4 de setembro de 2013

John Donne revisitado

As pessoas não são ilhas, é verdade; ninguém vive sem tocar a vida de muitas pessoas – muitas vezes, de mais pessoas do que crê. É certo também que, à morte de cada pessoa, é por todos os humanos que os sinos dobram. A formulação de Donne é admirável e este é sem dúvida um dos casos em que a fortuna do texto resulta diretamente do seu valor.

No início da vida, é só a vida que conhecemos. No fim, há de ser só a morte. Entre os dois pontos, há um gradiente irregular: a morte vai entrando pouco a pouco nas nossas vidas. Vamos tomando consciência dela, de forma abstrata e vai-se materializando também na morte dos que nos rodeiam. Quanto mais avançamos na idade, mais possibilidades há, no geral, de ela estar presente nas nossas vidas.

Morreram já pessoas que me eram – e são, em memória – muito queridas. Morreram já muitas pessoas de quem guardo muitas recordações, gratas umas, menos gratas outras, mas que fazem parte de mim. Queria vivas essas pessoas, como todos queremos vivos os nossos mortos, não é?

Temo as mortes que hão de vir. De algumas, sei que hão de vir muito em breve. Penso muito nisso. Está em Portugal a maior parte das pessoas que me são próximas e, quando fui a Portugal nas férias, senti, de forma aguda, a presença das mortes passadas e por vir. Umas levam às outras, acho eu.

E isso fez-me pensar que se pode dizer a humanidade de outra maneira: é porque os sinos ameaçam constantemente dobrar por todos à morte de cada um que nos podemos ver como uma ilha, precisamente – cada pessoa está, sinto eu às vezes, rodeada de morte por todos os lados.

Sem comentários: