31 de agosto de 2012

Gamelãs do Ocidente

Segundo a Wikipédia, Louis-Albert Bourgault-Ducoudray foi um revolucionário. Teria afirmado, na Exposição Universal de Paris, em 1878:
Nenhum elemento de expressão que exista seja em que melodia for, por mais antiga ou remota que seja a sua origem, deve ser banido da nossa linguagem musical. Todos os modos, velhos e novos, europeus ou exóticos, desde que sirvam um propósito de expressão, devem ser admitidos por nós e usados por compositores.
Mas era, enfim, mais revolucionário nas palavras que nos atos. Escreveu a primeira composição europeia "com instrumentos genuínos de gamelã e temas musicais cambojanos", a Rapsódia Cambojana de 1882, mas o resultado não tem mesmo nada de surpreendente:



Depois de Bourgault-Ducoudray, muitos outros compositores ocidentais utilizaram gamelã e se inspiraram na música de gamelã. Dois dos que mais e mais diretamente se serviram de gamelãs – ou os serviram – foram  Lou Harrison e Colin McPhee. Ouçam então, proponho eu, uma composição gamelânica (credo!) de cada um deles:

Lou Harrison. Three Pieces for Gamelan With Soloists (1978/1979). I - Main Bersama-Sama; II - Threnody for Carlos Chavez; III -

Colin McPhee. Tabuh-Tabuhan (1936) 1. Ostinatos; 2. Nocturne 3. Finale / Eastman-Rochester Orchestra; Howard Hanson
Tabuh-Tabuhan. Parte 1. Tabuh-Tabuhan. Partes 2 e 3.

Um nome entre o silêncio e o ruído

Comprei por cinco coroas apenas, numa loja de segunda-mão, um livrinho de poemas de Mowlana Jallaledin Mohamad Rumi. O livro chama-se Whispers of the beloved (Londres: Thorsons, 1999) e é uma seleção de quadras do mestre sufi. Há algumas que me fazem lembrar João da Cruz ou Angelus Silesius, de quem já aqui falei uma vezPergunto a mim mesmo se a poesia destes místicos nos surpreende menos hoje do que surpreendia os seus contemporâneos. Rumi diz que a voz de Deus se ouve no silêncio, e que é silêncio que envolve o segredo do mundo, porque Deus é o mestre do silêncio (traduzo eu das traduções inglesas):  
Ensurdecido pela voz do desejo/ não te apercebes de que o Amado / vive no centro do teu coração. / Pára o ruído / e ouvirás a Sua voz / no silêncio (Quadra 181)
A noite passada, pedi ao Sábio que me dissesse / o segredo do mundo. / Suavemente, murmurou: / “Não digas nada; / o segredo não pode ser dito, / está envolto em silêncio”. (Quadra 1022)
Deus conhece-te sob qualquer disfarce, / ouve as palavras que não disseste. / Toda a gente se deixa tentar / pela eloquência da fala, / mas eu sou escravo / do mestre do silêncio (Quadra 742)
Que longe estamos do barulho que costuma fazer o nome das divindades – ou do barulho que com ele se costuma fazer…

30 de agosto de 2012

O antónimo de estar vivo

Descobri no outro dia este aforismo de Chris Marker:  “Mourir est tout au plus l'antonyme de naître. L'antonyme de vivre reste à trouver.”  “Morrer é, quando muito, o antónimo de nascer. O antónimo de viver ainda está por descobrir.
São duas proposições provavelmente sedutoras, mas muito discutíveis. Ontem ao jantar, sem problematizar a primeira afirmação, pus aos meus filhos a questão do antónimo de viver:
Morrer é o contrário de nascer”, disse-lhes eu em português*. “E qual é o contrário de viver?”
Respondeu-me a minha filha mais nova, de oito anos (em dinamarquês*):
Det modsatte af at leve er at være død” (“O contrário de viver é estar morto”).
A verdade é que o verbo dinamarquês at leve não corresponde sempre a viver em português e que nenhum deles corresponde exatamente ao francês vivre da frase original. É  “estar vivo” que vivre quer dizer no aforismo de Chris Marker? E vivre pode querer dizer “estar vivo”? Acho que pode, em contextos específicos, como em “Hésiode vient de mourir, Homère, s'il vit encore, a cent ans” (“Hesíodo acaba de morrer, Homero, se ainda estiver vivo, tem cem anos”). E o português viver também pode querer dizer isso, em certos contextos. Vejam, por exemplo, “Depois da operação, viveu apenas três meses”.
Esta questão dos antónimos de naître, mourir vivre (ou de nascer, morrer e viver) não é tão fácil como parece. Por um lado, fora de contexto, ocorrendo apenas em abstrato, vivre, viver ou at leve significam muito pouco… Por outro lado, antónimo é um conceito complicado, que, como acontece muitas vezes com conceitos linguísticos, varia de autor para autor e de escola para escola. Muita gente considerará que (estar) vivo e (estar) morto, esses sim, são obviamente antónimos, exatamente como os pares canónicos quente/frio ou curto/comprido. Também há, porém, quem não lhes chame antónimos e os considere antes opostos complementares, reservando a designaçao de antónimos para os opostos graduáveis: o chá pode estar mais quente ou mais frio, e não tem  forçosamente de estar ou quente ou frio; agora, com rigor, ou se está vivo ou se está morto, sem graduação possível entre os dois estados. É curioso, aliás: mesmo quando estamos a morrer ou quando estamos mais mortos que vivo, é perfeitamente vivos que estamos, não é verdade?
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* Pois, na maioria das vezes, é assim que comunicamos cá em casa: eu falo português e os meus filhos respondem-me em dinamarquês. Este tipo de comunicação é muito normal em famílias multinacionais, acho eu. (Famílias multinacionais? Credo!...) 

A água, o ferro e a vida


Traduzi há alguns anos um texto do filósofo Lucien Sève em que, para discutir a necessidade de revolução na mudança social, o autor lança mão da “física das transições de fase mudanças do estado da matéria, aquilo a que normalmente se chamava mudanças do estado da matéria”. Para Estaline e outros teóricos marxistas da dialética, “a lei das mudanças qualitativas «obrigatoriamente bruscas»” deveria ser a mesma para a água e para as sociedades. Sève aceita esta premissa para a discussão e usa na sua argumentação contra as ideias estalinistas exemplos da evaporação lenta da água e dos “estados paradoxais da matéria”.
Acho bem que a discussão das mudanças sociais e todas as demais discussões éticas sejam feitas com base em demonstráveis, e, quando possível, em observáveis; mas não faz para mim sentido nenhum que se pretenda fazer coincidir as leis que regem a matéria e as leis que regem o comportamento das pessoas, e menos ainda que se baseie em leis da física ou da química a proposta de que leis devem reger o comportamento das pessoas.
Ainda assim, e é aqui que eu queria chegar com esta introdução, gosto muitas vezes de “encontrar” lições para a vida humana na realidade material não humana à minha volta. As aspas em encontrar são muito grandes e servem para insistir em que não acredito que se possam deduzir da físico-química grandes leis morais ou ensinamentos sobre a nossa vida – mas a matéria dá excelentes metáforas de fenómenos imateriais. Por exemplo: Lembro-me de que tive, há alguns anos, uma longa discussão epistolar, com um amigo, sobre os limites da possibilidade de controlo da nossa própria vida; e lembro-me de que usei nessa discussão uma metáfora que tinha encontrado no livro Tar Baby, de Toni Morrison (embora ela a usasse com intenções diferentes): a metáfora da “bola que dá voltas à roleta, movida tanto pelo seu próprio peso como pela força da roda”. Ninguém sabe onde é que ela vai parar, não é verdade?, mas é fácil de perceber que seja lá onde for, o seu percurso é parcialmente determinado pelas forças exteriores da impulsão e do atrito, e parcialmente determinado pelas próprias características do objeto sobre que agem estas forças – forma, peso, tamanho, etc. “É assim a vida”, escrevi eu ao meu amigo, “nós somos a bola da roleta.”
Ontem, ao limpar o meu fogão novo (um excelente fogão a gás de cinco bicos, como há muito eu queria ter), descobri mais uma metáfora engraçada da importância das características próprias versus a vida que vivemos: ao limpar os queimadores, apercebi-me de que havia uma relação diretamente proporcional entre sujidade e potência dos queimadores, que é, curiosamente, inversamente proporcional ao uso que lhes dou: por muito que use mais os queimadores mais fracos, estes sujam-se menos – por serem mais fracos, presumo eu; e os queimadores maiores, que uso menos, sujam-se mais, por serem mais potentes. O queimador duplo, de alta potência, que praticamente só uso para bifes e que, por isso, quase nunca uso (porque a vida não está muito para bifes, não é verdade?…), estava bastante mais sujo que os outros todos.
Então, acham que vos serve para alguma coisa a metáfora dos queimadores do fogão?