7 de março de 2011

Vai d’embotas, Daniel e outras expressões populares

A expressão ir de embute é muito antiga. Sempre a conheci, o meu pai conhecia-a e não me espantaria nada que o pai dele a tivesse conhecido também. Ouvi-a milhares de vezes, continuo a ouvi-la diariamente quando vou a Portugal e há dela centenas de ocorrências em Google. Aliás, é uma expressão tão comum que me surpreende que Helder Guégués a não conhecesse há mais tempo diz-nos que só agora a ouviu pela primeira vez, numa crónica de João Gobern.  E pergunta: de onde virá tal expressão?

Antes de tentar esboçar uma resposta a essa pergunta (é esse o principal propósito deste texto), deixem-me indignar-me: o facto de não estar dicionarizada uma expressão como ir de embute prova mais uma vez o que já estamos fartos de saber: que os dicionários registam com prazer qualquer termo que algum escritor reconhecido tenha inventado um dia e usado uma vez ou duas (e de que, por conseguinte, não se pode dizer que faz realmente parte da língua), mas não registam o português real que milhares dos seus falantes nativos usam constantemente no seu dia-a-dia. Ou seja, decidem eles o que é português e o que não é, como se fosse essa a sua função e tivessem competência para tal… E o calão, bom, mais que qualquer outra variedade, «os lexicógrafos remetem[-no], se lhes vem ao gadanho, ao cemitério da língua», como constatava o mestre Aquilino Ribeiro, em tom de óbvia crítica a essa tentativa de varrer para debaixo do tapete as variantes dialectais e sociolectais menos prezadas pelos poderosos do idioma. Mas adiante:
Também já me interroguei várias vezes sobre a origem de ir de embute. E ensaio agora aqui não uma resposta definitiva, concludente, mas apenas uma reflexão ligeira, como quem pensa alto, que vale o que vale, como se costuma dizer, na falta de provas concludentes…  
Ir de embute está com certeza relacionado com bute, “pé”, disso não creio que possa haver muitas dúvidas. Mas como? Não me parece disparatado propor que ir de embute venha directamente de bute e é essa a ideia que desenvolverei a seguir. E então, para não meter os pés pelas mãos, se me desculpam o trocadilho de evidente mau gosto, convém falar um pouco dos butes antes de propor alguma explicação de como deles se chega a ir de embute.
Hoje em dia, a palavra bute usa-se sobretudo de quatro maneiras, ao que sei: i) na expressão meter os butes em [algum lado], que significa “estar em [algum lado]/ir a [algum lado]”, e que é usada quase exclusivamente como item de polaridade negativa – “nunca lá meti os butes” significa “nunca lá fui / nunca lá estive”; ii) na expressão ir/andar a butes, “ir/andar a pé”; iii) nas expressões dar/levar com os butes, “recusar alguém, terminar uma relação amorosa”/“ser recusado numa relação amorosa”; e iv), sozinha, como interjeição, com o significado de “vamos!” O meu dicionário Porto Editora de 2004 reconhece a palavra, que diz vir do inglês boot. O mesmo propõem o Dicionário da Academia das Ciências, de 2001, e o Dicionário Etimológico, de Antônio Geraldo da Cunha (2ª ed., 1996), que diz ainda que o primeiro registo conhecido do termo é de 1899[1]
Falta-nos saber, porém, como se chega de bute a ir de embute. À primeira vista, pareceria mais lógico que tivesse sido ao contrário, que embute se tivesse reduzido a bute, como embora se reduziu a bora. Mas a verdade é quase sempre contraintuitiva, como se sabe [2] e a minha engenhosa proposta (gaba-te cesto…) é que o bute, já usado como interjeição, tenha ganhado o ditongo nasal inicial por analogia com embora – uma reconstrução de uma pretensa forma anterior, pelo processo conhecido como etimologia popular: ...Se bora vem de embora, bute, que significa a mesma coisa, deverá também ter perdido um em- inicial e a forma “completa” há-de ser embute...
Até aqui, nada de muito extraordinário. Mas, e como apareceu ali no meio o de? Ir-se embora não tem nenhum de! Mais uma vez, por analogia, creio eu, mas desta vez com outras expressões, também comuns e com o mesmo significado, como ir/dar de frosques ou dar de slaide [3], ou, menos comuns, mas ainda assim com bastante ocorrência, pelo menos quando eu era jovem, ir de avanço ou ir de espiante, por exemplo, essas talvez mais tipicamente lisboetas.
E já agora, à laia de coda e já que estamos em maré de sinónimos de abalar ou ir-se embora em registos menos standard (desculpem-me o anglicismo, sim?), quero registar a expressão também muito comum dar corda aos calcantes e, mais apache do que ela, o velho xalar-se – ou chalar-se, não sei como é melhor escrever.  
E é tudo. Ou antes não, falta insistir numa coisa importante: toca a pôr nos dicionários o calão que lá falta, sim? Noutras línguas, estas coisas há muito que estão dicionarizadas. Pois, mas, a nós, faltam-nos ainda o nosso Pierre Perret e o nosso Frédéric Dard… 
_______________
[1Agradeço a Sofia Marsim a informação sobre as entradas do Dicionário da Academia e de A. G. Cunha, que acrescentei ao texto a 28 de junho de 2016. Pela mesma ocasião, retirei a proposta inicial de uma eventual etimologia alternativa, o francês bout, que me pareceu já não fazer sentido.
[2Senão, seria tão fácil ensinar às crianças ciência como religião e todos sabemos que assim não é… 
[3] Presumo que esta também venha do inglês slide, talvez através da gíria do automobilismo.

A música em si ou O mundo sem mi…m

Vou para ouvir um disco de Laurindo Almeida com o Modern Jazz Quartet e reparo nos temas: “Samba de uma nota só”… “Concierto de Aranjuez”… Hmmm… O disco é de 1964 e, se eu o ouvisse nessa altura, ouvi-lo-ia provavelmente com outros ouvidos, mas agora, estou desgraçado!, nunca me será possível ouvir a música sem os preconceitos que tenho sobre estes temas. A minha audição do disco está viciada à partida...
Se fosse budistamente optimista, diria que, treinando-me para parar o meu diálogo interno, poderia chegar a ouvir a música como ela é (o ideal do budismo é um ideal de objectivismo radical, como o de Alberto Caeiro…), sem o filtro da minha limitadora mente. A pergunta que me surge de imediato – e a que parece que nenhum filósofo budista soube ainda responder – é a seguinte: QUEM ouviria essa música, se eu tivesse conseguido dar cabo da armadilha do meu Eu, hem?

Escreve-se como se diz ou diz-se como se escreve?

Disse-me uma vez um aluno finlandês: “Uma diferença entre o finlandês e o português é que o finlandês se escreve como se diz, ao passo que o português se diz como se escreve”.
A surpreendente afirmação, à primeira vista disparatada, não deixa de fazer sentido quando comparamos uma escrita fonética, com correspondência biunívoca entre letras e sons, como a do finlandês, com uma escrita como a do português. O que o meu aluno queria dizer era que alguém que saiba finlandês e o saiba ler e escrever pode sempre escrever bem qualquer palavra que oiça, mesmo que a não conheça; ao passo que alguém que saiba português e o saiba ler e escrever pode quase sempre ler bem o que vê escrito, mas nem sempre saberá escrever uma palavra que ouça sem nunca a ter visto escrita.
De facto, isto é que aconteceria idealmente*, mas nem sempre é assim, devido à ausência de marcas do timbre da vogal. Por exemplo, há contextos em que a letra o e a letra e se podem pronunciar tanto [ô] como [ó] e tanto [ê] como [é]. Uma pessoa que não conheça a palavra meda ou medo, por exemplo (noutro sentido que não o de temor, porque não há quem não a conheça nesse sentido) não sabe se as deve pronunciar com [é] aberto ou [ê] fechado. Outro exemplo: Descobri há pouco tempo a palavra oomancia, que vi escrita, mas que nunca ouvi dizer. Em princípio, o o átono pronuncia-se [ó] quando é uma sílaba sozinho, como em o-riente, o-brigado, etc., pelo que deveria ser [ò-ò-mancia], mas a sequência [ò-ò] é estranha em português, epelo que poderia bem pronunciar-se [u-ò-mancia]…Não encontro a transcrição fonética em nenhum dicionário. Algum dos meus leitores sabe como se diz isto?
Mas enfim, não podemos queixar-nos muito. Na grafia de outras línguas, pode haver um número razoável de casos em que não se saiba imediatamente como se pronuncia o que se vê escrito. É o caso do inglês, por exemplo. Aliás, chegam as pessoas que falam inglês a fazer concursos de adivinhar como se pronunciam palavras inglesas desconhecidas… Já o francês, por muito que a sua grafia seja surpreendente, é como o português: quando se ouve uma palavra desconhecida, não se sabe como se a há-de escrever; mas, quando se a vê escrita, sabe-se (excepto em casos raríssimos, sobretudo de nomes de lugares e pessoas) como a pronunciar. Há é muitas maneiras de escrever o mesmo som… Lanço aqui um concurso, o primeiro da Travessa do Fala-Só:
Quantas maneiras há de escrever em francês o som [o] (como o o tónico de todo em português)?
Notem que não falo apenas do som [o] em palavras realmente existentes, mas de todas as letras ou sequências de letras possíveis que qualquer pessoa que fale francês leia imediatamente [o]. Para dar uma pista, posso dizer que são mais de 10… mais de 20… mais de 50…
_______________
* Não seria preciso mudar muito a grafia do português para ela ser como a do finlandês:
– Teria de se reduzir a uma única forma, sempre ç ou sempre ss, a escrita do som [s] entre vogais.
– Teria de se usar um u para escrever certos sons [u] átonos pretónicos, em palavras cuja flexão não nos permite verificar que existe ali um fonema /O/. Por exemplo, em comemos, o primeiro o, embora se pronuncie [u], corresponde a um som abstracto que, noutras formas do paradigma verbal, é [ô] (eu como) ou [ó] (tu comes), estando portanto justificado que se escreva com a letra o; mas o o de colher nunca se transforma em [ô] nem em [ô] em nenhuma das formas flexionadas ou derivadas de colher, pelo que não há razão lógica para o escrever com o. Mais lógico seria, de facto, escrever *culher, i) marcando com a grafia da vogal átona a abertura da vogal tónica para a distinguir do verbo colher (seguindo a lógica de puder e poder, por exemplo); e ii) dando ainda conta, de bónus, do étimo imediato, que é o francês cuillère.
– E também teria de haver marcas para assinalar a pronúncia das vogais átonas que não seguem a regra geral, como em esquecer ou certamente.

3 mininotas sobre o Estado Social de um imigrante num país de tradição social-democrata

1. “É muito caro este sistema de educação que vocês aqui têm na Dinamarca, sobretudo se o compararmos com outros normalmente considerados mais eficientes”, comento eu, em conversa com uma dinamarquesa minha amiga. “Principalmente, porque as pessoas mudam muitas vezes de curso a meio dos estudos, quando se apercebem de que não é aquilo que querem estudar, e andam muito tempo na escola, de maneira que só começam a trabalhar já muito tarde, com 30 anos ou mais…”
“Deixa estar,” responde-me ela com calma, sem se ofender com o que poderia ser percebido como uma crítica ao seu país vinda de um estrangeiro (uma coisa que, diz-me a experiência, é muito mal aceite, mesmo por quem passa a vida a criticar o seu próprio país…), “nós gostamos assim, estamos satisfeitos com o nosso sistema, com possibilidade de repensar as coisas e de andar muito tempo na escola. E estamos dispostos a pagar o preço que ele custa…”
É claro, não deve ser a opinião de toda a gente e não tenho maneira nenhum de saber qual a percentagem de dinamarqueses que assim pensa. Mas é significativo que tenha ouvido a mesma ideia a várias pessoas muito diferentes. E é uma boa lição de política: ao contrário do que se costuma afirmar, o Estado Social forte não é demasiado caro, quando custa o preço que os cidadãos querem pagar.

2. Desde os meus primeiros contactos com escandinavos que os oiço queixarem-se da desumanização causada pelo Estado Social forte, pelo desaparecimento da solidariedade directa, da entreajuda na família ou nos círculos de amigos. Lembro-me também de que muitos dos meus colegas no curso de dinamarquês que fiz em Copenhaga, imigrantes chegados há pouco tempo como eu, se queixavam da pretensa desumanização causada pelo Estado Social: “No outro dia, estava uma homem ali caído no chão, ao pé de Dronning Louises Bro e ninguém foi capaz de o ir socorrer. Tanta gente a passar e só eu é que fui lá”, diz-me um colega espanhol. “São assim os dinamarqueses e a eficácia do seu sistema: alguém telefonou logo para o serviço médico de urgência, mas ninguém foi lá para o pé do homem”.
Não quero recusar radicalmente a necessidade de repensar moral e estrategicamente (isto é, politicamente) os alicerces da ideia de Estado Social, mas estou convencido de que a crítica de rosto “humanista” que lhe é feita resulta em parte duma reacção romântica de tipo primitivista, digamos assim (primitivista no sentido que recusa a “robótica desumanidade” da utopia), do mesmo tipo do louvor da vida no campo ou da idealização das sociedades tribais, etc. O facto é que, para o homem caído ao pé de Dronning Louises Bro, o importante é que chegue depressa a ambulância, não que haja dezenas de pessoas solidárias ajoelhadas à sua volta. E a verdade é que, nas sociedades modernas, com grande espaço para a decisão individual em vez da clássica sujeição a tradições indiscutíveis, as antigas formas de solidariedade directa funcionam muito mal para gerar apoio a quem dele necessita; e a única maneira de se obter maior justiça social é, precisamente, tornar mais abstractos os mecanismos de apoio social. Tão abstractos quanto possível, propnho eu. Defendo até, aliás, como princípio ético geral, que a justiça é tanto maior quanto mais ela for o reflexo de princípios abstractos e menos da vontade de pessoas concretas – ou, antes, quanto menos ela depender de decisões de pessoas concretas sobre situações concretas de outras pessoas concretas. [Isto para não falar do lado prático da questão: por muito que tenham muitas vezes relutância em afirmá-lo publicamemnte, geralmente as pessoas preferem pagar para um sistema de apoio domiciliário e lares para idosos, por exemplo, do que tratar pessoalmente dos seus idosos...]

3. No artigo “Haverá futuro para a social-democracia?”, no Jornal de Negócios de 23 Fevereiro de 2011, João Pinto e Castro refere a ideia de Tony Judt (no seu livro Ill Fares the Land) de que, para que o Estado Social se não desmantele, é necessário que as pessoas saibam «como eram cruéis as nossas sociedades antes da emergência da social-democracia». Se, para mim, a ideia de Tony Judt faz sentido, também me parece razoável a objecção que João Pinto e Castro lhe faz: «é provável que uma atitude nostálgica, não enraizada no presente, faça [a social-democracia] parecer ainda mais obsoleta». 
A alternativa que eu proponho para a consciencialização para as óbvias vantagens do Estado Social é a informação sobre as sociedades contemporâneas sem Estado Social (há, infelizmente, muitas sobre as quais se pode dar informação) e, sempre que possível, o incentivar, sobretudo os jovens, à experiência directa dessas sociedades. Se uma jovem dinamarquesa passar uns meses num país como Moçambique (que é onde estou a escrever isto), é extremamente provável que, por mais liberal que seja à partida, fique bastante convencida da necessidade de preservar o Estado Social na Dinamarca… Aliás, nem tem de ser Moçambique: uns meses em Portugal (que é de onde sou cidadão) persuadirão, com certeza, a nossa virtual dinamarquesa do valor do Estado Social que ela, sinal dos tempos..., talvez questione…
______________
Foto: “Siddende unge mennesker” (“Jovens sentados”), de Johannes Hansen, 1942 (daqui)