26 de agosto de 2014

De objetos e objetivismo

Era eu adolescente, usava-se no meu grupo de malta a expressão objetos de curtição. Costumam dizer-se decorativos os objetos que servem apenas para enfeitar as habitações, mas, quando penso agora nisso, curtir, pelo menos como nós usávamos a palavra, implicava uma atitude menos passiva que decorar, porque decorar é o que fazem os objetos estando apenas ali e independentemente do interesse que alguém tenha neles, ao passo que, em curtir, os objetos são… objetos diretos e o verbo implicava participação ativa dos sujeitos que nós éramos. Os quartos do pessoal eram mesmo uma espécie de museus, com visitantes realmente interessados na obra exposta.

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“Não há muitas casas com objetos tão bonitos como os que nós temos a decorar a nossa”, dizia eu à Karen, enquanto lavava os vidros das janelas da sala.
“Ora”, disse ela, “isso é o que toda a gente pensa dos seus objetos. As pessoas escolhem os que acham bonitos.”
“Ok”, insisti eu, “mas, independentemente dos gostos, os nossos objetos são objetivamente mais bonitos.”
Ela riu-se.

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A quem foi educado no descontraído relativismo pós-moderno (não é o caso da Karen, não me entendam mal), qualquer proposta de absoluto pode surpreender. No outro dia, numa conversa sobre música, ficou muito admirada uma amiga minha quando eu afirmei que, deem que voltas derem ao assunto, não se pode reduzir tudo a gostos, como se Bruckner e Elton John estivessem de facto ao mesmo nível.
“É curioso”, comentou ela, “já no outro dia também ouvi alguém dizer que se pode analisar objetivamente a qualidade da música.”

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Vocês, que me conhecem bem, digam-me lá: isto sou eu a brincar ou eu a falar a sério?








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A descrição dos objetos, de cima para baixo e da esquerda para a direita: cinco tacinhas romenas, que nos ofereceu a nossa amiga Claudia; um pégaso de pendurar e, ao lado, um castiçal-bode, balineses os dois, comprados em Ubud, se me não falha a memória; uma estátua de autor desconhecido comprada em Chimoio, Moçambique; uma faca da Lapónia, com o cabo em osso de rena, prenda de Natal  do Sr. Innala em Haparanda; um trabalho da escola da minha filha Joana; uma escultura do meu sogro Kaj Lindegaard, vista de dois lados; trabalho de um artesão moçambicano que não sei quem é, comprado em Maputo; uma curiosa peça de cerâmica da Guatemala, que deve ser um vaso, mas que nunca usámos como tal; um galo que seria de Barcelos, não fosse o meu amigo Pedro Malaquias lhe ter dado uma bonita volta, para mo oferecer; mais uma escultura de autor desconhecido, também de Chimoio, que como podem ver, é terra de escultores imaginativos; e uma cabeça de pedra de sabão, também de autor desconhecido, comprada há 16 anos em Mutare, no Zimbábuè – já resistiu a quatro mudanças de continente, com várias mudanças de casa entre elas.

2 comentários:

Helena disse...

Então, ninguém vem aqui dar-te razão? São muito bonitos, objectivamente, sim senhor.
Na Alemanha usam uma expressão para os objectos decorativos, os bibelots: "caçadores de pó". Deve ter sido invenção dos gajos da Bauhaus, que não gostavam muito dessas coisas.
(Estes das fotos não estão nessa categoria, claro!)
Fiquei a pensar nessa da curtição. Isso sim, é subjectivo. Tenho cá em casa objectos feiosos, mas que curto muito, por motivos afectivos.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Viva, Helena, há quanto tempo aqui não deixavas um comentário!

Caçadores de pó é boa expressão, dão um trabalhão a limpar. Ainda bem que temos um espanador mesmo de plumas de avestruz, que é muito melhor que qualquer outro e até podia, bem vistas as coisas, fazer parte da lista dos nossos objetos de curtição. O problema é que já está velhinho e não sabemos como havemos de o substituir, porque aqui não se encontram espanadores desses.

Curtir é subjetivo, claro está. Aliás, eu falo precisamente dos sujeitos de curtir a curtirem os seus objetos (diretos) :) Sujeito, que atualmente tende a ser entendido como agente ("quem realiza a ação expressa pelo verbo", ensinavam-me na primária), é, na origem, o que está debaixo, o que suporta; por outras palavras, aquele a quem acontece qualquer coisa. Mas isso levava-nos a outra conversa e eu não te quero dar nenhuma seca de língua. O que eu queria dizer com "sujeito ativo" é que não nos limitávamos a curtir no sentido de gostar, mas pegávamos nos objetos, observávamo-los de vários ângulos, discutíamos o seu valor para as trocas que fazíamos ("o poster dos The Who que vem no Live at Leeds vale bem a tua caveira de gato, pá!").

Este texto é a brincar. Mas a brincar a sério!