5 de outubro de 2013

Um limbo de Bronzino

Quando vivia na Bolívia e me vinham visitar amigos europeus, levava-os sempre a ver Potosí, que é uma cidade que tem muito que ver. E lembro-me de que tive, com um amigo inglês, grandes discussões sobre arte sacra, uma das coisas que mais há para ver em Potosí. Dizia-lhe eu (sem muita convicção, se me recordo bem, apenas por começar a estar farto de natividades e crucifixações) que a arte sacra – encomendada, decorativa e repetindo amiúde os mesmos motivos – era na maior parte das vezes sem grande interesse. E ele contrapunha, com toda a razão, que a arte sacra não se distingue dos outros géneros em nada de fundamental: em todos os géneros há obras profundas e obras de circunstância, obras inovadoras e exercícios de estilo, obras cativantes, enfim, e obras perfeitamente dispensáveis.

A primeira questão que se põe relativamente à arte sacra é a da sua definição. Não parece haver consenso sobre como a definir; e como a distinguir, quando é caso disso, da arte religiosa. Também não é tarefa para mim. E pode ser que a definição não seja muito necessária, porque, mesmo sem ela, as pessoas costumam entender-se sobre que obras considerar arte sacra.

Encontrei no outro dia uma pintura sacra que me parece interessante, também para reflexão sobre os limites do género: a Descida ao limbo, de Agnolo Bronzino (1503-1572), de 1552, um quadro de grandes dimensões (443 x 296 cm) da Basílica de Santa Cruz em Florença. É uma das pinturas danificadas pelas cheias de 1966 e foi recentemente restaurada pelo instituto estatal italiano para o restauro do património artístico, o Opificio delle Pietre Dure. A obra encontra-se no Museo dell’Opera di Santa Croce, situado no antigo refeitório, transformado em museu em 1900, mas, segundo o site da basílica, provém dos dois altares da contrafachada, removidos no séc. XIX.

A obra assenta em dois eixos principais marcados por formas mais claras: um masculino, digamos assim, que passa por dois torsos e dois braços (que quase se repetem) na parte inferior, continua na figura do Cristo e termina, na parte superior do quadro, na bandeira que Jesus leva consigo; e outro feminino, paralelo a esse, à direita, em que se alinham três mulheres seminuas, das quais a inferior e a superior (Eva) olham para baixo, e a do meio fita o espetador. Não me parece nenhuma obra prima de equilíbrio e lembro-me até que, das primeiras vezes que vi a pintura, me pareceu confusa a distribuição das formas. É engraçado: creio que prefiro ver pormenores da obra a ver o quadro como um todo. Acho que até se o pode ver como uma série de retratos, precisamente.

Duas das mulheres representadas na obra são, segundo o pintor Giorgio Vasari (1511-1574), contemporâneo de Bronzino (no Volume X (1567) da sua obra Vidas dos mais eminentes pintores, escultores e arquitetos) «duas nobres e, na verdade, das mais belas jovens de Florença, dignas de eterno louvor e memória pela sua incrível beleza e virtude, Dona Costanza da Sommaia, esposa de Giovan Battista Doni, que ainda é viva, e Dona Camilla Tedaldi del Corno, que deixou já este mundo». O Museu dá aos visitantes a mesma indicação. Os rostos destas duas senhoras encontram-se à mesma altura, a um terço da altura total do retábulo. Camilla Tedaldi del Corno está à esquerda, na sombra, por cima de um homem que sussurra algo ao ouvido de um rapaz. Constanza da Sommaia (de que Bronzino tinha feito um retrato cerca de 10 anos antes) é a personagem Judite, que ocupa um lugar de destaque*: se se traçar um quadrado na parte inferior do quadro, está exatamente no centro do retângulo que constitui a metade direita desse quadrado. São bastante parecidas, as duas figuras femininas, e, à primeira vista, pode até ter-se a impressão de que Bronzino repete apenas a mesma figura. Têm também a particularidade de fitarem o espetador. Além de três personagens bastantes inconspícuas (rostos mais ou menos ao nível do rosto de Jesus), são as únicas personagens que o fazem. As outras figuras femininas do quadro, não consegui descobrir quem representam.

Camilla Tedaldi del Corno na Descida ao limbo, retrato de Constanza da Sommaia de 1540 e Constanza da Sommaia como Judite na Descida ao limbo
Um quadro interessante, dizia eu, e um daqueles quadros que nos pode fazer repensar os limites da arte sacra: para mim, é essencialmente sensualidade que a obra transmite. Creio que podia classificar-se facilmente como erótica, em vez de sacra. É certo, porém, que o nu não é incomum na pintura neoclássica e é difícil decidir objetivamente se estes nus têm, como me parece, um caráter mais marcadamente erótico que muitos outros.

Não é, porém, ideia só minha, essa de que a obra é menos sacra que sensual. Encontrei no site Arte.it a seguinte descrição da pintura:
Retrata a libertação das almas honestas que nasceram antes da Ressurreição de Cristo. O trabalho está cheio de retratos, incluindo os de algumas mulheres conhecidas na época pela sua beleza. Os nus femininos foram admirados pelos contemporâneos, mas, mais tarde, contestados pelo seu caráter sensual e perturbador, nada adequado a um lugar sagrado.













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* Surpreendeu-me que Dona Costanza da Sommaia não se importasse de ser representada de seio nu num quadro exposto num lugar público – mesmo que tivesse servido de modelo ao rosto apenas e não ao corpo. Ela e a família… Mas não sei nada da Florença desta época e da sua mentalidade.

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