29 de abril de 2014

Apenas eu

(É-me difícil perceber se quem não utiliza o Facebook terá ou não dificuldade em perceber este contozinho. Espero que não, mas vocês me dirão. Quando aqui a pus, a história era contada na primeira pessoa, mas dei-me conta (através de comentário no Facebook) de que algumas pessoas não perceberam que era um conto e pensaram que estava mesmo a falar de mim e do meu perfil do Facebook e decidi então mudar a narrativa para a terceira pessoa. A história propriamente dita não muda nada com essa mudança, se me perdoam a deselegância desta formulação.)

Ele importa-se sempre muito com as outras pessoas. Não gosta de chatear ninguém, pronto.

No Facebook, ao princípio, quando publicava uma coisa qualquer, fosse uma música, uma ligação para um artigo de jornal ou para o site de algum ilustrador, fosse lá o que fosse, ficava sempre a pensar que devia ser uma chatice para certas pessoas estarem a ver posts dele sobre coisas que não lhes interessavam nada. Música, por exemplo. Sabia que muitos dos seus amigos não têm os mesmos gostos que ele, de maneira que, para eles, não tinha interesse nenhum o que ele lá punha, e podiam até considerar, pensava ele, que era uma atitude agressiva pôr lá tanta música.

Felizmente, descobriu que se podem organizar em grupos os amigos do Facebook e escolher, em cada post, que grupo o vê. Fez então um grupo de música, outro de ilustração, outro de ciência, e por aí fora. Assim, já não aborrecia as pessoas com assuntos que não lhes interessavam.

Com o tempo, porém, começou a ver que eram sempre as mesmas pessoas que reagiam às suas publicações. Para ele, era sinal claro de que as outras não estavam interessadas no que publicava e que, por isso, as estava a chatear. Começou por tirar dos grupos as pessoas que nunca tinham reagido a um post seu e decidiu que, a partir daí, retiraria de cada grupo quem não reagisse a cinco posts seguidos. Não queria estar a aborrecer as pessoas.

A pouco e pouco, os grupos acabaram por reduzir-se muito. Durante bastante tempo, teve, em cada grupo, uma meia dúzia de pessoas que viam os seus posts e que lá iam, de vez em quando, pondo um gosto ou fazendo um comentário. Mas, pensou ele, não seria só por hábito ou por obrigação, ou para serem simpáticos com ele? Se calhar, nem liam os textos nem ouviam a música que ele sugeria…

Foi nessa altura que descobriu (ao fim de tanto tempo, distraído que era!...) que há também no Facebook a opção de publicação “Apenas eu”, que, como o nome indica, faz com que só a pessoa que publica veja o seu próprio post. E pronto, foi essa a opção que passou a utilizar. Agora, só ele vê o que publica. Assim, pelo menos, não chateia ninguém.

1 comentário:

jj.amarante disse...

Assim se aprende que fazer rascunhos é uma espécie de nirvana.