19 de setembro de 2013

Tudo muda, nesta dança / exceto, claro, a mudança

Como a vocês, a mim também me aborrece que circulem por aí textos de autores por identificar ou mal identificados; e que se dê por autor de profundos aforismos ou tiradas risonhas gente que nunca os disse nem escreveu. É a facilidade do clique e do còpipeisste, que se há de fazer? Nada a não ser insistir que não, que a senhora nunca escreveu isso, que não foi bem isso que o senhor disse – enquanto vamos tendo paciência, e é certo que às vezes ela nos falha…

Uma frase que tenho visto muito nos últimos tempos é «Without deviation from the norm, progress is not possible» (“Sem desvio da norma, não é possível progresso”), atribuída a Frank Zappa. É claro, a minha reação às citações sem referência é agora como a vossa: é falso até prova em contrário. Desta vez, porém, não é uma falsa citação, apenas um citação pouco rigorosa. A frase é adaptada de uma afirmação de Zappa num documentário neerlandês chamado Frank Zappa, realizado por Roelof Kiers (VPRO, 1971) (traduzo eu)*:
Acho que não é possível progresso sem desvio e acho que é importante que as pessoas conheçam algumas das maneiras criativas de que algumas outras pessoas estão a desviar-se da norma, porque em alguns casos esses desvios podem inspirá-las e podem sugerir novos desvios, o que pode causar progresso, nunca se sabe.
Agora, o meu propósito não é desvendar a origem da citação nem torná-la mais rigorosa, é discutir a ideia. Ou antes, discutir uma ideia semelhante. Deixemos o progresso, porque progresso tem quase sempre a conotação de evolução positiva e a discussão fica ainda mais complicada. Falemos só de evolução, isto é, mudança para um estado que nunca existiu antes. Tem de se sair da norma – da regra, do modelo, do padrão – para evoluir?

Falo do que conheço melhor, a língua. As línguas evoluem a partir de desvios à norma? Em que sentido? Tem de se passar por alguma fase de agramaticalidade para haver evolução? Esta questão sempre me fascinou. A ideia de que os falantes de uma língua interiorizam ou ativam uma série de regras e produzem, assim, frases bem formadas, gramaticais**, sempre me fez interrogar-me sobre como se processa a evolução da língua. Onde entraria então o desvio que a permite? Porque, se toda a gente produzir frases que seguem as regras que interiorizou, quem vier depois vai interiorizar essas mesmas regras, que são a única coisa a que tem acesso, e vai depois reproduzi-las, e assim sucessivamente – e a língua mantém-se sempre igual… Ora nós sabemos que não é assim e temos até algumas ideias de como se processa a mudança.

Uma das possibilidades de evolução é a expansão de um dialeto ou de um socioleto que vai adquirindo poder e/ou prestígio – por razões não linguísticas. Por exemplo, para hoje ser norma, em português, o mesmo som /ʃ/ em rocha e roxa, houve imposição de uma variante que era antes criticada. Mas a regra interiorizada para muitas pessoas era já essa, mesmo quando não era a pronúncia padrão do português. Quer isto de dizer que coexistem sempre várias normas e há sempre, de facto, um grande grupo de falantes que não tem interiorizada a norma padrão (se me permitem a distinção, que pode parecer paradoxal).

Muito bem, mas, quando se trata de difusão de uma invenção individual, por ter condições especiais de sucesso (fazer parte de uma obra de arte com êxito, por exemplo) ou por se espalhar inicialmente num grupo de pessoas linguisticamente influentes? Dizem-se mesmo coisas que saem das normas de boa formação que temos interiorizadas, o correspondente linguístico das mutações dos seres vivos? Ou inova-se sem se sair da norma? Há muitas teorias sobre como se processa a evolução linguística, mas a minha ideia é que a norma é bem mais elástica do que muitos pensam, pelo menos no que diz respeito à evolução semântica, e que inclui já, por isso, as potenciais inovações.

Quando explicamos o significado de uma palavra num dicionário, usamos sinónimos e definições. Por exemplo: comer significa muitas coisas: O que é que há para comer?, Não gosto que me comam por parvo, A ferrugem está a comer a parte inferior da porta da mala, etc. No dicionário, o significado de comer pode ser (com variações, claro, de dicionário para dicionário) ingerir (alimento); dissipar; gastar; enganar; consumir; causar comichão a; corroer; roubar; acreditar facilmente; omitir; desfrutar; eliminar uma pedra (xadrez, damas); ter relações sexuais com; apanhar (pancada). Não há acordo nenhum entre teóricos sobre como é a “entrada” comer no nosso dicionário interior. Pode pensar-se que estes diferentes significados estão armazenados como entradas lexicais diferentes na nossa mente; ou que a diferença de sentido nas várias frases resulta de uma interação de um significado de base muito abstrato (definido em termos de propriedades ou operações simples, por exemplo) com o significado de base dos outros elementos da frase e da situação de comunicação; etc.***.

Não vou fazer aqui um resumo das teorias, porque isso seria um grande excurso e, sobretudo, porque não sei o suficiente para o fazer de forma aceitável. O que quero aqui defender, porém, é que qualquer boa teoria sobre evolução linguística deverá dar conta de um facto simples: Normalmente, e por muito que elas nos desagradem, não reconhecemos uma ´nova construção gramatical ou uma expressão nova como sendo a-normal, no sentido em que são a-normais as construções usadas por um estrangeiro que fale a nossa língua, mas apenas como nova, precisamente. Como falante nativo, tenho a possibilidade de usar comer com um significado (ainda) desconhecido da minha interlocutora [por exemplo, inventei agora: Acho que aquele penteado lhe come demasiado a cara], sem que ela deixe de compreender-me ou que reconheça o uso como sendo um erro. Numa certa perspetiva, pode dizer-se que há desvio relativamente à norma. Noutra perspetiva, porém, estou apenas a aplicar as regras interiorizadas que, em última análise, constituem a minha norma, precisamente.

Mais: Pode não só defender-se que o desvio está já previsto na norma e esta provavelmente o determina, como até que a norma obriga a evolução, já que não se conhece língua sem evolução. Seria de facto estranho que a evolução fosse apenas uma possibilidade que, por acaso, se tem verificado sempre. Parece conveniente considerar antes que a evolução é necessária.

O que vale para a língua não vale fora dela e a evolução obedece, seguramente, a mecanismos diferentes conforme se trate da evolução das artes e técnicas, das normas sociais, etc. Zappa é músico e talvez seja de música apenas que está a falar. Agora, eu sei que Zappa fala só de desvio e não de desvio propositado (embora seja provavelmente nisso que está a pensar), mas deixem-me levar a conversa nessa direção: provavelmente, no caso das artes, que são domínios privilegiados de expressão da individualidade, um desvio desejado, consciente de si próprio e com a finalidade explícita de produzir mudança é importante para a sua evolução – ou para o seu progresso, como diz Zappa. Importante, mas não necessário: a música e todas as artes são, nesse aspeto, como tudo o resto, evoluem quer se queira quer não. É essa a sua norma, digamos assim.
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*I think that progress is not possible without deviation, and I think that it is important that people be aware of some of the creative ways in which some of their fellow men are deviating from the norm, because in some instances they may find these deviations inspiring and might suggest further deviations, which might cause progress, you never know.”
** Ou seja, frases que os outros falantes nativos da língua reconhecem como tendo sido produzidas por um falante nativo da língua. Não parece haver outro critério para julgar se uma frase é gramatical.
*** Uma explicação muito breve e pouco rigorosa do que quero dizer com este charabiá: podemos pensar que, por exemplo, comer é, na origem, basicamente a ação de mastigar e engolir, sendo o sujeito forçosamente um animal e o objeto forçosamente comestível. Se esta definição, por exemplo, interagir com uma construção de frase genérica, em que não se pode entender que haja alguma ação, comer passa a ser entendido como alimentar-se de: O que é que as pessoas comem em Moçambique?; se o sujeito não for animado, entende-se que o objeto é eliminado, mas sem que haja apropriação dele por parte do sujeito; se o sujeito for animado, mas o objeto não for entendido como comestível, o sujeito tira proveito do objeto sem o deglutir, etc.

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