11 de fevereiro de 2011

Nomes próprios estrangeiros: um equilíbrio a bem dizer impossível…


A questão da normalização de nomes próprios estrangeiros é complicada. Que eu saiba, essa normalização sempre existiu apenas, de forma eficaz (e seja lá em que língua for) para um número muito reduzido destes nomes. Sempre houve e há-de haver instabilidade na maneira de nomear gente, sítios e instituições várias que são pouco referidos ou só são referidos há pouco tempo, e cujo nome original obedece, ainda por cima, a uma fonética que nos é estranha. Mas eu compreendo, por outro lado, a vontade de arranjar uma norma, sobretudo se a finalidade dessa normalização for fazer que toda a gente se compreenda melhor. E a possibilidade de desentendimento varia muito. Na maior parte dos casos, não há grandes confusões com o nome do país aqui ao lado, escreva-se ele Zimbabwe, Zimbabué ou, como eu já aqui propus, Zimbábuè (seguindo a norma moçambicana para os topónimos moçambicanos com a mesma terminação). Mas, claro, entre Chennai e Madrasta a diferença é muita – e é também muita, por isso, a possibilidade de desentendimento…
Não há um organismo que regule estas coisas e, mesmo que houvesse, esse organismo não poderia estabelecer regras para a forma portuguesa de todos os nomes próprios do mundo, até porque há constantemente novos nomes próprios a serem usados na nossa língua. Na falta da comodidade da norma, o que deve prevalecer, digo eu, é o bom senso. Agora, das muitas pessoas que provavelmente concordarão com esta afirmação, nem todas chamarão, porém, bom senso ao que eu chamo bom senso, não é verdade? O que eu quero dizer com isto é que, dê-se ao assunto as voltas que se der, haverá sempre espaço para as preferências de cada um. O meu bom senso (ou uma parte dele, seja, porque só falo aqui de uma parte das questões) é o seguinte:
Acho que, em caso de dúvida, deve optar-se sempre pela forma que já se ouviu ou se ouve mais – se a conhecemos bem, é mais provável que os outros a conheçam. Eu, por exemplo, não hesito em escrever Pequim* e Bombaim em vez de Beijing e Mumbai, porque me parecem formas mais conhecidas.
Está muito bem usar as formas portuguesas consagradas por dicionários e obras clássicas, desde que não tenham caído em desuso e não acabem por dificultar a compreensão. No que respeita a topónimos, não vejo problema em chamar Genebra a Genève e Estugarda a Stuttgart, mas muita gente não compreenderá que a forma clássica Badalhouce, por exemplo, se refere ao que normalmente conhece como Badajoz, nem, pelo menos em determinados contextos, que Cantuária é a maneira portuguesa de dizer Canterbury... Agora, quanto a esta última forma (e, muito provavelmente, relativamente a outras formas, mas não me vem à cabeça agora mais nenhum exemplo), o problema é que parece haver tradições diferentes consoante aquilo de que se fala: ao falar de Chaucer, parece bem falar-se dos Contos de Cantuária, mas ao falar de Robert Wyatt, Soft Machine ou Henry Cow ninguém refere a “cena de Cantuária”…
A questão é mais complicada, acho eu, quando se fala de nomes de pessoas. Quando o nome se escreve originalmente com alfabeto latino, o mais prático é, em princípio, usar o nome da pessoa como ela própria o escreve, ou seja, como se escreve na sua língua e como aparece nos seus documentos. Essa opção, porém, não é sem problemas: obedecendo a esta lógica, deve escrever-se Napoléon em vez de Napoleão, para dar só um dos milhares de exemplos que poderia dar... [E deixo de lado a questão da actualização das grafias, para não complicar mais a coisa…]
Agora, quando não existe um aportuguesamento consagrado e os nomes não se escrevem originalmente com alfabeto latino e há, pois, que os transcrever directamente de outros sistemas de escrita, alfabéticos ou não, as coisa são mais complicadas. Quando existem formas estandardizadas de transcrição (como o pinyin para o chinês e o rōmaji para o japonês, por exemplo), parece mais lógico usar essas formas. Um problema, porém, é que algumas usam diacríticos inexistentes em português, difíceis de encontrar e que confundem o leitor. Se assim for, acho que se pode usar esses sistemas de transcrição oficial sem os diacríticos… Outro problema é que esses sistemas de transcrição podem reflectir lógicas fonéticas estranhas ao português e utilizá-los faz com que as pessoas pronunciem mal as palavras. Um exemplo: A cidade chinesa cujo nome em pinyin é Dézhōu. O uso de zh em português é enganador, porque essa é, na tradição inglesa, a maneira de transcrever o som [ž], para o qual não há letra em inglês, mas que em português se escreve simplesmente com j (ou g antes de e e i). Por isso, Dejou é a grafia que faz sentido seguindo a lógica ortográfica portuguesa – mas não é essa a forma pinyin; e, se usarmos a forma pinyin, as pessoas vão começar a dizer [dêzou] em vez de [dêjou], como deveriam...
Há línguas, porém, para as quais não existe sistema standard de romanização, costumando-se, por isso, fazer transcrições adaptadas à fonética da língua para que se transcreve. O problema é que, na maior parte dos casos, os nomes nos chegam através de transcrições feitas para a lógica de outras línguas. Há, então, que fazer uma escolha, e talvez não se possa pedir mais do que coerência relativamente a essa escolha. Quando se aportuguesa um nome, que se aportuguese por completo e siga-se o mesmo critério para todos os nomes. Vejo, por exemplo, num mesmo texto Al-Arabiyya e Al-Jazira (cadeias de televisão). Qual a lógica de transcrição do árabe? Ou se aportuguesa Al-Arabia como se aportuguesou Al-Jazira (talvez devesse antes ser aportuguesado em Al Djazira…), ou então arranje-se outro critério – mas coerente.
Quero, já agora, chamar a atenção para um facto simples: é relativamente fácil transliterar do cirílico e não há razão nenhuma, a não ser as influências das transliterações para outra línguas, para se ver nomes originalmente escritos com esse alfabeto transcritos de uma maneira tão pouco lógica e tão enganadora relativamente à pronúncia: por exemplo, aceito bem Chostakovitch, Chostakóvitch ou, em última análise, Chostacóvitch, mas não vejo razão nenhuma para Shostakovich nem Shostakovitch.
O objectivo, ao escolher a grafia dos nomes próprios, deve ser conseguir um equilíbrio entre a tradição, a lógica da grafia portuguesa, a inteligibilidade de cada uma formas e a coerência de todas as formas num textos ou no conjunto dos textos de uma instituição. Mas é difícil. Tenho agora um problema concreto, por exemplo, que não sei como resolver e sobre o qual talvez me possam aconselhar: o nome da ilha onde vou morar a partir de Julho próximo.
O nome dinamarquês da ilha é Fyn, que se pronuncia [fyn], isto é, com um som como o do u francês. Ao que vejo, tenho três alternativas: uso o nome dinamarquês Fyn, pronto, ponto, e que cada um pronuncie como lhe apetecer; adiro muito eruditamente à tradição e uso Fiónia, que é nome clássico da ilha em português, mas que ninguém conhece; ou (uma vez que, de todas as formas, a maior parte dos falantes de português que ouvirem de mim a palavra nunca terão ouvido a ilha referida de outra forma) introduzo uma nova designação inventada por mim, que eu ache foneticamente mais adequada, como Fiúne. Que acham? Conto com a vossa colaboração. Com o vosso bom senso, seja.
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* Sobre Pequim: por muito que seja uma forma foneticamente menos semelhante à pronúncia actual do nome da cidade em mandarim (que, a usar-se, talvez fosse mais lógico aportuguesar em Beijim), ela refere-se à pronúncia da época em que foi criada a forma em alfabeto latino; da mesma forma, digamos, que o n que o nome de Lisboa conserva em muitas línguas vem de antes da queda no n intervocálico em português…

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