28 de janeiro de 2014

Suicídio: o direito a renunciar e o dever de persistir

Lembro-me de um amigo me falar, há muitos anos, de um comunicado de uma célula de um partido ou de um grupo político, já não me lembro qual, em que se criticava o suicídio de um militante como abandono da luta dos seus companheiros – ou qualquer coisa nesse sentido. Durante muito tempo, considerei esse episódio um exemplo extremo de como a obsessão ideológica pode desumanizar: como era possível ser assim insensível a um desespero tão extremo que levava uma pessoa a desistir da vida?

Na altura, achava que o suicídio não podia ser condenado. A única condenação do suicídio que  conhecia era a condenação religiosa (só Deus pode dispor da vida) e considerava agora que, recusando esse pre(con)ceito, o suicídio era uma questão pessoal – que cada qual tinha, precisamente, o direito a dispor da sua vida como quisesse. Foi esta a minha posição relativamente ao suicídio durante muito tempo.

Um dia, um amigo, certamente tão progressista e tão livre-pensador como eu acreditava ser, mostrou-me um lado óbvio da questão que eu, não sei porquê, nunca tinha querido ou nunca tinha podido ver: nenhuma morte diz respeito apenas a quem morre. Quem se suicida age sobre os outros que cá ficam. Ao meu amigo, interessava sobretudo a forma como o suicida age sobre os que lhe são próximos. Que direito tem alguém de tirar um familiar aos seus familiares, um amigo aos seus amigos? “Claro, se uma pessoa não tiver ninguém que a ame ou que precise dela, é diferente”, dizia-me o meu amigo. E eu comecei a rever a minha posição sobre o suicídio.

A ideia, descobri depois, é um dos argumentos clássicos contra o suicídio – ou, de forma mais geral, contra o sacrifício da vida. É em nome do dever para os que ficam, por exemplo, que, n’Os Miseráveis de Victor Hugo, Combeferre incita os homens a abandonar a barricada, em vez de ficarem para serem massacrados:
Vá lá, é preciso ter um bocadinho de piedade. Sabem do que se trata qui? Trata-se das mulheres. Vejamos. Há mulheres, sim ou não? Há crianças, sim ou não? Há ou não há mães, que empurram os berços com o pé, rodeadas de uma catrefada de miúdos? Levante a mão quem nunca viu um seio que amamenta. Ah! Vocês querem deixar-se matar, eu também, eu que vos estou aqui a falar, mas não quero sentir à minha volta fantasmas de mulheres que sofrem. Morram, muito bem, mas não façam morrer os outros. Suicídios como este que aqui se vai cometer são sublimes, mas o suicídio é estreito e não se deve alargar; e, se atinge o próximo, o suicídio chama-se assassínio.
Há outras perspetivas da questão do suicídio e outras maneiras de o considerar assassínio. Pode-se considerá-lo uma questão de saúde pública, por exemplo. Tenho a impressão de que muita gente não tem uma noção realista da amplitude do fenómeno suicídio. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “morrem anualmente de suicídio quase um milhão de pessoas”, o que “corresponde aproximadamente a uma morte de 40 em 40 segundos”. “O suicídio é, nalguns países, uma das três principais causas de morte de pessoas entre os 15 e os 44 anos e a segunda causa de morte no grupo dos 10 aos 24 anos; estes números não incluem tentativas de suicídio, que podem ser muito mais frequentes que o suicídio (10 ou 20 vezes mais frequentes, ou mais, segundo alguns estudos). No mundo inteiro, calcula-se que o suicídio representasse 1,3% da morbilidade global total em 2004.” Morre mais gente de suicídio que de homicídio ou na guerra.

Em Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It[1], Jennifer Michael Hecht afirma que “a influência suicida é suficientemente grande para o suicídio poder ser também considerado homicídio. Quer lhe chamem contágio, focos de suicídio ou criação de um modelo sociocultural, as nossas ciências sociais demonstram que suicídio causa mais suicídio, tanto entre os que conheciam a pessoa como entre os estranhos que se identificavam com a vítima.” Fala-se há muito tempo do efeito Werther. A novela de Goethe, cujo protagonista se suicida, terá desencadeado, ao difundir-se na Europa, uma vaga de suicídios[2]. É sempre assim, dizem alguns: suicídios de pessoas célebres (não forçosamente de carne e osso, a julgar pelo caso de Werther) causam suicídio. Após o suicídio de Marilyn Monroe, por exemplo, houve 200 suicídios mais que a média para essa época do ano. Mas não só os suicídios de pessoas célebres são contagiosos, diz Hecht: há numerosos estudos que indicam que, se uma pessoa conhece o suicídio, se esteve em contacto com um suicida ou com a ideia de suicídio, tem mais possibilidades de vir a cometer suicídio.

Há vários argumentos contra o suicídio, além do que referi atrás. Quero discutir um deles, o argumento utilizado por Hecht que assenta fundamentalmente na ideia de compromisso com a humanidade.
Somos humanidade, diz Kant. A humanidade precisa de nós porque nós somos humanidade. Kant acredita no dever e considera manter-se vivo um dever humano essencial. (…) Os seres humanos têm de se compreender como uma força do bem, uma força da moral. Como seres humanos, cabe-nos preservar esses ideais. (…)
É um erro moral intelectual e moral considerar a ideia de suicídio uma escolha aberta que cada um de nós é livre de fazer. Os argumentos contra o suicídio pedem-nos que nos empenhemos no projeto humano. Pedem à humanidade que largue os punhais e as taças de cicuta e se afaste deles para sempre. (…)
Rejeitar o suicídio é um ato enorme numa comunidade. Também penso que muda o universo. Ou o universo é um lugar frio e morto com uma colónia de seres sencientes mas divididos, tentado criar sentido cada qual por si, ou estamos num universo vivo, com uma colónia de seres sencientes, cujos membros fizeram uns com os outros um pacto de perseverar.
No fundo, Hecht parece concordar com os autores do comunicado que referi no início deste texto: suicidar-se é criticável porque é abandonar (a luta d)o resto do grupo, o seu compromisso com ele – só que o grupo que se abandona é mais abrangente. É-me difícil perceber se se deve ler, nas entrelinhas destas proposições, uma acusação concreta de falta de solidariedade, ou apenas de fraqueza, talvez até cobardia[3]. Seja como for, e apesar de aceitar vários argumentos contra o suicídio, continuo a ter dificuldade em aceitar esta ideia do compromisso com a humanidade.

Aceito que existe, de facto, numa maioria esmagadora das ações humanas, um compromisso com a espécie no seu todo, uma solidariedade da espécie que faz realmente parte da natureza humana – e, provavelmente, da natureza de muitos outros animais; mas vejo mal como se faz deste compromisso um dever. Que se combata o suicídio como se combate qualquer causa de morte parece-me natural. Se se acreditar que, de cada vez que alguém se suicida, isso aumentará as possibilidades de outro alguém se suicidar, deve condenar-se o suicídio como ação contra pessoas concretas – embora indeterminadas ou virtuais. Até aqui, o argumento funciona. Mas pode-se ir mais longe? Pode falar-se de um compromisso, um dever? Cabe-nos perseverar, preservar a força moral que somos. Se o meu dever para com a humanidade é apenas manter-me vivo, não posso ser criticado se me mantiver vivo comendo e dormindo apenas – o que, para a humanidade tem o mesmo resultado que eu não existir[4]. Por isso, a proposta de compromisso com a espécie, a proposta de manter-se vivo para preservar uma força moral, só parece fazer sentido se se definir que há o dever de contribuir ativamente para a humanidade. É possível, mas, como em todas as propostas de uma moral positiva, de um dever de agir bem, é muito difícil, se não impossível, definir que contribuição ativa deve ser essa. Se tiver, à partida, a capacidade de inventar a cura para uma doença e não o fizer, porque decidi não estudar medicina, e não salvar, por isso, muitas vidas humanas, estou a faltar ao meu dever para a humanidade? O compromisso com a humanidade, o dever de me preservar como força moral é, para mim, um dever demasiado vago, demasiado grande…
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[1]
Jennifer Michael Hecht, Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It. New Haven: Yale University Press, 2013. Não li o livro, mas apenas o artigo de Maria Popova sobre ele, no site Brain Pickings. O artigo (3455 palavras) é muito completo e aconselho vivamente a sua leitura. Foi esse artigo que me motivou a escrever este texto.

[2]
Nicholas Christakis e James Fowler têm feito muitos trabalhos sobre redes sociais e defendem a ideia de que o que se difunde não são hábitos (isso faria com que os contágios fossem mais lentos do que são), mas normas – ideias do que é aceitável, por exemplo. Ver, por exemplo, a apresentação de Christakis no site Edge do seu trabalho sobre a difusão da obesidade. É de notar que os trabalhos de Christakis e Fowler têm sido criticados, nomeadamente pela metodologia que usam – para um resumo das dúvidas relativamente à metodologia e conclusões de Christakis e Fowler ver, por exemplo, um texto de David John no Slate.

[3]
É o que pode indiciar, por exemplo, o título do artigo de Hecht em The American Scholar, “Viver é um ato de coragem”. Mas talvez esteja a ver fantasmas – é certo que esta estratégia retórica não implica forçosamente que “não viver é cobardia”. Este artigo, em que Hecht defende as mesmas ideias que encontramos resumidas no artigo de Maria Popova atrás referido, centra-se nos soldados americanos, entre os quais há “uma tremenda crise: há mais soldados a suicidar-se que a morrer em combate, e 52% dos suicidas nunca foram colocados em zonas de combate. Em 2012, suicidou-se em média um soldado por dia. Entre os veteranos, a taxa de suicídio atingiu, nesse ano, a média de 22 por dia (!!!). Esta tendência não tinha declinado em meados de 2013, na altura em que o artigo foi escrito.

[4]
Exceto, sublinho, no facto de não levar outros a suicidarem-se, que é até onde acho que o argumento chega.

23 de janeiro de 2014

Fáçamos então um supônhamos

Não é muito normal uma forma flexionada de um verbo transformar-se em nome.

Conheço duas palavras latinas que se espalharam por muitas línguas, placebo (1ª pessoa do futuro de placere, “agradarei”) e credo (1ª pessoa do presente de credere, “creio”).

Conheço também je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste, em francês, e ignoramus em inglês, mas não são bem palavras diretamente derivadas da forma verbal flexionada – je-m'en-foutisme e je-m'en-foutiste correspondem ao que seria em português estoumenastintismo e estoumenastintista, se alguém se tivesse lembrado de inventar essas expressões, ou seja, são construídas com um sufixo nominal que se acrescenta a uma frase inteira; e ignoramus, “ignorante”, vem do nome de uma personagem de uma peça de teatro de Georges Ruggle (que foi, esse sim, construído a partir da forma verbal latina ignoramus, “ignoramos”).

E conheço, em português, uma estrutura que, em registos menos canónicos, se usa para construir negativa ou recusa: uma estranhíssima nominalização da segunda pessoa de vários tempos verbais:
Tu disseste que lá ias, mas é o foste[1]!
Ele fala muito, mas eu queria era vê-lo a fazer aquilo. Está bem, está; era o fazias!
E mais palavras, assim de repente, não me vêm à ideia.. Fico à espera das vossas contribuições.

***
O que fica para trás é apenas uma introdução ao tema principal do texto, que é supônhamos, nome masculino. Alguém me perguntou, no outro dia, se eu tinha algum texto no blogue sobre esta estranha palavra. Respondi que ainda não, e comecei a escrever este texto. Supônhamos é um caso interessante, acho eu, porque é mais que uma nominalização de uma forma verbal flexionada, o que já é anormal: é uma (anormal) nominalização[2] de uma forma verbal anormal. E tem, como todas as palavras, uma história – que, como a de muitas outras palavras, provavelmente ninguém sabe qual é…

Do ponto de vista puramente linguístico, creio que a forma verbal supônhamos (criticada, claro, ou simplesmente errada, se assim o preferirem) se pode explicar pela tendência para a regularização, já que, das formas comummente usadas do presente do conjuntivo(a 2ª do plural, vós, está em vias de extinção...), só na forma da 1ª pessoa a sílaba -po- não é acentuada. Como todos sabem, é comum a produção de formas esdrúxulas da primeira pessoa do plural: fáçamos, dígamos e por aí fora[3]. Comum, malvisto e ridicularizado. Apesar disso, o nome supônhamos vingou: a busca de “um supônhamos”, assim fechado com aspas, deu-me 1900 ocorrências em Google. Não é muito, mas mostra claramente que a palavra existe. Por espúria, desnecessária e irritante que possa ser, existe[3]. Aliás, provavelmente não é apesar de ser malvista e ridicularizada que existe, é por isso mesmo – é bem possível que se trate uma criação satírica que pegou, especulo eu.

Não digo que seja impossível que alguém alguma vez tenha usado a forma verbal como nome sem ser por sátira. Acho apenas improvável. Parece-me mais provável que tenha sido criada numa tentativa de pôr a ridículo alguma maneira de falar. É que, nesses arremedos satíricos do linguajar popular, costuma exagerar-se (o exagero é o próprio da caricatura, não é verdade?) e pôr na boca do povo, seja lá o que for que isso quer dizer, coisas que o povo nunca disse. Sei que as recordações claras são tão pouco fiáveis como as outras, mas recordo-me claramente de que ouvi a expressão pela primeira vez numa anedota (que também me recordo qual é!), há coisa de 35 anos, mais ano menos ano.

Agora, já se sabe: quando se repete muito uma palavra, mesmo que seja por troça, ela fixa-se. E o que surgiu por brincadeira pode até perder esse caráter. Lembro-me de que uma das coisas que, no meu grupo de amigos, solidificou o calão angolano que surgiu em Lisboa em 1975 foi usarmo-lo no gozo. No gozo, no gozo e, às tantas, já usávamos sem querer madiê, quicoto, malaico, pancar, baicar, etc., etc., etc., tudo aquilo de que nós, muito bairristamente, tanto tínhamos troçado.

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[1] Ou …É o fostes!, já que esta forma criticada da segunda pessoa do singular se adapta bem a este registo.

[2]
Se estivesse virado para os jogos de palavras patetas, diria, em vez de anormal nominalização, anorminalização, mas hoje não, não estou para aí virado…

[3]
Como não quero entrar, no texto, em pormenores técnicos, digamos assim, passo-os para esta nota de rodapé, que é uma maneira de fingir que os faço desaparecer. Uso * para indicar que a forma não é produzida ou que não está atestada, e + para indicar que é considerada errada:

Neste caso, tendência para a regularização é, claramente, uma expressão simplista, se não abusiva. No paradigma do presente do indicativo, há duas possíveis “regularizações”: a “regularização” do acento na penúltima sílaba, que produz a forma correta (suponha, suponhamos) ou a “regularização” da acentuação na sílaba -po-, independentemente da sua posição no palavra, que produz a forma criticada (suponha, *sunhamos). Pode pensar-se que esta “regularização” é, ela própria, irregular, porque apenas se verifica no presente do conjuntivo e não se verifica nos verbos regulares com infinitivo em -ar, que são a maioria dos verbos portugueses. Parecem-me perfeitamente impossíveis, por exemplo, seja em que dialeto ou socioleto for, formas esdrúxulas como *fálamos, *cómemos ou *pártimos no presente do indicativo e formas como *fálemos, *espéremos ou *acredítemos no presente do conjuntivo. Seria interessante ver se as formas esdrúxulas da 1ª pessoa são mais comuns em verbos irregulares no presente (+dígamos, +quêiramos, +sáibamos, +fáçamos, etc.) que em verbos regulares (+cômamos, +ábramos, etc.).

E porque se “regularizaria” a acentuação de uma determinada sílaba? Podia pensar-se que acentuação da sílaba tónica mais frequente nas várias pessoas nos vários tempos seria sentida como “natural” e que daí resultaria a “regularização” incorreta do acento. Mas não é assim. Num verbo regular, a parte do radical que dá a última sílaba do infinitivo (a sílaba que começa por m em comer, por exemplo) é tónica num maior número de formas. A falar-se de “regularização”, ela tem como modelo apenas as restantes formas do presente do conjuntivo. Evidentemente, não é preciso falar de “regularização”. Pode simplesmente postular-se que é esta a regra interiorizada em certas variantes regionais ou sociais.

15 de janeiro de 2014

I’ve got a bike, you can ride it if you like

Há muito que se discute a eficácia ou a necessidade do uso obrigatório de capacete para os ciclistas e, pelo que tenho visto, continua a não haver consenso na matéria. Não há consenso, mas há um bom senso que me chamou a atenção e que quero elogiar: o de reconhecer dificuldades e falta ou impossibilidade de controlo nos estudos sobre o assunto. Estou a referir-me concretamente a um artigo de Ben Goldacre e David Spiegelhalter no BMJ*, que discute, em grande parte, um estudo sobre o efeito da legislação canadiana de uso obrigatório de capacete na admissão hospitalar de vítimas de acidentes de bicicleta com lesões na cabeça, concluindo (o estudo) que este efeito “parece ter sido mínimo”**.

O estudo em análise, que, segundo os autores do artigo, é superior a muito do que foi feito antes, parece, à primeira vista, ir contra as conclusões de outros estudos. Estes estudos têm, porém, alguns problemas metodológicos:

Por um lado, se o grupo de controlo são ciclistas admitidos com outras lesões resultantes de acidente, este grupo depende da ocorrência de acidentes, partindo-se, portanto, do pressuposto de que o uso de capacete não altera o risco geral de acidente – o que pode não ser certo.

Por outro lado, há variáveis não medidas e que talvez nem possam medir-se: as pessoas que usam capacete podem ser diferentes das que não usam – podem ser mais cuidadosas, por exemplo, e, por isso, menos suscetíveis de sofrer acidentes, com ou sem capacete; e as pessoas que usam capacete só porque são obrigadas pela legislação também podem ser diferentes – podem não o usar corretamente, porque apenas lhes interessa cumprir a lei e evitar uma multa; e podem alterar o comportamento ao usarem o capacete, através do fenómeno de “compensação de risco” (“uso capacete, posso ter menos cuidado”), que está bem documentado.

Além disso, pode ser que, como documentado num estudo, os automobilistas deem mais espaço a ciclistas sem capacete.

Mesmo que os capacetes tenham realmente influência na taxa de lesões na cabeça, porém, isso não implica necessariamente que a obrigatoriedade tenha efeitos positivos gerais como política de saúde pública, porque pode ter efeitos indiretos indesejáveis. Um estudo recente identifica dois grupos de ciclistas: um grupo rápido, com muito equipamento, incluindo capacetes; e um grupo mais lento, sem muito equipamento. Segundo este estudo, o uso obrigatório de capacetes pode fazer diminuir o segundo grupo. Ora sabe-se que os efeitos positivos de andar de bicicleta são maiores que os efeitos negativos, os acidentes. (Esta vantagem, porém, depende muito do risco absoluto de acidente: qualquer redução real do risco relativo de lesão na cabeça tem um grande impacto nos casos mais comuns de choque, os que se dão com crianças.)

Há efeitos indiretos ainda mais complexos, por exemplo, a chamada Lei de Smeed de “segurança no número”: quanto mais ciclistas há (maior densidade na estrada), mais seguro é andar de bicicleta.

Além de todas estas questões, há uma questão propriamente política: há quem considere que o uso obrigatório de capacete implica pôr a responsabilidade no indivíduo, quando podem ser tomadas outras medidas de caráter coletivo. Costuma dar-se o exemplo da Dinamarca e dos Países Baixos, com índices baixos de acidentes, apesar de a grande maioria dos muitos ciclistas que aí existem não usar capacete. A explicação parece estar nas infraestruturas, legislação rodoviária e cultura ciclista como meio de transporte normal (não desportivo, sem risco).

A conclusão do artigo é que é improvável que mais investigação venha clarificar inequivocamente as atuais incertezas e que há outros aspetos – culturais, psicológicos e políticos – do debate popular sobre a questão que serão sempre importantes.

É uma questão complexa e não sei se a soube expor. Não quero, sobretudo, que fiquem com a ideia de que o estudo analisado no artigo diz que tanto faz usar capacete como não o usar. Nada disso, o que “parece ter sido mínimo”, sublinho, são os efeitos da obrigatoriedade do uso de capacete, não os efeitos do capacete. Os autores do estudo analisado afirmam claramente: “… os capacetes reduzem o risco de lesões na cabeça e recomendamos o seu uso” e nunca o artigo põe isto em causa. Acho que não há dúvidas quanto às vantagens do uso voluntário do capacete.

Do artigo para a vida à minha volta. É certo que, para distâncias curtas, a bicicleta é um dos meios de transporte mais normais na Dinamarca, se não até o mais normal. A razão de queixa da Karen, a minha mulher, do emprego que tem é ter de ir de carro (35km). O que ela queria era poder ir de bicicleta para o trabalho, como faz a maior parte das pessoas. (Aqui a expressão i cykleafstand faz parte das que se usam para definir uma ocupação: “a uma distância que se pode fazer de bicicleta”.)

A Siri, a minha filha mais nova, que costuma ir na carrinha da escola, quis hoje ir de bicicleta. Levantámo-nos às seis horas, meia hora mais cedo do que é costume, e lá fomos, às sete. Demorámos quase uma hora a fazer cerca de seis quilómetros, porque a noite estava escura como breu, com muito nevoeiro, ademais, e só há iluminação pública em cerca de um quinto do caminho. Bonito passeio. A Siri diz que quer ir outra vez de bicicleta depois de amanhã. (A ver se arranjo uns refletores para pôr na roupa ou uns coletes refletores. E a ver se reparo se é quem usa capacete que também usa refletores na roupa.)

É verdade que muitos dinamarqueses não usam capacete. (Ou estrangeiros residentes na Dinamarca, smile…) Ia hoje a pensar que o frio pode ser uma razão – no tempo frio... Quase não se encontram à venda capacetes preparados para o frio, quentes e que cubram as orelhas. As minhas filhas usam um gorro por baixo do capacete, o que é desconfortável. Mas muita gente usa apenas gorros compridos ou de orelhas ou mesmo apenas os capuzes dos casacos. Ia a pensar se não será mais um fator a ter conta nestes estudos: até que ponto, em zonas frias, o capacete é visto como desconforto; e qual a proteção que dão os gorros de inverno e os capuzes. Muitos deles (o meu, por exemplo, grosso, forrado a pele por dentro), alguma proteção há-de dar, embora, claro, muito menor que a de um capacete.

Agora, são adolescentes e adultos que não usam capacete. E cada vez menos, creio. Para as crianças, o uso de capacete é, por assim dizer, obrigatório. Os pais obrigam-nas a usar capacete, e não só para andar de bicicleta, também para andar de skate, de patins, até de trotineta, às vezes… As escolas também obrigam os alunos, crianças jovens ou adolescentes, a usar capacete, quando a turma vai toda de bicicleta a algum lado – uma coisa que, aqui em Tåsinge, acontece com alguma frequência.

Ia a pensar nisto tudo, enquanto pedalava, e ia a pensar que gostava também de saber quais são os acidentes mais comuns de bicicleta e se variam de país para país, em função de infra-estruturas, legislação e cultura ciclista. São mais choques ou quedas? E os choques, são mais entre ciclistas, ou de ciclistas com outros veículos ou peões? Podia ter investigado antes de publicar este texto, não era? em vez de deixar a pergunta em aberto... Mas prefiro publicar isto assim e voltar algum dia ao assunto, se for caso disso. É que, por um lado, o post já vai grande e, por outro, se perco, como se diz, a pedalada, acabo por nunca publicar isto. O título do post? Ah, é uma cantiga que há:


Bike, filme de Lisa Wu com música de Syd Barrett ("Bike", 1967)
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* Goldacre, Ben & Spiegelhalter, David, “Bicycle helmets and the law” (BMJ 2013;346:f3817), 12 de junho de 2013, disponível em linha.
** Dennis, J., Ramsay, T., Turgeon, A. & Zarychanski, R., “Helmet legislation and admissions to hospital for cycling related head injuries in Canadian provinces and territories: interrupted time series analysis (BMJ 2013;346:f2674), 14 de maio de 2013, disponível em linha.

7 de janeiro de 2014

Recordações de infância: De que cor é o teu sangue?

Um livro que, como costuma dizer-se, me marcou muito é uma revista de banda desenhada com uma história do Sargento Rock e da sua Companhia da Moleza, “Qual é a cor do seu sangue?”, ilustrada pelo grande Joe Kubert. É uma revista que tive em criança e a que, como todos os livros e revistas de banda desenhada da minha infância, perdi o rasto; mas a história e os desenhos impressionaram-me tanto que nunca mais os esqueci. Há dias, voltei a encontrar a história num blogue. A Internet é realmente uma coisa extraordinária!

A página de blogue que encontrei tinha a história inteirinha (!), ainda para mais acompanhada de um texto interessante, pelo qual fiquei a saber, entre outras coisas, que o argumento é de Bob Kanigher. Fiquei também a saber que a história foi publicada pela primeira vez na revista Army At War, nº 160, de Novembro de 1965 (editora DC). Sabia que a edição brasileira em que a li só podia ser da EBAL, mas descobri agora que foi publicada na série Epopéia. A página onde encontrei esta informação não dá a data de publicação, mas calculo que devesse andar pelos meus 10 anos quando li a história. Faço-vos um pequeno resumo*:

A história passa-se na Segunda Guerra Mundial. Jackie Johnson foi campeão mundial de pesados de boxe. Perdeu o título para o alemão “Tempestade” Uhlan** e vive, desde essa altura atormentado por essa derrota. Jackie Johnson inscreve-se no exército e torna-se um herói. “Tempestade” Uhlan, que é um nazi convicto, também se inscreve no exército alemão, para lutar pelo que acredita ser a sua raça superior.

O destino volta a pôr frente a frente os dois pugilistas, em plena guerra. Uma patrulha alemã de que Uhlan faz parte captura Johnson e dois companheiros seus. Uhlan, desejoso de provar mais uma vez a superioridade da raça ariana, desafia Jackie para novo combate. Uhlan mostra-se mais forte e começa a massacrar Johnson, exigindo que este reconheça que tem sangue negro e não vermelho como o seu. Os companheiros de Johnson têm a certeza de que ele se deixa massacrar por causa deles, porque tem medo que, se ganhar o combate ao alemão, eles sejam mortos. Decidem então atacar os alemães, mas, em segundos, são deixados sem sentido, à coronhada. Talvez porque pensasse que os companheiros estavam mortos ou porque não conseguisse aguentar mais a humilhação, Jackie recupera de repente e deixa o adversário knockout. Furiosos, os companheiros de Uhlan disparam sobre os dois: o negro inferior e o reles alemão que se deixou vencer por ele.

Nessa altura, surge o resto da companhia de Johnson, que toma conta da situação. Quando todos pensavam que Uhlan  e Johnson estavam mortos, este surpreende-os: conseguiu atirar-se ao chão e escapar às balas alemãs, mas Uhlan foi atingido e está mal. Perdeu muito sangue. O médico da companhia diz que Uhlan precisa de uma transfusão de sangue de tipo B. “E quem é que pensam que estendeu o braço?” Ulhan, o nazi, acorda ao lado de Johnson, o americano negro, a receber sangue deste. “Estava enganado”, diz ele, “o teu sangue é vermelho”. “Estás a fazer progressos, pá!”, diz Jackie Johnson, e a história acaba assim.


Tenho quase a certeza de que, se a tivesse conhecido agora, a leitura desta história não me impressionaria muito. Com toda a certeza, não tinha, nem de longe, o efeito que teve em mim quando a li em miúdo. Mas, curiosamente, quando a releio agora, por muito que a ache ingénua e de um simplismo ideologicamente duvidoso, ela continua a impressionar-me. Porque não conta só o efeito que ela tem em mim agora: há uma impressão armazenada quando tinha 10 anos que ela traz de novo ao de cima!

*** 
KB, o autor do blogue Out of this world, onde fui reencontrar esta obra importante da minha infância, chama a atenção para alguns factos interessantes para uma leitura menos infantil da obra:

A personagem Jackie Johnson parece ser uma amálgama de dois campeões de pesos pesados, Jack Johnson, de quem herda o nome, e Joe Louis. A carreira de Jack Johnson, o primeiro campeão mundial de pesados negro, ainda em plena época de segregação da população negra, é um episódio marcante da história das relações raciais nos EUA. Joe Louis, outro símbolo importante para os negros americanos, combateu duas vezes com o campeão alemão Max Schmeling. A vitória de Max Schmeling sobre Joe Louis em 1936 foi usada pela propaganda nazi e a vitória de Louis no segundo combate em 1938 adquiriu inevitáveis contornos simbólicos de vitória de uma “América da liberdade” contra “a Alemanha racista”. Schmeling, porém, afirmou que não tinha nada a ver com os nazis. Tanto Schmeling como Louis vieram, mais tarde, a servir o exército dos seus países. Traduzo um excerto do texto de KB:
O momento da publicação [desta história], a raridade das representações de afro-americanos na banda desenhada nesta altura e a fortíssima mensagem antirracista sugerem uma ligação com o Movimento dos Direitos Civis e com a necessidade do país de recrutar os afro-americanos para a Guerra do Vietname, num contexto de sentimento antiguerra entre a comunidade afro-americana. A importância de Jackie ser um pugilista parece estar relacionada com a entrada de Muhammad Ali para a Nação do Islão em 1964. Muhammad Ali chumbou nos testes de qualificação para as forças armadas em 1964, mas só em 1966 se recusou a aceitar a mobilização, o que fez com que fosse preso e perdesse o título. Este número de Our Army At War não é, pois, uma resposta à sua recusa em alistar-se, mas pretende talvez contrariar o efeito da associação de Ali com a Nação do Islão, que era fortemente contra a guerra do Vietname.
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* Embora em formato reduzido, a banda desenhada lê-se bem no blogue que refiro (em inglês). Clicar nas imagens das páginas para as aumentar não funciona (exceto para uma delas), mas há uma maneira de o fazer: clicar do lado direito, selecionar “copiar a localização da imagem”, colar essa localização na barra de endereços e abrir uma janela nova em que a imagem aparecerá agora em tamanho grande.
** O nome tem significado: uhlan é a designação inglesa dos ulanos, antigos lanceiros prussianos, austríacos e russos.

6 de janeiro de 2014

Bom ano e um conto de terror

Desejo-vos um bom ano de 2014! Como diz uma canção, “este é que o ano – demorámos muito a aqui chegar”. Bom, a canção dizia isto de 1968, creio eu, mas pode dizer-se de todos os anos. Como presumo que uma grande parte, se não a maior, das minhas leitoras e dos meus leitores seja portuguesa como eu, o que desejo mais para 2014 é que se consiga travar a política de destruição do atual governo – de destruição do Estado social, da economia, da vida da maior parte das pessoas, do bom-senso, enfim... É claro, há que fazer por isso. É um 2014 assim, a fazer muito por isso, que eu vos desejo.

*** 
Há vários tipos de terror, como todos sabemos. Um amigo teve uma vez a ideia de um conto de terror em que, em vez de histórias noturnas de criaturas do outro mundo, se contasse o horror de alguém que passava, de barriga e bolsos vazios, diante das montras das tascas da Baixa lisboeta. Com a ideia dele, em vez de conto, fiz uma cantiga, que chegou a ser cantada, mas, felizmente, nunca foi gravada. “Um terror indizível / arrepios / calafrios / suores frios” era o refrão.

Agora vejam lá: há dias, fui procurar o que devia ser o único exemplar restante nesta casa de Faz de conta que histórias, um livro de contos meus, e não o encontrei. Não que eu precise de um exemplar do livro, até porque o tenho, claro está, em versão digital. O problema é que o exemplar que eu esperava encontrar cá em casa era o exemplar que ofereci à minha mulher!

Pode ser que o livro se tenha perdido na mudança de Moçambique para a Dinamarca, no verão de 2011. Mas também pode ter acontecido eu tê-lo oferecido a alguém, sem querer. Sei que o livro tinha uma dedicatória, que não me lembro qual era nem em que página estava. E se exemplar da Karen tinha ido parar ao lado dos outros, na estante da sala, e eu, sem reparar na dedicatória e que era, portanto, o livro da Karen, o mandei a uma amiga ou a um amigo (enviei uns quantos, o ano passado), com uma nova dedicatória noutra página? Um terror indizível, como na tal cantiga: arrepios, calafrios, suores frios…