11 de janeiro de 2013

Fazer um bom refrão tem muita arte [Adaptado de um blogue apagado #4]

Tem toda a razão o amigo Pedro Malaquias quando diz que “fazer um bom refrão tem muita arte”*:



É mesmo! Refrães** há muitos, mas de quantos é que se pode dizer “benza-te Deus”? Bom, não quero apresentar-vos aqui uma Teoria Geral do Refrão, nem uma História do Estribilho da Idade Média aos Nossos Dias, nem sequer propor-vos uma Arte e Preceito de Fazer Refrães com Jeito, mas vou falar de uns quantos refrães, sem mais.

Tinha um amigo que não se cansava de repetir, nos tempos (como se diz em Moçambique), que “Loser”, de Beck [Hansen] era o melhor refrão que alguma fez tinha existido na música pop. Era um amigo que de música sabe muito mais do que eu e não tenho razão nenhuma para duvidar dele, mas não é bem do refrão do “Loser” que eu tinha pensado falar aqui, por muito que, de facto, seja um refrão engraçado. (E se não queria falar dele aqui, porque falei então? Hmmm…)

Eu acho que o sonho de qualquer letrista pop é fazer um refrão como o de uma cantiga que Stan Kesler e Bill Taylor fizeram para um colega deles da Sun Records. Eu pelo menos, era um refrão que gostava de ter feito (se bem que não seja exactamente um refrão, mas isso...):
Well, you're right
I'm left
She's gone
You're right
And I'm left
All alone…
Um outro grande refrão é o de “La non-demande en mariage” de Georges Brassens. Brassens fez uma avaria semelhante no refrão de “La mauvaise reputation” (“Non, les braves gens n’aiment pas que / l’on suive un autre chemin qu’eux”), mas em “La non-demande en mariage” vai ainda mais longe:
J'ai l'honneur de
Ne pas te de-
mander ta main
Ne gravons pas
Nos noms au bas
D'un parchemin
Mas, mais uma vez, o que eu gostava de ter escrito uma coisa assim!... Ou o refrão de “Nemesis”, dos Shriekback, por exemplo:
Priests and cannibals
Prehistoric animals
Everybody happy as the dead come home
Big black nemesis
Parthenogenesis
No one move a muscle as the dead come home
Usar palavras como nemesis e parthenogenesis num refrão é, acho eu, ainda mais difícil do que usar as palavras efetivamente, imponentes, equívocas e aparentemente, como fez Rui Reininho noutro refrão e também com bons resultados (lembram-se?).

Mas enfim, para terminar (em fim para terminar?), o melhor refrão que eu conheço é o de
“Saucisson de cheval n°1”, de Boby Lapointe. O refrão é
Huuuuuuuuu
com 9 uu! Aliás, para não restarem dúvidas de que é esse mesmo o refrão, ele explica:
Huuuuuuuuu... C'est le refrain (…) Le refain c'est toujours Huuuuuuuu... (…) Bééééééé... Non... Huuuuuuuu


Pronto.
______________________________

* Já sei que brincas bem com as palavras / Que até brincas com o fogo e não te queimas / Agora queria ver como ficavas / Agora queria ir ao tira-teimas / Já sei que sabes que eu nunca diria / Nada que magoasse ou te ofendesse / Agora queria ver como seria / Se um dia eu afinal sempre dissesse // Fazer um bom refrão tem muita arte / Pois tem toda a razão. Segunda parte: // Só queria um tostão mesmo furado / Por cada vez que eu preguei no deserto / Nunca vi público mais interessado / Verdade seja dita já que é certo / Talvez seja verdade o que se diz / Que a vida tem de si que se lhe diga / Pois eu cá contas dessas nunca fiz / Nem vou contá-lo aqui numa cantiga // Fazer um bom refrão tem muita arte / Pois tem toda a razão. Terceira parte: // E afinal no fundo e resumindo / De uma forma geral, se se quiser / Pouco mais há p'ra dizer e já vou indo / Que era só o que tinha p'ra dizer // Fazer um bom refrão é importante / Este aqui saiu-me num instante... (Daqui)

** Os dicionários que consultei dividem-se sobre a origem da palavra refrão: uns dizem que vem do provençal refranh; outros que vem do espanhol refrán. Seja como for, o plural que parece fazer mais sentido é refrães, que é o que eu uso, mas também se admite o plural refrãos, que acho que ninguém usa, mas não o plural refrões, que há muita – e boa! gente a usar. Os critérios dos gramáticos para sancionarem os plurais das palavras em -ão são, às vezes, incompreensíveis, como explica muito bem Alina Villalva, num artigo no Notícias da Amadora: “Considerando a etimologia das formas, *irmões é tão agramatical quanto anões ou verões”, diz ela, com toda a razão.

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