30 de setembro de 2013

Não creiam que ele é assim / que ele nada é – sem mim…

“O meu filho de facto nem é assim irrequieto. Ele é um rapaz muito calmo, um pouco introvertido até, o que é que, lá na escola, assumiu aquele papel de que tem de ser o palhaço da turma.” 
Ouvi isto ontem, mas passo a vida a ouvir coisas do mesmo tipo – e não só quando são valorizados negativamente os traços de personalidade que se observam fora de casa, também pode ser ao contrário. Acho curioso. Não há nenhuma boa razão para se acreditar que uma pessoa é “na realidade” como é em casa e que o que essa pessoa é na escola ou no grupo de amigos ou em casa dos avós ou seja lá onde for fora de casa é uma personalidade temporariamente assumida, circunstancial, menos verdadeira; mas parece que há muito quem acredite nisso.

Evidentemente, poder-se-ia argumentar, com a mesma ligeireza, que não, que é ao contrário, que as pessoas assumem uma personalidade falsa quando estão com os pais, que lhes escondem o seu “verdadeiro eu”, mas também não há nenhuma boa razão para acreditar nisso. Faz mais sentido partir do princípio simples de que uma pessoa é apenas realmente diferente em ambientes diferentes, interagindo com pessoas diferentes. A personalidade que se desenvolve para responder a um determinado ambiente não funciona noutros ambientes e desde bebé que, inconscientemente, toda a gente sabe isso – e o aplica.

Gustave Doré, ilustração de Cendrillon de Charles Perrault. 1862. Biblioteca Nacional de França, Paris.

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