27 de outubro de 2014

Três canções bonitas deste ano de graça de 2014


É uma ideia generalizada, creio eu, que na música popular europeia e americana predomina o esquema de estrofes e refrão (um refrão sempre igual e curto, de um ou dois versos), com uma ponte, se a há, antes ou depois do refrão. É possível que  seja mesmo essa a estrutura mais comum ou que, pelo menos,  já o tenha sido – não sei; mas há muitos outras estruturas possíveis. E há também muitas canções que não obedecem a esquemas regulares, ou os alteram ou desorganizam. E passo a apresentar-vos, se as não conhecerdes, três canções bonitas deste ano de graça de 2014:

“Rêverie on Norfolk Street”, do duo Luluc, parece – e é-o, de facto! – uma canção popular bastante canónica, com uma melodia simpática, embora também não seja especialmente inspirada, e uma letra bem escrita, sem ter nenhum grande achado. Um olhar mais demorado revela algumas irregularidades na estrutura… E uma dúvida: o refrão deve ser o último verso de cada quadra e os três versos que se seguem à segunda e à terceira quadras devem considerar-se uma ponte, não é verdade*?



“Killer of birds”, de Jesca Hoop, tem uma estrutura, uma melodia e uma letra menos canónicas que “Rêverie on Norfolk Street” e, na minha opinião, bem mais inspiradas, mas partilha uma características da canção dos Luluc: não sei se devo considerar refrão a frase repetida no fim das estrofes (“love you the most”) ou a sequência de quadras que se repete …. A letra e melodia da canção repetem-se duas vezes, como as canções tradicionais do Chaco por exemplo (só falta alguém gritar “¡se va la segundita!” antes da repetição... )


“Arctic shark” é uma canção que muita gente podia ter escrito na década de 60 – e gostaria de o ter feito, acho eu –, mas que só agora foi composta pelos membros dos Quilt. Também não tem refrão, no sentido convencional da palavra, nem uma estrutura muito canónica. Há repetições, mas nenhum verso se repete completamente.  A métrica do verso altera-se um pouco nas várias vezes em que ocorre a mesma parte musical, produzindo,  por isso, melodias ligeiramente diferentes.



Em geral, há pouco a dizer sobre as canções populares, mas é claro que se pode dizer mais que apenas a estrutura de rimas e estrofes e refrães. Mas fica isso para outra vez, se a houver. O que quero agora dizer é o seguinte: Há quem defenda que uma das especificidades do humano relativamente aos outros animais é a capacidade de repetir estruturas em esquemas organizados, em sequências lineares ou encaixando-se umas dentro das outras. Somos, por isso, o único animal que  faz música. E, digo eu agora, somos também capazes de desorganizar as estruturas regulares que criamos – para as tornar mais interessantes, para realçar que cada criação é única, por muito que siga o esquema de base de outras criações.  Mas queria sobretudo apresentar-vos, se as não conhecíeis, três canções bonitas deste ano de graça de 2014.

  
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* Numa primeira versão deste texto descrevia pormenorizadamente a estrutura irregular das canções, mas achei que cabia mal essa descrição num texto destes e resolvi que, pondo aqui as letras, pode quem ler não só dar-se rapidamente conta dessas  irregularidades como acompanhar a canção. Também comecei a traduzir as letras das canções, para quem não percebesse inglês, mas o resultado foi tão insatisfatório que desisti de aqui publicar as traduções. Quero só chamar a atenção de um pormenor da letra de "Murder of birds" que creio que pode escapar mesmo a quem fale bem inglês: muitos saberão que bird significa, além de "pássaro", "rapariga", mas poucos devem saber que que, além do seu significado de "assassinato", a palavra murder se usa na expressão murder of crows, "bando de corvos". Ah, e embora, nas transcrições que encontro da letra "Arctic shark", o primeiro verso seja sempre "How can I proceed with thee?", parece-me que é de facto "these" que se ouve e não "thee"... 

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