25 de fevereiro de 2011

Uma teoria ousada e elogio de Boby Lapointe

Quem me conhece sabe que passo a vida a acentuar o que é comum a todas as línguas e a desvalorizar as idiossincrasias de cada uma: Afirmo sempre que não se pode demonstrar que haja línguas mais ricas que outras, nem na riqueza vocabular nem na complexidade estrutural; e que nenhuma língua tem maior ou menor capacidade de dizer seja lá o que for. Agora, vou fazer aqui uma afirmação que parece contrariar essa minha ânsia de universalismo:

Estou convencido de que há línguas em que é mais fácil rimar e fazer jogos de palavras do que noutras.

O francês, por exemplo! E a explicação tem que ver com com as características da evolução da língua. Se compararmos o francês com algumas das línguas mais próximas (que são aliás, as únicas com que a posso comparar), vemos que, além de ser uma língua de acento fixo, o que também facilita muito a rima, a evolução do francês se fez sempre no sentido de um vocalismo muito forte, isto é, a uma grande perda de sons consonânticos. O resultado desta tendência evolutiva é
– um grande número de homófonas (derivadas de étimos diferentes, como, para dar um exemplo óbvio, vin, vain, vingt e vint); e
– um número relativamente pequeno de sons possíveis em final de palavra, para o que contribui muito o facto de as marcas de plural de nomes e adjectivos normalmente não se pronunciarem, bem como as marcas de pessoa do plural *.

E é assim a vida: uma pessoa começa a falar francês e começa a rimar e a fazer trocadilhos sem querer – ou quase...  Mas enfim, tudo isto não tira mérito nenhum a génios como Boby Lapointe, não é nada disso que eu quero dizer!

BOBY LAPOINTE, "SAUCISSON DE CHEVAL 1"



Atenção: A tentativa de compreender esta letra, mesmo com ela escrita à frente, pode causar profundos traumas a pessoas que não conheçam bem a língua francesa… e a outras pessoas também!

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Uma nota chata, só para quem queira não esteja bem a ver o que quero dizer: Para dar o exemplo mais extremo, em francês moderno standard uma terminação em [e] (ê fechado) corresponde (além de muitas terminações avulsas), às terminações portuguesas de infinitivos em -ar (-er em francês, como aimer) adjectivos/particípios passados em -ado, -ada, -ados, -adas (em francês , -ée, s e -ées, aimé, aimée, aimés, aimées), formas verbais da 2ª pessoa do plural do presente do indicativo em -ais/-em e formas verbais da 2ª pessoa do plural do futuro do indicativo em -eis/-aõ (em francês -ez, aimez, aimerez); e uma terminação em [ɛ] (é aberto) corresponde estruturalmente às terminações portuguesas -ei da primeira pessoa do futuro (em francês -ai, aimerai), às terminações -ava, -avas, -avam do condicional (em francês -ais, -ait, -aient, aimerais, aimerait, aimeraient), além de várias outras como -eito e -eto, por exemplo, correspondentes a -ait e -et francês (parfait, complet). Se juntarmos a isto o facto de a oposição entre o [e] fechado e o  [ɛ] aberto) se anular, total ou parcialmente, em diversos sotaques regionais, temos um número muito maior de palavras a rimar em [e]/[ɛ] do que em -ar ou -ão em português...

1 comentário:

Edite disse...

Ai como é bom não cairmos na tentação de sermos nem graves nem esdrúxulos!...

Edite Bernardino