23 de janeiro de 2014

Fáçamos então um supônhamos

Não é muito normal uma forma flexionada de um verbo transformar-se em nome.

Conheço duas palavras latinas que se espalharam por muitas línguas, placebo (1ª pessoa do futuro de placere, “agradarei”) e credo (1ª pessoa do presente de credere, “creio”).

Conheço também je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste, em francês, e ignoramus em inglês, mas não são bem palavras diretamente derivadas da forma verbal flexionada – je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste correspondem ao que seria em português estoumenastintismo e estoumenastintista, se alguém se tivesse lembrado de inventar essas expressões, ou seja, são construídas com um sufixo nominal que se acrescenta a uma frase inteira; e ignoramus, “ignorante”, vem do nome de uma personagem de uma peça de teatro de Georges Ruggle (que foi, esse sim, construído a partir da forma verbal latina ignoramus, “ignoramos”).

E conheço, em português, uma estrutura que, em registos menos canónicos, se usa para construir negativa ou recusa: uma estranhíssima nominalização da segunda pessoa de vários tempos verbais:
Tu disseste que lá ias, mas é o foste[1]!
Ele fala muito, mas eu queria era vê-lo a fazer aquilo. Está bem, está; era o fazias!
E mais palavras, assim de repente, não me vêm à ideia.. Fico à espera das vossas contribuições.

***
O que fica para trás é apenas uma introdução ao tema principal do texto, que é supônhamos, nome masculino. Alguém me perguntou, no outro dia, se eu tinha algum texto no blogue sobre esta estranha palavra. Respondi que ainda não, e comecei a escrever este texto. Supônhamos é um caso interessante, acho eu, porque é mais que uma nominalização de uma forma verbal flexionada, o que já é anormal: é uma (anormal) nominalização[2] de uma forma verbal anormal. E tem, como todas as palavras, uma história – que, como a de muitas outras palavras, provavelmente ninguém sabe qual é…

Do ponto de vista puramente linguístico, creio que a forma verbal supônhamos (criticada, claro, ou simplesmente errada, se assim o preferirem) se pode explicar pela tendência para a regularização, já que, das formas comummente usadas do presente do conjuntivo(a 2ª do plural, vós, está em vias de extinção...), só na forma da 1ª pessoa a sílaba -po- não é acentuada. Como todos sabem, é comum a produção de formas esdrúxulas da primeira pessoa do plural: fáçamos, dígamos e por aí fora[3]. Comum, malvisto e ridicularizado. Apesar disso, o nome supônhamos vingou: a busca de “um supônhamos”, assim fechado com aspas, deu-me 1900 ocorrências em Google. Não é muito, mas mostra claramente que a palavra existe. Por espúria, desnecessária e irritante que possa ser, existe[3]. Aliás, provavelmente não é apesar de ser malvista e ridicularizada que existe, é por isso mesmo – é bem possível que se trate uma criação satírica que pegou, especulo eu.

Não digo que seja impossível que alguém alguma vez tenha usado a forma verbal como nome sem ser por sátira. Acho apenas improvável. Parece-me mais provável que tenha sido criada numa tentativa de pôr a ridículo alguma maneira de falar. É que, nesses arremedos satíricos do linguajar popular, costuma exagerar-se (o exagero é o próprio da caricatura, não é verdade?) e pôr na boca do povo, seja lá o que for que isso quer dizer, coisas que o povo nunca disse. Sei que as recordações claras são tão pouco fiáveis como as outras, mas recordo-me claramente de que ouvi a expressão pela primeira vez numa anedota (que também me recordo qual é!), há coisa de 35 anos, mais ano menos ano.

Agora, já se sabe: quando se repete muito uma palavra, mesmo que seja por troça, ela fixa-se. E o que surgiu por brincadeira pode até perder esse caráter. Lembro-me de que uma das coisas que, no meu grupo de amigos, solidificou o calão angolano que surgiu em Lisboa em 1975 foi usarmo-lo no gozo. No gozo, no gozo e, às tantas, já usávamos sem querer madiê, quicoto, malaico, pancar, baicar, etc., etc., etc., tudo aquilo de que nós, muito bairristamente, tanto tínhamos troçado.

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[1] Ou …É o fostes!, já que esta forma criticada da segunda pessoa do singular se adapta bem a este registo.

[2]
Se estivesse virado para os jogos de palavras patetas, diria, em vez de anormal nominalização, anorminalização, mas hoje não, não estou para aí virado…

[3]
Como não quero entrar, no texto, em pormenores técnicos, digamos assim, passo-os para esta nota de rodapé, que é uma maneira de fingir que os faço desaparecer. Uso * para indicar que a forma não é produzida ou que não está atestada, e + para indicar que é considerada errada:

Neste caso, tendência para a regularização é, claramente, uma expressão simplista, se não abusiva. No paradigma do presente do indicativo, há duas possíveis “regularizações”: a “regularização” do acento na penúltima sílaba, que produz a forma correta (suponha, suponhamos) ou a “regularização” da acentuação na sílaba -po-, independentemente da sua posição no palavra, que produz a forma criticada (suponha, *sunhamos). Pode pensar-se que esta “regularização” é, ela própria, irregular, porque apenas se verifica no presente do conjuntivo e não se verifica nos verbos regulares com infinitivo em -ar, que são a maioria dos verbos portugueses. Parecem-me perfeitamente impossíveis, por exemplo, seja em que dialeto ou socioleto for, formas esdrúxulas como *fálamos, *cómemos ou *pártimos no presente do indicativo e formas como *fálemos, *espéremos ou *acredítemos no presente do conjuntivo. Seria interessante ver se as formas esdrúxulas da 1ª pessoa são mais comuns em verbos irregulares no presente (+dígamos, +quêiramos, +sáibamos, +fáçamos, etc.) que em verbos regulares (+cômamos, +ábramos, etc.).

E porque se “regularizaria” a acentuação de uma determinada sílaba? Podia pensar-se que acentuação da sílaba tónica mais frequente nas várias pessoas nos vários tempos seria sentida como “natural” e que daí resultaria a “regularização” incorreta do acento. Mas não é assim. Num verbo regular, a parte do radical que dá a última sílaba do infinitivo (a sílaba que começa por m em comer, por exemplo) é tónica num maior número de formas. A falar-se de “regularização”, ela tem como modelo apenas as restantes formas do presente do conjuntivo. Evidentemente, não é preciso falar de “regularização”. Pode simplesmente postular-se que é esta a regra interiorizada em certas variantes regionais ou sociais.

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