25 de novembro de 2013

O que rima é o que não está lá…

Um dos recursos utilizados por filólogos e linguistas para reconstruir a pronúncia de fases anteriores de uma língua é a análise de rimas estranhas, que não funcionam na pronúncia atual, mas já funcionaram: blood aparece a rimar com good em inglês antigo, por exemplo…

A maior parte dos dialetos do século XX estão tão pormenorizadamente descritos e documentados com gravações que os linguistas do futuro não precisarão de se dedicar a esse tipo de exercícios. Mas não deixa de ser interessante verificar que a imposição da pronúncia padrão destrói, às vezes, rimas que se adivinham facilmente – mas não estão lá…

Em “Petisca daqui petisca”, do Conjunto António Mafra, o cantor não ousa (ou não o deixam…) cantar com a pronúncia regional a palavra comilão, desfazendo assim uma rima que se adivinha com facilidade:
Petisca daqui, petisca, / Petisca daqui, que é bom
Quem oferece o que petisca / mostra não ser comilão
Em “1921”, uma canção da ópera Tommy dos The Who, proof rima com truth:
You didn't hear it / You didn't see it / You won't say nothing to no one / Never in your life / You never heard it / How absurd it all seems / Without any proof
You didn't hear it / You didn't see it / You never heard it, not a word of it! / You won't say nothing to no one / Never tell a soul / What you know is the truth
E eu, quando ouvi isto ontem (já não ouvia há muito tempo…), lembrei-me logo de um antigo colega, que era de Londres, como os The Who, e que não só pronuciava /f/ o th como também achava anormal que se pronunciasse de outra forma:
You wouldn’ believe i', Victor, you ‘ave these people in England, you know, they say /θink/ instead of /fink/…

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