22 de novembro de 2013

Verbos demasiado abundantes: os particípios passados duplos e as suas regras

As formas irregulares da língua são uma complicação… E ainda por cima desnecessária: não parecem ter nenhuma função especial, a não ser distinguir (pelo menos algumas delas) quem as usa bem de quem as usa mal… Uma complicação que ainda se torna maior quando coexistem, num mesmo verbo, uma forma regular e outra forma irregular – e quando é o uso da forma irregular que é considerado incorreto em várias situações… É o caso dos particípios passados em português e é disso que falo neste texto. Mas notem que falo apenas do português europeu, que é o que eu conheço melhor.

O que as gramáticas prescrevem é que, quando há dois particípio passados, se use o particípio regular nos tempos compostos e a forma irregular na voz passiva e como adjetivo[1]:
ela tinha [ou havia] prendido o cão à noite e tinha-o soltado de manhã 
e
o cão foi preso à noite e solto de manhã 
ou
o cão não está preso, está solto desde manhã. 
Gostaria, porém, de distinguir estes dois últimos casos: só quando é usada na passiva é que se pode dizer que uma forma é um particípio passado de um verbo[2] e as listas de particípios passados irregulares só deviam incluir as formas que se podem usar verbalmente. Podem eliminar-se imediatamente das listas de irregulares os verbos que nunca podem ocorrer como transitivos: se não há forma passiva, não há evidência de uso verbal do pretenso particípio irregular. Estão neste caso, por exemplo, nascer[3], morrer[4], vagar[5] e incorrer[6].

Além disso, como diz Telmo Móia[7], “certas formas – classificadas como particípios irregulares e apresentadas nas referidas listas de verbos de particípio duplo –, embora estejam historicamente associadas a particípios verbais, são hoje totalmente independentes enquanto adjectivos. A sua associação a verbos [nessas listas] não traz grandes vantagens ao utilizador da língua com dúvidas e pode mesmo induzir no erro de se considerar que estamos perante a mesma unidade lexical verbal (quando, em muitos casos, a diferença semântica é já muito acentuada).” Móia dá o exemplo das formas bento, absolto, afecto, demisso e diluto como produzindo “resultados indesejados”:
*O novo edifício foi bento pelo padre.
*O réu foi absolto.
*As crianças ficaram afectas ao animal.
*O senhor está demisso!
*O pó já vem diluto na água.
*As calças foram tintas de azul. 
Muitas outros pretensos particípios irregulares produzem resultados indesejados. Por exemplo, nenhuma das frases que se seguem pode, na minha opinião, considerar-se aceitável:
* No ano passado, foi distinto com este prémio um escritor nigeriano.
* A manifestação foi dissoluta pelas forças de intervenção.
* Fui convicto pelo João da importância de beber mais água.
* Passado pouco tempo, toda a gordura tinha sido absorta pelo papel.
* O trabalho foi correto pelo professor nessa mesma noite e entregue no dia seguinte
* A batata era já culta em toda a França em meados do séc. XVIII.
* A piada não lhe era direta a ele, mas ele pensou que sim e reagiu mal.
* Nos últimos anos de vida, foi aflito por várias doenças.
Nalguns casos, se não recusamos liminarmente a possibilidade de uso verbal do particípio irregular, ficamos, pelo menos, com muitas dúvidas sobre se alguém de facto o usa ou não – qual é a vossa opinião sobre os seguintes casos, por exemplo?
??? Perto dos dois mil metros, foi descalço por um adversário.
??? O casaco dela foi roto por uma colega de turma, mas sem querer.
??? Tudo leva a crer que essa informação foi propositadamente omissa pelo acusado.
Talvez se possam juntar também estes – e vários outros – ao grupo anterior de verbos que de facto não têm particípios irregulares...

Nos restantes casos, porém, em que o particípio passado tem indubitavelmente uso verbal, nem todos os particípios irregulares se portam da mesma maneira. O que se verifica atualmente, mais uma vez segundo as palavras de Telmo Móia, que não tenho dúvidas em subscrever, é que “para cada um dos dois contextos relevantes [tempos compostos e voz passiva], há uma gradação na tendência para o uso maior ou menor de um dos particípios. E registam-se mesmo tendências contrárias às generalizações das gramáticas: há verbos cujo particípio irregular tende a impor-se em todos os contextos (mesmo com ter) e há verbos cujo particípio regular tende a impor-se em todos os contextos (mesmo com ser). Em suma, as acentuadas diferenças de uso (para um mesmo contexto sintáctico) conduzem-nos necessariamente a tipologias não binárias”. Móia apresenta ele próprio uma tipologia baseada em taxas de ocorrência dos particípios irregulares nos tempos compostos no corpus CETEMPúblico[8]:
• “verbos cujo particípio regular caiu claramente em desuso”, ou seja, em que o uso da forma regular nos tempos compostos é “sentida como desvio” (ter pagado, ter gastado, ter limpado e ter ganhado praticamente não se usam);
• “verbos cujo particípio regular mostra indícios de cair em desuso, mas ainda ocorre com alguma frequência”, embora a norma conservadora seja maioritariamente desrespeitada (diz-se muito mais ter entregue (94%) que ter entregado (6%), ter salvo (92%) que ter salvado (8%), ter morto (89%) que ter matado (11%), ter eleito (80%) que ter elegido (20%), ter aceite (75%) que ter aceitado (25%) e ter expulso (75%) que ter expulsado (25%);
• “verbos cujo particípio irregular ocorre no contexto em causa, mas com relativa raridade”, ou seja, em que a norma prescrita pelas gramáticas se aplica realmente na maior parte dos casos (é muito mais comum ter expressado (72%) que ter expresso (28%), ter extinguido (74%) que ter extinto (26%), ter suspendido (78%) que ter suspenso (22%), ter prendido (80%) que ter preso (20%), ter dispersado (82%) que ter disperso (18%) e ter soltado (90%) que ter solto (10%); e, finalmente,
• “verbos verbos cujo particípio irregular não se usa ou é bastante raro” nos tempos compostos, quer dizer, em que a regra prescrita pelas gramáticas é, a bem dizer, sempre aplicada (praticamente não se vê nem ouve ter envolto, ter aceso, ter desperto, ter oculto, ter manifesto).
Deixo aos meus leitores mais um proposta de reflexão: em que grupo incluiriam os verbos assentar, cegar, emergir, empregar[9], fritar[10], imergir, imprimir, isentar, juntar, libertar, secar e submergir, por exemplo?
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Agora, o que é que se passa na nossa cabeça quando dizemos estive em vez de *estei, que seria a forma normal? Há várias teorias sobre isso[11]. A teoria que prefiro diz que vamos buscar a forma estive a um armazém na memória que só contem formas irregulares e expressões idiomáticas. Chamemos a esta teoria regra&memória, para facilidade de exposição. Segundo a teoria regra&memória, vai procurar-se uma forma armazenada na memória e, se não se a encontra, aplica-se a regra e produz-se a forma regular. Para dar um exemplo com falar, não encontrando na memória uma forma (irregular) da 1ª pessoa do pretérito perfeito, aplica-se a regra de juntar o sufixo -ei à raiz do verbo (fal-) e temos falei. No caso de estar, a forma estive está armazenada na memória, o que bloqueia a aplicação da regra e, por isso, não se produz *estei.

Mas, e quando um verbo tem ao mesmo tempo uma forma regular e uma forma regular e é necessário usar uma forma ou a outra em contextos diferentes? O caso dos particípios duplos dos verbos portugueses parece constituir um excelente objeto de análise, teste e desenvolvimento das teorias de produção/armazenagem de formas irregulares… Neste caso, há que recuperar a forma irregular em certos contextos e produzir a forma regular noutros, pelo que a regra simples “se não há irregular armazenado, aplicar regular” não pode funcionar sem uma componente adicional: “se não há irregular armazenado no caso X, aplicar regular; no caso Y, bloquear recuperação de irregular”. Não vou aprofundar aqui esta questão, até porque não o sei fazer; mas fica aqui a ideia de projeto de investigação...

É possível que o mecanismo que leve à preferência da forma irregular dos particípios passados seja a hipercorreção que resulta do medo de erro: irregular é mais difícil e, por isso, mais seguro, porque mais difícil é mais correto. (Como se não houvesse cenouras baratas bem mais saborosas que cenouras caras…) Por outro lado, se a teoria regra&memória atrás exposta estiver certa, é normal que o facto de existir um irregular na memória bloqueie a geração de regular – quando é deficiente ou inexistente a interiorização de uma regra suplementar complexa que é seguramente “dispendiosa” em termos de processamento. Como vimos atrás, é, de facto, o que parece estar a acontecer em muitos casos: a forma irregular está a substituir completamente a forma regular – embora o seu uso nos tempos compostos seja criticado pela norma culta conservadora, ela encontra-se também com frequência no discurso das classes educadas.
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[1] As listas de particípios duplos podem ir de duas dúzias de verbos a mais de centena e meia. A maior parte é, porém, muito exagerada, pelas razões apresentadas no texto: incluem adjetivos que não são de facto particípios passados e incluem arcaísmos.
[2] Estou provavelmente a simplificar demasiado. Pode discutir-se se o uso nos chamados estados resultantes de verbos que exprimem ação é ou não verbal: partiu-se > ficou partido, morreu > está morto, etc.
[3] O uso verbal de nado (nato nunca se usa verbalmente) é claramente arcaizante: quem disser ou escrever que foi nado em Coimbra viveu há séculos ou quer soar como alguém de que viveu há séculos. É de notar que nascer tem uso transitivo noutras variantes do português, como o português de Moçambique, com o sentido de “dar à luz, parir”, mas sempre com o particípio regular.
[4] Tinha morto e foi morto são formas de matar (embora a primeira seja criticada), mas nunca de morrer, pelo que não faz sentido considerar que há uso verbal da forma irregular morto do verbo morrer. Sobre a questão do estado resultante, ver nota 2.
[5] É certo que os dicionários registam usos transitivos do verbo, mas são tão raros que nunca os vi em lado nenhum. Duvido que vago seja alguma vez usado como componente de uma forma verbal.
[6] Embora possa efetivamente ocorrer em passivas, o particípio passado incurso ocorre apenas sempre nos mesmos contextos de linguagem jurídica. As ocorrências são tão específicas que proponho que se tratem como cristalizações, isto é, formas antigas que ocorrem em expressões fixas. A característica destas formas é que não estão disponíveis para usar noutros contextos, pelo que não se aprendem e flexionam livremente.
[7] Móia, Telmo, “Algumas áreas problemáticas para a normalização linguística – disparidades entre o uso e os instrumentos de normalização”, in Actas do XX Encontro Nacional da Associação Portuguesa de Linguística. Lisboa: APL, 2004, pp. 109-125, disponível em linha.
[8]O CETEMPúblico (Corpus de Extractos de Textos Electrónicos MCT/Público) é um corpus de aproximadamente 180 milhões de palavras em português europeu, criado pelo projecto Processamento computacional do português (…) após a assinatura de um protocolo entre o Ministério da Ciência e da Tecnologia (MCT) português e o jornal PÚBLICO em Abril de 2000.
[9] A aceitação dos particípios passados empregue e encarregue varia de gramático para gramático. É inegável, porém, que, pelo menos em português europeu, as formas não só existem como são frequentes, com tendência até a tornarem-se dominantes.
[10] Há verbos formados das formas irregulares do particípio, cujos particípios passados irregulares, por isso, pertencem atualmente a dois verbos diferentes, como expresso (de expressar e exprimir) e frito (de frigir e de fritar). Se frigir é claramente um arcaísmo, exprimir coexiste com expressar no português europeu atual.
[11] Além da teoria descrita no corpo do texto, conheço outras duas teorias sobre a produção e memorização de formas flexionais irregulares: uma diz que as formas flexionais irregulares, como todas as outras formas flexionais, são produzidas pela nossa mente a partir de regras computacionais – as formas irregulares a partir de regras menores; a outra diz que todas as formas são memorizadas a partir de um sistema complexo de relações entre traços das diversas formas. Para quem queira mais informação sobre a questão, sugiro o texto (em inglês) de Steven Pinker “Words and rules” in Lingua 106, 1998, pp. 219-242, disponível em linha (a informação sobre as três teorias não é neutra, Pinker defende uma delas).

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