7 de janeiro de 2014

Recordações de infância: De que cor é o teu sangue?

Um livro que, como costuma dizer-se, me marcou muito é uma revista de banda desenhada com uma história do Sargento Rock e da sua Companhia da Moleza, “Qual é a cor do seu sangue?”, ilustrada pelo grande Joe Kubert. É uma revista que tive em criança e a que, como todos os livros e revistas de banda desenhada da minha infância, perdi o rasto; mas a história e os desenhos impressionaram-me tanto que nunca mais os esqueci. Há dias, voltei a encontrar a história num blogue. A Internet é realmente uma coisa extraordinária!

A página de blogue que encontrei tinha a história inteirinha (!), ainda para mais acompanhada de um texto interessante, pelo qual fiquei a saber, entre outras coisas, que o argumento é de Bob Kanigher. Fiquei também a saber que a história foi publicada pela primeira vez na revista Army At War, nº 160, de Novembro de 1965 (editora DC). Sabia que a edição brasileira em que a li só podia ser da EBAL, mas descobri agora que foi publicada na série Epopéia. A página onde encontrei esta informação não dá a data de publicação, mas calculo que devesse andar pelos meus 10 anos quando li a história. Faço-vos um pequeno resumo*:

A história passa-se na Segunda Guerra Mundial. Jackie Johnson foi campeão mundial de pesados de boxe. Perdeu o título para o alemão “Tempestade” Uhlan** e vive, desde essa altura atormentado por essa derrota. Jackie Johnson inscreve-se no exército e torna-se um herói. “Tempestade” Uhlan, que é um nazi convicto, também se inscreve no exército alemão, para lutar pelo que acredita ser a sua raça superior.

O destino volta a pôr frente a frente os dois pugilistas, em plena guerra. Uma patrulha alemã de que Uhlan faz parte captura Johnson e dois companheiros seus. Uhlan, desejoso de provar mais uma vez a superioridade da raça ariana, desafia Jackie para novo combate. Uhlan mostra-se mais forte e começa a massacrar Johnson, exigindo que este reconheça que tem sangue negro e não vermelho como o seu. Os companheiros de Johnson têm a certeza de que ele se deixa massacrar por causa deles, porque tem medo que, se ganhar o combate ao alemão, eles sejam mortos. Decidem então atacar os alemães, mas, em segundos, são deixados sem sentido, à coronhada. Talvez porque pensasse que os companheiros estavam mortos ou porque não conseguisse aguentar mais a humilhação, Jackie recupera de repente e deixa o adversário knockout. Furiosos, os companheiros de Uhlan disparam sobre os dois: o negro inferior e o reles alemão que se deixou vencer por ele.

Nessa altura, surge o resto da companhia de Johnson, que toma conta da situação. Quando todos pensavam que Uhlan  e Johnson estavam mortos, este surpreende-os: conseguiu atirar-se ao chão e escapar às balas alemãs, mas Uhlan foi atingido e está mal. Perdeu muito sangue. O médico da companhia diz que Uhlan precisa de uma transfusão de sangue de tipo B. “E quem é que pensam que estendeu o braço?” Ulhan, o nazi, acorda ao lado de Johnson, o americano negro, a receber sangue deste. “Estava enganado”, diz ele, “o teu sangue é vermelho”. “Estás a fazer progressos, pá!”, diz Jackie Johnson, e a história acaba assim.


Tenho quase a certeza de que, se a tivesse conhecido agora, a leitura desta história não me impressionaria muito. Com toda a certeza, não tinha, nem de longe, o efeito que teve em mim quando a li em miúdo. Mas, curiosamente, quando a releio agora, por muito que a ache ingénua e de um simplismo ideologicamente duvidoso, ela continua a impressionar-me. Porque não conta só o efeito que ela tem em mim agora: há uma impressão armazenada quando tinha 10 anos que ela traz de novo ao de cima!

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KB, o autor do blogue Out of this world, onde fui reencontrar esta obra importante da minha infância, chama a atenção para alguns factos interessantes para uma leitura menos infantil da obra:

A personagem Jackie Johnson parece ser uma amálgama de dois campeões de pesos pesados, Jack Johnson, de quem herda o nome, e Joe Louis. A carreira de Jack Johnson, o primeiro campeão mundial de pesados negro, ainda em plena época de segregação da população negra, é um episódio marcante da história das relações raciais nos EUA. Joe Louis, outro símbolo importante para os negros americanos, combateu duas vezes com o campeão alemão Max Schmeling. A vitória de Max Schmeling sobre Joe Louis em 1936 foi usada pela propaganda nazi e a vitória de Louis no segundo combate em 1938 adquiriu inevitáveis contornos simbólicos de vitória de uma “América da liberdade” contra “a Alemanha racista”. Schmeling, porém, afirmou que não tinha nada a ver com os nazis. Tanto Schmeling como Louis vieram, mais tarde, a servir o exército dos seus países. Traduzo um excerto do texto de KB:
O momento da publicação [desta história], a raridade das representações de afro-americanos na banda desenhada nesta altura e a fortíssima mensagem antirracista sugerem uma ligação com o Movimento dos Direitos Civis e com a necessidade do país de recrutar os afro-americanos para a Guerra do Vietname, num contexto de sentimento antiguerra entre a comunidade afro-americana. A importância de Jackie ser um pugilista parece estar relacionada com a entrada de Muhammad Ali para a Nação do Islão em 1964. Muhammad Ali chumbou nos testes de qualificação para as forças armadas em 1964, mas só em 1966 se recusou a aceitar a mobilização, o que fez com que fosse preso e perdesse o título. Este número de Our Army At War não é, pois, uma resposta à sua recusa em alistar-se, mas pretende talvez contrariar o efeito da associação de Ali com a Nação do Islão, que era fortemente contra a guerra do Vietname.
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* Embora em formato reduzido, a banda desenhada lê-se bem no blogue que refiro (em inglês). Clicar nas imagens das páginas para as aumentar não funciona (exceto para uma delas), mas há uma maneira de o fazer: clicar do lado direito, selecionar “copiar a localização da imagem”, colar essa localização na barra de endereços e abrir uma janela nova em que a imagem aparecerá agora em tamanho grande.
** O nome tem significado: uhlan é a designação inglesa dos ulanos, antigos lanceiros prussianos, austríacos e russos.

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