15 de setembro de 2013

[Para variar, uma coisa interessante] Salmão ou magenta?

Tem havido ultimamente um revivalismo da velha tese de B. L. Whorf de que a língua influencia a perceção do mundo, que tinha sido posta de lado pela grande maioria dos linguistas. É um revivalismo assente em pressupostos um pouco diferentes, mais cautelosos, uma versão “fraca” da teoria: a língua pode, nalguns casos, afetar a maneira como percecionamos o mundo. E ainda bem que houve esse revivalismo, porque ele tem produzido pesquisa interessante na área da relação entre língua e cognição, com um grau renovado de rigor. [Para verem o que eu já aqui escrevei sobre o tema, cliquem na etiqueta Relativismo linguístico, por baixo do texto.] Os trabalhos que tenho visto nessa área, porém, incidem todos na relação entre léxico e cognição, e léxico não é sinónimo de língua, longe disso. Pode haver argumentos fortes a favor da hipótese de que a interiorização de um conceito lexicalizado pode influenciar determinadas capacidades ou perceções. Por exemplo, que existe uma ligação direta entre as categorias cognitivas de cor e as palavras usadas para as descrever e que, por isso, as pessoas que falam línguas em que se distingue azul e verde conseguem mais rapidamente perceber mais nuances nessa zona do espetro das cores.

Ora a variação do léxico não se faz só de língua para língua. Ela faz-se também no interior de uma língua, como a imagem abaixo mostra de forma claríssima; donde que, quando se estuda a influência da “língua” na perceção das cores, um dos primeiros testes de controlo a fazer para saber até ponto essa influência é efetivamente da “língua”, em sentido estrito, devia ser estudar a influência nessa perceção de léxicos diferentes interiorizados por falantes de uma mesma língua. Parecerá evidente, mas nunca tal vi. Se se faz, faz-se muito pouco. Obviamente, a temática das cores é um só exemplo, talvez o mais imediato, e o mesmo se aplica a outros campos lexicais.


Sobre a figura: Não consigo saber qual é a origem desta imagem que circula pela Internet. As versões com melhor definição estão escritas em russo, pelo que talvez seja uma adaptação de uma imagem russa, não sei. A imagem pretende dar conta das diferenças de género da perceção das cores (também não descobri ainda em que estudo ou estudos se baseia), mas não é para esse fim que a uso, mas para demonstrar o facto simples de que duas pessoas que falem a mesma língua podem ter léxicos diferentes, e com diferentes graus de sofisticação, para descrever as cores – e outras categorias cognitivas. Os nomes de cores que aparecem à esquerda não são, muitas vezes, as suas designações mais comuns (parecem ser antes uma designação intuitiva baseada sobretudo em frutos e plantas), mas todas estas cores têm nomes que, apesar de relativamente correntes, estão longe de ser conhecidos por toda a gente.

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