11 de abril de 2011

Angelus Silesius, a poesia e a essência desabitada e silenciosa de Deus

Não é nada esotérico, até vem na wikipédia: Numa conferência que deu sobre poesia em 1977, Jorge Luís Borges afirmou que se podia resumir tudo o que acabava de dizer a uma frase de um relativamente obscuro autor seiscentista (traduzo eu, como traduzo, neste texto, tudo o que está em português a castanho):
Vou concluir com um alto verso do poeta que no século dezassete tomou o nome estranhamente poético, real, de Angelus Silesius. Vem a ser o resumo de tudo quanto disse esta noite, com a diferença de que eu o disse por meio de raciocínios ou de simulados raciocínios: di-lo-ei primeiro em espanhol e depois em alemão, para que o oiçam: “La rosa [es] sin porqué, florece porque florece. / Die Rose ist ohne warum; sie blühet weil sie blühet. [Trata-se do dístico I. 289 da obra O Peregrino Querubínico[1]: “A rosa é sem porquê, floresce porque floresce”]
Quem era este poeta místico da Silésia? Chamava-se Johannes Scheffler de seu nome de baptismo, e nasceu em Breslávia (Wrocław), em 1624. Teve uma educação luterana, e foi cientista e médico, e homem de grande cultura. Convertido ao catolicismo em 1653, tornou-se dois anos mais tarde médico imperial-real da corte do Imperador Fernando III. Abraçou o sacerdócio em 1661, tendo-se tornado coadjutor do Príncipe-Bispo de Breslávia, e foi no mosteiro de S. Matias da sua cidade que veio a falecer em 1677.
Segundo Carlos García[2], Silesius foi um dos místicos alemães que fascinou Borges. E é fácil compreender este fascínio, porque, no poema referido como em muitos outros, parece um poeta à frente do seu tempo. O Peregrino… foi publicado em 1657. Ainda vinha longe
…a rose is a rose is a rose,
que Gertrude Stein escreveu 256 anos mais tarde.
Agora: sabemos, por Carlos García, que a referência a Angelus Silesius que mencionei no início do texto está longe de ser a única na obra de Borges e que «o topos da “rosa sem porquê” é um dos «motivos vindos de Silesius (…) que são recorrentes em Borges». A leitura que Borges faz deste dístico de Angelus Silesius, porém, vai variando ao longo do tempo (ou talvez antes consoante a estratégia favorecida para provocar estranhamento no leitor…). Se, na referida conferência de 1977, o apresenta como resumo do seu próprio pensamento sobre a poesia, em 1933 tinha-o apresentado como o exacto oposto da sua filosofia.
Die Ros ist ohne Warum, a rosa é sem porquê, lemos no livro primeiro de O peregrino… de Silesius. Eu afirmo o contrário, eu afirmo que é imprescindível uma tenaz conspiração de porquês para que a rosa seja rosa.
Num discurso de 1963, o verso de Angelus Silesius não aparece como reflexão sobre a poesia, mas como exemplo da metamorfose que o discurso analítico tem de sofrer para ser ele próprio poesia:
Imaginemos, por exemplo, que um poeta dizia que a beleza é inexplicável. No teria dito nada. Mas se esse poeta, que seria o grande poeta alemão Angelus Silesius, disser “Die Rose ist ohne warum”, (“A rosa é sem porquê”), já está criando poesia.
No ano seguinte, o mesmo verso serve-lhe de máxima anti-analítica:
Die Rose ist ohne warum (“a rosa é sem porquê”), é a famosa frase de Angelus Silesius no livro primeiro do seu Peregrino…; a sentença do místico adverte-nos da possível profanação que encerra toda a análise do belo.
Não sei, sinceramente, por que fui buscar Borges para introduzir Angelus Silesius. De facto, não me lembro de ter visto alguma vez nos textos de Borges referência ao místico polaco. O meu encontro com Angelus Silesius, que se deu nem há um mês, não tem nada a ver com Borges. Nem sei, aliás, como fui parar a um texto de Angelus Silesius, só sei que texto era: uma tradução em inglês de Stephen Mitchell do dístico 25 do livro I de O peregrino…, que diz assim
God is a pure no-thing, concealed in now and here:
the less you reach for him, the more he will appear.
Soa bem a tradução, como também soa muito bem esta outra de Julia Bilger, que traduziu O peregrino… em 1944 (atente-se na sequência nothingness  – knowethnow e na aliteração em gr- de grope e grow, além das assonâncias em [o] e [ow] que percorrem todo o dístico):
God is all Nothingness, knoweth not here nor now;
The more we grope the more elusive will he grow.
God is an utter Nothingness, / Beyond the touch of Time and Place:
The more thou graspest after Him, / The more he fleeth thy embrace.
Lauter Nichts, eis como aparece no texto original o mais surpreendente sintagma do poema, este “puro Nada”. Aqui fica a minha pobre tradução (literal que não literária, peço desculpa…), para quem não compreenda o inglês:
Deus é puro Nada, para além do agora e do aqui. / Quando menos O procurares, mais Ele aparecerá.
Muitos poemas de Angelus Silesius soam assim, como se dissesse alguma verdade tão fundamental que só pode ser dita como o é. O que significa, para um cristão, que Deus é puro Nada que se revela quando O não buscamos? Ao ler um poema como
Sei que Deus nem uma hora sem mim pode viver. / Morra eu e o próprio Deus a sua preciosa vida há-de render. (I. 8:JB[3])
parece que estamos diante de uma asserção ateísta, em que se apresenta Deus como uma entidade unicamente existente na mente do crente. Mas tal interpretação só pode resultar de uma incompreensão do misticismo de Angelus Silesius, que pressupõe uma identificação essencial de Deus e do crente.
Nenhum caminho leva à Luz em que Deus vive; / Terá de se tornar essa Luz quem não quiser que dele Deus se esconda. (I.072:JB&CF)
Nada pode nunca em Deus ser conhecido: um e um apenas, / eis o que Ele é. Para O conhecer, o Conhecedor e o Conhecido têm também de ser um. (I.285:CF)
A Enciclopédia Católica insiste que, embora “um pequeno número destas estrofes pareçam ter um travo de quietismo ou de panteísmo”, “devem ser interpretados num sentido ortodoxo, pois Angelus Silesius não era um panteísta. Os seus escritos em prosa são ortodoxos; “O Peregrino Querubínico” foi publicado com o Imprimatur eclesiástico, e, no seu prefácio, o próprio autor explica os seus “paradoxos” num sentido ortodoxo e repudia qualquer interpretação panteísta que dela venha a ser feita. É bem possível, como é bem possível que o prefácio com a interpretação ortodoxa do autor tenha sido condição para o Imprimatur… Seja como for, panteísmo nem sequer foi o conceito que me veio à mente quando li O peregrino… É certo que, por vezes, os dísticos de Angelus Silesius dão conta de uma reflexão mística que, embora sofisticada, não se afasta sobremaneira da linha de pensamento de outros filósofos cristãos: uma platónica visão de Deus como a eterna matriz de Tudo
A rosa que hoje contemplas com o teu olhar exterior / Floresce e floresce em Deus durante toda a eternidade (I.108:JB&CF).
ou uma visão da eternidade não como um eterno prolongamento do tempo, mas antes como algo que é essencialmente diferente dele
Lá na Eternidade, tudo acontece ao mesmo tempo. / Não há antes nem depois, como aqui no reino do Tempo (V.148:CF)
ou quando propõe, como outros místicos cristãos, que o caminho mais curto para Deus é o amor, não a razão:
O Amor, sem ser anunciado, mais depressa será recebido por Deus. / A Inteligência e o Engenho muito tempo na corte terão de esperar. (5.307:JB)
Outras vezes, trata-se de um misticismo que, sui generis que possa ser,  não parece incompatível com a busca (também cristã, entre outras…) de estados de comunhão com uma divindade transcendente:
Difícil tarefa, a de viver o amor; não devemos / amar apenas, mas sim tornarmo-nos amor, como Deus é. (I.071:JB)
Deus não está aqui nem está ali. Ao procurá-Lo /, que tenhas presas as mãos e os pés, presa a alma e preso o corpo. (I.171:JB&CF)
Vai onde não podes ir, vê onde nada se pode ver, / Ouve onde não há som que se oiça: estarás onde Deus fala. (I.199:JB&CF)
Deus é, mas só como Ele é. Não ama nem vive / como tu ou como eu ou como do mundo os outros seres. (II.055:JB&&CF)
Sai tu — e entrará Deus; morre para ti próprio – começaste assim / A viver para Deus; Não sejas – Ele é; Não faças nada – e estará assim feito o que ele manda. (II.136:CF)
Deus não prevê nada – é o teu senso frouxo e atarantado / Que o veste com o atributo da Providência. (V.92:CF)
Deus não pensa. Pensasse Ele / e poderia hesitar, o que é, para Ele, impensável. (V.173:JB&CF)
Deus – uma força eterna que alcança tudo o que quer, / Nunca deixando de ser como é: sem forma, sem propósito, sem vontade. (5.358:JB&CF)
Outras vezes, porém, Angelus Silesius surpreende por o seu misticismo (ou deve antes dizer-se a sua poesia?) parecer tão pouco ocidental e tão próximo do pensamento oriental. Esta generalização abusiva pensamento oriental, que noutras circunstâncias evitaria, não me parece, no presente contexto, despropositada para referir algumas constantes de vários pensamentos asiáticos: refiro-me, concretamente, a um ideal de suprema objectividade – conhecer, aceitar o mundo como ele é – alcançável pela obliteração de si, pela interrupção ou aniquilação da mente. Não é o único caso em que um místico cristão se aproxima da mística asiática, é certo, e vieram-me à mente, quando li Silesius, alguns versos do “Monte de Perfección” de San Juan de La Cruz (um poeta de que gosto muito) que aqui vos deixo no castelhano original:
1
Para venir a gustarlo todo
no quieras tener gusto en nada.
Para venir a saberlo todo
no quieras saber algo en nada.
Para venir a poseerlo todo
no quieras poseer algo en nada.
Para venir a serlo todo
no quieras ser algo en nada.
2
Para venir a lo que gustas
has de ir por donde no gustas.
Para venir a lo que no sabes
has de ir por donde no sabes.
Para venir a poseer lo que no posees
has de ir por donde no posees.
Para venir a lo que no eres
has de ir por donde no eres.
3
Cuando reparas en algo
dejas de arrojarte al todo.
Para venir del todo al todo
has de dejarte del todo en todo,
y cuando lo vengas del todo a tener
has de tenerlo sin nada querer.
[…]
Mas são, convenhamos, casos raríssimos, muito excepcionais. Além do texto através do qual conheci Angelus Sibelius e que já referi atrás, eis outros fascinantes dísticos aparentemente muito pouco católicos deste budista de Breslávia:
Se algo és para ti próprio, se algo amas e queres, / Se algo sabes e tens, continuas a transportar a tua carga. (I.024:CF).
Sem nada querer nem nada buscar, Deus é paz eterna: / se como ele não desejares nada, será igual à dele a tua paz. (I.076:CF)
Quem se tornar deus deve ser diferente de tudo o resto. / Deve livrar-se se si próprio, libertar-se de toda a queixa. (I.084:JB).
Quem for como se não fosse, nem tivesse chegado a ser, / tornou-se — ó Felicidade!—pura divindade. (I.092:CF).
Quanto mais de ti de ti próprio conseguires verter e deitar fora / tanto mais, cada vez mais, Deus fluirá em ti com a sua mente divina. (I.138:CF).
Pudesse o Diabo abandonar o seu ser-ele, e logo / o Diabo verias sentado no trono de Deus. (I.143:CF).
Oramos: seja feita a Tua vontade. / Mas vede: Deus não tem vontade, ele é apenas imutável quietude. (I.294:JB&CF).
Liberta-te de ti próprio, liberta-te de toda a criação. / Deus enxertará então em ti a sua natureza divina. (II.057:CF).
O nada leva-te além de ti próprio / tão seguramente como a anulação de ti: / Quanto mais te conseguires anular / mais há em ti de divindade. (II.140:CF).
Deus, cujo maior prazer é viver contigo, prefere vir / a tua casa quando tu lá não estás. (V.033:CF).
Se Deus procuras, Homem, deves / perder primeiro a identidade de ti próprio, / e nem nunca voltar a encontrar de novo o rasto do teu Eu em toda a eternidade. (V.220:CF).
E, finalmente, tirado da ordem do livro para lhe dar o lugar de destaque que acho que merece e a que se costuma chamar chave de ouro: 
O abandono leva a Deus: / Mas o supremo abandono, / que poucos há que compreendam, / é abandoná-lo a Ele também. (II.092: CF)
Esta é a mais radical e mais surpreendente de todas as sentenças: dá um sentido novo a todas as outras, ao precisar um fim último da busca mística que implica passar para além de qualquer ideal de perfeição anulando-se assim a própria busca. Zen?
Não sei se arriscaria afirmar que é esta a lição de toda a poesia, pois que há poesia de muitas categorias e de variados intentos; mas é, desculpem repeti-lo, esta a grande lição da poesia de Angelus Silesius: se diz assim o que diz, se não pode fugir ao estranhamento e à (pelo menos aparente) contradição, é porque o que diz não tem outra forma de ser dito. Silesius vai até onde as palavras o deixam, digamos assim. Depois disso, o que há a (não) dizer é só silêncio, já não palavras. Podermos considerar que diz isto mesmo várias vezes ao longo da obra, e de várias maneiras, mas di-lo mais explicitamente, de uma forma mais conclusiva, mais brutal, no último dístico do texto: A conclusão que tanto fascinou Borges e que tanto fascina, sem dúvida, todos os que se aventurarem na sua invulgar visão mística, só pode ser a que apresenta no último dístico de O Peregrino (VI.263), é a seguinte, no alemão original:
Freund, es ist auch genug. Im Fall du mehr willst lesen,
So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen.
JB dá-nos do dístico a tradução
Friend, I have said enough. If thou wouldst read still more,
Then go thou and thyself become the script and lore.,
e CF uma tradução ligeiramente diferente,
Friend, it is now enough. Wouldst thou read more, go hence,
Become thyself the Writing and thyself the Sense.
Borges também traduziu o dístico. Em 1960 (e desta vez não é certo que tenha sido ele, pode ter sido Bioy Casares, o co-autor do Livro do Céus e do Inferno, onde a tradução aparece, ou podem ter sido os dois em conjunto), traduziu-o da seguinte forma (destaque meu):
Ya basta amigo. Si quieres seguir leyendo, transfórmate tú mismo en el libro y en la doctrina.
Em 78, porém (agora sem dúvida Borges, só ele), já propõe outra tradução (de novo o meu destaque):
Amigo, ya basta. En caso de que quieras seguir leyendo, sé tú mismo el libro y tú mismo la esencia.
É melhor, esencia traduz mais directamente que doctrina o Wesen original. E, se tenho razão na minha proposta de que se trata aqui de versos que muitas vezes nos soam estranhos – paradoxais, ou até incómodos – porque são a única maneira de dizer certas coisas, só uma tradução literal faz sentido. Carlos García, que nos conta a história, propõe ele a sua própria tradução ainda «mais literal» (destaque meu), que é a que prefiro e que escuso de traduzir, por óbvia para qualquer falante do português:
Amigo, ya es bastante. Si quieres más leer / Ve y transfórmate en el libro y en el ser.
_______________
[1] A obra publicada pela primeira vez em 1657, chamava-se originalmente Geistreiche Sinn- und Schluss-Reime, que não me atrevo a traduzir. Em 1674, foi publicada uma segunda edição com o título Cherubinischer Wandersmann, "O Peregrino Querubínico". Neste texto, para simplificar a referência, o livro será sempre referido como O Peregrino….
[2] Ver o ensaio de Carlos García Borges y el misticismo alemán, de onde foi retirada muita da informação necessária para escrever este texto. Na minha opinião, trata-se de um ensaio de leitura obrigatória para todos os amantes de Borges. Todas as referências de Borges a Angelus Silesius são retiradas do texto de García.
[3] A indicação entre parênteses no fim das minhas traduções dos dísticos de Angelus Silesius indicam: em númeração romana, o livro – a obra divide-se em 6 livros; em algarismos árabes, o número do dístico no livro; as iniciais JB ou CF indicam de que traduções inglesas traduzi para português, se das de Julia Bilger ou das de J. E. Crawford Flitch (em http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/alex/index.htm e http: //www.sacred-texts.com/chr/sil/scw/index.htm, respectivamente) – ou se usei traduções de ambos, quando assinalo JB&CF.

2 comentários:

relvas disse...

Com esta é que tu me esmigalhaste... chprklhaff... ainda estás nos quentes trópicos?

V. M. Lucas Lindegaard disse...

Muito obrigado pelo elogio, amigo Relvas: chprklhaff é bem mais do que esperaria do texto. Escrevi-te agora mesmo um e-mail a dizer isto mesmo por outras palavras e a explicar tudo sobre o meu paradeiro presente e os meus paradeiros futuros. Um grande abraço, ainda dos quentes trópicos!