28 de setembro de 2014

O princípio da desvantagem e a in/utilidade da arte

Não é invulgar a ideia de que a inutilidade é uma característica essencial da arte. Oscar Wilde, por exemplo, afirma-o perentoriamente no fim do famoso prefácio ao Retrato de Dorian Gray (traduzo eu):

Podemos perdoar a um homem fazer uma coisa útil, contanto que a não admire. A única desculpa para fazer uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda a arte é bastante inútil. 
Mas eis um enquadramento diferente da ideia: há quem alargue o alcance do chamado princípio da desvantagem, aplicando-o também, entre outras coisas, à criação artística*. Muito resumidamente, a ideia é que um solo de trompete é um sinal como a cauda de um pavão, que se ostenta como quem diz: “vejam, sou tão bom que, além das capacidades que me asseguram o essencial para a sobrevivência, até tenho capacidades desnecessárias e difíceis de adquirir!”

Um handicap tem, por definição, de ser inútil do ponto de vista adaptativo. Ao servir para a seleção sexual, porém, ganha uma utilidade considerável. Agora, parece-me que, embora sem a referência à teoria do handicap e sem as suas complexidades, a ideia de que uma das motivações da arte (ou a sua motivação essencial) é impressionar potenciais parceiros sexuais é tão antiga e tão comum como a ideia da sua inutilidade: sempre ouvi dizer que é para seduzir que se aprende a tocar guitarra e que o domínio do metro e da rima vale tanto para esse mesmo fim como um rosto bonito, dentes saudáveis ou um corpo bem feitinho.
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* A ideia, que conheci através de Tor Nørretranders em O homem generoso (2005) (de que já aqui falei uma vez), vem de Geoffrey Miller em Mating Mind (2000), que vê a seleção sexual como origem e finalidade da mente humana.

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