12 de setembro de 2012

Palavras, pensamento e perceção, mais uma vez (1)


A  adoção de uma atitude racionalista implica predispor-se a mudar de crenças a qualquer momento e passar às vezes a defender o que antes se atacou, em função, claro está, da força dos argumentos e provas que vão sendo apresentados numa discussão. Se há pessoas a quem causa grande desconforto aceitar a volubilidade das suas convicções e que preferem, para o evitar, perfilhar certezas perenes, para outras ‒ para mim ‒, essa instabilidade é a vantagem não só epistémica como moral do racionalismo.
Para banalidade, não está mal. Mas é uma introdução apenas, espero que o que se segue seja menos corriqueiro. Já mudei de campo duas vezes na discussão da influência da língua sobre o pensamento. Quando comecei a interessar-me pela questão e a refletir sobre ela, tomei, de uma maneira algo ingénua, o partido dos chamados whorfianos, o relativismo linguístico: as categorias linguísticas, pensava eu, como muitos pensam, introduzem cortes no continuum da realidade e a maneira como percebemos e concebemos o mundo é, por isso, determinada pela língua que falamos. O bilinguismo, dizia eu ‒ e sentia-o ‒, resulta numa cisão da personalidade: é-se de uma maneira numa língua e de outra maneira noutra.   
Quando comecei a estudar linguística, comecei a compreender melhor o que, sob a superfície da diferença, há de invariável nas línguas todas. Comecei também a compreender a ingenuidade da abordagem de Whorf e a dar-me conta da enorme falta de observáveis que a sustentassem. A pouco e pouco, de whorfiano ingénuo, fui-me tornando um antiwhorfiano com cada vez mais (boas) razões para o ser. Isto resultou em centenas de discussões acaloradas, em conversas de café, jantares de amigos e situações afins: O discurso whorfiano é extremamente sedutor e, o whorfianismo, embora tivesse praticamente desaparecido das teorias e dos trabalhos de linguística, tinha-se, pelos vistos, tornando senso comum entre um vasto grupo de gente educada.
urgiu depois, porém, uma vaga de neowhorfianos, que, ao contrário de Whorf e de muitos whorfianistas clássicos, começou a fazer trabalho experimental sério e a defender uma versão fraca da teoria, muito mais razoável que as suas primeiras formulações. Estes neowhorfianos têm vindo a trazer à discussão argumentos mais sólidos que os que até aí tinham sido apresentados  a favor da hipótese de influência da língua na cognição e eu predispus-me a aceitar que o léxico possa, de facto, determinar certas capacidades ou hábitos cognitivos. Mas claro, não o aceito sem certas reservas: creio, por um lado, que, em muitos casos, está ainda por demonstrar essa influência; e não sei até que ponto é que é a influência do léxico se pode sempre considerar uma influência propriamente linguística.
Já o disse aqui uma vez, a propósito da constatação de uma relação entre língua materna e discriminação de cores ao nível percetivo[1]:
[O léxico] é a parte menos linguística da língua. O léxico, comparado com as estruturas sintático-semânticas e sobretudo as estruturas fonéticas, é facilmente alterável, e em qualquer língua se podem introduzir, com grande rapidez e sempre que seja necessário, novas palavras para dizer novas coisas (também cores…). Além disso, o rigor na classificação das cores (...) pode variar muito de indivíduo para indivíduo entre os falantes de uma mesma língua – pode haver quem saiba o que é azul ultramarino e quem não o saiba e seria interessante comparar como afeta a cognição das cores a maior ou menor educação cromática, digamos assim…
Ao contrário das estruturas morfossintática e fonético-fonológica, o léxico muda com facilidade, tanto na sua disponibilidade na língua como na utilização que cada um dele faz, e é ao nível do léxico que as línguas mais interagem umas com as outras, e com mais facilidade, importando e exportando palavras. Por ser a menos linguística parte da língua, ou a mais superficial, se preferirem, o léxico é o que de menos próprio tem cada língua. Não considero, por exemplo, que seja fator definidor do português ter as palavras unto ou malandrice, mas é com certeza definidor do português ter a possibilidade de flexionar em pessoa o infinitivo, ter uma estrutura silábica independente da estrutura morfológica, ter redução de determinadas vogais átonas, etc[2]. Bem vistas as coisas, a tese neowhorfiana não parece ser que a língua influencia a conceptualização e a perceção, mas antes que o hábito de usar determinadas palavras o faz. Ora isto é, com rigor, independente da língua em sentido estrito. Imaginemos uma criança de língua inglesa que cresça numa casa onde os pais, ambos ilustradores, a habituam a usar uma descrição mais rica das cores do que aquela que aprenderam os seus colegas e vizinhos. É possível que isso afine e condicione a maneira como a sua mente analisa e conceptualiza as cores sem que a criança deixe, por isso, de ser uma falante normal de língua inglesa.
Agora, para verem que sou, como afirmava no início, um racionalista efetivamente aberto a ser convencido do contrário do que penso, vou dar aos neowhorfianos argumentos (que, curiosamente, nunca vi por eles referidos – o que não quer dizer que o não tenham feito, claro está) para defender impactos prováveis na perceção de fatores profundamente linguísticos e que apenas se podem adquirir relativamente cedo, como sejam a estrutura fonológica da(s) língua(s):
No seu livro Musicophilia (London: Picador, 2008) Oliver Sacks refere (p. 136) um estudo de Diana Deutsch et al.[3], sobre a incidência de ouvido absoluto[4] em duas populações de estudantes de música:
“Entre estudantes que tinham começado a receber educação musical entre os 4 e os 5 anos, (…) cerca de 60% dos estudantes chineses [do Conservatório Central de Música de Beijing] obedeciam ao critério de ouvido absoluto, ao passo que só 14% dos estudantes dos Estados Unidos, falantes de línguas não tonais, obedeciam aos critérios.” Entre os que tinham começado a receber educação musical entre os 6 e os 7 anos, os números dos dois grupos eram proporcionalmente mais baixos, cerca de 55% e 6%. E entre estudantes que tinham começado a receber educação musical ainda mais tarde, com 8 ou 9 anos, “cerca de 42% dos chineses obedecia aos critérios, ao passo que nenhum dos estudantes falantes de línguas não tonais dos Estados Unidos o fazia”. Não havia diferenças de género em nenhum dos grupos. Esta patente discrepância levou Deutsch et al. a conjeturar que, “se lhes for dada essa oportunidade, as crianças jovens podem adquirir ouvido absoluto como característica do discurso, transportando-o depois para a música.”
O fator que aqui está em causa é a tonalidade do chinês, isto é, o facto de uma mesma sílaba dita com diferentes “melodias” (ascendentes, descendentes…) ter diferentes significados. Se se puder confirmar que a competência tonal na língua pode influenciar a capacidade de reconhecer altura absoluta de um som musical, aí sim, temos verdadeira influência da língua nas capacidades cognitivas de uma pessoa. Now, you’re talking, como diz o outro.
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[1] Ver, por exemplo, o estudo de Jonathan Winawer et al. cujo resumo está disponível aqui; e também os outros estudos que o referem e para os quais há links disponíveis ao fim da mesma página.
[2] Embora nenhuma destas caraterísticas seja exclusiva do português, note-se. Não considero aqui definidores os traços exclusivos, até porque não sei se tal coisa existirá, mas sim a maneira única como se agrupam traços que existem também noutras línguas.
[3] “Absolute pitch among American and Chinese conservatory students: prevalence differences, and evidence for a speech-related critical period” in Journal of the acoustical society of America 119(2) (2006), pp. 719-722
[4] Ouvido absoluto é a capacidade de reconhecer a altura absoluta de um som e, por conseguinte, de o situar imediatamente na escala standard: “o meu pai assoa-se em lá”.

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