4 de dezembro de 2013

Género e música popular, mais uma vez

Ainda não há muito tempo, as letras de canções populares diziam das mulheres coisas muito estranhas que eu acho que hoje já ninguém quer dizer – ou já não se atreve a dizer, por muito que o queira fazer. Dou-vos exemplos:

“Parchman farm” (1957), de Mose Allison, foi uma canção de grande sucesso, de que foram gravadas mais de duas dezenas de versões. A Wikipedia diz que o autor deixou de a cantar nos anos 80, porque começou a ser considerada politicamente incorreta. Mais concretamente, começou a não ser aceite o verso final:
Well I’m a gonna be here [in Parchman Farm] for the rest of my life / And all I did was shoot my wife (“Vou ficar aqui o resto da vida / E a única coisa que eu fiz foi dar um tiro na minha mulher”)
Pode considerar-se que a canção funciona como uma piada, se tivermos em conta a relação entre os últimos versos da primeira e da última estrofe, como aqui sublinho:
And I ain’t never done no man no harm …/ And all I did was shoot my wife ( “Nunca fiz mal a ninguém [literalmente “homem nenhum”] / E a única coisa que eu fiz foi dar um tiro na minha mulher”)
Piada de mau gosto, nisso concordarão as minhas leitoras e os meus leitores [1] [2]... Talvez surpreenda que só nos anos 80 se tenha começado a considerar inaceitável a letra de “Parchman farm”, mas a verdade é que, se havia alguma coisa a mudar na situação das mulheres na sociedade, não é nada que se note muito nas letras da música popular: seguindo a tradição do blues e da folk, uma parte das letras de música rock e pop continua a maldizer a infidelidade ou o espírito interesseiro das mulheres e a considerá-las, em grande medida, o mal do mundo. Mas não só. Cabelo comprido e instrumentos elétricos não são sinais imediatos de uma atitude nova perante as relações de género… Neil Young, por exemplo, encara a possibilidade de arranjar uma mulher que lhe faça a comida e lhe lave a roupa, porque “A man needs a maid” (“Um homem precisa de uma criada” [ou “rapariga”, num uso mais arcaico]) (1972):
I was thinkin' that maybe I'd get a maid / Find a place nearby for her to stay / Just someone to keep my house clean / Fix my meals and go away / A maid, a man needs a maid (“Estava a pensar que talvez arranjasse uma criada / Lhe arranjasse um lugar para ela ficar aqui perto / Só alguém para me limpar a casa / Fazer a comida e ir-se embora / Uma criada, um homem precisa de uma criada”)
A letra foi muito discutida e houve vários homens a dizer que só por incompreensão era considerada machista. O que acham vocês? “A man needs a maid” deve ou não fazer parte da lista de cantigas que hoje já ninguém escreveria? É certo que, pelo menos, “A man needs a maid” deixa muito mais espaço para várias interpretações que, por exemplo, “Be a Caveman” (1965) dos Avengers:
You gotta treat your woman tough / Be a caveman, oh, oh, oh, keep her in line // You gotta pull her by the hair / Hold her tighter than a grizzly bear … // You gotta show a woman who wears the pants / If you want her to stick by you / If you want her to be eating out of your hand (“Tens de tratar a tua mulher com dureza / Sê um homem das caverna, oh, oh, oh, mantém-na na linha // Puxa-a pelos cabelos / Aperta-a mais do que se aperta um urso // Tens de mostrar às mulheres quem é o homem / Se queres que ela fique contigo / Se queres que ela te venha comer à mão”)
Já ninguém escreve letras assim, pois não? Alguma coisa mudou nos últimos 40 anos. Não tento como deveria ter mudado, nisso estamos de acordo, mas alguma coisa mudou. Nas letras de canções populares, creio que mudou mesmo muita coisa.
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Notas finais com vídeo:

[1] O uso genérico do masculino foi muitas vezes usado humoristicamente. Lembro-me, por exemplo, da “Suite «Los Noticieros Cinematográficos»” (1971) do grupo humorístico Les Luthiers, em que se diz, a dado passo, que “las nuevas máquinas incorporadas […] permiten el procesamiento de las gaseosas sin intervención de la mano del hombre – estas máquinas serán atendidas exclusivamente por mujeres.

[2] Bobbie Gentry, no álbum The Delta Sweete (1968), tem uma versão da canção que vale a pena mencionar aqui, porque é das poucas versões femininas que conheço e porque Gentry, para a adaptar a uma voz lírica feminina, lhe introduz uma interessante transformação:
… My man's sittin there on Parchman Farm / He ain't never done nobody no harm // Well he's gonna be there for the rest of his life / And all he ever did was shoot his wife (“O meu homem está ali na prisão / nunca fez mal a ninguém [mas não na forma no man, “homem nenhum”, do original] // Bem, vai ali ficar o resto da vida / E a única coisa que fez foi dar um tiro na mulher”)
A letra alterada por Bobbie Gentry não tem, claro, uma leitura única, mas creio que muita gente entende que a voz da canção é da amante do condenado. Não discutirei aqui se esta alteração introduz ou não alguma mudança ideológica na letra, mas isso é, claro, muito discutível – em qualquer  sentido da palavra…

 

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