Dizemos “a Ana é professora da minha irmã e é-o já há muito tempo” e não “a Ana é professora da minha irmã e é-a já há muito tempo”. Além disso, é com este sintagma acusativo que se faz a concordância do verbo, que, noutros tipos de frases, é forçosamente com o sujeito. Como toda a gente sabe, “a vida são dois dias e o Carnaval são três” e não “a vida é dois dias e o Carnaval é três” (por muito que os correctores ortográficos nos queiram para aí puxar). Como se explicarão estas anomalias?
Há apenas um tipo de frases, ditas equativas, que têm a propriedade especial de se poder nelas trocar livremente o que fica dos dois lados do verbo ser sem alterar em nada o sentido: “a Ana é a professora de português da minha irmã” é o mesmo que “a professora de português da minha irmã é a Ana”. Mas então, nestas frases, o verbo ser é mesmo um sinal de igual, ou não? Creio que não. A verdade é que se torna extremamente difícil descrever frases deste tipo se partirmos do princípio que se trata de uma relação de igualdade entre duas expressões referenciais, considerando que “a professora de português da minha irmã” refere uma pessoa que é a mesma que o que é referida por “a Ana”[2].
De facto, é muito mais produtivo, na minha opinião, considerar que esta frase é o resultado de uma sequência de predicações anteriores, que, quando não enunciadas, são pelo menos forçosamente assumidas pelos intervenientes na conversa[3], a saber: “eu tenho uma irmã”, “essa minha irmã tem uma professora de português”, “essa professora de português chama-se Ana” e “nós conhecemos essa professora de português”. Na realidade, uma expressão definida nunca é uma expressão referencial simples, já que o artigo definido é uma anáfora, isto é, retoma forçosamente uma expressão introduzida previamente no discurso como expressão indefinida. Se isso não acontece no próprio enunciado oral ou escrito, é porque é implicitamente assumido por quem o diz/escreve e por quem o ouve/lê. Se eu, ao ouvir a frase “olha, encontrei ontem a Ana”, perguntar “a Ana?, qual Ana?” é porque não eu não tinha esse conhecimento prévio presumido pelo meu interlocutor (ou não conheço nenhuma ou conheço várias Anas que o meu interlocutor também conhece) e a Ana tem de ser apresentada ou individuada antes de o enunciado começar a significar o que deve.
Também são interessantes as frases, aparentemente equativas, em que um nome indefinido se identifica com ele próprio, como “um homem é um homem!”. À primeira vista, parece uma frase desprovida de informação (uma tautologia básica, x=x), mas a nossa intuição de falantes diz-nos que ela diz alguma coisa, por muito que não saibamos explicar com exactidão o que sentimos que ela diz. Uma maneira de explicar a frase, desfazendo a aparente taulogia sem isolar uma pretensa “lógica linguística” do resto da lógica, é postular que as duas ocorrências de homem na frase “um homem é um homem” são distintas. Parecem a mesma coisa, mas são de facto duas coisas que podem ser ditas com as mesmas palavras. Dito de uma maneira simplificada, o primeiro um homem, à esquerda do verbo, pode referir uma entidade específica do mundo real (se digo a frase referindo um amigo que começa a chorar, por exemplo) ou indicar cada uma das ocorrências possíveis da noção (todos os homens, cada homem); a segunda ocorrência de homem, à direita do verbo, refere a propriedade [ser] homem em abstracto, ou seja, o conjunto de traços abstractos definidores de homem. Perante essa relação, ou i) o verbo deixa de descrever a realidade apenas e ganha um sentido deôntico de deve ser e a frase significa, pois, “tu/os homens em geral devem ter as propriedades atribuíveis a um verdadeiro homem”; ou ii) a frase quer dizer “este homem está a ter ou teve propriedades atribuíveis a um verdadeiro homem”: que talvez sejam não chorar, ou não se rebaixar perante outros, ou talvez impor a sua vontade à mulher – o sentido da frase costuma ser bastante machista, mas o grau de machismo efectivo do seu uso depende da situação em que a frase é dita e do conceito de homem de quem a diz… Essa é que é essa!
Pois, essa é que é essa, eis a questão...
_____________
[1] Vários linguistas e pensadores afirmaram, na senda de Benveniste (ver “Catégories de pensée et catégories de langue”, in Les Études philosophiques 4, Out.-Dez. 1958) e levando bem longe a hipótese de Benjamin Lee Whorf de que o pensamento é determinado pela língua, que a ontologia ocidental é fundada por uma coincidência linguística: o facto de o grego ter um verbo ser, que nem todas as línguas têm, e de ter, além disso, a possibilidade de substantivar o infinitivo, que também é um fenómeno que está muito longe de ser universal. Não perfilho a ideia whorfiana (e muito menos esta sua versão mais forte) de que a estrutura linguística ou mesmo o léxico determinem o pensamento e não me parece em absoluto que a relação de causalidade defendida por Benveniste se possa provar.
[2] Usando como exemplo a frase “Scott foi o autor de Waverley”. Bertrand Russell expõe, no seu famoso texto On denoting, os problemas que surgem se se considerar que ambos os segmentos de uma frase equativa são referenciais e referem a mesma entidade do mundo real, e propõe uma solução para esses problemas. O texto de Russell é de leitura difícil, e não deve ser só para mim, porque o próprio Russell prevê que o texto assim seja considerado: “Só peço ao leitor que não se decida contra esta perspectiva – uma vez que pode ser tentado a fazê-lo, devido ao seu aparente excesso de complicação”. A razão dessa dificuldade porém, é a dificuldade intrínseca da questão tratada: [A] tentativa [de] construir uma teoria sua sobre o tema da denotação (…) convencê-lo-á de que, seja qual for a teoria, não pode ter a simplicidade que dela se poderia esperar à partida.” Não há dúvida de que estamos perante uma questão intrinsecamente complexa, talvez mais ainda para um lógico do que para um linguista, que não tem atrás dele toda uma tradição de discussão dos valores de verdade das proposições; mas também é possível que se possa evitar alguma complicação abandonando a ideia de que as expressões definidas são referenciais (expressões denotativas, na terminologia russelliana), como se propõe no último parágrafo deste texto…
[3] Uma predicação anterior a um enunciado, que não é dita pelos intervenientes na situação de enunciação mas que é pressuposta por ambos, chama-se um pré-construído na teoria do linguista Antoine Culioli. São dele as propostas apresentadas nos dois últimos parágrafos do texto, tendo-me eu limitado a tentar simplificar as suas explicações para leitores não familiarizados com a sua teoria ou com teorias linguísticas em geral.

12 de dezembro de 2010

O que nem a brincar se diz e o que a brincar nunca se sabe se se diz ou não

Tantas vezes que me tem acontecido: eu achar que uma piada é a troçar de uma coisa e a pessoa a meu lado julgar que é a troçar de outra. Até já vi gente zangar-se, e muito!, por não concordar sobre aonde pretende chegar uma graça: uma pessoa, que interpreta a graça de uma certa maneira, acha que graças assim não têm gracinha nenhuma; a outra, que a interpreta de outra maneira, diz-lhe que é patetice não achar graça à tal graça… Uma das questões que se coloca frequentemente em relação a cartoons, sketches de comédia e outras intervenções de sátira moral, de costumes ou directamente política, é que são, de facto, interpretados de diversas maneiras, algumas antagónicas entre elas...
O que é ao certo o humor, não sei dizer. Uma ideia que me parece produtiva, no entanto, para explicar o que nos faz rir é a de que o humor surge da quebra da ordem de coisas considerada natural pela pessoa que ri – contanto que essa quebra da ordem natural não cause real sofrimento: uma pessoa que escorrega numa casca de banana e cai faz rir, se não ficar desmaiada ou cheia de sangue.
Como a ordem natural de certas coisas não é a mesma para toda a gente, o que é, para alguns, quebrá-la não o é forçosamente para outros. Isto pode estar relacionado com a cultura de cada um, em sentido lato, mas também pode ter que ver exclusivamente com, por exemplo, os conhecimentos, a ideologia e os sentimentos do indivíduo – a cultural no sentido mais pessoal que a palavra possa ter. Um exemplo do que acabo de afirmar: o grupo Les Luthiers fez uma experiência interessante de humor musical: sobrepor, no tema “Concerto grosso alla rustica”, uma peça barroca, tocada com uma orquestra de cordas, e uma música de tipo popular andino, tocada com instrumentos tradicionais (não é, note-se, uma peça de humor em que se pretenda dar uma opinião, mas estou agora a falar de uma característica geral do humor).



As reacções que tenho observado à peça vão desde desatar à gargalhada (reacção de muita pouca gente, com alguma educação musical e que conhece bem os dois tipos de música que ali se fundem) até ficar perfeitamente impassível, sem perceber o que se pretende com aquilo (reacção da grande maioria das pessoas).  
Além disso, não basta que a obra humorística nos provoque estranhamento, temos de reconstruir a ordem pervertida para perceber a piada. Essa reconstrução pode levar também diferentes pessoas a diferentes ideias do que foi destruído, consoante os seus pressupostos ideológicos ou culturais, e a que compreendam, pois, a piada de diversas maneiras. Creio, por exemplo, que a leitura de alguns cartoons de Dan Pararo relacionados com questões religiosas depende da posição de quem vê o cartoon relativamente a estas questões.

Embora provavelmente certos cartoons deixem menos espaço para várias interpretações do que outros (não é o caso deste último, relativamente aos quatro anteriores pelo menos na resposta à pergunta: “Este cartoon é contra a religião ou contra o ateísmo?”), a ambiguidade nunca desaparece completamente. Não quero dizer com isto que o humor implique forçosamente, como nestes exemplos, a possibilidade de leituras plurais. Apenas que pode perfeitamente trazer agarrada a ele essa possibilidade – e a traz de facto muitas vezes agarrada.
Outra questão é a do limite da gravidade que bloqueia o humor. Para diferentes pessoas, situa-se em diferentes pontos a fronteira onde a gravidade dessa quebra da ordem natural deixa de fazer rir para provocar vários tipos de reacções negativas, desde o puro estranhamento ao incómodo ou à repulsa. Dito de outra forma, variam também ideológica e culturalmente os limites daquilo com que se pode brincar – ou daquilo que pode fazer parte de brincadeiras, mesmo que não seja o seu objecto central.
Estava no outro dia a ouvir o álbum Beleléu, leléu, eu, de Itamar Assumpção e a pôr-me esta questão relativamente à canção “Luzia”). 

A letra da canção é a seguinte:
[Falado, várias vozes de mulheres:] Olha aqui, Beleleú! Tá limpo coisíssima nenhuma, meu, não tô mais afins de curtir a tua e nem ficar tomando na cara, essa de ficar na de que o Brasil não tem ponta direita, o Brasil não tem isso, o Brasil não tem aquilo, que black navalha é você, Beleléu? Tá mais é parecendo chamariz de turista e isca de polícia, onde tá tua malícia, meu, onde tá tua malícia?
[Voz de homem, cantado:] Deixa de conversa mole Luzia  / Porque senão eu vou desconsertar a sua fisionomia / Porque senão eu vou desconsertar / Você quer harmonia mas que harmonia é essa Luzia? / Só me enche o saco (só chia, só chia) / Me obriga à mais cruel solução / Desço pro porão da vil covardia, mas te meto a mão / Chega de conversa mole, Luzia / Eu sei que tua mãe já dizia, é mais um / Malandro talvez ladrão / Já não chega a sogra e agora a cria, que decepção / Você nem vai ter o prêmio de consolação / Quando eu pintar, trazer a taça de tetracampeão / E uma foto no jornal / Chega pra lá Luzia, ainda vou desfilar / Tetracampeão Luzia, porta estandarte
O tom de música e letra leva nitidamente a/o ouvinte a interpretá-la como humorística. Mas o que diz esse humor? O primeiro problema é o da ambiguidade da sátira. O que é que está a ser satirizado? A personagem feminina da canção, a personagem masculina ou ambas? Em seguida, põe-se o problema dos limites do humor: só pode haver humor se a/o ouvinte não interpretar o machismo – e, principalmente, a violência doméstica – como algo tão grave que suspenda toda a possibilidade de fazer rir ou sorrir.
E onde quero eu chegar, então? Quero com isto dizer que não pode exprimir-se opiniões através de anedotas, cartoons e sketches de comédia? Não, pode. Mas, a não ser que sejam muito especiais, tem de se aceitar à partida que aquilo que se quis dizer pode ser – e vai ser, provavelmente… – interpretado também de outra maneira…
***
Nota final a propósito de uma obra recentemente lida, que de humorístico não tem nada:
O problema da ambiguidade da opinião que se quer fazer passar não é, obviamente, só do humor. Também o discurso literário pode ser interpretado de várias maneiras, possivelmente até muito diferentes umas das outras. A ideia é antiga e banal, e não vou repisá-la aqui; mas descreve, a meu ver, de forma eficaz, uma parte importante do fenómeno literário e artístico em geral. Não é esta, no entanto, a única razão possível para limitar a eficácia da literatura como meio de exprimir opiniões morais, políticas ou outras. Outra razão pode ser que a densidade psicológica das personagens ou das pessoas líricas, quando existe, interfira com a mensagem que se pretende transmitir. Dito doutra maneira, revelar a complexidade profunda dos sentimentos e das acções humanas torna-se muitas vezes incompatível com tomadas de posição sobre determinadas questões, porque dilui a distinção do que se apresenta como certo e errado.
Por exemplo, li recentemente The Power and the Glory, de Graham Greene. A história do livro passa-se no México dos anos trinta, na época das perseguições aos católicos por parte do governo de Plutarco Elías Calles, que foram especialmente violentas no Estado de Tabasco, governado pelo feroz anticlericalista Tomás Garrido Canabal. Não tenho dúvidas de que Graham Green tenha escrito a novela com intenções de denunciar as perseguições aos católicos e os crimes de que foram vítimas muitos padres. Apesar disso, como faz uma caracterização psicológica extremamente densa das personagens, vasculhando em contradições universais da mente humana, sejam quais forem as suas convicções, o livro não se pode usar como instrumento político nem a favor de nada nem contra coisa nenhuma. De facto, conforme esteja para isso predisposto ideologicamente, o leitor pode ler nele desde um panfleto contra o militantismo revolucionário anticlericalista até um panfleto contra a própria religião e, sobretudo, a religião católica.
[Escrevi isto antes de saber que, de facto, o cardeal Bernard Griffin tinha condenado a novela acusando-a de “paradoxal” e exigindo que Greene alterasse partes do texto. Deixo aqui um link para uma página com alguns excertos da autobiografia Ways of Escape, em que Greene fala sobre as personagens da novela.]

6 de dezembro de 2010

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 4: Em que tempo está o verbo?

É uma história que um amigo meu gostava de contar: tinha um professor de português no liceu que uma vez disse isto ao entrar na sala:   
«Bom dia! Em que tempo está o verbo?»
A resposta que ele queria ouvir era que o verbo (que ele provavelmente consideraria “subentendido”, de acordo com a terminologia em voga na época) estava no presente do conjuntivo, porque, explicava ele, a frase completa seria “Que tenham um boa dia!”.
É claro, isto é muito discutível. Qualquer aluno poderia ter argumentado, se tivesse tido presença de espírito para tal e coragem para contradizer o professor, que o verbo “subentendido” estava no presente do indicativo: “Desejo(-vos) um bom dia!”
Agora, há outra maneira, mais complicada, mas talvez não menos lógica, de entender o “subentendido” da frase “Bom dia!”. Em vez de ser “Que tenham um bom dia!” ou “Desejo(vos) um bom dia!”, pode argumentar-se que a frase completa é, na realidade, “Quero que/Desejo(-vos) que tenham um bom dia!”, especificando quem deseja o quê a quem.   
Se assim for, a pergunta deixa de ser “Em que tempo está o verbo?” para passar a ser “Em que tempo estão os verbos?”. Resposta que agradaria ao professor do meu amigo: «Um no presente do indicativo, outro no presente do conjuntivo.» O que, segundo alguns, significa antes que o primeiro está no presente e o outro não tem tempo, porque também se pode considerar que o modo conjuntivo não tem propriamente tempo.
Não é bem esta a minha maneira de ver as coisas. Prefiro considerar que tempo e modo são categorias ambas forçosamente presentes em todas as frases de todos os enunciados. Aliás, vou ainda mais longe e considero que tempo e modo são de facto categorias presentes em todas as proposições de todos os enunciados e não apenas nas frases no seu todo. É que, se assim não for, não se pode explicar a diferença de sentido (de que creio que ninguém duvida) entre “Espero que não esteja a chover”, “Espero que não chova”, “Espero que não tenha chovido”, etc. Para mim, faz sentido perguntar em que tempo estão os verbos na frase “[Espero que/Desejo(-vos) que tenham um] Bom dia!” e a resposta é a seguinte: O primeiro está no presente e o segundo está no futuro – a não ser que a frase seja entendida como significando “Espero que/Desejo(-vos) que estejam a ter um bom dia”, caso em que estariam no presente os dois verbos…
A questão, estão a ver, é que não havia nada para fazer em Joanesburgo, uma cidade enorme onde eu não conhecia ninguém, e escrever um texto sobre a frase “Bom dia!” é um passatempo tão bom como outro qualquer.
No dia anterior a começar este texto, fui jantar com um amigo neerlandês, que estava, por coincidência, também de passagem por Joanesburgo, e uns colegas dele. Como os colegas dele eram franceses, surgiu, ao abordarmos a refeição, uma conversa sobre bom proveito e bon appétit.
«Como é que se diz em português “Bon appétit !”?», perguntaram eles.
«O que se diz antes de começar a refeição é “Bom proveito!”», disse eu. «Mas agora, quando vou a Portugal, ouço cada vez mais “Bom apetite!”. É isso que dizem as pessoas mais novas. Acho que “Bom proveito!” há-de acabar por desaparecer e há-de passar a dizer-se “Bom apetite!”»
Reflecti uns segundos e continuei:
«E eu acho mal, sinceramente – devia antes dizer-se “Bom proveito!”».
Os meus convivas são bem capazes de ter pensado o que alguns de vocês estão agora a pensar: Aqui temos mais um purista, que insiste que a língua deve ser sem negócios de import-export, daqueles que acha que as novas gerações enfeiam sempre o que era antes tão bonito… Nada disso, minhas caras e meus caros, não é de purismo conservador que se trata, mas sim de sentido lógico: o que eu expliquei depois foi que não é só em português que não se deveria dizer “Bom apetite!”; em francês também não se deveria dizer “Bon appétit !”.
Dizer “Bom apetite!” é, no fundo, dizer “Espero que esteja com um bom apetite”, com dois presentes. Bom, também pode significar “Espero que venha a ter um bom apetite”, com um presente e um futuro*, mas creio que não é assim que se entende normalmente a frase. Ora para quê desejar a alguém que esteja com apetite? Ou está ou não está e, se não se estiver, que não se obrigue a pessoa a comer contra vontade. A não ser que seja mesmo por doença que o apetite tenha desaparecido… “Bom apetite!” soa-me mais como coisa que se deseje a quem padeça de facto da algum mal que lhe tire o apetite…
Para a maior parte da comida que se come (e sobretudo se for num restaurante na África do Sul…) e para a maior parte das situações em que se come, “Bom proveito!” é que é o voto que faz sentido, o “Bom dia!” à refeição. “Espero que a comida lhe faça bem, que tire dela bom proveito; que lhe dê a energia de que precisa e que essa gordura toda que você para aí está a comer não lhe entupa os vasos sanguíneos, minha amiga ou meu amigo!” O segundo verbo está no futuro e é um futuro que se deseja saudável. Um futuro a que o tal professor do tal amigo meu havia de querer chamar presente do conjuntivo.      
__________
* Sobretudo se pensarmos que “o apetite vem quando se come” (“l’appétit vient en mangeant”), que é como os franceses dizem que “o comer e o coçar, a questão é começar”…

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 3: Toda a gente sabe dizer, mas ninguém sabe escrever

Em francês, há um exemplo famoso de uma frase que se pode dizer mas não se pode escrever: « Un sot avait pour mission de faire parvenir le sceau d'un seigneur à son roi. Il le mit dans un seau et partit à cheval. Le cheval fit un saut et les trois [so] tombèrent ! »
Para quem não saiba francês, aqui fica a tradução e a explicação: “Um pateta tinha como missão levar ao rei o selo do seu senhor. Pô-lo num balde e partiu a cavalo. O cavalo deu um salto e os três [so] caíram.” Como as palavras sot, “idiota, pateta, parvo”, sceau, “selo, carimbo, chancela” e seau, “balde” se pronunciam da mesma maneira ([so], como a palavra sou em português europeu standard), podem aglutinar-se na pronúncia as três, mas não há maneira de as aglutinar na escrita.
Passatempo de quem não tem mesmo nada para fazer a não ser passar o tempo: Como traduzir isto para português, sem o peso da explicação? O resultado é meio ingénuo e meio disparatado, mas enfim, mais longe que isto não consegui ir:
“S. começou a cozer ovos para o pequeno-almoço e Z. foi coser a alça da jardineira da miúda, que se tinha descosido no dia anterior. Demoraram os dois exactamente o mesmo tempo a [kuzer] o que tinham de [kuzer].”  

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 2: Um comportamento pouco racional


O meu celular não funcionava. Nada a fazer – nem mandar nem receber mensagens, nada. Talvez fosse o roaming que não funcionasse fora de Moçambique, talvez estivesse num naqueles dias em que a rede desaparece… O telefone do quarto de hotel também não queria funcionar. Tive de pedir para me fazerem a ligação da recepção, mas, por qualquer razão, também dos telefones da recepção não a conseguiram fazer. Desisti.
Quando terminei o que tinha de fazer, depois de almoço, fui ao centro comercial perto do hotel para comprar um cartão SIM sul-africano. Mas não havia: a loja de telefones estava fechada e nenhuma outra loja vendia cartões SIM.
Quando voltei ao hotel, a recepcionista que tinha tentado fazer-me a ligação de manhã perguntou-me se eu já tinha telefone. Contei-lhe da loja fechada e da impossibilidade de comprar um cartão SIM sul-africano ali nas redondezas.
“Também não quero meter-me agora num táxi para ir à procura de um cartão SIM, não vale a pena.”
“Eu arranjo-lhe um cartão SIM”, disse ela. “Aliás, já pedi um a um amigo. Quando chegar, eu entrego-lho.”
Agradeci, naturalmente, uma tão grande amabilidade e perguntei o preço.
“Não tem de pagar. Sou eu que ofereço.”
“O hotel oferece?”
“Não o hotel, eu pessoalmente. Eu ofereço-lhe o cartão SIM.”
“Não”, recusei eu, “não me vai agora oferecer o cartão SIM, tenho de lhe pagar!”
“Não tem de pagar. Eu quero oferecer-lhe o cartão. Não posso oferecer-lhe o cartão SIM?”
Quando, à noite, contei a história a um amigo meu, o comentário dele foi que a recepcionista estava a ter uma atitude pouco racional. Mas era, sem dúvida, uma atitude simpática.
“É claro que, se insiste mesmo, me pode oferecer o cartão SIM. E eu fico-lhe imensamente agradecido, é muito simpático da sua parte!”
Fiquei no hotel 6 dias. Todos os dias via a recepcionista e nos cumprimentávamos, mas ela nunca me deu nenhum cartão SIM, nem nunca voltou a falar-me do assunto.

O doente imaginário – notas de uma ida ao médico 1: Dos malefícios da medicina

Uma pessoa sente-se mal e vai ao médico. O médico faz umas análises e um electrocardiograma e diz à pessoa que ela teve um enfarte do miocárdio. Vem, aliás, escrito na fita de papel que sai da máquina: septal myorcadial infarction. A pessoa fica, é claro, muito assustada. Ao fim de muitas peripécias que não vale a pena aqui descrever e quase duas semanas de espera, é finalmente examinada por um cardiologista. E fica a saber que nunca tinha tido nenhum enfarte do miocárdio e que tem o coração a funcionar perfeitamente.
A moral da história pode ser que não vale a pena ir a médicos de cuja competência não se tenha um mínimo de garantias – não só não vale a pena como pode até ser perigoso; ou que quem não sabe ler electrocardiogramas não o deve fazer; ou que não devem ser nunca levadas a sério as interpretações das máquinas de eletrocardiografia. Muitas morais que vão dar, para a maior parte das pessoas, a uma moral já muito antiga: não se pode confiar nos médicos…
A incompetência dos médicos é motivo recorrente de sátira há já muito tempo: O médico? Que nos livre dele Nosso Senhor mais do que da doença, porque ele é bem pior! “Curado ontem da minha doença, morri a noite passada do meu médico”, escreveu o poeta setecentista Matthew Prior. Voltaire, décadas mais tarde, definiu os médicos como sendo “homens que receitam remédios de que sabem pouco para curar doenças de que sabem ainda menos em seres humanos de quem não sabem nada”. Já no século XIX, Jacob Bigelow, ele próprio médico e professor de medicina em Harvard, afirmou uma vez que “a opinião imparcial da maior parte dos médicos sensatos e experientes é que a quantidade de morte e de desastres no mundo seria menor se não se fizesse nada para curar a doença”. Outro pensador do século XIX, Oliver Wendell Holmes, que era também médico ele próprio, dizia acreditar firmemente que “se todas as substâncias actualmente usadas para fazer remédios fossem atiradas ao mar, seria melhor para a humanidade – e muito pior para os peixes”. E claro, depois de passar por uma história como a descrita no início deste texto, muita gente não hesitaria em subscrever essa tradicional demonização da medicina e dos médicos… Poupando apenas, talvez, aquele médico que lhe disse a verdade, aquele que lhe revelou o disparatado erro do outro médico – e esse único médico que escapa à generalizada condenação pode, de facto, ser qualquer um…
Críticas à medicina como as que referi acima não são, na realidade, muito exageradas e têm uma razão simples, de que, pelo que percebo quando discuto o tema, muita gente não tem grande consciência: até há relativamente pouco tempo, os médicos não faziam, não podiam fazer, muito mais que limpar e coser feridas, e cortar partes doentes do corpo que não fossem vitais. As práticas médicas correntes e os “medicamentos” usados limitavam-se a ter, como único efeito benéfico, um efeito placebo – e tinham, muitas vezes, efeitos desastrosos que justificavam perfeitamente aforismos como os que citei. Até ao aparecimento da teoria dos germes, em meados do século XIX, não havia uma compreensão real das causas da maior parte das doenças e não me parece muito polémico afirmar que os primeiros grandes avanços na eficácia da acção médica são as vacinas, cujo uso se começa a alargar no século XIX, a anestesia em meados do mesmo século e a penicilina já em pleno século XX.
É interessante constatar que, desde os primórdios da humanidade, a esperança de vida pouco ou nada aumenta, à escala mundial, até meados do século XIX, para depois disparar até aos níveis actuais que, são, tendo em conta o que é o normal para a nossa espécie em todo o seu tempo de existência, perfeitamente sobre-humanos. É verdade que, por muito que o aumento da esperança de vida coincida de forma directa com o aumento dos conhecimentos da medicina, não se pode estabelecer entre esses dois aumentos uma relação causal simples. Há vários outros factores, sobretudo o aumento da higiene e a melhoria da alimentação, que contribuem muito provavelmente mais que os progressos da medicina para prolongar – e tornar, no geral, mais confortável – a vida humana. Ainda assim, ao contrário do que afirmava Bigelow, em qualquer lugar do mundo, e por piores que sejam as instalações, os meios de diagnóstico, a aparelhagem em geral e a formação dos técnicos de saúde, é sempre muito melhor ter hospitais e postos de saúde que não os ter e é sempre melhor utilizá-los que ir ao curandeiro ou esperar resignado que se cumpra o seu destino, disso não tenho eu dúvidas. Eu é que não vou mais ao médico, mas isso é outra história. Quer dizer: não vou mais ao médico, a não ser que a isso me obrigue a doença ou algum acidente, claro está…