22 de outubro de 2013

Grafia e pronúncia, de fugida: uma contradição

Muitas pessoas acreditam (porque lhes dá jeito para justificar racionalmente uma recusa que não é, na origem, racional) que a ortografia influencia a pronúncia. Não conheço nenhum observável que apoie esta crença, mas conheço um sem-número de dados empíricos que a infirma. Não são precisos muitos dados, porém, para ver que a ideia é contraditória quando aplicada à discussão da pertinência de letras como marcas de abertura das vogais e surpreende-me que ninguém o note: se a grafia influencia a pronúncia e o desaparecimento do c de espectáculo pode, portanto, fazer com que o e comece a pronunciar-se “mudo”, porque é que a grafia não influencia a pronúncia quando a presença do mesmo c não leva a que se pronuncie espektáculo? Enfim…

2 comentários:

jj.amarante disse...

A mim tem-me influenciado no sentido contrário, quando vejo "espetáculo" o meu cérebro começa a pronunciar silenciosamente espektáculo, para tornar mais viva a presença do "c" perdido...

Vítor Santos Lindegaard disse...

Ora aí está, caro jj.amarante, um caso de influência da grafia na pronúncia ainda por estudar. No meu caso, o facto de escrever com as duas grafias tornou-me consciente de que digo característica com o segundo c pronunciado e conceptual com p, coisa em que não tinha reparado antes.