11 de abril de 2014

O montante de Ricardo e a cimitarra de Saladino

Do Talismã de Walter Scott, que li na juventude, lembro-me de uma única cena: uma parte do encontro de Ricardo Coração de Leão com Saladino: Saladino pede a Ricardo uma demonstração da qualidade da sua espada. Ricardo põe em cima de um cepo uma maça que ali encontra e, com um golpe do enorme montante, quase tão alto como ele, corta-lhe ao meio o cabo de metal de polegada e meia de diâmetro. Depois de louvar o golpe de Ricardo e a sua arma, Saladino pergunta-lhe se consegue também cortar com a mesma facilidade uma almofada de seda com recheio de penas que lhe mostra. Ricardo responde que isso é impossível, pois nenhuma espada corta o que não oferece resistência. Saladino desembainha então a cimitarra e, com um golpe leve, corta uma ponta à almofada. Perante o espanto de Ricardo e do seu acompanhante, Saladino resolve fazer outra demonstração, ainda mais surpreendente para os europeus: atira ao ar um lenço de seda e, sem que se exerça a menor pressão, a lâmina da cimitarra divide-o em dois*.

Não sei por que me veio isto hoje à cabeça. Às vezes, deve acontecer-vos o mesmo, não consigo perceber o que é que, no fio dos meus pensamentos ou no que vejo, oiço ou cheiro à minha volta, convoca recordações que me surgem de repente, como neste caso. Mas deve haver muita gente a recordar, como eu, o romântico episódio, pelo menos nos países de língua inglesa, e mesmo sem ter lido o Talismã. Fiz uma pesquisa na Internet e creio que, pelo menos nos países de língua inglesa, a história de Scott foi recontada em vários textos muitos divulgados ao longo de várias gerações, como, por exemplo, Old Time Tales, de Lawton B. Evans e sobretudo Richard the Lionheart (Adventure from History), de L. Du Garde Peach, que foi editado na conhecida coleção Ladybird. Na Internet, encontrei, aliás, mais referências ao episódio do encontro de Ricardo e Saladino contado por Du Garde Peach que ao original de Scott.

Ilustração de John Kenney da edição Ladybird de Richard the Lionheart de Du Garde Peach
Diz-nos o historiador Christopher Tyerman, numa nota a uma figura retirada da edição Ladybird, que a ideia da sofisticação oriental comparada com a força bruta ocidental se pode encontrar já em Edward Gibbon no século XVIII e mesmo antes. É também, creio eu, uma ideia recorrente na literatura romântica de vários países – incluindo a portuguesa. Não tenho opinião própria sobre a imagem dos britânicos e dos árabes que o Talismã transmite (teria de o reler…), mas não pode ser, com certeza, uma desvalorização dos europeus perante os árabes que a obra pretende. O episódio termina com um comentário de Ricardo (traduzo eu):
“Por minha fé, irmão”, disse Ricardo, “não tens igual no manejo da cimitarra e é grande perigo defrontar-te! Ainda assim, ponho alguma fé num simples golpe inglês. Compensamos com a força o que nos falta em destreza.
Sofisticados que os árabes possam ser, os ingleses são-lhes superiores na força: parece ser antes esta a mensagem de Scott. Nalguns casos, porém, este episódio levantava no espírito dos jovens leitores algumas dúvidas, recorda T. J. Lustig em Knight Prisoner: Thomas Malory Then and Now (traduzo eu):
Um dos meus livros Ladybird tinha uma imagem de Saladino cortando um pano de seda com a cimitarra, enquanto Ricardo Coração de Leão despedaçava uma barra de ferro com a espada. Saladino… seda… cimitarra: tudo muito sibilante, subtil e sinistro. Mas era estranho que a principal qualidade de Ricardo fosse a força bruta. Pus-me a pensar, na altura, se dar cabo de coisas com espadeirões era o melhor que a Inglaterra conseguia fazer.





_________________

* Encontrei em linha uma tradução portuguesa algo simplificada desse trecho do Talismã, que não sei de quem é. Achei-a num documento curioso: um guião do edição de 3 de Março de 1962 do programa “Os grandes momentos da história do mundo”, da Emissora Nacional, da autoria de Miguel Trigueiros. Quem saiba e queira ler o original inglês, encontra-o aqui (Capítulo XXVII).

2 comentários:

jj.amarante disse...

Essa cena é muito forte, lembrava-me perfeitamente dela, para mim significava a sofisticação árabe face à força bruta dos cruzados. Eu preferia a sofisticação mas não se pode desconsiderar o poder da força bruta.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Parece-me que a sua conclusão é uma boa moral para a história, jj.amarante.
É curioso como esta cena (muito forte, como diz) fica na memória de tanta gente. Acho que somos ainda essencialmente românticos. São estas imagens criadas pelos escritores românticos que constituem a maior parte, ou, pelo menos, uma parte muito importante, do nosso imaginário.