30 de setembro de 2013

Não creiam que ele é assim / que ele nada é – sem mim…

“O meu filho de facto nem é assim irrequieto. Ele é um rapaz muito calmo, um pouco introvertido até, o que é que, lá na escola, assumiu aquele papel de que tem de ser o palhaço da turma.” 
Ouvi isto ontem, mas passo a vida a ouvir coisas do mesmo tipo – e não só quando são valorizados negativamente os traços de personalidade que se observam fora de casa, também pode ser ao contrário. Acho curioso. Não há nenhuma boa razão para se acreditar que uma pessoa é “na realidade” como é em casa e que o que essa pessoa é na escola ou no grupo de amigos ou em casa dos avós ou seja lá onde for fora de casa é uma personalidade temporariamente assumida, circunstancial, menos verdadeira; mas parece que há muito quem acredite nisso.

Evidentemente, poder-se-ia argumentar, com a mesma ligeireza, que não, que é ao contrário, que as pessoas assumem uma personalidade falsa quando estão com os pais, que lhes escondem o seu “verdadeiro eu”, mas também não há nenhuma boa razão para acreditar nisso. Faz mais sentido partir do princípio simples de que uma pessoa é apenas realmente diferente em ambientes diferentes, interagindo com pessoas diferentes. A personalidade que se desenvolve para responder a um determinado ambiente não funciona noutros ambientes e desde bebé que, inconscientemente, toda a gente sabe isso – e o aplica.

Gustave Doré, ilustração de Cendrillon de Charles Perrault. 1862. Biblioteca Nacional de França, Paris.

Superstição

Isso de não se poder lavar as formas de pão é superstição. Não é necessário lavá-las, e, se calhar, não se deve lavá-las, não sei; mas podem lavar-se: lavei ontem as minhas – pela primeira vez em 12 anos e uso-as uma vez por semana – e não tive problema nenhum.

29 de setembro de 2013

Os pepinos do pátio traseiro e outras experiências científicas

Têm tido alguma divulgação, e às vezes até fora das habituais páginas dedicadas a teorias da conspiração e palermisticismos new age, duas experiências realizadas por alunas do secundário, uma na Dinamarca e outra nos Estados Unidos da América, que revelariam os perigos das ondas de rádio de wifi e das micro-ondas, respetivamente. A verdade, porém, é que as duas experiências revelam, quando muito, o dinamismo das alunas que as realizaram e as suas convicções – e apenas isso.

Tem de se ir um bocadinho além do imediatismo das relações de causa e consequência que o senso comum estabelece para se ter uma proposta de verdade relativamente fiável. Para que duma experiência se obtenham conclusões suficientemente sólidas, há que fazer observações de controlo e o número de observações deve ser estatisticamente relevante, não é verdade? O plural de caso isolado não é dados, como costuma dizer-se. E é preciso ter um cuidado especial quando o investigador tem uma hipótese em que acredita à partida (o que parece ser o caso em ambas as experiências), porque isso pode levar a enviesamento inconsciente na observação. Uma boa maneira (a maneira normal, de facto) de lidar com esta possível parcialidade é o trabalho ser revisto por outras pessoas, especialistas na matéria, que não partilhem as convicções do autor do trabalho. Sem estarem satisfeitas todas estas condições de estabelecimento da probabilidade de uma relação causal, o bom senso manda que nos abstenhamos de concluir seja lá o que for.

Notem bem que não tenho a certeza de que o wifi seja perfeitamente inócuo para plantas e animais e que o micro-ondas não afete a água que ferve – nem isso, nem o contrário. Mas há bastantes estudos sobre ambos os assuntos e não é difícil, a quem queira mesmo explorar as questões, encontrar informação na Internet. No geral, os estudos realizados não encontraram perigos nem nas ondas de wifi nem efeitos negativos no aquecimento pro micro-ondas, mas há vozes discordantes. Acho bem que continue a fazer-se investigação sobre a questão. O que eu não acho bem é que se apresentem como conclusivas experiências que de modo algum o são.

Dois pepineiros que estão no pátio traseiro de minha casa. Desculpem lá o da direita estar coberto por um tomateiro, mas não quis tirar de lá o tomateiro só para fazer a fotografia. Mas vê-se bem que está ainda vivo e relativamente verde. O tomateiro está há pouco tempo ao lado do pepineiro e a diferença entre os pepineiros era já muito grande antes de ele para lá ir. Os dois pepineiros são do mesmo pacote de sementes e foram, claro, regados com a mesma água. Apanharam o mesmo sol. E isto prova o quê?

24 de setembro de 2013

Dança macabra

Zigue e zigue e zigue, mas que sarabanda! / São rodas de mortos que se dão a mão! / Zigue e zigue e zague, vejam: aqui anda / Aos pulos o rei, junto do vilão! // Mas ei-los que fogem, todos, de repente, / Que já canta o galo, surge a claridade / Que noite de festa foi p’ra toda a gente! / Viva a morte, pois, viva a igualdade!
É uma tradução muito livre, para conservar ritmo e rima, das duas quadras finais de um poema de Henri Cazalis chamado “Égalité-Fraternité”, incluído em L’Illusion, de 1875*. Foi este texto que inspirou o poema sinfónico Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns.

Não nos surpreende o remate do texto, pois não? A impressão que tenho, sem ter investigado muito o assunto, é que a ideia da morte como instituidora de igualdade é bastante comum. É perante a morte, como perante a divindade, que somos todos iguais. Consolo pouco, dirão alguns, se alguma vez o chegou a ser... Mas ideia forte – e imagem forte, também.

*
 Há uma frase de Søren Kierkegaard que, à primeira vista, parece desviar-se um pouco dessa ideia:
Mesmo em plena contemplação grave da morte, pode sorrir-se, não da igualdade de todos, mas de haver, apesar dela, diferença.
Lembro-me de que, quando conheci a frase, a interpretei como uma valorização radical da diferença: É assim a vida: às vezes nem a morte, senhor Cazalis, nos faz iguais… Costumava passear pelo Assistens Kirkegård, o mais bonito cemitério de Copenhaga, e às vezes ficava um bocado parado em frente ao jazigo da família Kierkegaard, onde o filósofo Søren se encontra sepultado. Quando escreveu isto, pensei eu, Kierkegaard não imaginava que, naquele mesmo cemitério, um dia o viriam ver turistas, estudantes e toda a classe de gente – a ele, um desconhecido famoso, de que as pessoas sabem sobretudo (é o meu caso…) que foi filósofo e que, olha, a campa dele é ali. E ele, contemplando agora a morte do lado de lá, era bem capaz de achar graça não a sermos todos iguais a ele, mas a considerarmo-lo diferente.

Mas foi porque conheci a frase descontextualizada. A verdade é que também Kierkegaard realça o papel igualizador da morte. A frase é de um texto, “No cemitério”, de 1845, em que Kierkegaard fala de passear de manhã pelo Assistens Kirkegård, precisamente, e da constatação trivial de que, nas campas, há ainda vestígios das diferenças que houve em vida entre quem as ocupa, mas diferenças que a morte reduziu a mesmo muito pouco – a meio metro, um metro que seja**...

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Não sei se sabem, mas Kierkegaard significa “cemitério” em dinamarquês. É uma grafia antiga da palavra, que se escreve atualmente kirkegård. E o significado do nome do escritor introduz muitas vezes jogos curiosos nos textos sobre ele, sobretudo se falarem de reflexões, diante da sua campa, sobre textos que ele escreveu sobre cemitérios…

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* Zig et zig et zag, la mort en cadence / Frappant une tombe avec son talon, / La mort à minuit joue un air de danse, / Zig et zig et zag, sur son violon. // Le vent d'hiver souffle, et la nuit est sombre, / Des gémissements sortent des tilleuls ; / Les squelettes blancs vont à travers l'ombre / Courant et sautant sous leurs grands linceuls, // Zig et zig et zag, chacun se trémousse, / On entend claquer les os des danseurs, / Un couple lascif s'assoit sur la mousse / Comme pour goûter d'anciennes douceurs. // Zig et zig et zag, la mort continue / De racler sans fin son aigre instrument. / Un voile est tombé ! La danseuse est nue ! / Son danseur la serre amoureusement. // La dame est, dit-on, marquise ou baronne. / Et le vert galant un pauvre charron – / Horreur ! Et voilà qu'elle s'abandonne / Comme si le rustre était un baron ! // Zig et zig et zig, quelle sarabande! / Quels cercles de morts se donnant la main ! / Zig et zig et zag, on voit dans la bande / Le roi gambader auprès du vilain! // Mais psit ! tout à coup on quitte la ronde, / On se pousse, on fuit, le coq a chanté / Oh ! La belle nuit pour le pauvre monde ! / Et vive la mort et l'égalité !

** Kierkegaard usa a medida escandinava alen, de cerca de 60 cm, que não sei como se traduz para outras línguas. Provavelmente, não se traduz: não há palavra, quando não há a coisa...

19 de setembro de 2013

Tudo muda, nesta dança / exceto, claro, a mudança

Como a vocês, a mim também me aborrece que circulem por aí textos de autores por identificar ou mal identificados; e que se dê por autor de profundos aforismos ou tiradas risonhas gente que nunca os disse nem escreveu. É a facilidade do clique e do còpipeisste, que se há de fazer? Nada a não ser insistir que não, que a senhora nunca escreveu isso, que não foi bem isso que o senhor disse – enquanto vamos tendo paciência, e é certo que às vezes ela nos falha…

Uma frase que tenho visto muito nos últimos tempos é «Without deviation from the norm, progress is not possible» (“Sem desvio da norma, não é possível progresso”), atribuída a Frank Zappa. É claro, a minha reação às citações sem referência é agora como a vossa: é falso até prova em contrário. Desta vez, porém, não é uma falsa citação, apenas um citação pouco rigorosa. A frase é adaptada de uma afirmação de Zappa num documentário neerlandês chamado Frank Zappa, realizado por Roelof Kiers (VPRO, 1971) (traduzo eu)*:
Acho que não é possível progresso sem desvio e acho que é importante que as pessoas conheçam algumas das maneiras criativas de que algumas outras pessoas estão a desviar-se da norma, porque em alguns casos esses desvios podem inspirá-las e podem sugerir novos desvios, o que pode causar progresso, nunca se sabe.
Agora, o meu propósito não é desvendar a origem da citação nem torná-la mais rigorosa, é discutir a ideia. Ou antes, discutir uma ideia semelhante. Deixemos o progresso, porque progresso tem quase sempre a conotação de evolução positiva e a discussão fica ainda mais complicada. Falemos só de evolução, isto é, mudança para um estado que nunca existiu antes. Tem de se sair da norma – da regra, do modelo, do padrão – para evoluir?

Falo do que conheço melhor, a língua. As línguas evoluem a partir de desvios à norma? Em que sentido? Tem de se passar por alguma fase de agramaticalidade para haver evolução? Esta questão sempre me fascinou. A ideia de que os falantes de uma língua interiorizam ou ativam uma série de regras e produzem, assim, frases bem formadas, gramaticais**, sempre me fez interrogar-me sobre como se processa a evolução da língua. Onde entraria então o desvio que a permite? Porque, se toda a gente produzir frases que seguem as regras que interiorizou, quem vier depois vai interiorizar essas mesmas regras, que são a única coisa a que tem acesso, e vai depois reproduzi-las, e assim sucessivamente – e a língua mantém-se sempre igual… Ora nós sabemos que não é assim e temos até algumas ideias de como se processa a mudança.

Uma das possibilidades de evolução é a expansão de um dialeto ou de um socioleto que vai adquirindo poder e/ou prestígio – por razões não linguísticas. Por exemplo, para hoje ser norma, em português, o mesmo som /ʃ/ em rocha e roxa, houve imposição de uma variante que era antes criticada. Mas a regra interiorizada para muitas pessoas era já essa, mesmo quando não era a pronúncia padrão do português. Quer isto de dizer que coexistem sempre várias normas e há sempre, de facto, um grande grupo de falantes que não tem interiorizada a norma padrão (se me permitem a distinção, que pode parecer paradoxal).

Muito bem, mas, quando se trata de difusão de uma invenção individual, por ter condições especiais de sucesso (fazer parte de uma obra de arte com êxito, por exemplo) ou por se espalhar inicialmente num grupo de pessoas linguisticamente influentes? Dizem-se mesmo coisas que saem das normas de boa formação que temos interiorizadas, o correspondente linguístico das mutações dos seres vivos? Ou inova-se sem se sair da norma? Há muitas teorias sobre como se processa a evolução linguística, mas a minha ideia é que a norma é bem mais elástica do que muitos pensam, pelo menos no que diz respeito à evolução semântica, e que inclui já, por isso, as potenciais inovações.

Quando explicamos o significado de uma palavra num dicionário, usamos sinónimos e definições. Por exemplo: comer significa muitas coisas: O que é que há para comer?, Não gosto que me comam por parvo, A ferrugem está a comer a parte inferior da porta da mala, etc. No dicionário, o significado de comer pode ser (com variações, claro, de dicionário para dicionário) ingerir (alimento); dissipar; gastar; enganar; consumir; causar comichão a; corroer; roubar; acreditar facilmente; omitir; desfrutar; eliminar uma pedra (xadrez, damas); ter relações sexuais com; apanhar (pancada). Não há acordo nenhum entre teóricos sobre como é a “entrada” comer no nosso dicionário interior. Pode pensar-se que estes diferentes significados estão armazenados como entradas lexicais diferentes na nossa mente; ou que a diferença de sentido nas várias frases resulta de uma interação de um significado de base muito abstrato (definido em termos de propriedades ou operações simples, por exemplo) com o significado de base dos outros elementos da frase e da situação de comunicação; etc.***.

Não vou fazer aqui um resumo das teorias, porque isso seria um grande excurso e, sobretudo, porque não sei o suficiente para o fazer de forma aceitável. O que quero aqui defender, porém, é que qualquer boa teoria sobre evolução linguística deverá dar conta de um facto simples: Normalmente, e por muito que elas nos desagradem, não reconhecemos uma ´nova construção gramatical ou uma expressão nova como sendo a-normal, no sentido em que são a-normais as construções usadas por um estrangeiro que fale a nossa língua, mas apenas como nova, precisamente. Como falante nativo, tenho a possibilidade de usar comer com um significado (ainda) desconhecido da minha interlocutora [por exemplo, inventei agora: Acho que aquele penteado lhe come demasiado a cara], sem que ela deixe de compreender-me ou que reconheça o uso como sendo um erro. Numa certa perspetiva, pode dizer-se que há desvio relativamente à norma. Noutra perspetiva, porém, estou apenas a aplicar as regras interiorizadas que, em última análise, constituem a minha norma, precisamente.

Mais: Pode não só defender-se que o desvio está já previsto na norma e esta provavelmente o determina, como até que a norma obriga a evolução, já que não se conhece língua sem evolução. Seria de facto estranho que a evolução fosse apenas uma possibilidade que, por acaso, se tem verificado sempre. Parece conveniente considerar antes que a evolução é necessária.

O que vale para a língua não vale fora dela e a evolução obedece, seguramente, a mecanismos diferentes conforme se trate da evolução das artes e técnicas, das normas sociais, etc. Zappa é músico e talvez seja de música apenas que está a falar. Agora, eu sei que Zappa fala só de desvio e não de desvio propositado (embora seja provavelmente nisso que está a pensar), mas deixem-me levar a conversa nessa direção: provavelmente, no caso das artes, que são domínios privilegiados de expressão da individualidade, um desvio desejado, consciente de si próprio e com a finalidade explícita de produzir mudança é importante para a sua evolução – ou para o seu progresso, como diz Zappa. Importante, mas não necessário: a música e todas as artes são, nesse aspeto, como tudo o resto, evoluem quer se queira quer não. É essa a sua norma, digamos assim.
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*I think that progress is not possible without deviation, and I think that it is important that people be aware of some of the creative ways in which some of their fellow men are deviating from the norm, because in some instances they may find these deviations inspiring and might suggest further deviations, which might cause progress, you never know.”
** Ou seja, frases que os outros falantes nativos da língua reconhecem como tendo sido produzidas por um falante nativo da língua. Não parece haver outro critério para julgar se uma frase é gramatical.
*** Uma explicação muito breve e pouco rigorosa do que quero dizer com este charabiá: podemos pensar que, por exemplo, comer é, na origem, basicamente a ação de mastigar e engolir, sendo o sujeito forçosamente um animal e o objeto forçosamente comestível. Se esta definição, por exemplo, interagir com uma construção de frase genérica, em que não se pode entender que haja alguma ação, comer passa a ser entendido como alimentar-se de: O que é que as pessoas comem em Moçambique?; se o sujeito não for animado, entende-se que o objeto é eliminado, mas sem que haja apropriação dele por parte do sujeito; se o sujeito for animado, mas o objeto não for entendido como comestível, o sujeito tira proveito do objeto sem o deglutir, etc.

15 de setembro de 2013

[Para variar, uma coisa interessante] Salmão ou magenta?

Tem havido ultimamente um revivalismo da velha tese de B. L. Whorf de que a língua influencia a perceção do mundo, que tinha sido posta de lado pela grande maioria dos linguistas. É um revivalismo assente em pressupostos um pouco diferentes, mais cautelosos, uma versão “fraca” da teoria: a língua pode, nalguns casos, afetar a maneira como percecionamos o mundo. E ainda bem que houve esse revivalismo, porque ele tem produzido pesquisa interessante na área da relação entre língua e cognição, com um grau renovado de rigor. [Para verem o que eu já aqui escrevei sobre o tema, cliquem na etiqueta Relativismo linguístico, por baixo do texto.] Os trabalhos que tenho visto nessa área, porém, incidem todos na relação entre léxico e cognição, e léxico não é sinónimo de língua, longe disso. Pode haver argumentos fortes a favor da hipótese de que a interiorização de um conceito lexicalizado pode influenciar determinadas capacidades ou perceções. Por exemplo, que existe uma ligação direta entre as categorias cognitivas de cor e as palavras usadas para as descrever e que, por isso, as pessoas que falam línguas em que se distingue azul e verde conseguem mais rapidamente perceber mais nuances nessa zona do espetro das cores.

Ora a variação do léxico não se faz só de língua para língua. Ela faz-se também no interior de uma língua, como a imagem abaixo mostra de forma claríssima; donde que, quando se estuda a influência da “língua” na perceção das cores, um dos primeiros testes de controlo a fazer para saber até ponto essa influência é efetivamente da “língua”, em sentido estrito, devia ser estudar a influência nessa perceção de léxicos diferentes interiorizados por falantes de uma mesma língua. Parecerá evidente, mas nunca tal vi. Se se faz, faz-se muito pouco. Obviamente, a temática das cores é um só exemplo, talvez o mais imediato, e o mesmo se aplica a outros campos lexicais.


Sobre a figura: Não consigo saber qual é a origem desta imagem que circula pela Internet. As versões com melhor definição estão escritas em russo, pelo que talvez seja uma adaptação de uma imagem russa, não sei. A imagem pretende dar conta das diferenças de género da perceção das cores (também não descobri ainda em que estudo ou estudos se baseia), mas não é para esse fim que a uso, mas para demonstrar o facto simples de que duas pessoas que falem a mesma língua podem ter léxicos diferentes, e com diferentes graus de sofisticação, para descrever as cores – e outras categorias cognitivas. Os nomes de cores que aparecem à esquerda não são, muitas vezes, as suas designações mais comuns (parecem ser antes uma designação intuitiva baseada sobretudo em frutos e plantas), mas todas estas cores têm nomes que, apesar de relativamente correntes, estão longe de ser conhecidos por toda a gente.

14 de setembro de 2013

A tradição nunca foi o que é

Já li várias entrevistas ao músico zimbabueano* Oliver Mtukudzi em que ele diz que, quando começou a usar instrumentos tradicionais nos seus álbuns, ao fim de uns 20 anos de carreira, o seu público reagiu mal. Mtukudzi é tão popular que se pode dizer que o seu público são todos os zimbabueanos. Provavelmente, os europeus imaginam os zimbabueanos a dançar e cantar com música de tambores e mbiras, mas o facto é, para eles, a música do seu ídolo Mtukudzi era e devia ser com guitarras elétricas, não com mbiras. Ao ir buscar instrumentos tradicionais, Mutukudzi estava, podemos dizer assim, a ir contra a tradição.

Lembro-me de discussões acesas: a música dos ranchos folclóricos portugueses, pelo menos na forma que lhes conhecemos hoje, pode considerar-se música tradicional? Então se os ranchos contribuíram, precisamente, para destruir a “verdadeira música tradicional”… Tradicional, tradicional… Tradicional de verdade e falso tradicional. O que é isso, tradicional? A verdade é que ninguém sabe bem o que é. Quantos anos é preciso uma coisa existir para se tornar tradicional? Ou há critérios mais importantes que o tempo para definir o que é – ou deve ser – tradição?

Isto de tradições tem, sem dúvida, muito que se lhe diga. Quando, em meados da década de 90, Duncan Brooker viajava pelos países da SADCC à procura de pérolas esquecidas do afro-funk africano dos anos 60 e 70 (algumas das quais havia de relançar mais tarde na Europa), as pessoas achavam estranho ele interessar-se por aquelas velharias: “isto é música velha, amigo. Porque é que você se interessa por isto? Isto não presta. Nós ouvimos Snoop Doggy Dogg.” Se o vendedor de discos recusava o velho afro-funk (que, já agora, não é nem mais nem menos tradicional que a pop africana, que nasceu nos anos 60 em Lagos ou Kinshasa inspirando-se de música latino-americana e que hoje se vende como sendo de inspiração… tradicional), não era por não ser “africano” ou “tradicional” ; era por não ser moderno! E como ele muitos africanos.

Tradição, tradição… Há que pensar na tradição de forma menos tradicional, se se pode dizer assim, como no-lo recorda Rita Dantas, num texto do seu muito aconselhável blogue Boas intenções (sublinho eu):
Há um texto muito interessante do Giddens que li há muitos anos onde ele desmontava uma grande parte das tradições ocidentais como invenções recentes (os kilts e os tartans escoceses por exemplo são filhos da revolução industrial) para dizer que isto não tem nada de extraordinário nem lhes retira legitimidade, apenas demonstra a forma como a maioria das tradições são criadas e como curiosamente são, tal como o próprio conceito de tradição, um produto da modernidade. Para lidar com o novo, inventamos o tradicional.
Procurei o texto de Giddens e encontrei este Runaway World, que reúne cinco palestras de Abril de 99 em diversos locais. Creio que é este o texto que Rita Dantas refere. Tem, pelo menos, o mesmíssimo teor. E quero acrescentar uma pequena passagem de Giddens que dá ênfase a esta ideia essencial de que a modernidade inventou a tradição para lidar com o novo (traduzo eu):
O termo «tradição», como é usado hoje, é na realidade um produto dos últimos 200 anos na Europa. (…) Na Idade Média, não havia uma noção genérica de tradição. Não era precisa tal palavra, precisamente porque a tradição e o costume estavam em todo o lado.
O Museu de Etnologia de Nampula tem coisas interessantes. Quero dizer, pelo menos tinha, já não vou lá há alguns anos. E uma das coisas interessantes que tinha era, precisamente, ter expostos muitos objetos – cestos, capulanas, pilões, colheres de pau, panelas de barro, etc., etc. – se encontram à venda em qualquer mercado da zona e existem em casa de toda a gente. Tradicionais é, pois, capaz de não ser a melhor palavra para os descrever…

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* Explico noutro texto da Travessa porque prefiro zimbabueano a zimbabuense. 

13 de setembro de 2013

Porque gosto eu desta música? Bom, por várias razões…

Porque gostamos nós duma música? Ou porque lhe somos relativamente indiferentes, ou porque a achamos desagradável? São perguntas que pedem perguntas maiores, não é?, a mais óbvia e mais abrangente das quais é, com certeza: e porque gostamos ou não gostamos seja lá do que for, afinal? Enfim, a uma teoria geral do gosto, não me abalanço; mas tenho colecionado ideias sobre porque gosto desta ou daquela música e quero perguntar-vos se as quatro respostas a que cheguei também vos servem a vocês.

A razão mais fundamental é capaz de ser o hábito. Se não for a mais fundamental é, pelo menos, uma razão bastante comum. Hábito em sentido lato, ou familiaridade, como se diz às vezes. Gostamos do que nos habituámos a ouvir. Não só aquilo que ouvimos de facto muitas vezes, mas também do que se parece com o que ouvimos muitas vezes. Gostamos do que tem referências que reconhecemos, que é outra maneira de dizer que tem as nossas referências. Quando ouvi pela primeira vez, sei lá, o Ballet Mécanique de Antheil ou A Criação do Mundo de Milhaud, ou Mirel Wagner, ou Jonathan Wilson, para dar exemplos perfeitamente ao calhas, nada daquilo me era estranho, não porque fosse plágio de outra coisa qualquer, mas porque eram músicas a que eu estou habituado. Agora, há coisas que ouvimos toda a vida, pois há, e a que estamos efetivamente habituados sem nunca gostar delas nem de nada semelhante. A familiaridade gera muitas vezes gosto, mas não o gera sempre.

Outra razão é o contexto em que conhecemos a música ou ouvimos muitas vezes. Todos temos músicas que associamos conscientemente a determinadas acontecimentos ou períodos da nossa vida. [Lembro-me de uma expressão paradoxal desse facto, que ouvi há uns anos: “Eu gostava muito desta música e agora já não gosto; mas, quando a oiço, lembro-me sempre daqueles tempos em que gostava dela e, por isso, gosto de a ouvir.”] Não se trata forçosamente de a música evocar uma situação feliz, mas é natural que, também sem termos consciência disso, a nossa situação emotiva tout court ou ou a nossa relação emotiva com o contexto em que a ouvimos afete a maneira como gostamos de uma música.

Uma terceira razão é o investimento que fizemos na música. Creio que o gosto pode ser recompensa para o trabalho desenvolvido. Quando digo investimento, quero dizer investimento de tempo e esforço – os discos que se descobrem ao fim de muito trabalho de pesquisa e/ou que são difíceis de obter – ou simples investimento monetário – é mais natural ter uma afeição especial, digamos assim, por um disco que se pagou caro. Evidentemente, pode pensar-se que estou, pelo menos em parte, a inverter a relação causal: investimos mais nos discos de que gostamos mais. Mas não: notei isto em relação a discos que desconhecia completamente, ou quase não conhecia, antes de os comprar. Por exemplo: não houve, na vossa juventude, discos para os quais, andaram a juntar, ainda antes de eles saírem?

Finalmente, outra razão muito importante é quem nos mostrou ou aconselhou a música, ou de quem ouvimos críticas positivas. Há pessoas cujos gostos musicais respeitamos – quando não temos mesmo gurus musicais... – e outras que achamos que têm mau gosto, seja lá o que for que isso quer dizer. [Muitas vezes, o respeito pelos gostos musicais de uma pessoa coincide com a admiração pelas suas capacidades intelectuais e preferências estéticas em geral, mas nem sempre – também há pessoas que nós achamos que sabem muito de música, mas só de música.] E temos, de forma mais ou menos consciente, uma predisposição especial para gostar da música que essas pessoas valorizam. Até já me aconteceu, vejam lá, reouvir com prazer coisas aconselhadas pelos meus amigos “com bom gosto” que tinha ouvido antes sem achar nada especial…

Ao contrário do que é costume, este texto não tem nem links, nem citações, nem notas de rodapé. Falta-lhe também um remate elegante. O melhor é acabar com uma música, já que é de música que se fala. Deixo-vos uma música que acho reúne todas as condições para eu gostar dela, mas já não me lembro bem…


Igor Stravinsky. Ebony Concerto (1945) / Columbia Jazz Combo; Igor Stravinsky; Benny Goodman, clarinete

10 de setembro de 2013

Falso se for mentira, falso se for verdade

Conversa entre amigos meus:
– A verdade é que não há factos, há apenas interpretação dos factos.
– Ou seja, é essa a interpretação que tu fazes dos factos.

[Que banalidade, não é? Que o relativismo se contradiz a si próprio, sabe-se a bem dizer desde sempre – e também que nos impossibilita, em última análise, de reconhecer os nossos erros… Mas é preciso insistir nisto, há muita gente ainda convencida de que qualquer afirmação tem o mesmo valor que todas as outras... Continuemos então.]

Bom, se tivermos uma atitude solipsista radical, de que é impossível provar qualquer existência fora do nosso pensamento, nem se pode provar, sequer, que haja várias interpretações dos factos, porque os outros podem também ser apenas um objeto mental meu. Nem vale a pena pensar mais em discussão nenhuma, quando alguém tem uma atitude desse tipo. Fora disso, sim:

Antes de mais, convém explicar que, a asserção “não há factos, só interpretações” não faz muito sentido: O que se interpreta então, se os factos não existem? Forçosamente coisa nenhuma. Mas como pode coisa nenhuma ser interpretada? A prova última de que os factos existem independentemente das interpretações que deles se façam é, precisamente, que podem ser interpretados.

Provavelmente, o que minha amiga queria dizer era apenas que não temos acesso aos factos propriamente ditos, só conhecemos interpretações. A proposição menos radical – e mais comum – é que não se consegue fazer uma leitura neutra da realidade, mas apenas observações forçosamente distorcidas. Mas também este ideia pode ser logicamente desmontada  e gostei da formulação de Jarrett Leplin, que acabo de descobrir*:
É postulado com confiança por muitos historiadores e sociólogos do conhecimento que toda a pesquisa é tendenciosa. Pergunto-me a mim mesmo como terá sido descoberto tal facto. Não é tautológico nem de outra forma evidente. É óbvio que foi necessária investigação – ou seja, pesquisa – para o descobrir. Mas, na medida em que é tendenciosa, as conclusões a que a pesquisa leva não são fiáveis. Portanto, esta conclusão, a de que toda a pesquisa é tendenciosa, se estiver correta, não deve ser fiável. Mas, claro que, se estiver incorreta, então também não é fiável. Logo, não é fiável. Poderia ser verdade, mas não podemos ter boas razões para pensar que o seja.
E as minhas desculpas, sim? Apeteceu-me, pronto. Volto em breve, prometo, com algo menos aborrecido... 
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* A novel defense of scientific realism, Oxford University Press, 1997, traduzo eu.

7 de setembro de 2013

Maria e o menino em quadra Nobre

Ontem fui parar por acaso à obra de James Tissot, de quem já aqui uma vez pus um quadro. Quando se converteu ao cristianismo e decidiu começar a pintar temas religiosos, Tissot fez três viagem ao Médio Oriente, para ver como eram realmente as gentes e as paisagens. Acho que o “realismo” que daí resultou diferencia as suas ilustrações da vida de Cristo de muitas outras obras do mesmo estilo – e também de pinturas de motivos religiosos que tinha feito antes.

Por razões óbvias, este tipo de realismo não é muito comum na arte religiosa. O que é normal é que o artista translade as cenas bíblicas para os cenários que conhece. Pode ser realismo na mesma, mas outra forma de realismo. Nas canções populares – é de canções populares que quero aqui falar –, Maria, mãe de Jesus, faz, naturalmente, as mesmas coisas que as mulheres que a cantam*. Agora, algumas dessas atividades não são, talvez, muito diferentes das atividades das mulheres do Médio Oriente no início da era cristã.

 

“José embala o menino”, canção recolhida por Michel Giacometti em Monsanto, Idanha-a-Nova:
José embala o menino / Que a senhora logo vem / Foi lavar os cueirinhos / À pocinha de Belém
É uma canção muito bonita, na minha opinião – letra e música. Na verdade, não sei se havia ou não algum tipo de cueiros na Palestina, mas é possível. O que duvido é que se fizesse malha, como diz outra canção:
Nossa Senhora faz meia / Com linha feita de luz / Ó linda Rosa / Com linha feita de luz / O novelo é lua cheia / As meias são para Jesus / Ó linda Rosa / As meias são para Jesus
Como já referi noutros textos da Travessa (aqui, aqui e aqui), “dizer de uma canção que é tradicional significa apenas que não se sabe quem é o seu autor”. A canção que acabo de citar foi recolhida em Elvas pelo folcorista britânico Rodney Gallop, no início da década de 1930. É uma das canções que figura em Cantares do Povo Português (Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1960). No que eu presumo ser uma edição inglesa da mesma obra, Portugal: A Book of Folkways (Nova Iorque: Macmillan, 1936), afirma Gallop:
Deve ficar claro que não acredito muito na originalidade criativa do povo. «Todas as culturas populares», diria eu, como Padraic Colum, «são as popularizações de algo que antes foi aristocrático – música, poesia, traje, dança».
Discordo completamente desta afirmação. A mim, parece-me evidente que em todas as camadas sociais há originalidade criativa. Porque não havia de haver? Mas, por outro lado, é certo que, ao contrário do muitas vezes se pensa, há, dos Andes à Irlanda (por exemplo...), partes do folclore que sabemos terem origem na cultura – não forçosamente aristocrática – das classes educadas. Neste caso, como o nota o tradutor de Gallop para português, a quadra recolhida em Elvas que referi atrás é de António Nobre: é a 14ª estrofe de “Para As Raparigas de Coimbra”, um poema de 16 quadras soltas incluído em , de 1892:
Nossa Senhora faz meia / Com linha feita de luz: / O novello é a lua-cheia, / As meias são p'ra Jezus.**
É uma quadra com grande fortuna na música popular. Passados 40 anos da publicação de , a quadra de Nobre tinha sido musicada, acrescentada de “linda Rosa” como refrão intercalar. Depois, foi, naturalmente, transmitida oralmente sem referência ao autor, que os seus cantores desconheciam, e continuou a ser transformada e juntada a outras quadras em novas composições (encontrei já umas quantas). Outra possibilidade era usá-la como mote para glosa, um esquema que era antigamente comum para letras de fado, e foi o que fez João Linhares Barbosa:
Quando a noite é escura e bela / Diz-se lá na minha aldeia / Que à janela duma estrela / Nossa Senhora faz meia // A rodar em dobadoura / Andam quatro anjinhos nus / Prendendo nossa Senhora / Com linha feita de luz // Jesus pequenino e loiro / Na linha todo se enleia / As quatro agulhas são d'oiro / O novelo é lua cheia // Dormem as coisas mais santas / Só a mãe santa produz / Faz serão até às tantas / As meias são para Jesus
Com música de Francisco Viana (“fado Vianinha”), esta letra deu um fado de que já vi diversos nomes. Foi neste fado que conheci a afortunada quadra de Nobre – muito antes de saber que era dele e que tinha servido de letra a cantares tradicionais.
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* Às vezes, como todas as obras de arte, estas canções exprimem também ideal. A imagem do pai na quadra que se segue é, provavelmente, mais expressão de ideal que descrição da realidade:
Senhora lavava, / São José ‘stendia, / chorava o menino / c’o frio que fazia.
(“Senhora lavava”do Cancioneiro de Entre Mar e Serra da Alta Estremadura, de J.R. de Sousa (Leiria: Câmara Municipal, 2004), citada por Mónica Mendes Raposo em As canções de embalar nos cancioneiros populares portugueses. Universidade do Minho, 2009)

** O terceiro verso da quadra de Nobre tem oito sílabas, a não ser que se pronuncie lua como ditongo crescente /lwâ/, o que soa estranho. A canção de Elvas corrige esta irregularidade, eliminando o artigo a. Na glosa de João Linhares Barbosa que refiro noutra parte deste texto, o artigo também é eliminado do mote.

6 de setembro de 2013

Divertimento em forma de cesto de cerejas

Tive, há muitos anos, antes de as pesquisas na Internet serem tão eficazes como são agora, uma ideia que ninguém levou muito a sério, e ainda bem: criar uma base de dados de todas as palavras-tabu e quase tabu de todas as línguas, e fazer com ela uma aplicação que dissesse às pessoas se podiam ou não usar, nesta ou naquela língua, uma palavra que tivessem inventado – um nome de uma firma, de um produto comercial, de uma personagem de ficção, etc., etc.

A questão é que há vários casos famosos de nomes de produtos que tiveram de ser alterados para serem comercializados em zonas onde o nome original não soava bem. O Mitsubishi Pajero, por exemplo, foi comercializado nos países de língua espanhola como Montero, não sei se sabem porquê (vejam aqui pajero e a oitava aceção de paja). Em Portugal, por poderem suscitar associações com palavras de um registo, digamos, mais familiar, o Rexona passou a Rexina (para passar depois a Rexona, que terá mudado entretanto?) e o Opel Ascona passou a Opel 1604 (também havia quem, sem lhe mudar o nome original, deslocasse apenas a sílaba tónica, pronunciando incorretamente /áscona/...).

Trata-se aqui de adaptações complexas, digamos assim, do nome de um produto a uma língua, mas normalmente a adaptação é bem mais primária e mais espontânea: como qualquer palavra estrangeira, adapta-se à fonética da língua que a adota[1]; e, como se difunde, normalmente, por escrito, é muitas vezes lido com a lógica ortográfica dessa língua. Ou qualquer coisa que não é bem uma nem a outra:

Se se limitasse a adaptar-se à pronúncia portuguesa o seu nome, as máquinas Singer chamar-se-iam /sínguer/; se se lesse apenas como se escreve, seriam /singer/, com acento na última sílaba; mas, vá lá saber-se porquê, a marca Singer chama-se /sínger/ em Portugal. Já o Tide (isto deixou se vende em Portugal, não foi?, ou mudou de nome?) se pronunciava apenas como se lia, /tid/, embora não seja estranha à estrutura fonética do português a sequência de sons /taid/, que é como se chama originalmente o detergente. Na pronúncia de Palmolive, também parece ter prevalecido a leitura da palavra como se fosse portuguesa, embora se possa discutir se a acentuação original /pa(l)mólive/ encaixa ou não na estrutura fonética portuguesa. A pronúncia de Colgate, em contrapartida, ignora a leitura à portuguesa e aportuguesa apenas a pronúncia original em /colgueite/.

Parece claro, portanto, que não há aqui nada de muito claro; e que a regra parece ser que não há regra nenhuma... Um caso curioso é o de X-acto. Pronunciando-se /xis-ato/, como se pronuncia, anula-se completamente o jogo de palavras que funda o nome da marca: a pronúncia original /egzakto/[2] remete para exact, “exato”, mas creio que a grande maioria dos portugueses que utilizam o instrumento não tem consciência disso.

Fazendo agora um salto um pouco estranho dos nomes de marcas para os nomes de heróis de banda desenhada, chegamos à recordação que me deu a ideia de escrever isto. Um tipo de aportuguesamento muito curioso, que se fez a determinada altura, foi o dos nomes das personagens de banda desenhada: foram completamente alterados, substituídos por outros mais ou menos portugueses. Não é exatamente, note-se, uma originalidade portuguesa: em muitos países se alteraram completamente, nas traduções, os nomes de certas personagens de BD e de animação. Em Portugal, porém, parece que não foi apenas decisão de tradutores e editoras, à procura de nomes mais bem soantes para o público português, mas que havia de facto uma norma a cumprir, não sei se lei mesmo, se algum tipo de diretiva. Nuno Neves diz no seu blogue notas bedéfilas que “[a] censura, então vigente no nosso país, (…) [chegou] mesmo a tornar obrigatório que as personagens estrangeiras adotassem nomes portugueses”.

E foi assim que Big Ben Bolt passou a Luís Euripo, Johnny Hazard a João Tempestade, Steve Canyon a Luís Ciclone, etc. Alguns destes aportuguesamentos tiveram mais fortuna e foram usados durante mais tempo que outros. Por exemplo, D. Enigma, Calidano, Cavaleiro Ruivo, Rúben Quirino e Roque Texas já tinham desaparecido quando eu era miúdo (eu, pelo menos, não me lembro de alguma vez os ter visto) e usavam-se os nomes originais, respectivamente Mandrake, Matt Marriott, Red Ryder, Rip Kirby e Roy Rogers. Por exemplo.

Luís Big Ben Bolt Euripo, por John Cullen Murphy

Agora, pensei que, na era de Google, talvez encontrasse resposta à questão que algumas vezes se me pôs: Ciclone e Tempestade, a gente percebe, vá, mas porquê o Euripo de Luís Euripo? O que – ou quem – teria inspirado a escolha de nome tão invulgar? Terá havido algum Euripo pugilista? Ou de alguma forma famoso, mesmo que num meio restrito? Mas nada: pesquisa-se e fica-se a saber que Euripo, embora seja raro, existe mesmo, como nome próprio e como apelido, e só isso. Talvez a escolha tenha sido motivada pelo significado de euripo como nome comum e tenha a intenção didática de nos fazer ir ver a palavra no dicionário. Eu, pelo menos, doutra maneira não a teria ido procurar, porque nunca a encontrei em mais lado nenhum…

Bom, mas então, onde é que eu ia? Hmmm, a propósito, vai uma cerejinha? O quê, que lhe meta um v entre o r e o e? Também pode ser!

[Eu não queria encher isto de nomes de marcas, pois não, mas como é que escrevia isto sem eles?...]
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[1] Surpreende-me, aliás, que não se tenha imposto a pronúncia /ikeia/ do nome da cadeia sueca de móveis e produtos domésticos Ikea. Seria esta a pronúncia natural em português europeu, resolvendo o encontro das vogais e e a, um encontro que não temos em posição tónica. Não é isso, porém, que eu tenho ouvido em Portugal, mas /ikêa/… Curiosamente, ouço também por vezes /ikê-á/, à francesa.
[2] Presumo que, na fonética inglesa, o /eks/ inicial se transforma automaticamente em /egz/ quando seguido de vogal, a não ser em casos de latinismos como ex ante e afins. Mas não tenho a certeza, a ver se pergunto a quem saiba…

4 de setembro de 2013

John Donne revisitado

As pessoas não são ilhas, é verdade; ninguém vive sem tocar a vida de muitas pessoas – muitas vezes, de mais pessoas do que crê. É certo também que, à morte de cada pessoa, é por todos os humanos que os sinos dobram. A formulação de Donne é admirável e este é sem dúvida um dos casos em que a fortuna do texto resulta diretamente do seu valor.

No início da vida, é só a vida que conhecemos. No fim, há de ser só a morte. Entre os dois pontos, há um gradiente irregular: a morte vai entrando pouco a pouco nas nossas vidas. Vamos tomando consciência dela, de forma abstrata e vai-se materializando também na morte dos que nos rodeiam. Quanto mais avançamos na idade, mais possibilidades há, no geral, de ela estar presente nas nossas vidas.

Morreram já pessoas que me eram – e são, em memória – muito queridas. Morreram já muitas pessoas de quem guardo muitas recordações, gratas umas, menos gratas outras, mas que fazem parte de mim. Queria vivas essas pessoas, como todos queremos vivos os nossos mortos, não é?

Temo as mortes que hão de vir. De algumas, sei que hão de vir muito em breve. Penso muito nisso. Está em Portugal a maior parte das pessoas que me são próximas e, quando fui a Portugal nas férias, senti, de forma aguda, a presença das mortes passadas e por vir. Umas levam às outras, acho eu.

E isso fez-me pensar que se pode dizer a humanidade de outra maneira: é porque os sinos ameaçam constantemente dobrar por todos à morte de cada um que nos podemos ver como uma ilha, precisamente – cada pessoa está, sinto eu às vezes, rodeada de morte por todos os lados.

3 de setembro de 2013

A influência da lua na carne assada e outras questões

 A lua...
Deixai-me pasar a mao
                  polos cabelos da lúa!

Hoxe quero embebedar-me
                  co’a sua beleza núa.

Camaradas,
dai-me escadas
para ir beber na sua
boca
mortes aluadas!
Ernesto Guerra da Cal, “Bebedeira lunática”, in Lua de Alén-Mar, 1959

Lembram-se da superlua, que, afinal, não o foi? É natural, a superlua nunca é super por aí além. [Shari Balouchi explica aqui a superlua depressa e  bem, como dizem não há quem.] Nunca ouviram dizer que a lua cheia é causa de agitação, tanto entre os lunáticos (lunáticos!...) como entre as pessoas… hmm… normais? Bom, ao contrário do que se diz, não se registam mais casos de violência, crimes em geral, suicídio, nascimentos ou acidentes, nem se verifica aumento de ansiedade ou depressão, durante a lua cheia. [Eric H. Chudler reúne estudos e mais estudos numa página do seu site, para concluir que, afinal, a lua cheia não parece ter influência nenhuma nas pessoas.]

Mas, e sobre o crescimento das plantas? A lua tem ou não influência no crescimento das plantas? Tive há algum tempo uma conversa sobre isso com uma amiga minha e ela achava que sim. Já Linda Chalker-Scott, que é entendida nestas coisas (mais que a minha amiga, mas digo-vos isto baixinho e entre parêntesis, para a minha amiga não ficar aborrecida…) diz que não há nenhuma boa razão para acreditar nisso e desmonta, a título de exemplo, um artigo que pretende provar essa influência. Chalker-Scott  diz desse artigo que (traduzo eu), “se [as] [legítimas] referências a ritmos circadianos e diurnos tivessem sido deixadas de lado, as referências bibliográficas seriam muito escassas”. E diz mais:
Muitas das referências usadas [no artigo] como prova de efeitos lunares nas plantas são de qualidade duvidosa, já que não foram revistos pela comunidade científica; são os livros e as palestras em edição de autor. Além disso, para cada artigo que afirma haver um efeito lunar, encontro outro que nega completamente esse efeito. Dito isto, há alguns estudos legítimos que relacionam indiretamente ciclos lunares com a bioquímica das plantas. Por coincidência, a principal autora de um deles é uma amiga íntima e colega minha, cujas credenciais de pesquisa são impecáveis ​​(pode ver-se o artigo aqui).

É aqui que a fascinante e complexa natureza das interações entre espécies ajuda a explicar os dados discordantes. Os ciclos lunares afetam realmente determinadas espécies, incluindo alguns insetos herbívoros que estão dependentes do luar para comerem. Durante a lua cheia, esses insetos comem mais e as populações de plantas afetadas reagem alterando a digestibilidade dos seus tecidos. É provável que estas alterações bioquímicas tenham sido erroneamente atribuídas à influência direta da lua e não à defesa contra os herbívoros.
Linda Chalker-Scott não afirma perentoriamente, porém, que não há influência da lua nas plantas: diz antes que, para se confirmar ou infirmar a influência da lua nas plantas, haveria que realizar experiências de controlo que nunca foram feitas. Se fosse uma questão de linguística, era capaz de ter uma opinião sobre ela. De plantas e lua não percebo o suficiente para ter a minha própria opinião sobre o assunto. Mas não é só o valor de verdade da ideia de que o ciclo lunar afeta as plantas que me interessa aqui. Esta conversa sobre a conversa com a minha amiga é pretexto para outras conversas.

... e o resto
Quero propor à consideração favorável do leitor uma doutrina que receio que possa parecer extremamente paradoxal e subversiva. A doutrina em questão é a seguinte: que é indesejável acreditar numa proposição quando não há qualquer razão para supor que seja verdade. 
Bertrand Russell, Introdução a Sceptical Essays, 1928, traduzo eu
Neste caso, se todas as tentativas de provar a influência lunar falham e não há trabalho feito que respeite as condições necessárias para se poder chegar a alguma conclusão razoável, que boa razão há para acreditar na influência da lua? Mas o facto é que quem planta pela lua, que é uma prática muito antiga, obtém bons resultados, dizia a minha amiga. Claro. Mas quem não planta pela lua também, não é verdade? Plantar pela lua não faz, provavelmente, mal nenhum – sobretudo se a lua não tiver, precisamente, influência sobre as plantas.

Sei de uma história que se aplica bem aqui. Um homem dizia que achava estranho que a mulher cortasse as pontas às peças de carne quando as assava no forno. A mulher insistia que tinha de se fazer assim, senão a carne não ficava como devia ser. Tinha aprendido com a mãe, que sempre tinha feito assim. Um dia, o homem, que já tinha barafustado muito com a mulher, porque achava completamente disparatado o procedimento, perguntou à sogra de onde lhe vinha aquele conhecimento e que explicação tinha para o facto de cortar as pontas a um pedaço de carne o tornar mais tenro (ou mais saboroso, ou mais rápido a assar, já não me lembro). A sogra respondeu-lhe que isso não podia ser, que cortar a carne não alterava nada no assado – ela tinha-o feito muitas vezes no passado quando o pedaço de carne não cabia na travessa de ir ao forno que ela tinha, que era pequenina, e guardava as pontas para fritar*...

É esta a história de muitas tradições em cuja eficácia não há nenhuma boa razão para acreditar, mas que funcionam – como funciona fazer outra coisa qualquer. A carne assada fica boa, se lhe cortarmos as pontas.Também acho muito bem que se tome chá de limão com mel quando se está constipado; mas, muito provavelmente (depende do estado de espírito na altura), farei um reparo a quem me disser que o chá de limão com mel faz bem à constipação… 
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* Nota acrescentada a 19 de junho de 2014: Não me lembro de onde ouvi esta história, mas descobri hoje que, segundo a jornalista Cathy Young no The Atlantic (13-06-2014), é uma história de Karen DeCrow.

2 de setembro de 2013

O arenque e a sardinha

[Soneto inglês escrito na Dinamarca (sobretudo) para portugueses]

Comei a Sul, senhores, a sã Sardinha:
Que o Arenque se lá chega, chega já
Sem a graça prateada que aqui tinha:
 Marinado ou em barrica e sem agá…

Comei, que aqui, no frio Setentrião,
Que a sardinha só vê – que grande lata! –
Enlatada em Agadir ou em Olhão,
E, espanto!, mesmo assim nada barata,

Que remédio, pois, sem ela a gente passa…
Mas não sem o seu primo matulão
E que rechina mais, quando se assa,
Que a parente sulista, o figurão!

Cada qual deita mão, isso é que é!,
Aos clupeidas que tenha mais ao pé
[Mais sobre arenques na Travessa do Fala-Só aqui e aqui.]

1 de setembro de 2013

Autoestradas de informação?

Não é a estrada que modela o veículo que nela circula. Obviamente, as autoestradas de informação podem também ser as autoestradas de desinformação. Podem ser, não – são-no de facto, em muitos casos.

Há uns meses, vi de repente invadir o meu newsfeed do Facebook a notícia de que tinham sido proibidos e queimados, na Hungria, os cereais geneticamente modificados. Muita gente se deve ter interrogado e especulado sobre a questão: por que teria sido a Hungria – ou, mais concretamente, o seu atual governo de extrema-direita – a ter uma reação tão violenta contra os OGM? Curioso que sou, e espicaçado, ademais, pelo facto de os links que se iam espalhando pelo newsfeed levarem sempre a páginas de que nunca tinha ouvido falar, fiz o que faço sempre nestas situações: selecionei o título de uma dessas notícias, cliquei do lado direito do rato, escolhi Search Google for... e a pesquisa deu-me centenas de versões da notícia, que podia começar a analisar. Não demorei muito tempo a concluir duas coisas: que a notícia tinha pelo menos dois anos[1] e que não se encontrava em nenhum jornal de referência, ou, pelo menos, num jornal que eu pudesse classificar como “em princípio credível”.

Tenho a certeza de que nenhum dos meus amigos que partilharam a notícia teve o cuidado de fazer o que eu fiz. Porquê? Uns, porque confiaram nas pessoas de quem receberam a notícia; outros, porque se dispõem a aceitar acriticamente como, pelo menos, interessante e merecedor de divulgação todas as ações anti-OGM; e, a grande maioria, porque isso não faz parte das suas rotinas e dos seus hábitos – da sua cultura em sentido lato. Agora, pode considerar-se ligaçoes para este tipo de artigos de jornal – se é que de artigos e de jornal se pode falar – informação?

A histórias dos cereais húngaros é um exemplo apenas, de um sem-número que podia ter escolhido.  “Antigamente”, diz um desses irritantes aforismos apócrifos que correm o Facebook à força de cliques fáceis, “para um boato se espalhar, tínhamos de dar tempo aos barbeiros e aos motoristas de táxi de fazer o seu trabalho; hoje, é muito mais rápido – click & share, temos o Facebook.” Muito pós-modernos na (quase) autorreferência, este aforismo tem, ao contrário da maior parte dos que por aí circulam, realmente visos de verdade…

Agora, no meu newsfeed do Facebook não passa só este tipo de des-informação. Também tenho amigos com uma cultura de rigor informativo, que não publicam ligações para textos sem verificar a sua credibilidade, que não publicam textos apócrifos nem imagens sem referir a autoria, etc. Foi também no newsfeed do Facebook que me apareceu uma ligação para os comentários que Shi Zhou, investigador em Informática, faz a um estudo sobre a evolução do boato nas redes sociais de que é coautor[2].
Uma observação interessante desta pesquisa é que a desigualdade não é reduzida, mas sim intensificada, em redes sociais modernas. A nossa pesquisa sugere que as redes sociais modernas têm de facto aumentado a disparidade entre a qualidade da informação a que os diversos grupos sociais têm acesso. Sabe-se que as pessoas muitas vezes alteram uma mensagem, acidental ou deliberadamente, antes de a transmitir a outros. (…) Nós mostramos que, embora só uma pequena parte da população tenha o hábito de alterar a informação, a maioria da sociedade apenas recebe mensagens repetidamente modificadas. Nem toda a gente, porém, é afetada da mesma maneira. As pessoas com muitas ligações normalmente recebem mensagens mais autênticas que as pessoas com menos ligações. O que é surpreendente é que essa desigualdade não é mitigada, mas antes agravada, em redes sociais, onde as tecnologias modernas permitem a um pequeno número de pessoas adquirir um número de ligações desproporcionalmente grande. Neste caso, os super-relacionados são mais favorecidos, recebendo informação quase genuína muito próxima de sua forma original, ao passo que os solitários, que têm um pequeno grupo de relações nas margens da sociedade, estão irremediavelmente prejudicados por lhes serem sempre transmitidos boatos fortemente distorcidos.
É uma estudozinho e vale o que vale. Não quero, sobretudo que entendam esta citação de Shi Zhou como inserindo-se no espírito, que está longe de ser o meu, de criticar os efeitos do progresso e das tecnologias: “Estão a ver, afinal com a Internet e as redes sociais ainda estamos piores que antes!...” Não é nada disso, mas também é importante, para não cair numa idealização fácil das redes sociais, nunca perder de vista um facto simples para que nos chama a atenção o Daniel Innerarity:
Há muito quem creia que uma nova tecnologia surge no vazio, fora de um contexto social ou económico, mas não é assim. E é por isso que a mesma (nova) tecnologia tem efeitos diferentes em sítios diferentes, ou traz mudanças ”imprevistas” ou ”indesejadas”, em vez das mudanças com que sonháramos[3].
Podemos querer que a Internet e as redes sociais alterem as relações de poder, e podemos fazer algo por isso. Mas não esqueçamos que, à partida, as tecnologias reproduzem sempre as relações de poder existentes. Ou podem até, se a tese de Shi Zhou estiver certa, reforçá-las...
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[1] Não é invulgar começarem a ser difundidas no Facebook notícias antigas, sem que ninguém se dê conta da sua desatualização – e às vezes têm bem mais que dois anos…
[2] Yichao Zhang, Shi Zhou et al. Rumor evolution in social networks. 26 de Abril 2013 University College London (UCL). Podem ler o trabalho aqui, mas algumas partes são muito técnicas.
[3] Daniel Innerarity é professor de filosofia da Universidade de Saragoça e investigador, e as suas ideias são-nos apresentadas por Ismael Peña-López em http://ictlogy.net/20120125-daniel-innerarity-politics-in-the-era-of-networks/, a partir das notas que tirou na conferência Politics in the era of Networks, realizada em Barcelona em Janeiro de 2012.