26 de abril de 2011

Coitadinho do inglês, mais uma vez ou De como se enriquece uma língua depenicando aqui e ali

Todas as línguas importam constantemente palavras, e algumas mais do que outras, conforme o contexto em que se encontram e as necessidades dos seus utentes. Uma língua falada por um povo que não use computadores, por exemplo, não necessita de importar palavras que actualizem constantemente a possibilidade de se referir às inovações tecnológicas que aparecem diariamente neste domínio. Da mesma forma, uma língua falada por um povo que produza mais tecnologia neste domínio também tem menos necessidade de importar palavras de informática, porque muitas delas terão já sido cunhadas na própria língua, segundo a sua lógica própria. Mas é sempre assim – importa-se o que nos faz falta para designar o novo: se em tagálogue, um dos idiomas oficiais das Filipinas, garfo se diz tenedor e colher se diz cuchara, ou se em suaíli mesa se diz mesa, é pela mesma razão que em português se usa uma palavra nauatle para designar o tomate, nem mais nem menos.
Por isso mesmo, e por ter sido a língua oficial de um império maior, o inglês é, das línguas próximas da nossa, a que mais palavras importou nos últimos tempos (já não vale a pena falar de importações mais antigas, senão metade do inglês é importado do francês...). E é esta uma das maneiras de criar uma língua rica em vocabulário: é quase impossível encontrar uma página de um dicionário de inglês sem encontrar uma destas palavras recentemente importadas, às vezes de línguas muito distantes.
Façam a experiência, como eu fiz. Abro uma página ao acaso. Aparece-me bardy, uma palavra aborígene australiana para designar um tipo de larva comestível. Como se diz isto em português? Não se diz: não temos cá, não importámos de fora, não temos... E nem nos faz falta. A seguir, na mesma página, aparece-me a palavra barilla, para designar uma planta de Espanha e da Sicília. Abro outra página. Aparece-me knesset, uma palavra hebraica que significa “reunião” e que designa o parlamento israelita. Admitimo-la em português? Depois aparece-me knopkierie, uma palavra africâner para designar um tipo de arma de algumas tribos da África Austral. Isto também pode ser que interesse, pelo menos ao português de Moçambique... Mas é melhor importar essa designação de uma língua moçambicana, não acham? Só mais uma página: agora, aparecem dois substantivos, peau-de-soie, francês, peccary, caribe (peccary é necessário importar também para português e eu já o fiz e escrevo pecári) – além de um peccavi, latim, também nome, que não conta para o que aqui me traz. E pode continuar-se.
Não deixa de ser curioso: por ser uma língua imperial, o inglês foi imposto a milhões de pessoas em todo o mundo. Um dos resultados dessa expansão foi a assimilação (a necessidade de assimilação, por um lado, e a predisposição a aceitá-la como natural, por outro) de um número muito grande de palavras das línguas com que estava em contacto em lugares muito diferentes do seu espaço natal. Já aqui disse uma vez que, pela sua internacionalização, o inglês é, naturalmente, a língua mais maltratada no mundo inteiro. Também os puristas do inglês, que os deve haver, seguramente prefeririam que, em vez de se ter tornado uma língua com um vocabulário tão vasto, o inglês se tivesse mantido uma língua que eles pudessem considerar menos espúria… Mas eu não consigo ter pena deles, que querem?, como não consigo ter pena de puristas nenhuns…

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