4 de novembro de 2013

A língua de Camões, de Cervantes e de Shakespeare

Uma vez, na faculdade, apresentei, numa aula de literatura portuguesa, um trabalho sobre uma cantiga d’amigo e li o poema com a pronúncia da época. Tive de praticar muito, porque não é muito fácil, mas não vi o meu esforço muito recompensado – acho que as pessoas não acreditaram que era assim que se falava português na altura; e acharam, muitas delas, que era um gesto pretensioso.

Fiz o mesmo numa aula de literatura francesa medieval e foi diferente: a professora, que não sabia ela própria pronunciar provençal antigo, lembrava-se de que tinha ouvido os mestres dela, em França, lerem poemas provençais medievais. “De facto, não sei avaliar se pronunciou bem ou não”, disse ela quando eu terminei, “mas soa muito como aquilo que me lembro das minhas aulas em França.” Também na universidade, tive um professor (francês) de língua francesa que trabalhou com literatura medieval e lia sempre com a pronúncia de época.

Já ouvi várias vezes Chaucer (c. 1343-1400) dito com pronúncia do seu tempo[1]. Mas, tirando na tal aula de Literatura Portuguesa de que falo atrás, nunca na minha vida ouvi um poema português antigo lido com pronúncia da época, não sei por quê… De facto, estou convencido de que muitos portugueses de hoje pensam que D. Dinis (1261-1325) ou Camões (1524-1580) falavam como eles falam[2]. Mas não. Falavam de uma maneira muito diferente da nossa (e muito diferente um do outro…) e foi com a sonoridade da língua que falavam – e para essa sonoridade – que os seus poemas foram escritos, não com/para a sonoridade do português que hoje falamos.

Atualmente, já se representam Shakespeare (1564-1616) e Molière (1622-1673) em pronúncia da época, como se pode ver nos vídeos abaixo, mas não tenho informação de que alguma vez Gil Vicente ou António Ferreira, por exemplo, tenham sido representados com pronúncia do seu tempo. É certo que Gil Vicente (c.1465-c.1536) é mais distante de nós que Shakespeare ou Molière, mas creio que, com a ajuda do texto escrito em grafia moderna, um pouco como se acompanha uma ópera com o libreto, as peças seriam compreensíveis para a maior parte dos espetadores. Digam-me lá: devo ter esperança de algum dia ver uma peça de Gil Vicente com a pronúncia da época?

É curioso: neste aspeto, o cinema parece ser menos inovador que o teatro, apesar de o eventual uso de legendas poder resolver todos os problemas de compreensão de pronúncias antigas e as técnicas cinematográficas, com dobragens, repetições, etc., permitirem uma maior afinação dessas pronúncias. É uma coisa em que penso sempre quando vejo filmes históricos: para quando o primeiro filme falado com pronúncia da época? Há filmes falados em línguas da época antiga que descrevem (como latim em Sebastiane e latim, hebraico e aramaico n’A Paixão de Cristo[3]),. O facto é que, por muito cuidado que se tenha na reconstrução de cenários, roupa, etc., só se pode dar uma ideia de um determinado ambiente da Inglaterra do séc. XIII ou da Espanha do séc. XVI, por exemplo, se se reconstruir também a maneira como as pessoas falavam.



Neste vídeo (em inglês, sem legendas, infelizmente) David Crystal e Ben Crystal falam-nos das produções de Romeu e Julieta em pronúncia original no Globe Theater e explicam como essa pronúncia permite ressuscitar rimas e jogos de palavras doutra forma perdidos. O vídeo responde também àquela pergunta inevitável quando se fala destas coisas: “Mas como se sabe como falavam antigamente? Não havia gravadores…” De facto, a resposta podia ser mais completa, mas isso implicaria entrar em explicações muito técnicas.



Excerto de Le Bourgeois Gentilhomme, de Molière, pela companhia Poème Harmonique, dirigida por Vincent Dumestre e Benjamin Lazar, responsável pelo trabalho de pronúncia restaurada. Esta peça de Molière é, precisamente, um documento que nos dá informação sobre a pronúncia do francês no séc. XVII – pelo que faz ainda mais sentido que seja representada com a pronúncia da época. Além de traços como a pronúncia dos ss finais, alguns notarão a semelhança com muito do francês canadiano. De facto, é um lugar comum dizer que o francês canadiano parece francês antigo e é, em grande medida, certo: como aconteceu com as outras línguas europeias transplantadas para a América, o francês manteve no Canadá muito traços antigos da pronúncia – talvez mais que as outras línguas por uma grande parte dos seus falantes viver em grande isolamento, provavelmente...
_______________
[1] Podem ouvir o prólogo d’Os Contos de Cantuária em pronúncia da época, mas, mesmo que tenham muito bom domínio do inglês, é melhor acompanhar com o texto, senão são capazes de não compreender grande coisa. E mesmo com o texto…
[2] Creio que alguns portugueses não gostariam de ouvir Camões com a pronúncia do seu tempo – havia de lhes soar demasiado abrasileirado ou espanholado, por causa das vogais abertas. Mas isso é outra conversa…
[3] Nestes dois filmes, a pronúncia do latim não é trabalhada com rigor. N’A paixão de Cristo, nem se usa pronúncia restaurada, mas sim a clássica pronúncia italianizada.

8 comentários:

mar disse...

Gostei muito deste texto, Vítor.
Trouxe-me à memória as aulas de Português no 10º, quando estudámos cantigas de amigo. Uma vez um de nós, miúdos de 15-16 anos, comentou que, para uma "coisa" chamada "cantiga", o texto não tinha musicalidade nenhuma. A professora, que era excelente a muitos níveis, comentou precisamente que não nos podíamos esquecer das mudanças da língua mas, com grande pena nossa e dela também, não nos soube dizer como era a pronúncia da época. Se o Vítor estivesse naquela sala, ao contrário do que aconteceu na sua aula da faculdade, o seu esforço teria sido muito apreciado.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Obrigado, mar, pelo elogio e pelo comentário. Não sei se uma cantiga d'amigo soa logo mais musical com a pronúncia do português medieval, mas soa, pelo menos, exótica: a, e e o abertos, também nas sílabas átonas, ç e c antes de e e i pronunciados /ts/, o z pronunciado /dz/, o ch pronunciado /tch/...

Otavio Macedo disse...

Há tempos venho procurando pela pronúncia restaurada do português em épocas passadas. Gostaria, especialmente, de ouvir Gil Vicente na pronúncia original. Mas até hoje, minhas buscas têm sido infrutíferas. Você tem alguma ideia de onde posso encontrar essas gravações?

Vítor Santos Lindegaard disse...

Caro Otávio Macedo,
Não faço mesmo ideia de onde se possam encontrar tais gravações. Como nunca ouvi gravações de português de outras épocas, parece-me provável que não existam. Mas talvez...

Otavio Macedo disse...

Bem, você disse que, certa vez, leu numa aula, uma cantiga com a pronúncia da época. Fica, então, uma sugestão: que tal você gravar vídeos (ou pelo menos o áudio) com essas leituras e publicá-los no Youtube?

Eu certamente seria um seguidor assíduo do seu canal.

Vítor Santos Lindegaard disse...

É boa sugestão, Otávio. Nunca fiz vídeos mas é, com certeza, fácil de aprender. Em tendo um bocadinho mais de disponibilidade, bem pode ser que ganhe coragem e e me abalance a fazer uma coisa assim.

Maggie Pollo disse...

Olá Vítor,
Adorei a ideia do blog, que acompanha a foto. Estudei durante a faculdade que no exemplo do português, nós do Brasil falamos mais próximo com o que era o idioma no século XVI. Acredito que Ataliba de Castilho tenha algo publicado neste sentido - ele estudou a evolução da língua portuguesa no Brasil. Há ainda o filme Desmundo, de 2003, falado na variedade arcaica e legendado para podermos entender: https://www.youtube.com/watch?v=oxQe_BeRba0


Vítor Santos Lindegaard disse...

Cara Maggie,

É imperdoável deixá-la tanto tempo sem resposta. Uma das razões (má desculpa, eu sei...) é que queria ver primeiro o filme todo e nunca mais arranjava tempo para o ver. Aliás, ainda não o vi todo, só excertos — mas achei que devia responder-lhe mesmo assim.

Acho estranho o que (ou)vi. Aliás, li também um artigo em que o "tradutor" para português arcaico, Helder Ferreira, explica as suas escolhas e também elas me parecem estranhas. Porquê português arcaico? Ou tão arcaico? É claro que haveria uma grande variação dialetal nan época, mas a ideia de a mostrar indo buscar formas lexicais e sintáticas de períodos muito anteriores, parece-me muito estranha. Helder Ferreira diz que foi longa a preparação dos atores e que acompanhou pessoalmente, mas a verdade é que os atores não fazem distinções que deveriam ser pertinentes na época, como entre fricativas predorsodentais e apicoalveolares, já para não falar de distinção entre africadas e não africadas, mais antiga, que se deveria manter se se pretende usar formais mais arcaicas... (ver aqui, por exemplo.) É claro que é difícil ensinar estas subtilezas a atores, até porque muitos falantes do português não as ouvem, mas, enfim, no conjunto, entre excesso de arcaísmos e pouco rigor na pronúncia, o resultado não me pareceu muito convincente. A ver se faço um artigo bem feito sobre o filme, quando finalmente o vir todo.

Mais uma vez, muito obrigado,
Vítor