20 de maio de 2011

Caminhos de Chuquisaca

Dentro de alguns anos, lembrar-me-ei com certeza do planalto de Manica com as mesmas saudades com que me lembro agora das montanhas da Alta Zambézia ou do planalto andino.
Vivi dois anos em Camargo, na Bolívia (a 50 metros da igreja que se vê na página da Wikipedia sobre esta pequena cidade), e muitas vezes dou comigo perdido em nostálgicos devaneios, a passear mentalmente pelos cerros de Chuquisaca.
Encontrei ontem um vídeo no YouTube, feito por turistas brasileiros, que dá uma ideia de como é a estrada de Tarija para Potosí, que eu fiz dezenas e dezenas de vezes, sempre cheiínho de medo. Sim, porque a gente habitua-se um bocadinho àquelas estradas, mas nunca se habitua completamente.



Agora, o que o vídeo não mostra bem é a beleza assoberbante da paisagem. O azul (azul!) das montanhas arredondadas – são montanhas velhas, os Andes – até perder de vista lá para os lados da fronteira com a Argentina. E também não mostra as cruzes que há dos lados da estrada, a assinalar acidentes mortais. Uma vez, conheci pessoalmente um sobrevivente de uma dessas frequentes tragédias. Eis um excerto de uma carta que escrevi de Camargo nessa altura:
O mestre pintor que pintou a nossa casa chama‑se Celso. É professor de desenho e trabalhos manuais na escola secundária local e pintor de tudo, desde paredes a cartazes, montras e quadros. Um dia, já não sei a propósito de quê, perguntou‑me se eu era crente. Eu disse‑lhe que não.
«Isso é porque você nunca passou pelo que eu passei», disse ele. Ele coxeia, mas eu não sabia, até essa altura, a razão de ele coxear:
«O autocarro em que eu ia caiu por uma ribanceira. Excesso de velocidade, sabe? Morreu muita gente, foram 100 metros de queda. Mas eu safei‑me. Tinha a perna toda desfeita, mas estava vivo. Nessa altura, já tinha os meus dois filhos e acho que foi isso que me deu mais força. Agora, você vê, coxeio um bocado, mas consigo andar. E isso, ninguém acreditava que fosse possível. Mas foi. Tive de tornar‑me crente e de rezar muito. Crente em tudo: em Deus, na Virgem, na Pachamama...»
Tenho uma descrição da minha primeira viagem nas estradas daquela zona, escrita no Verão de 1999, ainda antes de lá morarmos, quando estávamos a fazer um curso de castelhano em Cochabamba:
Fomos visitar a nossa futura terra. Apanhámos um avião até Tarija e veio um colega da Karen buscar‑nos para nos levar a Camargo. A primeira coisa que vos quero dizer é que decidi que, durante os próximos dois anos, só vou sair de Camargo quando for mesmo imprescindível. E isto não é porque a vilazinha seja assim tão apaixonante que eu não queira mais nada no mundo. É antes porque as estradas que ligam Camargo ao resto do mundo (a Tarija e a Potosí, concretamente) são tão medonhas que eu não aguento. É uma tortura. Sabem que eu tenho pânico das alturas, vertigens, tudo isso. Então agora imaginem dezenas de quilómetros de estrada de montanha de cascalho solto, de quatro metros e às vezes menos de largura, em curvas permanentes, a mais de 90º às vezes, sem nenhuma protecção lateral e ribanceiras a pique de centenas de metros (isto não é exagero!), o carro a derrapar forçosamente um bocadinho de vez em quando, tudo isto com um trânsito que, sem ser intenso, é, ainda assim, razoável, sobretudo de camiões e camionetas de passageiros. Que caem, de vez em quando, como seria de esperar. Na estrada da Camargo para Potosí, por exemplo, no fundo duma ribanceira ainda lá estava a carcaça de um autocarro de passageiros. «Nos dois últimos meses caíram aqui dois nesta zona», explica o Pedro, o tal colega da Karen. «Cerca de vinte e cinco mortos de cada vez». Ou seja, a carga total das camionetas – é claro que, numa queda assim, é mínima – ou nula – a possibilidade de escapar vivo. No dia seguinte, em Potosí, recebemos a notícia de mais um desastre desses: 27 mortos, desta vez. Então, já decidi: de Camargo, só saio quando for mesmo imprescindível…
E conservo também uma descrição da minha última viagem de Tarija para Camargo, dois anos mais tarde (não me lembro já porque foi imprescindível ir a Tarija nessa altura…):
Enquanto espero pelo autocarro em Tarija, sento-me a beber umas cervejas num dos muitos botequins que há em frente ao terminal rodoviário. Vem servir-me, sorridente, uma miudinha dos seus 10 anos. Depois, vem a mãe dela meter conversa comigo: se estava tudo bem, de onde era, para onde ia. É claro, como a maior parte das pessoas aqui, não faz ideia de onde seja Portugal.
«Uh, é longe!...», digo‑lhe eu, «Do outro lado do oceano!»
Quando lhe digo que vivo em Camargo há quase dois anos, fica um bocado preocupada:
«E não lhe faz confusão estar assim longe da sua terra tanto tempo, com outras gentes, outras comidas, outras maneiras de ser?»
«Ah, não, eu estou bem em qualquer lado. Sinto falta dos amigos, mas de resto tanto me faz estar aqui como noutro sítio qualquer...»
«Ah, eu acho que não aguentava. Eu fui uma vez a La Paz e outra a Cochabamba, e só queria voltar a casa o mais depressa possível – as pessoas são estranhas, a comida é estranha, uma pessoa não se sente à vontade...»
E é assim a vida: há quem, como eu, se congratule com a sorte que tem de poder sair do seu mundo e de poder conhecer outras maneiras de viver; mas há muito para quem seja um drama ter de abandonar, nem que por pouco tempo, o seu mundo, o seu cantinho...
Tinha comprado um livrinho com o pomposo título de Bestiário de máscaras – papéis perversos do ciclo psicótico e entretive-me a lê-lo. Era um desses livros que há, publicados em edição de autor ou em pequenas editoras marginais, escritos por jovens literatos que citam escritores malditos e se sentem um deles: “A voz da literatura é um fio de água na terra seca dos discursos do poder. Essa voz imperceptível corrói as máscaras; diz a antipolítica, diz a contra-realidade, diz a periferia e os exilados mentais, diz a memória dos índios, diz os herméticos filósofos hereges e as sociedades secretas que são e foram, diz o variado bestiário da decadência, a misantropia e a loucura”.
As cervejas fizeram-me bem. Tinha, aliás, bebido de propósito para relaxar e foi isso que confessei ao senhor que ia a meu lado, com quem mantive uma animada conversa toda a viagem:
«Bebo sempre umas cervejas antes destas viagens, sabe?, para perder um pouco o medo dos precipícios…»
«Deixe estar que não é só você», respondeu-me ele, «muita gente faz a mesma coisa. Até os condutores dos autocarros…»

1 comentário:

Helena disse...

"até os condutores dos autocarros", hehehe
Esse filme é assustador. Pensava que a única estrada a evitar era a dos Yungas, mas afinal parece que estava muito enganada.