30 de agosto de 2012

A água, o ferro e a vida


Traduzi há alguns anos um texto do filósofo Lucien Sève em que, para discutir a necessidade de revolução na mudança social, o autor lança mão da “física das transições de fase mudanças do estado da matéria, aquilo a que normalmente se chamava mudanças do estado da matéria”. Para Estaline e outros teóricos marxistas da dialética, “a lei das mudanças qualitativas «obrigatoriamente bruscas»” deveria ser a mesma para a água e para as sociedades. Sève aceita esta premissa para a discussão e usa na sua argumentação contra as ideias estalinistas exemplos da evaporação lenta da água e dos “estados paradoxais da matéria”.
Acho bem que a discussão das mudanças sociais e todas as demais discussões éticas sejam feitas com base em demonstráveis, e, quando possível, em observáveis; mas não faz para mim sentido nenhum que se pretenda fazer coincidir as leis que regem a matéria e as leis que regem o comportamento das pessoas, e menos ainda que se baseie em leis da física ou da química a proposta de que leis devem reger o comportamento das pessoas.
Ainda assim, e é aqui que eu queria chegar com esta introdução, gosto muitas vezes de “encontrar” lições para a vida humana na realidade material não humana à minha volta. As aspas em encontrar são muito grandes e servem para insistir em que não acredito que se possam deduzir da físico-química grandes leis morais ou ensinamentos sobre a nossa vida – mas a matéria dá excelentes metáforas de fenómenos imateriais. Por exemplo: Lembro-me de que tive, há alguns anos, uma longa discussão epistolar, com um amigo, sobre os limites da possibilidade de controlo da nossa própria vida; e lembro-me de que usei nessa discussão uma metáfora que tinha encontrado no livro Tar Baby, de Toni Morrison (embora ela a usasse com intenções diferentes): a metáfora da “bola que dá voltas à roleta, movida tanto pelo seu próprio peso como pela força da roda”. Ninguém sabe onde é que ela vai parar, não é verdade?, mas é fácil de perceber que seja lá onde for, o seu percurso é parcialmente determinado pelas forças exteriores da impulsão e do atrito, e parcialmente determinado pelas próprias características do objeto sobre que agem estas forças – forma, peso, tamanho, etc. “É assim a vida”, escrevi eu ao meu amigo, “nós somos a bola da roleta.”
Ontem, ao limpar o meu fogão novo (um excelente fogão a gás de cinco bicos, como há muito eu queria ter), descobri mais uma metáfora engraçada da importância das características próprias versus a vida que vivemos: ao limpar os queimadores, apercebi-me de que havia uma relação diretamente proporcional entre sujidade e potência dos queimadores, que é, curiosamente, inversamente proporcional ao uso que lhes dou: por muito que use mais os queimadores mais fracos, estes sujam-se menos – por serem mais fracos, presumo eu; e os queimadores maiores, que uso menos, sujam-se mais, por serem mais potentes. O queimador duplo, de alta potência, que praticamente só uso para bifes e que, por isso, quase nunca uso (porque a vida não está muito para bifes, não é verdade?…), estava bastante mais sujo que os outros todos.
Então, acham que vos serve para alguma coisa a metáfora dos queimadores do fogão?

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