18 de fevereiro de 2011

Duas notas sobre reformas da escrita

I
Numa conversa entre amigos, veio a certa altura à baila, como creio que acontece agora muitas vezes nas conversas entre amigos, o Acordo Ortográfico de 1990 (ou de 2009, se preferirem). E disse uma das amigas que tinha um problema com os agás que desaparecem, porque não havia necessidade de os fazer desaparecer. Ninguém sabia de que agás é que ela falava. Explicou então que se referia a herbáceo e derivadas eruditas de erva, que perdiam agora o agá. Eu, que não sabia de tal inovação, gostei dela.

“Ora aí tens uma coisa que faz sentido: ou herva ou erbívoro, das duas uma”, disse eu.

Mas não desaparecem nenhuns agás, afinal. Uma outra amiga, mais bem informada, explicou que a primeira amiga tinha caído no conto do vigário de mais um mito urbano. E tinha toda a razão. Se formos ver ao Portal de Língua Portuguesa, que é onde, segundo esta última amiga, está tudo o que há a saber (mais uma vez, ela tem toda a razão), de facto não se altera nada no uso do agá. E podemos até confirmá-lo na lista de palavras com agá inicial que sofrem alteração com o acordo.

É curioso: a criação de incoerências na grafia de palavras da mesma família é um dos vários argumento que já vi e ouvi contra o novo acordo (normalmente, dá-se como exemplo Egito e egípcio e depois não se conhece outro…), mas nunca tinha ouvido as pessoas que agora criticam essas incoerência pronunciarem-se contra a incoerência nas grafia de palavras com uma origem comum no sistema ortográfico anterior ao acordo. Como ervanário e herbanário, por exemplo [1]. Bom, a verdade é que, em geral (como no caso de [i'ʒitu] e [i'ʒipsiu], a “incoerência” das famílias de palavras é bem mais do que gráfica, ela existe mesmo na língua e não há nada a fazer: não podemos transformar capilar em cabelar nem cabelo em capelo só porque são palavras de linhagem comum… E os agás iniciais, essa é que essa, não assinalam mesmo nada que faça parte da língua. Os italianos, que nisso tiveram muito mais bom senso do que nós, acabaram já há muito tempo com os agás iniciais, deixando só dois ou três de recordação. Em francês, se tivessem o mesmo bom senso, deixavam só os que marcassem a ausência de ligação fonética com as palavras anteriores. E nós e os espanhóis e os outros povos que só temos agás na escrita que não representam nada da língua, bom, acabávamos com eles e era uma poupança de tinta e um passo em frente na lógica da ortografia. É claro, também se pode defender uma lógica etimológica, mas não é de modo algum essa a lógica ortográfica actual [2].

Mas enfim, deixemos isso agora e voltemos àquela parte, no início do texto, em que a minha amiga não via necessidade de se fazer a alteração que ele acreditava ter-se feito. É este, na minha opinião, o melhor argumento contra o acordo: Para quê alterar o que não há necessidade de alterar? Alguém se queixou? Havia algum movimento ou uma forte corrente de opinião a favor de uma alteração? Se não, para quê mudar? Os argumentos que tenho ouvido sobre as vantagens da mudança, insistindo, de diversos ângulos, numa unificação ortográfica entre os países de língua portuguesa (que, afinal, o acordo não faz), são tão fracos como os argumentos contra o acordo acusando-o de vir a ter um efeito sobre a língua que não pode evidentemente vir a ter, que nenhum sistema ortográfico teve nem terá, nem de muito longe (ver, a propósito, nesta Travessa, o texto “Acordo ortográfico: a pura brancura de lyrio”). E é neste esgrimir de argumentos sem grande fundamento que estamos. Agora o argumento de que não se deve mudar quando não há necessidade de mudança (sobretudo na sua versão “não há que legislar quando não há necessidade de (nova) lei”) é bom. Não é tão arrasador que seja impossível opor-lhe também bons argumentos, mas é bom. Quer dizer, agora é bom, mas não se aplica eternamente, pelo menos se não quisermos ter uma ortografia completamente desfasada da língua, como a do francês ou do inglês. E acho que tanto os amigos do acordo como os seus inimigos estão satisfeitos com a lógica pós-1911 da ortografia portuguesa, os desacordos são de pormenor [3]. Então haverá que ir fazendo reformas, dizia eu, mas não são imperativas já.

O melhor, se calhar, tendo em conta que há sempre uma oposição apaixonada a quaisquer mudanças na maneira escrever uma língua, é ir introduzindo reformas a pouco e pouco, quase sem ninguém dar por isso. Como em 1973, em que não acho que as pessoas não se queixaram tanto como se queixam agora do desaparecimento de uma marca de timbre das vogais, o acento grave, que não deve ter afectado menos palavras escritas do que o desaparecimento dos cês e pês mudos [4]. Está bem que eram outros tempos, mas é capaz de também ter contado o facto de o decreto ter um único parágrafo…

Podia começar-se, para ninguém protestar, apenas por aquilo que julgo que ninguém se atreve a defender: o desaparecimento do hífen em hei-de, hás-de, há-de e hão-de, essa aberração. E, por exemplo, o desaparecimento do acento gráfico em palavras graves terminadas em –óida, –óide e –óico, que não deve ser muito polémico: pois se o acento já desapareceu em certos contextos em que o se pode ler aberto ou fechado (como em comboio e em apoio), porquê mantê-lo noutros? E porquê mantê-lo, sobretudo, em contextos em que não se pode pronunciar fechado, como nos casos das palavras em –óico? Pois, podia começar-se por estas coisas assim e deixar o resto para depois [5]… . Quer dizer, não é por mim, mas por quem se importa muito com as alterações…


II
A entidade que regula as coisas da língua na Dinamarca, o Sprognævn, introduziu, há uns anos, um sistema de pôr vírgulas novo, chamado “nova vírgula”, que esteve algum tempo em fase experimental, antes de o tornarem oficial: fizeram panfletos e brochuras a explicar tudo e começaram a apresentar também a nova pontuação em escolas e nalguns textos de jornais e revistas. Como os dinamarqueses são tão conservadores em coisas de língua como os outros povos todos e tinham tanto orgulho nas suas vírgulas clássicas como nós temos nas nossas consoantes não pronunciadas, resistiram à inovação. E, como acontece também muitas vezes, foram os sectores ideologicamente mais conservadores a liderar a oposição à nova vírgula... O Sprognævn avaliou a reacção do público e viu que, embora não fosse a maioria dos dinamarqueses a recusar a nova vírgula, era, ainda assim, um número razoável de pessoas; e, na altura de oficializar a nova vírgula, respeitou a vontade dos opositores e disse que continuava a ser oficial também a clássica vírgula gramatical. Toda a gente ficou satisfeita.

Menos eu, devo dizer. Quer dizer, não é que não tenha ficado satisfeito com a atitude do Sprognævn, mas não fiquei nada satisfeito com manter-se a vírgula gramatical antiga. Quando propôs a nova vírgula, o Sprognævn, que até é constituído por pessoas que sabem de língua, não o fez por acaso. Por um lado, a nova vírgula tornava lógico o sistema de pontuação, distinguindo, na escrita, frases de leitura ambígua no sistema antigo e não separando os verbos dos seus complementos, quando estes são uma oração. Por outro lado, as vírgulas do dinamarquês passavam a ser como as do inglês e do espanhol, as línguas estrangeiras mais aprendidas pelos dinamarqueses. E eu, que passo a vida a traduzir do inglês textos escritos por dinamarqueses, posso confirmar-vos que aquela malvada vírgula gramatical dinamarquesa está sempre presente, a baralhar, de vez em quando, a leitura.

Uma lição que esta história nos dá, como se não estivéssemos fartos de a saber, é que, nisto de língua, ninguém aceita com facilidade que a opinião dos especialistas conte mais do que a sua. Eu percebo, eu percebo… Mas, além de repetir essa lição, a história serve-nos também de matéria de reflexão: É ou não de louvar a atitude do Sprognævn dinamarquês? Muitos acharão, sem dúvida, que o legislador fraquejou, que atitudes de tão grande abertura não levam a lado nenhum, que o saber técnico justifica, às vezes, que se imponham medidas impopulares, etc. Ok. Mas também se pode pensar que o Sprognævn deu a muitas academias responsáveis pelas políticas linguísticas dos seus países uma lição de democracia.
________________

[1] Eu chego até a pensar, sinceramente, que talvez se pudesse dar ortograficamente parentesco a palavras que não o têm, mas que todos os portugueses hoje tomam por familiares, como obcecar e obsessão. Embora tenham origens diferentes, o significado juntou-as de tal maneira que ninguém distingue hoje obsesso de obcecado, de maneira que era melhor irmaná-las desetimologizando-as (credo!) e passarem a ser as duas com s, por exemplo… É ir longe demais? Capaz... 

[2] Se fosse, enfim, talvez não tivesse de se escrever aleluia com agá inicial e talvez horda não precisasse de agá (talvez…), mas um homicida seria um hassassino. E aqui está um caso em que muita gente discordaria de uma coerência ortográfica entre palavras da mesma família, porque as relações familiares podem levar a acusar os pais dos crimes dos filhos e o haxixe, que se escreve com agá, embora seja a palavra mãe de assassino, não provoca violência, muito menos leva ao homicídio...

[3] Comparada com a reforma ortográfica de 1911, a reforma actual nem reforma chega a ser, porque mantém a mesmíssima lógica ortográfica. A reforma de 1911, ao passar de uma lógica essencialmente etimológica, ou, pelo menos, assente na tradição, a uma lógica fonológica, é uma alteração radical da escrita.

[4] Aliás, eu pergunto-me sempre a mim mesmo por que razão as pessoas que defendem a necessidade de marcas da abertura de vogais átonas não defendem o retorno dos acentos graves e não o queiram alargar até a outros casos em que nunca houve marca dessa abertura, como esquecer, mestria, etc.

[5] Para não sairmos da página do Vocabulário de Mudança já aqui referida, dou apenas o exemplo das palavras começadas por agá: pode discutir-se hidroeletricidade, hiperatividade, hiperativo, hipercorreção e hipercorreto, em que se faz desaparecer o c antes do t; também se pode discutir o caso de hemorroida, porque existe a palavra doida, e os casos das palavras em –óide [haloide, haploide, helicoide, helmintoide, hematoide, hemoide, hemorroide, hemorroidesheteroide, hialoide, hidatoide, hidroidehimenoide, hioide, hiperboloide, hipnoide, hipocicloide, holoturioide, homaloide, homoide e humanoide], porque existem as palavras adoide(s) e endoide(s). Ainda assim, estou convencido de que esta alteração suscita menos resistência do que a eliminação do c mudo no primeiro grupo de palavras... Agora, não parece haver muito a discutir sobre heroico, hilozoico, hipozoico, holozoico e homeozoico, porque a clássica regra lógica de eliminação da redundância leva forçosamente à eliminação da marca de abertura do [ó] num contexto em que não ocorre nunca [ô]… Já agora, vocês sabem o que significam estas palavras todas? É que eu só conheço meia dúzia delas, o resto para mim é chinês...

4 comentários:

José, o Alfredo disse...

Ora viva. Eu também dou por mim muitas vezes a falar sozinho, e algumas delas é porque estou a falar destas coisas. É pois com ganas e pouca contenção que vou aproveitar a oportunidade. O que não quer dizer que não tente evitar alongar-me, porque tentarei.

Cá vou eu então.

Nessa coisa dos agás e das ervas e dos herbáceos e dos egípcios parece-me que vemos as coisas de forma irremediavelmente oposta. Eu gosto imenso de ver na língua portuguesa essas duas vias entre não sei bem o quê, habitualmente latim, e isto agora: a erudita e a popular. Gosto muito disso e, talvez por ser um ignorante total na matéria, tenho a sensação de que uma boa parte dessas evoluções é espontânea, ou seja, que as regras se aplicam à posteriori, reconhecendo usos já instalados e não "forçando-os", como me parece que acontece com este acordo.

E acho que era basicamente isto que eu tinha para dizer. Isto e que ainda não consegui perceber o para quê do acordo, mas, lá está, eu pesco muito pouco disto tudo.

V. M. Lucas Lindegaard disse...

A única coisa que eu defendo aqui é que não se devem usar dois pesos e duas medidas, conforme queiramos preservar uma forma ou a queiramos recusar. Se se defende a coerência ortográfica de famílias de palavras, que se a defenda sempre; se se defende a necessidade de marcas da abertura das vogais, que se a defenda sempre; se se defende uma lógica etimológica, que se a defenda sempre; porque senão estamos a defender que aquilo a que estamos habituados é que está certo... Também pode ser, em última análise, mas não me parece que hábitos e gostos sejam bons argumentos. E é mais disso que tem sido feita a discussão.

desconhecido disse...

Eu sou aquela que embirrou com os agás. Apesar de saber que a coisa era de pouca monta, no panorama da reforma geral, deu-me para disparar contra o mais fraco. Na verdade, a embirração foi só uma birra contra a imposição de me obrigarem a repensar porque o restante, objetivamente, faz sentido. As línguas (vivas) sobrevivem aos seus falantes, ignorando olimpicamente aqueles que, como eu, são dados ao mau feitio. Já fiz a contrição e estou em paz.

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Cara amiga dos agás, já vais objetivamente à minha frente, porque eu continuo objectivamente a adiar a adopção da nova grafia (a preguiça é muita). Mas é para breve, prometo....