10 de abril de 2014

Muito se diz não dizendo

Uma noção pode representar-se por um espaço fechado que tem no centro o seu sentido ideal, o seu significado por excelência[1]. Tomemos, por exemplo, a noção irritante. Se dissermos, por exemplo, “não o acho nada irritante”, estamos no exterior da noção. Se dissermos “bom, já está a tornar-se irritante”, estamos a entrar na noção, mas ainda muito perto da fronteira[2]. Depois, avançando pela noção adentro em direção ao tal centro, uma pessoa pode ser “um pouco irritante” “bastante irritante”, “muito irritante”, “extremamente irritante”, etc. Tudo isto parece trivial, talvez o que se segue o seja menos:

Quando se acabam os advérbios, quando estamos mesmo a chegar ao centro, à noção de irritante no seu estado mais puro, uma solução para exprimir o alto grau de irritante é a referência à própria noção de irritante: “O gajo é irritante, irritante, aquilo que se chama mesmo ser irritante!” E a partir daí, como avançar? Com o interdito – o que, segundo as regras sociais, não se pode dizer; porque o que não se pode dizer é mais forte do que os mais fortes quantificadores e qualificadores que se podem dizer. E surgem então “irritante com’ò rai’ qu’o parta”, “irritante com’à merda” e o (muito!) mais de que seja capaz a imaginação de cada pessoa[3]

O que vem a seguir já é a teoria minha. Quer dizer, não sei se já alguém se lembrou da mesma coisa, mas pensei no outro dia que também o por-dizer pode ter a mesma função que o interdito, não é?, porque também dizemos, para dizer que alguém ou alguma coisa é mais que muito irritante, que “é irritante que eu nem te digo nada” ou “é irritante que eu vou-te dizer” (não digo agora quando o digo, portanto…).

Hmmm… Até que ponto se deve levar a sério uma coisa destas, eis o que vocês me dirão – ou não…
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[1] Faço aqui um resumo muito simplificado de algumas ideias da Teoria das Operações Enunciativas, desenvolvida pelo linguista Antoine Culioli e pelos seus seguidores

[2] Convém acrescentar aqui que, na maior parte dos casos, as fronteiras têm espessura: uma pessoa não é ou irritante ou não irritante: há uma gradação entre não ser irritante e ser irritante, e tornar-se irritante assinala, precisamente, o atravessar dessa fronteira; mas em casos como vivo e morto, a fronteira não tem espessura, porque não há gradação entre os dois estados, pelo que é impossível a interpretação literal de Estou mais morto que vivo (sorriso).

[3] Há um texto da Travessa em que falo de palavrões e a que talvez queiram dar uma vista de olhos: "Cavalo verde, cibório e cancro: Não seja malcriado, está bem?"

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