22 de outubro de 2013

Dos fracos não reza a História [?]

Num discurso na Universidade Cornell, em maio de 2008, Maya Angelou disse que “uma pessoa pode ser amável e sincera e honesta e generosa e justa, e até misericordiosa, ocasionalmente. Mas, para ser essas coisas, tem mesmo de ter coragem*.” A ideia de Maya Angelou de que “a coragem é a mais importante das virtudes, porque, sem ela, nenhuma outra virtude pode ser sistematicamente praticada” não é nova e tem servido de base a uns quantos aforismos mais ou menos conhecidos. Há até quem defenda que a importância da coragem como garantia de aplicação das outras virtudes faz com que a valorizemos mesmo quando não é usada como achamos que devia. Em A vida de Samuel Johnson (1791), James Boswell atribui a Johnson as seguintes palavras (numa conversa sobre os méritos do Reverendo Henry Bate, famoso polemista da época):
Não reconhecerei mérito a esse homem. Não, senhor, o que ele tem é antes o contrário. Na verdade, reconheço-lhe coragem e, quanto a isso devemos, por enquanto, dar-lhe valor. Temos mais respeito por um homem que assalte corajosamente os viajantes que por uma pessoa que salta de uma vala e nos ataca pelas costas. A coragem é uma qualidade tão necessária para manter a virtude, que é sempre respeitada, mesmo quando se a associa ao mal*.
Acho que o louvor da coragem merece inquérito e matização. E a questão do mérito da coragem é um bom início: como traço de caráter, a coragem compara-se a outros traços de caráter comummente louvados, como a inteligência, a retidão, a temperança ou a honestidade, por exemplo. Mas, excetuando muito poucos casos, não se é corajoso como resultado da decisão de o ser e do trabalho de cultivar a coragem. Na grande maioria dos casos, não parece haver mais mérito em ter coragem que em ter boa vista ou uma linguagem elegante – porque a coragem de uma pessoa resulta do que o herdado e o meio social lhe deram, sem que ela o tivesse pedido. Não é coisa em que se pense muito, pelo que vejo, mas um ato que ninguém reconhecerá como sendo de coragem pode custar a uma pessoa muito mais esforço de autodomínio que um ato que todos considerarão corajoso custa a outra pessoa.

Muitas vezes, aliás, a coragem está diretamente relacionada com a força ou a destreza física e com a origem de classe – por outras palavras, com o poder. E não só a coragem perante o perigo para a integridade física, também a coragem moral (embora muitas vezes os rasgos de coragem moral impliquem também perigos para a integridade física). Evidentemente, não é preciso ter nascido física ou socialmente poderoso para ser corajoso, e não tenho dados estatísticos concretos sobre pessoas corajosas, mas o que tenho observado diretamente na minha vida leva-me a concluir que é mais fácil ser-se corajoso quando se tem poder à partida.

Além disso, os atos de coragem não são sempre (talvez nem a maior parte das vezes) a expressão de um traço de caráter de quem os pratica, mas muitas vezes o resultado das circunstâncias. Como muitas outras aparentes características pessoais, a coragem pode não preexistir à situação em que ocorre, mas resultar do cruzamento de fatores imponderáveis. Às vezes, pode até ser a resposta mais racional a um perigo, por exemplo. Seja como for, também nestes casos não se pode falar de mérito de ninguém – nem sequer de virtude, pelo menos no sentido de característica que se pode cultivar. Aliás, mesmo que exista coragem à partida, ela pode ser desativada em determinadas circunstâncias, por exemplo pelas relações sociais: é natural que uma pessoa de uma classe sem poder, que é valente nos confrontos com outras pessoas do seu meio, se acobarde perante as autoridades, porque aprendeu que o contrário lhe é desvantajoso, enquanto que um pessoa de uma classe poderosa não o faça, porque se sente de certa forma superior à autoridade (quantas vezes não testemunhei isto, precisamente…).

***
É correto, na minha opinião, louvar os atos de coragem de que resultam coisas boas. Pela mesma razão, apenas aplicada negativamente, acho que podem ser criticados atos negativos que resultem da falta de coragem. Assentemos, por exemplo que, numa determinada circunstância, consideramos positivo dizer a verdade e negativo mentir. Que alguém tenha tido coragem para dizer a verdade ou que alguém tenha mentido por falta de coragem, eis razões que não devem influenciar a nossa avaliação moral da ação. Não vejo por que razão a coragem ou a falta de coragem deva ser avaliada por si, nem a pessoa que a tem – é sempre a intenção (ou a finalidade, se preferirem) da ação que devemos avaliar.

Podemos esperar das pessoas que ponham as suas qualidades ao serviço dos outros**. Dos inteligentes, dos fortes, dos criativos, dos corajosos, etc., podemos esperar que ponham ao serviço dos outros a inteligência, a força, a criatividade ou a coragem que têm. Não os podemos obrigar a fazê-lo, mas podemos esperar que o façam. E pode dizer-se que valorizar essas qualidades é uma forma de incentivar essa contribuição e, enquanto/se assim for, muito bem, o louvor da coragem é motivado e motivador.

Isto pode ter, contudo, um reverso que me preocupa – a valorização da coragem implica muitas vezes, e amiúde de forma explícita, a desvalorização do acobardamento, da timidez, da fraqueza, da fragilidade, da insegurança, de tudo, enfim, que contraste com erguer a cabeça e dizer ou fazer o que se acha bem. E desvalorizar estas maneiras de ser não é essencialmente diferente de desvalorizar a debilidade física ou a falta de inteligência: não parece ter grande base moral que não seja a lei do mais qualquer coisa – mais forte, mais inteligente ou mais corajoso...

O ideal, creio eu, é deixar sempre de fora das discussões as pessoas e as características – estáveis ou pontuais, pouco importa – que sobre elas possam predicar-se. Mas é difícil, reconheço.

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* As traduções são minhas.
** As razões para isso parecerão óbvias aos igualitaristas. A quem não perfilhe o igualitarismo como base moral, porém, a razão mais forte e mais imediata que se pode dar para que cada um contribua para o coletivo com o melhor de si é que, a partir de certo grau de satisfação das necessidades básicas, a única maneira de melhorar a sua própria vida é melhorar a vida dos outros.

4 comentários:

Helena disse...

Enquanto lia o texto, pensava também na coragem como resultado da obnubilação da inteligência. Presente no famoso skater semi-suicida que dizia "o medo é uma cena que não me assiste!", ou na pessoa que, de cabeça perdida, faz algo que normalmente não faria.
Ou em mim: quantas vezes não me lanço num ímpeto de kamikaze, sem pensar nas consequências dos meus actos... E depois fico por ali, no meio dos destroços que causei, sem saber como consertar.

Gostei muito do modo como chamas a atenção para o reverso da medalha: louvar a coragem pode ser uma crítica aos fracos. E fiquei a pensar numa série de exemplos de aparente não-coragem, de fraqueza, que podem esconder uma enorme coragem. Os que mais depressa me ocorrem surgiram no contexto do III Reich. Alguns deles:
- Um soldado, casado com uma judia (cuja vida, obviamente, dependia inteiramente desse casamento com um soldado alemão). Se ele desertasse (acto de coragem), imediatamente lhe matariam a mulher e a filha. Estava na frente leste - e dava tiros para o ar. Até que um dia outro soldado da sua companhia o matou pelas costas. A mulher e a filha salvaram-se. Sobrou um livro muito comovedor, "Briefe an Barbara", com as cartas e os desenhos que ele mandava à filhinha, contando histórias sobre os povos que ia conhecendo.
- Um funcionário bancário, que já não tinha idade para ser mandado para a guerra, e tinha uma ranchada de filhos. Nunca ninguém percebeu porque é que ele se foi alistar no exército, acabando por morrer poucos meses depois na frente leste. Até que, muitos anos mais tarde, descobriram que o trabalho dele no banco era expropriar judeus. Recusar-se a fazer esse trabalho seria um acto muito corajoso, mas poria em risco a segurança da família.
- Num livro dos meus filhos com testemunhos de pessoas que eram crianças na altura dos nazis descobri um episódio delicioso, passado numa escola: a professora descreveu as características das diferentes raças (ariano, eslavo, judeu, etc.) (na realidade, os nomes eram mais complicados, que aquilo era mesmo ciência, não era senso comum...) e mandou as alunas olhar para as colegas e atribuir-lhes a raça. Uma das alunas fez o trabalho com muito afinco, pôs-se a si própria nos arianos (loira, olhos azuis, testa alta, inteligente, etc.) e a aluna mais "burrinha" da turma nos eslavos (também loira e de olhos azuis, mas intelectualmente pouco dotada, testa baixa, maçãs do rosto não sei quê, etc.). No dia seguinte, a professora dividiu as alunas por grupos. Pôs esta que se achava ariana no grupo dos eslavos, e a "burrinha" no grupo dos arianos.
A "esperta" ficou chocadíssima, muito ofendida, mas começou a dar outro valor aos eslavos - começou a ouvir música de Chopin e Sibelius, por exemplo, sentindo-os como seus.
Quanto mais penso nisto, mais me parece que esta professora teve um gesto de impressionante inteligência e silenciosa coragem.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Dizem que depressa e bem não há quem, mas tu escreves mesmo depressa - e bem. E pronto, fica a valer a entrada de blogue mais pelo comentário que pelo texto inicial e está muito bem assim!

jj.amarante disse...

Gostei desta:

«...a razão mais forte e mais imediata que se pode dar para que cada um contribua para o coletivo com o melhor de si é que, a partir de certo grau de satisfação das necessidades básicas, a única maneira de melhorar a sua própria vida é melhorar a vida dos outros. »

Helena disse...

Hahaha, Vítor. Não te subestimes!