12 de janeiro de 2013

Da escrita como menorização de si próprio

Numa entrevista dada em 1987 a Leopoldina Pallota della Torre, Marguerite Duras responde à jornalista de La Stampa de uma forma que me surpreendeu*:
[L. P. Torre:] Escrever para exorcizar fantasmas? Defende a dimensão terapêutica da escrita.
 [M. Duras:] Escrevo para me vulgarizar, para me massacrar, e depois para me tirar importância a mim mesma, para me aliviar: que tome o texto o meu lugar, de maneira que eu exista menos. Só consigo libertar-me de mim própria em dois casos: pela ideia do suicídio e pela ideia de escrever.
As palavras de Marguerite Duras fizeram-me lembrar outras de Alexandre O’Neill. O que O’Neill diz da forma como encara a escrita é completamente diferente, mas acho que compreenderão a relação que fiz: liga os dois textos a ideia da escrita como forma de se desimportantizar (o termo é o’neilliano):
Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem. Mas há uma palavra francesa com a qual posso perfeitamente exprimir o rompante mais presente em tudo o que escrevo: dégonfler. Em português, traduzi-la-ia por desimportantizar, ou em certos momentos, por aliviar – aliviar os outros, e a mim primeiro, da importância que julgamos ter. Só aliviados podemos tirar o ombro da ombreira e partir fraternalmente, ombro a ombro, para melhores dias, que o mesmo é dizer, para dias mais verdadeiros.**
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* "La confession secrète de Duras", Le Nouvel observateur online, 20-12-2012, traduzo eu do francês, algumas palavras sem muita convicção, de ambíguas que são... O texto francês é um excerto de Marguerite Duras, La Passion suspendue, entretiens avec Leopoldina Pallotta della Torre, Paris: Seuil, 2013.
** Tenho este texto, dito pelo autor, gravado numa cassete, imaginem vocês… Foi publicado num disco que acompanhava a primeira edição de Entre a Cortina e a Vidraça, em 1972.

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