30 de agosto de 2011

O rosto de Deus

Reciclo um excerto de um texto de há três anos, para servir de introdução a este de hoje (que é um desenvolvimento do outro, noutra direção…):
Lembrei-me no outro dia de uma conversa com uma colega da faculdade depois de uma aula que ela teve sobre uma famosa experiência sobre dilatação de pupilas que Eckhard Hesse e James Polt fizeram em 1959 (traduzo o resumo que dela faz Jason Waite): «(...) Hess e Polt apresentaram a um grupo de 20 homens duas fotos idênticas de uma mulher, que diferiam num único aspeto. Numa, as pupilas da mulher tinham sido muito ampliadas, ao passo que, na outra, as pupilas eram extremamente pequenas. Em média, [a dilatação das pupilas] nos homens em resposta à fotografia com as pupilas aumentadas era duas vezes maior do que em fotografia com as pupilas pequenas. Após a experiência, pediu-se aos homens que comentassem as fotografias e a maior parte disse que eram idênticas. Entre os pouco que não disseram que as fotos eram iguais, alguns afirmaram que numa a mulher [com as pupilas dilatadas, entenda-se] era “mais bonita” ou “mais feminina”. Nenhum dos participantes no teste tinha notado a diferença de tamanho das pupilas da mulher da fotografia».
“Ficou tudo histérico na aula, quando o professor aventou a possibilidade de a nossa conceção de beleza ser determinada por mecanismos fisiológicos primários. Houve mesmo quem reagisse mal. A própria ideia de que se façam estudos puramente etológicos de seres humanos é chocante para muitos dos meus colegas.”
Está bem que eram estudantes de Humanidades, mas mesmo assim… A reação é típica: ninguém quer ser considerado um animal, quanto mais uma máquina…
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Referia aqui no outro dia, sem o questionar, o famoso adágio “A beleza está nos olhos de quem olha”. Este tipo de relativismos, porém, sempre me levantou muitas dúvidas. Tendo em conta apenas a minha experiência de vida, a minha tendência é rejeitá-lo, que as coisas não são bem assim. Lembro-me da passagem do filme The crying game em que um dos protagonistas do filme mostra ao outro a fotografia da sua namorada, comentando que ela é o seu ideal de mulher. “Acho que deve ser o ideal de mulher de qualquer homem”, responde o outro. E é isso que tenho observado quase sempre na vida – que, no que diz respeito a beleza, que é o que está aqui em causa, porque numa fotografia só se vê a cara sem ver o coração, o ideal de mulher de um homem é o ideal de mulher de quase todos; e o ideal de homem de uma mulher é o ideal de quase todas. Sempre tenho visto, de facto, um muito grande consenso quanto à beleza – e à fealdade – dos seres humanos.
É certo que isto são só impressões, que é coisa mais para encher conversa do que para a adiantar. Mas Adam Rubinstein, Judith Langlois e Lori Raggman, que estudam de forma sistemática a perceção da beleza, confirmam a minha impressão: no que toca aos rostos humanos, pelo menos, há muita evidência empírica que mostra claramente que a ideia da subjetividade do conceito de beleza é falsa; que há, pelo contrário, grande universalidade no julgamento de atratividade: “(…) Examinámos 130 amostras de classificações de atratividade de 94 estudos da literatura sobre perceção do rosto. Esta meta-análise avaliava quantitativamente o acordo (ou desacordo) de milhares de pessoas, jovens e velhas, homens e mulheres. (…) Contrariamente ao que diz o adágio, os resultados indicavam um grande acordo sobre atratividade, mesmo de tipos de entrevistados muito diferentes.”
Poupo-vos pormenores técnicos, mas os resultados obtidos, tanto para classificações de atratividade de rostos de adultos como de rostos de crianças, e incluindo classificações interétnicas (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados vivendo na mesma cultura) e interculturais (classificações de vários grupos étnicos por entrevistados de culturas diferentes) são altamente fiáveis do ponto de vista estatístico e “mostram um acordo consistente entre entrevistados, independentemente da sua experiência particular com diversos tipos de rostos”.
“A nossa meta-análise”, prosseguem os autores, também examinou variáveis que podem moderar o acordo, como sejam o ano de publicação, tamanho da amostra, género da pessoa avaliada e situação em que a pessoa foi avaliada (por exemplo, avaliação de fotografias ou avaliação in situ). Um pouco para nossa surpresa, nenhum moderador teve efeitos constantes ou substanciais nos níveis de acordo. Se bem que se pudesse pressupor que as diferenças metodológicas ou a pertença a um grupo pudesse influenciar as classificações de atratividade, o que se constata é antes que há uma característica fundamental do rosto humano responsável pelo consenso relativamente à atratividade dos rostos.”
“Estes resultados indicam que a beleza não está apenas nos olhos de quem olha”, concluem os autores do trabalho*.
Que caraterística é esta? Há mais consenso em dar-se por factual a universalidade do conceito de beleza de um rosto do que em explicar em que traços se centra esse conceito que todos temos interiorizado sem saber. Segundo os autores, as experiências mostram que quanto mais um rosto se aproximar da média de todos os rostos, mais atraente é considerado. Com técnica modernas de processamento de imagem, fazem-se rostos que são a média exata de vários rostos; e quanto mais rostos constituírem a informação de que é feita a média, mais consenso há sobre a sua beleza. Há várias críticas à conclusão de Rubenstein, Langlois e Roggman, algumas delas pertinentes; e é também aceitável e relativamente minuciosa a sua defesa. Como acontece sempre em ciência, a discussão continua.
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Tudo isto me faz lembrar um texto de Venmani Tirunal Patire, protagonista do meu conto “O silêncio”:
Tudo o que é exclusivamente humano foi diretamente dado aos homens por Deus, ao contrário daquilo que os homens compartilham com outras criaturas, que resulta de uma evolução do mundo natural (a que Deus só não é completamente alheio porque foi Ele também que criou esse mundo natural e pôs em marcha essa evolução, mas sem que tivesse nem para as coisas da natureza nem para o desfilar dos tempos nenhum desígnio específico…). É isso que quer dizer sermos à semelhança de Deus. Misturem-se as feições de todos os humanos, existidos já ou que venham ainda a ser, e obteremos o rosto de Deus; juntem-se os nomes de todos os homens pretéritos, presentes e futuros, e o nome radioso e impronunciável que resultar é o nome verdadeiro da divindade; adicionem-se todas as qualidades e anseios dos mortais e a soma será a imortal essência divina!
Algum tempo depois de escrever este texto, Venmani Tirunal Patire veio a concluir que, afinal, não se podia deduzir Deus da soma dos seres por Ele criados. Para chegar a Deus, havia antes que subtrair sistematicamente tudo de tudo, porque Ele não podia ser senão a matriz vazia onde coubessem todas as coisas, criadas já ou ainda por criar. Se a hipótese de Rubenstein, Langlois e Roggman estiver certa, Venmani Patire tem razão: a soma de todos os rostos não é o rosto de Deus – é apenas o rosto essencial da Humanidade, aquele que todos nós achamos atraente!
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* Rubenstein, A.J., Langlois, J.H., & Roggman, L.A. (2002). “What makes a face attractive and why: The role of averageness in defining facial beauty”. In G. Rhodes & L.A. Zebrowitz (Eds.), Facial attractiveness: Evolutionary, cognitive, and social perspectives. Ablex: Westport, CT. PDF Version (9.5 MB) © Ablex. Este e muitos outros estudos sobre a perceção de rostos estão disponíveis em formato PDF no site da Universidade do Texas.

26 de agosto de 2011

Crónicas de Svendborg #5: Mães e pais e trabalhadoras da construção civil

Os (pre)conceitos relativamente aos papéis dos géneros adquirem-se muito cedo. Quando o nosso filho Alexander veio da Colômbia para a Dinamarca, com três anos e meio de idade, tinha já uma ideia muito clara do que eram profissões para homens e profissões para mulheres: «As mulheres não podem conduzir autocarros!», afirmou ele, perentório, da primeira vez que viu uma motorista de autocarro.

Talvez por isso, esses preconceitos são muito fundos. Tenho a certeza de que, quando chegam à Dinamarca, muitos estrangeiros ficam surpreendidos por verem mulheres a trabalhar na construção civil. Podem, é claro, valorizar positiva ou negativamente esse facto, conforme a sua visão dos papéis femininos, mas ficam surpreendidos, porque trabalhadoras da construção civil* é coisa que não existe na grande maioria dos países**.

Aqui, há cada vez mais mulheres na construção civil, sobretudo na pintura. Segundo uma conhecida nossa, que é pintora da construção civil, a maior parte das firmas de pintura de construção civil são agora de mulheres, pelo menos aqui na zona.

Agora, na reunião de pais a que fui ontem na escola dos meus filhos, havia dezassete mulheres e quatro homens. E os quatro homens que havia estavam acompanhados pelas mulheres. Há, pelos vistos, áreas em que, na Dinamarca, os papéis de género se continuam a distribuir de maneira muito tradicional. 
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* José António Saraiva escreveu um texto muito e muito justamente criticado (por exemplo, aqui) em que parece defender que o facto de (segundo ele…) não existir uma palavra consolidada pelo tempo e pelo uso que defina a relação marital entre dois homens é um argumento contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. É bem capaz de haver quem seja contra as mulheres na construção civil por não haver palavra “consolidada” que designe uma mulher que faz paredes. «Pedreira? Ora…»
** Convém talvez explicar aqui que o trabalho de construção civil é, aqui, diferente do que se faz noutros países que eu conheço. A construção é um negócio exclusivamente dinamarquês, onde os dinamarqueses não deixam entrar os estrangeiros. É um trabalho muito bem pago, onde só há mestres, sem serventes para o trabalho pesado, porque se trabalha com máquinas e sempre com paredes pré-construídas. Para fazer um prédio, são necessári@s 2 ou 3 pedreir@s, 2 ou 3 eletricistas, 2 ou 3 canalizador@s, 2 ou 3 carpinteir@s, 2 ou 3 pintor@s…

24 de agosto de 2011

Passeio matinal: coelhos, lebres e o género da marcha

Os campos recém ceifados perto da nossa casa estão cheios de vida. Hoje de manhã fui passear e vi uma ratazana e um coelho, além dos muitos corvos que debicavam os restos de cereais*. A ratazana, vi-a à beira da estrada, longe dos bandos de corvos. O coelho, esse, saltitava de um lado para o outro mesmo no meio dos corvos. Quer dizer, não sei se era um coelho ou uma lebre, porque não consigo distinguir coelhos de lebres...

Aliás, é uma confusão a distinção entre lebres e coelhos. Há até um género, Carolus, que às vezes é considerado lebre e outras coelho. Não convém nada, sobretudo, tentar esclarecer essa confusão recorrendo a outras línguas, porque não há correspondência biunívoca entre lebre e, por exemplo, hare em inglês… A Wikipédia, que muita gente diz que não é de fiar mas que até nem costuma ser má nestas coisas simples (?) de ciências da natureza, diz que “uma das diferenças entre lebres e coelhos é o fato de que os filhotes daquelas já nascem com pequena capacidade motora e visual, enquanto que os filhotes desses nascem completamente cegos e ficam no ninho por algumas semanas até poderem sair sozinhos”. Presumo que isto seja verdade para o género Lepus. Mas diz também, na entrada coelho, que “seu corpo também é sempre menor que o das lebres” e isso custa-me muito a acreditar

Cruzaram-se comigo, durante o meu passeio matinal, várias pessoas de fato de treino e cão pela trela. Muita gente aproveita passear o cão para fazer exercício – ou vice-versa. E dei-me conta de uma coisa simples, daquelas que, de tão óbvias, talvez, tão banais, nunca nos suscitam reflexão: a grande distância, muito antes de ter possibilidade de distinguir as formas do corpo e muito menos ainda os traços do rosto, já sabia o sexo da pessoa que se aproximava. Pelo andar, está claro. E isto é interessante, acho eu. Temos um programa de reconhecimento de movimentos que sabe distinguir a marcha dos dois sexos, por muito que ninguém seja, nem de longe, capaz de descrever a diferença entre a maneira de andar dos homens e das mulheres**. As coisas complexas que nós sabemos sem muitas vezes saber que as sabemos e nem sonhar como as sabemos…
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* Ainda escrevi aqui que "os corvos andavam a pastar", mas resolvi refazer a frase, porque achei que o pastar era capaz de ser aqui mal recebido. Mas que estaria correto, isso sem dúvida.
** Há, isso sim, um estereótipo de andar feminino, que consiste basicamente em andar com um pé sempre diante do outro, a ponta do pé apontando sempre na direção que se segue, mas praticamente não há mulheres que andem dessa maneira.

23 de agosto de 2011

Crónicas de Svendborg #4 e Inventários #3: Da Dinamarca como país exótico

O exotismo é como a beleza de um célebre ditado inglês*: está nos olhos de quem acha exótico. No caso desta pequena selecção de coisas exóticas dinamarquesas, esses olhos são os meus, claro está. Mas não são os meus olhos de agora. A lista é de coisas que eu achava bastante exóticas quando aqui comecei a viver pela primeira vez, em 2001 – e que hoje já me parecem bastante normais…

- Amargermad, uma sandes de Amager. Não só é surpreendente existir uma sandes assim, uma fatia de pão escuro de centeio sobre um bocado de pão claro, com manteiga ou com um bocado de queijo no meio, como é surpreendente haver uma página da Wikipédia em dinamarquês dedicada a essa estranha sandes. A entrada da Wikipédia explica que “uma teoria proposta é que, a certa altura, era mal visto comer pão branco ao domingo, mas, estando o pão branco por baixo, Deus não o via”.
- Mellemlægspapir, papel para pôr no meio. É um papel absorvente que serve para se pôr entre as sandes (que são normalmente abertas, ou seja, um fatia de pão escuro com qualquer coisa lá em cima, donde a necessidade do papel) na caixinha de plástico que serve de lancheira!
A arte de “barrar merendas”, como se diz em dinamarquês. É entre estas sandes que se põe o tal papel…
- Rygeost, requeijão fumado,. Uma especialidade aqui desta zona. É fumado com palha de cereais e eu por acaso até gosto, mas é uma coisa um bocado especial… Exótica, enfim, com sabor a fumo… Também tem direito a página de Wikipédia

Rygeost, requeijão fumado
- Campeonato nacional de guitarra de ar, que é como quem diz, um campeonato para ver quem é o melhor a fingir que está a tocar guitarra.

 

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* Bom, eu conheço-o como provérbio inglês, “Beauty is in the eye of the beholder”, A beleza está nos olhos de quem olha”, mas, segundo Elizabeth Knowles, em The Oxford Dictionary of Phrase and Fable (OUP, 2005), o dito é muito mais antigo: “O provérbio está atestado em inglês a partir de meados do século XVIII, mas encontra-se nos Idílios de Teócrito (c. 300-260 a.C.), um dito grego do séc. III a.C. relacionado com ele: «Aos olhos do amor, o que não é belo parece muitas vezes que o é».” É claro, pode argumentar-se que é ir longe de mais relacionar a frase de Teócrito com o provérbio inglês, de tão diferentes que são. Agora, pode-se, isso sim (e deve-se, provavelmente), ver no aforismo de Teócrito a origem do provérbio português “Quem feio ama, bonito lhe parece”.

22 de agosto de 2011

Inventários #2: Cassetes (um inventário com música e publicidade escondida)

Li há algum tempo, não me lembro onde, que os jovens consideram o disco rígido do computador o suporte físico natural da música. Já nem CDs conhecem, quanto mais discos de vinil ou cassetes. E nós, vejam lá, desfizemo-nos agora, primeiro ao sair de Moçambique e depois ao fazer a mudança de Copenhaga para Svendborg, de umas boas centenas de cassetes. Para que queríamos nós cassetes? Bom, em Moçambique usávamo-las para ouvir música no carro. Em muitas daquelas estradas não se consegue ouvir CDs, porque estão constantemente a saltar. E então, quando comprámos o carro, pedimos expressamente um antiquado leitor de cassetes em vez de leitor de CDs e passámos 5 anos a viajar ao som de cassetes. Agora, de volta à Dinamarca, duvidávamos que as cassetes voltassem a ter alguma utilidade e desfizemo-nos delas todas. Bom, de todas, não: ficámos com 5:

1. Paul Tracey’s songs and stories, que tem de um lado canções e do outro lado histórias, todas eles maravilhosas, e que não se encontra já em lado nenhum, nem na loja do autor… Já lhe escrevi a dizer que não tem o direito de deixar desaparecer assim da História a sua música e ele respondeu-me que a imortalidade lhe interessa pouco… Mas vejam e ouçam este vídeo, para ficarem com uma ideia de como é a música dela. É, ao que sei, o único que se encontra dele na internet e é um vídeo curioso: Pelo que percebo, Paul fez uma canção para a sua filha Sarah; e outra filha, Devon, fez um vídeo para a canção do pai.


2. L’organiste barbare, uma obra, que “infelizmente não parece estar legalmente disponível em lado nenhum, do famoso (?) Claude Reboul. Podem vê-lo aqui em ação a partir do segundo minuto:


3. Um concerto gravado na mesa de mistura do Rock Rendez Vous a 9 de outubro de 1983, de uma banda que viria mais tarde a ser bastante conhecida. E eis o primeiro concurso da Travessa: quem adivinhar que banda é, ganha um prémio!...

4. Uma seleção sem título de música alegre, por uma grande banda alemã chamada Trio Bagatelli. Também já não existe e, se editou algum disco, não se o consegue encontrar em lado nenhum.

5. Desert voices I, do sul-africano Jason Armstrong e do moçambicano Gito Balói, infelizmente já falecido. E Desert Voices I, acho que só mesmo em cassete; de Desert Voices II, podem ouvir aqui 4 temas).
Agora, não é de ânimo leve que se deitam fora as cassetes, pelo menos as que têm histórias, e tínhamos muitas cassetes que tinham vindo de todos os lugares que ficam entre S. Francisco, nos EUA, Sucre, na Bolívia, e Medan, na Indonèsia, e que eram recordações de todo o tipo de pessoas, lugares e acontecimentos. Normalmente, o que de menos interessante tinham era a música; ou, se a música por acaso era interessante, já a tínhamos também em CD…     

[Post Post 1] Uma grande parte das nossas cassetes, como uma grande parte das cassetes de toda a gente, eram cópias ilegais, feitas em casa ou compradas já copiadas. Nunca autores nem executantes das músicas viram de direitos delas nem um tostão. É curioso, não se percebe bem porque é que, fazendo-se tanto barulho agora com os downloads e as cópias ilegais de música, nunca ninguém fez muito barulho em relação às cassetes…

[Post Post 2] Isto de só ter guardado 5 cassetes é mentira! Guardei mais, só que as outras não as quis pôr neste mini-inventário…

21 de agosto de 2011

Cantar anedotas

Um rei de Espanha, ou então de França tinha um calo num pé. Era no pé esquerdo, penso eu. Coxeava que metia dó. Os cortesãos, gente hábil, esforçaram-se por imitá-lo e, uns com o pé esquerdo, outros com o direito, aprenderam todos a coxear. Depressa se tornaram evidentes os benefícios de uma moda assim e, da antecâmara aos gabinetes, toda a gente coxeava.
Um dia, um nobre da província, esquecendo a seu novo dever, passou diante do rei, firme e direito como fuso. Começou toda a gente a rir, menos o rei que, baixinho, murmurou:
“Senhor, que quer isto dizer? Não vos vejo coxear…”
“Equivocais-vos, Majestade… Tenho os pés repletos de calos, vede! Se caminho mais direito do que os outros, é porque coxeio dos dois pés.”
Contado assim, é uma anedota, não há dúvida nenhuma. Podem achar-lhe graça ou não, mas é óbvio que é uma anedota. O que é curioso é que é, de facto, uma canção, originalmente em quadras, com métrica e rima emparelhada perfeita, mas que eu, para lhe deixar claro o caráter prosaico, resolvi traduzir em prosa [1]. A canção é de Gustave Nadaud, que, segundo uma página do site Dialogus, «foi um cantautor prolífico e muito famoso no seu tempo. Além de romances, ópera e poemas diversos, compôs mais de 300 canções, geralmente ligeiras e divertidas, às vezes sentimentais, muitas das quais foram publicadas em três volumes. Foi o primeiro cantautor a ser condecorado com uma ordem nacional, na altura do Segundo Império. Um dos feitos que lhe trouxe maior fama foi ter feito publicar, em 1884, as obras do communard Eugène Pottier, autor d’“A Internacional”».
Agora, a fama de Nadaud não se manteve até aos nossos dias, e eu nunca teria conhecido esta canção se Brassens não tivesse agarrado na letra (por alguma razão, não quis aproveitar a música…) e a tivesse musicado e cantado.
Georges Brassens, “Le roi boiteux”, 1979

Conheço muitas canções que são verdadeiras anedotas, mas esta é das poucas anedotas cantadas que conheço. Há dezenas de formas relativamente codificadas de canção humorística, mas a anedota cantada é muito rara. Percorram mentalmente o repertório dos cantores ou dos compositores de canções humorísticas que conhecem, e vejam lá se não me dão razão[2]. O que não quer dizer que seja esta a única anedota cantada. Conheço mais umas quantas... 

Em relação a esta do rei coxo, não sei se Nadaud musicou uma anedota que ele conhecia ou se inventou ele a anedota. Há casos, no entanto, em que tenho a certeza de que os autores se limitaram a transformar em canção uma anedota já existente, porque eu já conhecia as anedotas antes de as canções existirem. Um destes casos é o da “Chanson dégueulasse”, de Renaud, que de tão dégueulasse e tão sem graça, me recuso aqui a contar.  Outro é daquela anedota já velha que os Sparks musicaram no álbum Lil’ Beethoven e que eu acho que não produz o devido efeito na minha pobre tradução: Um homem pergunta a um transeunte o caminho para o Carnegie Hall: «Desculpe, como é que eu daqui chego ao Carnegie Hall?» «Pratique, senhor, pratique, é preciso ensaiar muito!», responde o outro. Bom, está bem…

Sparks, “How do I get to Carnegie Hall?”, 2002

Melhor que essas todas é uma canção-anedota nacional de que eu tenho pena de não saber a letra completa para a pôr agora aqui. Era cantada, se a memória me não falha, pelo Duo Humorístico Crispim e é a história de dois grandes mandriões que estão a bater uma sorna à sombra de uma árvore. De repente, um deles acorda excitado e desperta o outro:
«Eh, pá, tive um sonho maravilhoso! Sonhei que tinham inventado uma máquina que, com ela, um gajo já não precisava de fazer nada – era só carregar num botão e aparecia tudo feito!»
«Grande máquina, sim senhor, uma coisa assim dava um jeitão!», responde o outro, ensonado. «Mas ouve lá, não estás a contar comigo para carregar no botão, pois não?»

Há temas de canções mais típicos de certos países que doutros. O louvor da preguiça é, sem dúvida, um tema bem português. Pois, a saudade, pode ser… Mas muita preguiça também. No fundo, a preguiça é também um forma de saudade – saudade daquela Idade de Ouro primordial em que um gajo vivia sem ter de vergar a mola… Ou saudades do futuro, como dizia o outro, do tal futuro perfeito em que terá sido inventada[3] a máquina que faz tudo… carregando-se só num botão!
Pois… Ou, como diz outra canção que há, «O que é que querem? / São os ócios do ofício!»
Agora, para não ficarem a pensar que me levo muito a sério a mim mesmo e que acredito que o louvor da preguiça é mesmo uma particularidade da canção portuguesa, posso dizer-vos que Aristide Bruand, um dos mais importantes cantautores franceses[4], escreveu por volta de 1900 um monólogo chamado Lézard, em que faz a apologia de chular a irmã e o cunhado, em nome do direito a não fazer nenhum: «Uma pessoa ganha hábitos aos quinze anos / depois cresce e já não os perde / E eu gosto é de xonar / e não gramo trabalhar / Trabalhar é uma chatice.»
Tirando isso, houve mais gente boa da chanson, como Henry Salvador (uma vez até em colaboração com Boris Vian) ou Georges Moustaki, a fazer, uns mais a sério  do que os outros a brincar, o elogio do sagrado ripanço…
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[1] Assim mesmo: para lhe deixar claro o caráter prosaico, traduzi-a em prosa. Ou pensavam que era sem querer?
[2] Quando falo de anedotas, não falo de uma piada qualquer, nem sequer de uma letra narrativa humorística, mas sim de uma história com um desfecho que cria um efeito cómico – em princípio, visando provocar a gargalhada, mas, vá lá, no mínimo, um sorrisinho...
[3] Notem que a forma verbal “terá sido inventada” é um futuro perfeito passivo, como convém à conversa…
[4] De Aristide Bruant, muitas pessoas conhecem o retrato feito por Henri de Toulouse-Lautrec, mas desconhecem as centenas de canções que compôs… Pois vale a pena conhecê-las!

17 de agosto de 2011

Matriculomancia

A matriculomancia (inglês platomancy, francês placomancie) é a adivinhação do futuro a partir das matrículas dos carros. Este método divinatório assenta nos famosos princípios filosóficos de que nada acontece por acaso, porque Deus não joga aos dados, como se sabe; de que tudo está forçosamente interligado, porque senão o universo não faria sentido; e de que o que está em baixo é igual ao que está em cima, sendo o que está escrito nas chapas de matrícula, naturalmente, o mesmo que está escrito no grande livro do destino. Et cætera.

Nenhum carro passa perto de nós sem que haja uma razão para tal. Pensem bem: de todos os carros do mundo porque haveria aquele carro passar naquele lugar naquele momento? Mais do que razão, deve até falar-se de um sentido cósmico dessa passagem. E quem tiver olhos para ver verá. Se estivermos com atenção ao que se passa à nossa volta, todos temos – ou pelo menos eu tenho – várias possibilidades de comprovar na prática que as matrículas dos carros falam frequentemente connosco. Ainda no outro dia, por exemplo, o carro à frente do nosso tinha a matrícula FB 23 183 e era conduzido por uma amiga minha do Facebook. FB = FaceBook. Não vos parece que é demasiada coincidência? É evidente que aquela matrícula me queria dizer alguma coisa. Sabendo ler o significado oculto de letras e números, obtemos da matrícula de qualquer carro informações preciosas sobre o que o fado nos reserva.

Em cada chapa de matrícula, uma mensagem do divino
Como ler o significado oculto das matrículas? Uma entrada de blogue não é o lugar ideal para revelar tão complexo conhecimento, mas, agora que sou dele depositário, estou a pensar, precisamente, em organizar uns seminários e uns cursos por correspondência para o divulgar. E a preços por tal sinal bastante em conta. Manter-vos-ei informados.

O quê, não vos cheira? Bom, não sei porquê. Não é nem mais nem menos plausível do que qualquer outro método divinatório de que já tenham ouvido falar.

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 Atenção!

É frequente a confusão de matriculomancia com matriculomania, o vício de fazer apostas sobre as matrículas dos próximos carros a passar num determinado local. Tirando o facto de se centrarem as duas atividades nos carros que passam e de haver em ambas tentativa de adivinhação, não têm, claro está, nada a ver uma com a outra…

Muitos pensarão que a matriculomancia é uma forma de aritmancia ou numerologia (adivinhação pelos números), de nominomancia (adivinhação através de letras) ou até uma mistura das duas. Mas não. Pensar-se que letras e algarismos fazem sentido só por si ou como componentes de qualquer palavra ou número é, no mínimo, uma ideia abstrusa. Os números só fazem sentido quando reunidos numa placa de matrícula!

Medo das alturas

Acrofobia é o medo das alturas. É um medo de que eu sofro e que, de vez em quando, me causa problemas. Neste momento, causa-me mesmo um grande problema: Quando alugámos a casa aqui em Tåsinge, que é uma ilha, descurámos um pormenor: a ilha só está ligada à cidade mais próxima, Svendborg, por uma ponte; e eu, vim a constatá-lo depois, não sou capaz de a atravessar nem a pé nem de bicicleta. Dificulta-me, dificulta-nos muito a vida. E encarece-a, também, porque o autocarro custa 19 coroas dinamarquesas (2,5 €).

É claro, não me limito a aceitar isto como um facto, pronto, ponto. Sei que há terapias para isto e espero ultrapassar em breve esta patetice. Agora, quando vejo fotos como uma que Studiolum publicou no seu diário mesa revuelta, fico mesmo
sem palavras.   

O inferno

Todos ouvimos já muitas vezes falar de infernos de gelo de outras tradições e até de tradições onde coexistem infernos de fogo e de gelo; e se o nosso Inferno mais regular é de fogo, também há partes do inferno que são geladas em descrições cristãs do inferno (ou, se preferirem, descrições do inferno cristão).

Para a minha saudosa avó, o inferno era de chuva. Parece que a estou a ouvir, a conversar com a vizinha do lado:
 
«Olhe, fiz agora um tanque de roupa, mas esta chuva é um inferno para enxugar…»
 Gustave Doré, gravura para o canto 22, linha 19, do Inferno de Dante (Wikimedia commons)

16 de agosto de 2011

Caligrafia, língua e cultura

A letra das pessoas é, creio eu, culturalmente determinada. É certo que a variação individual é muito maior que noutros componentes da cultura, como a língua, por exemplo. Na língua, a variação individual nunca se sobrepões ao que é comum a todos os falantes, mas na caligrafia isso é possível. Dito de outra maneira, ninguém fala português de uma forma não identificável como sendo de um determinado lugar (quanto mais não seja, europeu, brasileiro, moçambicano, etc.), mas é perfeitamente possível ter uma letra que ninguém saiba de onde é.
O que é mais normal, no entanto, é ter a letra da sua terra. Creio que isto é óbvio para pessoas que, como eu, tenham passado muitos anos a ver caligrafia de gente de muitas nacionalidades. Com um certo treino, consegue-se até adivinhar, em muitos casos, a nacionalidade de pessoa só pela sua letra – se ela tiver uma letra standard do seu país, claro está. Só à laia de exemplo, deixo-vos três bocadinhos de textos manuscritos de pessoas de nacionalidade alemã, todas elas nascidas por volta de 1960. Como podem ver, há um padrão comum a todas elas, que é diferente do padrão de caligrafia de portugueses ou franceses da mesma idade.  
Agora, a caligrafia, como muitos outros aspetos da cultura de cada um, deve levar-nos a refletir sobre aspetos da cultura que se costumam deixar de lado quando se fala das culturas étnico-nacionais – “a cultura portuguesa” ou “a cultura dinamarquesa”, etc.
Um aspeto fundamental muitas vezes esquecido é que nenhuma cultura é trans-histórica: uma caligrafia portuguesa do século passado é mais parecida com, ponhamos, uma caligrafia polaca do século passado do que com uma caligrafia portuguesa de hoje – e provavelmente passa-se o mesmo com a cultura no seu todo…
E o facto de os padrões de caligrafia variarem em função não só de nacionalidades mas também de gerações leva-nos forçosamente a questionarmo-nos sobre como se processa a transmissão de cultura. Não parece fazer sentido que ela se passe apenas (sob a forma de memes ou sob outra forma qualquer) de uma geração para a geração seguinte, como se costuma postular. O que se passa com a caligrafia é, aliás, observável de forma ainda mais evidente relativamente à língua. Judith Harris defende que, se os filhos falam com o sotaque do meio em que cresceram e não com o sotaque dos pais (a não ser claro, que os pais falem com o sotaque do meio em que as crianças cresceram...), devíamos tirar desse facto simples algumas ilações sobre como se transmite a cultura (e a personalidade, mas deixo agora de lado essa questão) – ou, no mínimo, interrogar-nos e rever as conceções dominantes sobre essa transmissão vertical. Independentemente do que se possa pensar da teoria de Harris relativamente à formação da personalidade, há que considerar seriamente a hipótese de a cultura, como a língua, ser transmitida essencialmente por pares e não pelas gerações anteriores.


E o que eu digo é o mesmo: não pode ser com os professores que as pessoas aprendem a sua caligrafia, senão teriam a mesma caligrafia que eles. Tem de ser com os seus pares. Com os pares ligeiramente mais velhos, seguramente, mas com os seus pares. Assim, já faz sentido haver caligrafias nacionais e geracionais.

[Para mais discussão do conceito de cultura neste blogue, vejam, por exemplo, aqui e aqui. Para mais discussão do papel dos pares na transmissão da língua, vejam aqui]

9 de agosto de 2011

Crónicas de Svendborg #3: Muito azeite e muita manteiga


Costuma traçar-se linhas que unem zonas de, por exemplo, igual temperatura, as isotérmicas. Em dialetologia, traçam-se linhas que dividem zonas de pronúncia ou léxico diferentes, a que se chama isoglossas. Também é possível fazer o mesmo em relação à gastronomia (e alguém já o deve ter feito...), mas não sei como se poderia chamar a essas linhas. Aceito propostas – desde que não sejam isogástricas, isso está fora de questão.
Na Europa, por exemplo, uma linha fundamental que se pode traçar é a que separa a cozinha a azeite da cozinha a manteiga (tradicionalmente, note-se, porque hoje cozinha-se com todos os ingredientes em todo o lado)*. E a cultura do azeite e a cultura da manteiga têm, cada uma, marcas linguísticas surpreendentes, para quem venha da outra cultura: os dinamarqueses admiram-se quando eu lhes digo que temos uma expressão (ser coruja) para designar o hábito de pôr muito azeite na comida e os portugueses surpreendem-se quando lhes digo que existe em dinamarquês um nome, tandsmør, que designa o ato de pôr muita manteiga no pão. Muita mesmo, assim uma camada com meio centímetro ou mais de espessura…
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* É uma divisão diferente da que assinalam as isotérmicas ou as isoglossas, note-se, porque também há manteiga na zona de cozinha a azeite, mas não há azeite na zona de cozinha a manteiga...

Algumas notas sobre conservadorismo

George Orwell escreveu uma vez sobre Rudyard Kipling: «Embora não estivesse diretamente ligado a nenhum partido político, Kipling era um Conservador, uma coisa que não existe hoje em dia». O texto que cito é de fevereiro de 1942, e é isto que acho interessante: Segundo Orwell, já não havia conservadores naquela altura.

É bem possível que já não houvesse muitos, como hoje, muito provavelmente (isto são tudo impressões apenas, de Orwell e minhas…), também não há muitos. Pelo menos, nos programas políticos e no discurso político. Conservador é alguém que quer conservar as coisas como elas estão e, mesmo nos partidos que se dizem conservadores, estou convencido que não há muita gente assim. Encontro com muito mais frequência conservadorismo na conversa de autocarro ou de café do que no discurso político, que propõe quase sempre alterações – nem que seja, como diz o conhecido aforismo, para no fundo tudo continuar exatamente na mesma…
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Muitas vezes me lembro da frase célebre de Paul Valéry Le monde ne vaut que par les extrêmes et ne dure que par les moyens Il ne vaut que par les ultras et ne dure que par les modérés[1], “O mundo só vale pelos extremos e só dura pelos médios. Só vale pelos radicais e só dura pelos moderados”. E muitas vezes a reinterpreto substituindo moderados por conservadores, dando a estes últimos um papel afinal importante na História do mundo: ser um dos pólos da sua tensão, resistir às mudanças. Acho até que, de alguma forma, toda a gente acaba por ser conservadora nalguma coisa, de se acomodar no conforto do que já é, do que não precisa de ser inventado e construído. Mas, no geral, surpreende-me a posição conservadora: ser conservador só faz sentido num mundo que se considera suficientemente bom para não se o querer alterar – e não é nada assim que eu considero o mundo em que vivo.
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Se se associa normalmente conservadorismo à direita, a verdade é que o conservadorismo não tem de ser, nem é de facto, exclusivamente de direita. Não só há gente de esquerda conservadora, como há até módulos conservadores em certas ideias de esquerda, nomeadamente no que toca ao respeito de tradições e identidades, e também à preservação da natureza [2]. Pierre-André Taguieff, por exemplo, propõe um conservadorismo de esquerda: «Perante o imperativo único de “andar para a frente” (reforma perpétua e revolução interminável”, a resistência tem de apoiar‑se num projeto de conservação ou de preservação», diz ele em Résister au bougisme[3]. «Se o termo “conservadorismo” não se tivesse tornado difícil de usar devido à acumulação de maus usos que dele foram feitos (…), poderia desempenhar o papel de indicador, e até mesmo de bandeira, da nova postura “resistencial”. Porque, na conjuntura atual, é apenas com base em exigências conservadoras que pode redefinir‑se a resistência à desumanização técnico‑mercantil do mundo.» E cita, a propósito, o «filósofo e militante antinuclear» Günther Anders («Sou um “conservador” em questões de ontologia, porque o que me importa hoje, pela primeira vez, é conservar o mundo tal como ele é.»), o filósofo Jean-Claude Michéa (“um certo grau de conservadorismo crítico constitui agora um dos alicerces indispensáveis de toda a crítica radical da modernidade capitalista”. ) e o «liberal lúcido» Pascal Bruckner (“O conservadorismo inteligente deveria tornar‑se um valor de esquerda: a vontade de salvaguardar o mundo, de preservar para as gerações futuras as possibilidades de uma vida humana”).
Ora, se, por um lado, não considero o estado do mundo suficientemente perfeito para o querer conservar, tenho, por outro lado, uma visão da evolução do mundo muito mais otimista do que estes senhores e do que a maior parte dos conservadores; e, não receio, ao contrário de Camus, que “o mundo se desfaça[4]”. É certo que as mudanças não são desejáveis só por si e que nem todas as mudanças são positivas, mas acho que, no geral, tudo tem mudado mais para melhor do que para pior e o mundo é hoje, com as suas muitas injustiças, mais justo do que em qualquer outro período da História humana; e a vida das pessoas, com os muitos sofrimentos que persistem, alguns desnecessariamente, é mais longa, mais saudável e mais fácil do que alguma vez foi para a maioria dos seres humanos.
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Parece-me que uma das razões do sucesso da extrema-direita atual vem de ela ter incorporado a ideologia conservadora das conversas de autocarro e de café que o resto da direita já não ostenta no discurso político. De facto, os neofascismos de hoje assumem-se como conservadores, coisa que os fascismos originais, digamos assim, o nacional-socialismo e o fascismo italiano, em princípio não eram[5].
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[1] Tel quel I, 1941, p. 192.
[2] Relativamente a isto de conservar, podem dar-se casos curiosos, como aquele que foi motivação direta deste texto: O Partido Popular Dinamarquês, de extrema-direita, apoiou a resistência dos ecologistas à instalação de moinhos de vento em Østerild Klitplantage, em Thy. Mas, claro, pode discutir-se até que ponto é que o Partido Popular Dinamarquês, que é, em muitos aspetos, extremamente conservador, neste caso não o é apenas por estratégia política…
[3] Esta citação e as citações de Günther Anders, Jean-Claude Michéa e Pascal Bruckner por Taguieff, que aparecem a seguir, são de Resistir ao Para-a-frentismo, Lisboa: Campo da Comunicação, 2002, p. 132.
[5] Foram-no muito outros fascismos, é certo, como o fascismo espanhol e o fascismo português; mas talvez um pouco menos do que pode parecer à primeira vista, porque uma parte do que se propunham “conservar” tinha sido, afinal, inventado por eles… 

8 de agosto de 2011

Inventário # 1: O sótão da memória

Sótão da memória (cerca de 5800 ocorrências em Google) parece ser uma metáfora comum para a parte mais recôndita das nossas recordações[1], mas a verdade é que os sótãos conservam muito melhor o passado do que seja lá que parte for da memória[2].
 
Subi e desci umas 50 vezes a escada das traseiras do nº 15 da Brohus, em Copenhaga, onde temos um apartamento no rés do chão. A 75 degraus para cima e outros 75 para baixo, dá 7500 degraus. Em dois dias, é verdade, mas não deixa de ser um bom exercício para as pernas. Foi ir buscar o que tínhamos empacotado em regulares flytekasser, “caixas de mudança”, há 5 anos ou mais; desempacotar; seleccionar o que fazia sentido guardar; e voltar a empacotar para trazer para a nova casa em Svendborg. Agora, como disse várias vezes a minha mulher, nós sabíamos que tínhamos uma vida anterior a Moçambique, mas não sabíamos bem que vida era. E ficámos a saber. Guardadas no sótão estavam coisas como[3]: 
um dicionário de expressões do Yorkshire, onde se fica a saber, por exemplo, que powfagged significa “estafado” ou que kag ‘anded (assim mesmo, sem agá) significa “canhoto” ou “desajeitado”; 

um berço de vime, com uma pele de cordeiro por cima do minúsculo colchão, onde a Karen dormiu em bebé, e antes dela as irmãs mais velhas, e depois dela o irmão mais novo e todas as seis sobrinhas, e a Siri, e não sabemos a quem servirá a seguir; 

uma faca da Lapónia, com cabo diz que de osso de rena, que me ofereceram uma vez pelo Natal, em Haparanda;
  
o Feiticeiro de Oz, em versão pop up de Robert Sabuda, comprado em Bradford pela módica quantia de 16,99 libras, porque foi impresso na Colômbia e todo montado à mão no Equador, onde o trabalho é pago a preços de miséria…; 

fotocópias de uma edição bilingue da poética de Aristóteles, no original grego e em francês; 

duas cadeiras malauianas de madeira apenas e várias cadeiras dinamarquesas de assentos com listas verdes e vermelhas; 

um par de esquis, com as respetivas botas e os respetivos bastões;
  
uma máquina de coser Singer, que a minha avó – e muita gente – pronunciava com o som [Ʒ] de singelo; 

uma canequinha de Coimbra, com um desenho de um gnomo montado num caracol, em que eu bebia leite em pequeno e as tigelas e pratos amarelos em que a Karen toda a infância tomou o pequeno-almoço; e

um livro de moradas que me acompanhou creio que de 1983 a 1996, cheio de endereços e números de telefones que pessoas que não faço ideia onde param, que já morreram ou que nem me lembro, nalguns casos, quem são (e que tem um desenho à largura das guardas, com o seguinte texto: “Cá ‘stou mais um vez / tomara que a derradeira / sem ter nada em que pensar / a não ser na vida inteira”).
Chiça, que tenho – temos todos – tantas coisas! … Que não servem, a maior parte delas, para coisíssima nenhuma…
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[1] A não ser que se entenda também esta preposição de como uma marca de identificação e a expressão queira dizer que a memória é que é o sótão. Como dizia, e muito bem, o Fernando Relvas, (numa explicação que ele dava já desapareceu , a quem não falasse português, do que significa o título do seu blogue, Urso do Relvas), este de ambíguo tanto nos pode levar a concluir que o Relvas tem um urso como que o Relvas é um urso…
[2] Continuando na maré de ambiguidades iniciada na nota de rodapé anterior, eis aqui mais um excelente exemplo de uma frase ambígua, que é algo de gosto muito (gosto muito de frases ambíguas, entenda-se, não de excelentes exemplos de frases ambíguas, embora, claro, como amante de ambiguidades não possa deixar de apreciar os excelentes exemplos das ditas …): de facto, o que eu quero dizer e espero que tenham compreendido é que os sótãos conservam melhor o passado do que a memória conserva o passado, e não que os sótãos conservam melhor o passado do que os sótãos conservam a memória… Hmmm… Enfim, eu percebo-me, como dizem os franceses.
[3] Como processo literário, o inventário (desculpem a cacofonia, sim?) é tipicamente surrealista, ou, talvez antes, tipicamente prevertiano. Poder-se-ia dizer que Prévert preverteu o inventário. Em português, só conheço os inventários de Alexandre O’Neill (por exemplo, este), que não são verdadeiros inventários surrealistas, até porque O’Neill provavelmente nunca embarcou realmente no devaneio surrealista. Outra maneira de dizer isto é que O’Neill sempre foi mais o’neillíco do que o’nírico…

Crónicas de Svendborg #2: Strandby

A quem pense que o primeiro estabelecimento comercial de qualquer povoação é sempre uma taberna, apresento-lhe a vila de Strandby, no Norte da Jutlândia:
Strandby é um dos maiores portos de pesca da Dinamarca. No porto, perto da lota e dos vários armazéns de firmas de exportação de peixe, há um restaurante chamado A Estrela do Mar, onde nos sentamos a tomar uma bebida.
“Um café com toldos da Carlsberg em Strandby! Quem imaginaria uma coisa assim quando eu era rapaz novo?”, comenta o meu cunhado.
A família da minha mulher viveu – e uma parte dela ainda vive – ali na zona. Foi ali que a minha mulher cresceu.
Quando eles eram jovens, explicam a minha mulher e o irmão dela, era completamente impossível comprar um gota de álcool que fosse em Strandby e arredores. O sítio mais próximo onde se podia tomar uma cerveja ou uma aguardente era um quiosque em Bratten. Chamavam-lhe drukruten, a rota da bebedeira”. Em Strandby, não havia nem sequer uma pastelaria.
“Havia só a casa dos pescadores, onde se podia beber café. Álcool, em Strandby? ‘Tás maluco ou quê? Nem sonhar.”
Estou-vos a falar de há 30 anos, não de há 150, e Strandby não era nenhum lugarejo perdido. Já nessa altura havia a lota e as firmas de exportação de pescado, já a vila era um porto de pesca importante.
“Era a cultura da gente da pesca. Eram todos da Indre Mission, a Missão Interior”. Também não se podia cortar relva, nem fazer fosse lá o que fosse ao domingo; ninguém podia usar joias nem nenhum tipo de adornos; e os miúdos não podiam ir a festas de aniversário dos colegas, porque todas as festas eram proibidas…”
Strandby, portanto, no Norte da Dinamarca, nos anos 80 do século XX.

Crónicas de Svendborg # 1: Søren Kanne

O comboio que, à chegada à Dinamarca, apanhámos de Copenhaga para Slagelse chamava-se Søren Kanne. Gosto da ideia de os comboios terem nomes, que são também temas. No Søren Kanne, conta-se, em painéis espalhados pelo comboio, a história do camponês da Jutlândia que lhe deu o nome. Ou melhor, o seu feito heroico, porque é a esse feito heroico que se resume hoje a história do homem. Traduzo o texto da Wikipédia em dinamarquês, que não é muito diferente do texto que se pode ler no comboio:
A 15 de fevereiro de 1835, afundou-se o navio Benthe Marie, de Helsingør, a cerca de 50 metros de Grenå Sønderstrand. Um dos três tripulantes afogou-se e outro nadou para terra, ficando o capitão Ole Jensen Jyde agarrado aos restos do barco. Søren Kanne, que morava na Casa da Praia, em Hessel Hede, a sul de Grenå, foi, com dois cavalos, até ao barco, montou o capitão num dos cavalos e trouxe-o assim para terra, salvando-o.
O acontecimento foi referido em vários jornais, na sequência do artigo de 24 de março do Semanário do Camponês Dinamarquês. Em Århus, na sequência do artigo do jornal Aarhuus Stiftstidende, fez-se uma coleta para uma bandeja de prata para Søren Kanne e o rei Frederico VI condecorou-o com uma Medalha de Salvamento de Afogados e deu-lhe 40 táleres. Steen Steensen Blicher escreveu também um poema, “En ny Vise om en Sømand og en Landmand[1]”, sobre o feito de Søren Kanne. E vejam lá, a poesia, que normalmente não serve para nada, serviu neste caso para preservar e divulgar a história de Søren Kanne. Não fosse o poema de Blicher e não haveria hoje, tenho a certeza, nenhum comboio chamado Søren Kanne.
“O resto da vida de Søren Kanne”, continua o texto da Wikipédia, “foi sem grandes acontecimentos e, ironicamente, veio a morrer afogado no ribeiro de Grenå[2].”
Acabasse aqui o texto da Wikipédia e teríamos, na minha opinião, mais uma prova de que há textos que, sem a isso aspirarem, conseguem maravilhas de literariedade
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[1] “Uma nova canção sobre um marinheiro e um camponês”, aqui em dinamarquês, para quem saiba ler a língua de Blicher… Porque não o traduzo eu? Sinceramente, porque acho que não vale o trabalho...
[2] Na Dinamarca, não sei se os meus leitores o saberão, não há um único rio – só cursos de água muito pequenos. Pequena como esses ribeiros é a palavra que os designa em dinamarquês, å. Juntamente com ø, que significa ilha, é dos substantivos mais curtos das línguas europeias.