22 de dezembro de 2012

Um vazio

Já não vamos a Portugal desde junho de 2010. Havemos de lá ir agora no verão, não sei ainda exatamente quando. Vai ser bom – é sempre bom – rever a família e os amigos. (E comer peixe.) Há 15 anos que não vivo em Portugal. Há hábitos e posturas que já estranho, e muitas rotinas novas que conheço mal – mas é claro que nunca me sinto, nunca me hei de sentir, forasteiro.
Portugal, disse-o muitas vezes nesta última década, foi um país que vi de facto mudar. Desenvolver-se realmente. É mais fácil notar desenvolvimento quando lá se vai de vez em quando que quando lá se vive todos os dias, creio eu. Mas é também muito fácil deixar-se enganar por impressões, dir-me-ão. É certo. Neste caso, porém, parece que as minhas impressões, quando cotejadas com os valores de vários indicadores de desenvolvimento, tanto económicos como sociais, não eram enganosas por aí além – Portugal desenvolveu-se mesmo muito desde que eu de lá saí. É certo que não se desenvolveu, nalguns aspetos, tanto como eu gostaria que se tivesse desenvolvido, ou tanto como poderia ter-se desenvolvido. Mas desenvolveu-se muito. Agora, a destruição enraivada do Estado social vai dar cabo de tudo, a pretexto da diz-que-necessária austeridade (a afinal mais-que-comprovadamente-inútil-para-os propósitos-que-dizem-que-serve, a calamitosa, perversa austeridade…): do desenvolvimento que se deu nos 15 anos em que vivi fora do país e do desenvolvimento que se deu antes.
Vamos no verão a Portugal para rever – é sempre bom – familiares e os amigos. Desses familiares e amigos, há uns quantos (dois dos meus irmãos, por exemplo) que entretanto saíram do país, porque não sabiam como ficar. Outros, se não encontrarem emprego até ao verão, hão de lá estar ainda, mas desempregados. Muitos, todos, creio eu, hão de estar tensos, revoltados. Hão de dizer-me que tu não sabes, Vítor, como é que isto anda por cá e o que é ter um governo assim, mas eu sei, posso não o sentir na pele, mas sei, então porque não havia de saber?
Vou contar-vos uma espécie de visão. É um exagero, dir-me-ão, e eu sei que é, mas a gente não manda no nosso inconsciente, pois não? Uma noite destas, não num sonho propriamente dito, mas naquele estado vago meio sonho, quase quase a adormecer, veio-me ao espírito uma imagem horrível, não sei se foi algum boneco que vi no Facebook ou o que foi: que, se continuar a este ritmo a destruição do país, quando lá chegarmos no verão, está lá só um vazio, um bocado de coisa nenhuma, no sítio onde havia Portugal… 


Jozef Israëls, Filhos do mar, 1872, Museu Nacional, Amesterdão
      

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