22 de outubro de 2011

Dory Previn: A vida em canções?

[Recuperado e adaptado de um blogue apagado e publicado aqui no dia em que Dory Previn faz 86 anos… ou 82? Sejam lá quantos forem, muitos parabéns!]

Dory Previn (Langdon antes de se ter casado com André Previn) é uma pessoa com uma vida no mínimo curiosa e tem sido afirmado muitas vezes que uma das suas características mais marcantes é expor-se completamente nas suas canções. Não só os factos da sua vida, mas também recantos mais obscuros da sua psique, tudo ela revela sem rodeios nas canções. Catarse, disse alguém. É verdade que, conhecendo um pouco da vida de Dory Previn, não podemos deixar de constatar que é a autora de carne e osso a protagonista de muitas das suas canções e de nos surpreender com a revelação de intimidades que não é muito comum tornar públicas em canções. Estou a falar, por exemplo, da relação doentia com um pai mentalmente perturbado (“amor de pai e demónios emaranhados na mente”) que descreve em várias canções [Com o meu pai no sótão / É aí que está a minha negra atração / Com a loucura em cima da mesinha de cabeceira / Ao lado da arma carregada / Na aterrorizadora proximidade do seu olhar (“With My Daddy in the Attic”)]; da sua crise conjugal quando o marido se apaixonou por Mia Farrow, com quem veio a casar [Cuidado com raparigas novas / Que te aparecem à porta / Melancólicas e pálidas / Com vinte e quatro anos / E te oferecem margaridas / Com mãos delicadas // Cuidado com essas meninas / Muitas vezes anseiam / Chorar num casamento / E dançar num enterro (“Beware of Young Girls”)]; dos problemas que a levaram a dois internamentos em hospitais psiquiátricos [Os meus botões azuis / Estão a ficar soltos / Soltos / Frouxos / Lucy Brown / A Lucy no céu / Luce / Luzente / Lúcida / Lucidez / Lúcifer / Luz / Enforquem a Luce / Mantém-te calma / Eu / Como é que eu fiquei assim / Eu ia / O que é que eu ia dizer? / Eu ia a / Como vim aqui parar? / Eu ia a caminho / Não estive aqui no ano passado? / Eu ia a caminho de / Porque me fecharam aqui? / Eu ia a caminho de onde? (“Mr. Whisper”)].



Este confessionalismo pode ser encarado tanto positivamente (prova de grande coragem) como negativamente (despudor, uma obsessão doentia consigo própria), mas, independentemente desses julgamentos, podemos perguntar-nos simplesmente se tem algum interesse como processo de criação artística. O que eu acho é que não é por ser autobiográfica como tal que uma obra de arte tem interesse, a não ser, precisamente, para quem se interesse pela vida do seu autor; mas que, se essa exposição de si próprio for um meio (como o é, no caso das canções de Dory Previn) de criar uma grande intensidade emocional, é bem vinda – e a obra de arte interessará também a quem não se interesse pela vida do autor.

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