29 de agosto de 2014

Parole, parole, parole (três textos sobre palavras)

1. Fervor e outros estados da mente e do corpo

O nome grego zelos deu zelus em latim e zelus deu, por sua vez, uma lista interessante em português: zelo, cio e ciúmes (que veio, ao que parece de uma forma latina zelumen). Se cio se usa hoje só para o apetite sexual, em princípio de animais, já o adjetivo dele derivado, cioso, pode qualificar não só quem tem cio, mas também quem ciúmes e, mais comummente, quem tem zelo. Do significado de zelos em grego antigo (derivado de zein, “ferver”, segundo o Dicionário da Real Academia Espanhola), dizem-me os dicionários que consultei que não diferia dos significados das palavras que dele derivam: “fervor, ardor, rivalidade, nobre paixão, ciúmes”.

Estar a ferver é estar a explodir de raiva. Fervor, porém, não significa “ira”, mas “empenho, dedicação, ardor, paixão”. Ardor refere originalmente alta temperatura, como fervor. A raiva põe-nos em brasa (em brasa é o mesmo que a ferver, pelo menos no meu dialeto), mas ardemos de paixão, curiosidade e desejo, por exemplo. De desejo, mais numas línguas que noutras: o cio é calor em francês e inglês (être en chaleur, to be in heat) e, em inglês, hot é sinónimo de sexy. No meu português, curiosamente, quente significa antes “ligeiramente embriagado”...

2. Petricor
É sempre muito lento o processo de dicionarização dos neologismos, mesmo quando são úteis e bem formados, como petricor. A palavra, parece que cunhada originalmente em inglês (petrichor), em 1964, por I. J. Bear e R. G. Thomas, num artigo da Nature, é formada das palavras gregas petros, “pedra”, e ichor, “o líquido que corre nas veias dos deuses na mitologia grega”, e significa “o cheiro característico que surge com a primeira chuva após um período seco”. Todos sabemos bem o que refere.

Passados 50 anos da sua criação, e apesar de ser usada (não muito, claro, mas é usada), a palavra ainda não foi acolhida pela maior parte dos dicionários. Em inglês, o Oxford já a regista, mas outros dicionários ainda não. Em português, nos dicionários em linha que consultei, não a encontrei em nenhum… Evidentemente, há centenas de outros casos de palavras úteis que são usadas e os dicionários ainda não registam, mas apeteceu-me divulgar aqui o petricor, que é bonito no som e no significado.

3. Jinguba e amendoim

Até há dias, pensava que jinguba (ou ginguba, o Porto Editora aceita ambas as grafias) era uma palavra angolana que tinha entrado no português europeu em meados da década de 1970, quando vieram para Portugal os portugueses que viviam em Angola. No conto “O tio da América”, de Fialho de Almeida (primeira edição 1881), porém, a palavra aparece sem itálico, ou seja, como termo suficientemente corrente para ser compreendido por todos (Fialho de Almeida usa itálico para palavras que considera fora do padrão, como gíria e regionalismos): “…hoje é rico como os primeiros negociantes do Pará, despacha gomas, jinguba e óleo de palma…” O Porto Editora regista o termo como angolanismo e são-tomensismo e diz que vem do quimbundo; o Aulete em linha diz que é palavra da Guiné, mas não é. Aliás, o termo guineense para amendoim é mancarra.

Na América do Sul, de onde é natural, o amendoim chama-se quase sempre maní, que parece que é um termo taino. A palavra portuguesa vem de um termo tupi-guarani (mendubi, mãdu’bi, mãdu’i, manduí, manu-ui, mandu'wi, varia um pouco consoante as fontes), mas, para ter o a inicial, deve ter-se metido pelo meio a amêndoa, por ser fruto seco também, mas já conhecido. Cheguei lá sozinho, porque a minha intuição funciona bem para estas coisas, mas vi depois que há mais quem proponha o mesmo (por exemplo, aqui e aqui).

26 de agosto de 2014

De objetos e objetivismo

Era eu adolescente, usava-se no meu grupo de malta a expressão objetos de curtição. Costumam dizer-se decorativos os objetos que servem apenas para enfeitar as habitações, mas, quando penso agora nisso, curtir, pelo menos como nós usávamos a palavra, implicava uma atitude menos passiva que decorar, porque decorar é o que fazem os objetos estando apenas ali e independentemente do interesse que alguém tenha neles, ao passo que, em curtir, os objetos são… objetos diretos e o verbo implicava participação ativa dos sujeitos que nós éramos. Os quartos do pessoal eram mesmo uma espécie de museus, com visitantes realmente interessados na obra exposta.

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“Não há muitas casas com objetos tão bonitos como os que nós temos a decorar a nossa”, dizia eu à Karen, enquanto lavava os vidros das janelas da sala.
“Ora”, disse ela, “isso é o que toda a gente pensa dos seus objetos. As pessoas escolhem os que acham bonitos.”
“Ok”, insisti eu, “mas, independentemente dos gostos, os nossos objetos são objetivamente mais bonitos.”
Ela riu-se.

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A quem foi educado no descontraído relativismo pós-moderno (não é o caso da Karen, não me entendam mal), qualquer proposta de absoluto pode surpreender. No outro dia, numa conversa sobre música, ficou muito admirada uma amiga minha quando eu afirmei que, deem que voltas derem ao assunto, não se pode reduzir tudo a gostos, como se Bruckner e Elton John estivessem de facto ao mesmo nível.
“É curioso”, comentou ela, “já no outro dia também ouvi alguém dizer que se pode analisar objetivamente a qualidade da música.”

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Vocês, que me conhecem bem, digam-me lá: isto sou eu a brincar ou eu a falar a sério?








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A descrição dos objetos, de cima para baixo e da esquerda para a direita: cinco tacinhas romenas, que nos ofereceu a nossa amiga Claudia; um pégaso de pendurar e, ao lado, um castiçal-bode, balineses os dois, comprados em Ubud, se me não falha a memória; uma estátua de autor desconhecido comprada em Chimoio, Moçambique; uma faca da Lapónia, com o cabo em osso de rena, prenda de Natal  do Sr. Innala em Haparanda; um trabalho da escola da minha filha Joana; uma escultura do meu sogro Kaj Lindegaard, vista de dois lados; trabalho de um artesão moçambicano que não sei quem é, comprado em Maputo; uma curiosa peça de cerâmica da Guatemala, que deve ser um vaso, mas que nunca usámos como tal; um galo que seria de Barcelos, não fosse o meu amigo Pedro Malaquias lhe ter dado uma bonita volta, para mo oferecer; mais uma escultura de autor desconhecido, também de Chimoio, que como podem ver, é terra de escultores imaginativos; e uma cabeça de pedra de sabão, também de autor desconhecido, comprada há 16 anos em Mutare, no Zimbábuè – já resistiu a quatro mudanças de continente, com várias mudanças de casa entre elas.

13 de agosto de 2014

Cidades de som: uma página de blogue quase só musical

Nasci numa cidade grande e cresci numa simpática aldeia que rapidamente se transformou num monstruoso subúrbio. Vivi noutras cidades grandes, em cidades mais pequenas e em vilazinhas muito pequenas, quase aldeias. Agora, vivo numa aldeia mesmo aldeia e gosto muito de aqui viver. Mas podia voltar a viver numa cidade, porque continuo a gostar de cidades. E gosto também de cidades em música.

Quando Peter Sculthorpe* compôs Small Town (1963), queria “cantar todas as cidades pequenas australianas”. A peça inspira-se em parte no romance Kangaroo (1923) de D. H. Lawrence, que se passa em Thirroul (e foi lá escrito) e tem uma parte declamada que é um excerto dessa obra:
Era uma Rua Principal maravilhosa e (...) ao abrigo do vento. Havia vários hotéis castanhos, grandes mas assustadores, com varandas a toda a volta: havia uma igreja de estuque amarelo com um campanário de lata pintado de vermelho, como um estranho brinquedo: havia telhados altos e telhados baixos, todos de chapa ondulada, e chegava-se a um largo e lá estavam um ou dois bungalows abandonados atrás de vedações de madeira, e depois o vazio. (...) O memorial aos soldados caídos pela pátria (…) dizia “Não esqueceremos”. No primeiro degrau, lia-se “Inaugurado pela Avó Rhys”. Um monumento municipal a sério, com todos os nomes possíveis: os nomes dos soldados mortos, os nomes de todos que tinham envergado um uniforme, os nomes das pessoas que tinham oferecido o monumento e o nome da Avó Rhys.


Peter Sculthorpe, Small Town, com texto de D. H. Lawrence (1963) | Tasmanian Symphony Orchestra; David Porcelijn; Bruce Lamon, trompete; Joseph Ortuso, oboé; texto declamado pelo autor

Um tema que muitas vezes vem à mente de quem ouve esta peça, a julgar pela referências que lhe são feitas em comentários e críticas, é Quiet City (1940) de Aaron Copland. É claro, a cidade tranquila de Copland não é uma cidade pequena, até porque uma city não é uma cidade pequena. Quiet City foi escrita para uma peça do mesmo nome de Irwin Shaw, que se passa de facto numa grande cidade.


Aaron Copland, Quiet City (1940) | Cincinnati Pops Orchestra; Erich Kunzel

Também não se sabe qual a cidade de “Town feeling” de Kevin Ayers. Kevin Ayers nasceu e cresceu numa cidade pequena, mas nada nos diz que é da sua cidade natal que fala nesta canção.
Hoje, a cidade parece um túmulo. Toda a gente fechada no quarto. (…) Se formos passear, somos capazes de encontrar alguém. Se for alguém conhecido, dizemos “olá” e “até logo”.


Kevin Ayers, “Town feeling”, 1969

É uma grande mudança, não é?, de Peter Sculthorpe e Aaron Copland para Kevin Ayers… Mas é assim, as músicas são como as cerejas: uma pequena cidade, uma cidade tranquila, o sentimento de uma cidade...
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* Só conheci Peter Sculthorpe no passado dia 8 de agosto, quando faleceu aos 85 anos. Small Town não é com certeza uma das suas melhores peças, nem mais representativas da sua obra, mas não é exatamente da música de Sculthorpe que aqui se trata.

10 de agosto de 2014

O paraíso na mata amazónica, mais uma vez

Dito de uma maneira muito simplificada, surgem na Europa após o Renascimento dois ideais políticos radicais que balizam toda a discussão do desenvolvimento: o ideal utópico e o ideal primitivista[1]. Se são, em grande parte, diametralmente opostos, estes ideais assentam, porém, numa visão coincidente dos outros povos com que os europeus acabavam de entrar em contacto, sobretudo os povos americanos: incompreendidos pelos europeus[2], os outros são sempre vistos negativamente – são povos que não têm alguma coisa.

Ora é precisamente em termos negativos que sempre foi definida a Idade de Ouro ou a primordial barbárie humana. Conforme se valoriza ou não as ausências “constatadas”, os outros são idealizados ou demonizados: ou são felizes porque não têm leis, roupa e propriedade ou são brutos selvagens porque não têm leis, roupa e propriedade. Quando se pensa que são as leis, o dinheiro, as hierarquias, a arquitetura, etc., que corrompem a natural felicidade e bondade humana, temos o ideal que designei como primitivista. E é curioso como, em muito do etno-romantismo[3] que por aí anda, se mantém essa definição negativa do Outro.

Esta imagem foi partilhada por amigos meus no Facebook. A foto de homens iáguas do Peru é de Chany Cristal, embora, como é costume, não seja referida a autoria[4]. Explica Chany que, “se lhes pediam, faziam com todo o gosto espetáculos para os turistas, nestes trajes tradicionais – como forma de fazer algum dinheiro e divulgar o seu antigo modo de vida. Aqui, estão a ensinar a usar uma zarabatana.”

Não sei se pensam que a zarabatana sempre se utilizou apenas para matar animais, mas não é bem assim. A ideia de que não há crimes entre os iáguas deve radicar na ideia de que não têm leis ou então na ideia que todos as cumprem – duas ideias estranhas...

É evidente que as sociedades tribais da Amazónia têm algumas coisas que a imagem diz não terem. Nem todas, é certo, mas a terra onde eu vivo também não as tem todas. Não digo que não possamos ter perdido, nas sociedades desenvolvidas, algo que a “idade de ouro” pré-desenvolvimento mantém nas sociedades mais atrasadas. É bem possível que haja sempre algo a perder com o desenvolvimento, mas o que o ideal primitivista se esquece muitas vezes de fazer é equacionar ponderadamente o que se tem a perder e a ganhar com esse mesmo desenvolvimento.

Para não entrar em discussões estéreis, vejamos o que as pessoas querem. E o que as pessoas querem em todo o mundo é a vida menos trabalhosa e mais segura, para elas e para os seus filhos. Agora, claro, só pode escolher de facto quem conhece, não é verdade? É isso que torna difícil a discussão. Poucas são as pessoas que conhecem os dois mundos em oposição, para os comparar. Tenho a impressão que são bem mais os que, depois de viverem em sociedades pré-modernas, voltam à sua modernidade original que os que, depois de experimentarem as terríveis sociedades modernas, decidem voltar ao seu primitivo paraíso. Mas é só uma impressão, não tenho maneira nenhuma de o provar...

Seja o for que os povos da Amazónia tenham de bom que nós já não temos, o certo é têm também muitas coisas más que já não temos e ainda bem que já não as temos e é uma pena eles terem-nas ainda. Cada um leva até onde quer a idealização das sociedades tribais de que a imagem que motivou este texto pretende ser exemplo, mas há que ter cuidado para não ir demasiado longe nessa idealização e não propor como ideal uma vida que, entre as muitas coisas boas que há de ter, é infelizmente muito mais breve que a nossa e se caracteriza também por muito mais escassez, doença, perigo e violência. É que, senão, parece que se está a fazer pouco da miséria, como dizia a minha avó.

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 Nota final: Quero salientar que, nos comentários ao post no Facebook, há, naturalmente, quem se insurja contra este tipo de afirmações. Por exemplo, um comentador lista algumas das coisas que as comunidades tribais amazónicas têm e ele não queria ter (e que correspondem, em grande medida, ao que eu refiro no texto como “muitas coisas más que já não temos e ainda bem que já não as temos e é uma pena eles terem-nas ainda”): vermes, parasitas e fungos de todos o tipo, alta suscetibilidade a todo o tipo de doenças invalidantes e fatais, graves problemas dentais, péssimos hábitos higiénicos, uma esperança de vida de 35-40 anos, um dia de trabalho de 12 a 14 horas, um sistema patriarcal brutal em que as mulheres são consideradas propriedade, uma mortalidade infantil elevadíssima e tendência a matar ou abandonar as crianças que nascem com deficiência congénitas. A lista podia é claro, ser maior e mais bem organizada, mas não é essa intenção deste texto. Outro comentário, realçando também a elevadíssima mortalidade de crianças e de todos os mais fracos, desafia quem concorde com esta visão idílica da vida das comunidades tribais amazónicas a passar dez anos entre elas. Lê-se ainda, num comentário, que “esta imagem … é insultuosa para a maior parte das tribos que ainda existem, porque menospreza os seus problemas”.
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[1] Para não me afastar do assunto central do texto, deixo aqui por explicar o quero dizer com ideal utópico, remetendo antes o leitor para os textos anteriores sobre esse tema.
[2] Não há razão para os europeus se autoflagelarem por isso, como às vezes fazem. É apenas o resultado forçoso das circunstâncias históricas, já que não havia, nesta altura, nenhuma possibilidade de compreender a alteridade como a compreendemos hoje e esta incompreensão estava longe de ser apenas dos povos da Europa.
[3] Pequena nota ortográfica: Surgiu-me agora a dúvida de que seja esta a grafia correta, mas, enquanto não reflito mais sobre a questão, continuo a usá-la.
[4] De certa maneira, este post é uma continuação do post anterior, sobre a leviandade do click&share nas redes sociais. Mas é mais que isso: é a continuação de uma reflexão antiga sobre primitivismo/etno-romantismo e as relações com a alteridade em geral.

7 de agosto de 2014

De lugares demasiado comuns (relambório com interlúdio musical)

Ena, o que para aí anda de sabedoria em pacotes a circular na Internet e por correio eletrónico!

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A exortação a sermos nós próprios, por exemplo, deve ser do que mais recorrente há dessa internética filosofia de algibeira. Já se sabe que a ideia de uma identidade essencialmente dualista é cara à maior parte das pessoas: parece que há o que nós somos de facto e o que nós somos sem ser de facto, mas não sei bem o que é uma coisa e a outra. Aliás, isso nunca é explicado, provavelmente porque não há nada a explicar. Pode alguém ser quem não é? Mesmo quando se finge ser outra pessoas, vá, caso extremo, somos nós a fingir, ou não? E se fingimos é porque somos, de facto, fingidores. Mas enfim...

É certo que uma frase muito divulgada sobre o tema é também “Sê tu próprio. Os outros já estão todos ocupados”, que resume, com saudável ironia, tudo o que há a dizer sobre o assunto, mas não chega para neutralizar os disparates[1].

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Outra ideia estranha muito divulgada nas redes sociais é a da oposição entre ser e ter. Digo outra ideia, mas ela segue, em grande medida, a oposição que referi no parágrafo anterior entre algum eu essencial e outro eu acessório e falso: o ser é o essencial e o ter é o acessório, o descartável. Evidentemente, louva-se o ser e, conforme o grau de radicalismo do aforismo, exorta-se a desvalorizar ou a abandonar o ter.

A realidade é, infelizmente, um bocadinho mais complicada: ter e ser são muitas vezes usados como léxico alternativo a predicações iguais: ter uma grande inteligência ou ter uma grande capacidade é a mesma coisa que ser muito inteligente ou ser muito capaz. Mesmo que limitemos o ter ao seu sentido material de “possuir, ser dono de” e restrinjamos o seu “complemento direto”[2] a palavras que referem objetos materiais, nem tudo se torna tão claro como alguns pretendem que seja, porque ter muitas coisas é ser rico e ter poucas coisas é ser pobre e, segundo a lógica que se propõe, parece que é preferível ser rico ou ser pobre a ter respetivamente muitas coisas ou poucas. Pensar que o que se tem só acessoriamente nos define (no tal estranho sentido do não fazer verdadeiramente parte do nosso ser) é uma proposição indefensável, creio eu: a riqueza, a posição social, o poder, enfim, – ou a sua falta! – modelam obviamente o mais essencial no nosso ser, seja lá isso o que for.

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Outra ideia com grande fortuna é o elogio da “loucura”, sobretudo através de uma citação de Jack Kerouac:
As únicas pessoas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que nunca bocejam nem nunca dizem um lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem, como fabulosos fogos de artifício explodindo com aranhas entre as estrelas e no meio vê-se irromper a luz central azul e toda a gente diz «Ena!»[3] 
Não deixa de ser curioso que a maior parte das pessoas que partilha esta frase siga muito pouco do que ela prega, quanto mais não seja porque partilhar a frase é, em si mesmo, uma negação do que ela defende, pelo menos desde que se tornou um lugar-comum, e porque partilhar citações na Internet tem pouco a ver com arder, arder, arder e suscita antes um grande bocejo...

A minha ideia (inverificada e generalizada – como não se deve, peço desculpa! – a partir dos exemplos das pessoas cujas vidas conheço e vejo partilharem a frase…) é que, quanto mais banal e mesurada for a vida de uma pessoa, mais probabilidade há de ela partilhar alguma forma de elogio da vida vivida na faixa de ultrapassagem. Hmmm...

Prefiro a esta outra frase que não me levarão a mal se a atribuir a Leo Mathisen, embora seja provavelmente (muito!) anterior: “Take it easy, boy, boy!”


Leo Mathiesen/Svend Hauberg, "Take it easy, boy, boy", 1940
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São milhares de chavões que por aí circulam à força de clique&partilhe, e não consigo dizer mal falar de todos neste texto, mas não quero deixar de referir o aforismo “Há gente tão pobre que só tem dinheiro”, que muda de autor de cada vez que é repetido (e é muito repetido…), quando não aparece, uff…, sem menção da autoria.

Bom, não quero deixar de o referir, mas não sei bem o que dele hei de dizer… Que se há de dizer de uma frase assim, digam-me lá? Não que não nos possamos ralar com a pobreza de espírito dos ricos, se tivermos muito espaço mental para toda a sorte de ralações, mas, pela alma de quem lá têm, então o que nos deve preocupar não é antes a situação dos muitos milhões de pessoas que são tão pobres que não têm mesmo dinheiro?
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Para terminar, um pequeno comentário a uma frase diz-que-de-Einstein[4]:
Temo o dia em que a tecnologia ultrapasse a nossa interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas. 
A conclusão costuma ser, claro está, que “esse dia já chegou”. Evidentemente, Einstein nunca disse tal coisa (obrigado, Quote Investigator), até porque não se vê nenhuma razão para que pensasse algo parecido com isso; mas é certo que a tecnologia é realmente temível! Se assim não fosse, aliás, nunca teria escrito este texto. Permitam-me, portanto, que afine a frase falsamente atribuída a Einstein. Devem, naturalmente, atribuir-me a mim a versão melhorada da sentença, mas, se quiserem atribuí-la a Rudyard Kipling ou a Luís XIV, também pode ser:
Temo o dia em que a tecnologia permita difundir informação fantasiosa cuja veracidade ninguém verificará e cuja plausibilidade ninguém questionará; e permita a toda a gente armar-se em esperta exibindo aforismos de grande efeito e informação pseudocientífica e toda a sorte de apatetadas teorias da conspiração...
Se pensarem que esse dia já chegou, pensem melhor: infelizmente, ele sempre existiu…

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[1] Como não podia deixar de ser, a razoável proposta “Be yourself. Everyone else is already taken.” é quase sempre erroneamente atribuída a Oscar Wilde, que nunca disse nem escreveu tal coisa

[2] Não se trata de um verdadeiro complemento direto, porque ter não se porta o mais das vezes como um verbo transitivo. Por exemplo, “muita fome era tida por ele” não se pode dizer, pois não?, por muitas voltas que se queira dar à língua…

[3] É claro, para não se fugir à regra em voga de nunca citar corretamente, mesmo esta citação de Kerouac é o mais das vezes substituída por outra que também lhe é atribuída, mas que não foi de facto escrita por ele, mas sim por Rob Siltanen e Lee Clow para uma campanha publicitária da Apple. A versão em português do Brasil, que é a mais divulgada, é assim (ligeiramente emendada):
Isto é para os loucos; os desajustados; para os rebeldes; os desordeiros; para aqueles que possuem 4 olhos, para aqueles que veem as coisas de maneira diferente, para aqueles que não seguem as regras, para aqueles que não respeitam o status quo. Você pode humilhá-los, discordar deles, ou tentar atingir seu fogo interior, mas o que você simplesmente não pode fazer é ignorá-los, porque eles mudam as coisas, empurram a raça humana para frente. Embora alguns possam parecer loucos, são os melhores. Porque as pessoas que são suficientemente loucas para pensar que podem mudar o mundo são o futuro. 
[4] Coitado de Albert Einstein, é a maior vítima das citações erradas, porque é o mais popular dos grandes cientistas – ou o único grande cientista realmente popular… Se alguém disser que uma frase é de Richard Feynman ou Rodolfo Llinás, por exemplo, não tem o mesmo impacto, pois não?

3 de agosto de 2014

Jutlândia do Norte [Crónicas de Svendborg #21]

Como sempre que há reuniões de amigos ou familiares, fala-se dos velhos tempos. Uma coisa que surpreende os Lindegaard, quando revisitam os locais de infância, é como tudo se tornou mata: desapareceram prados e terrenos de lavoura (os poucos que havia…), há mais árvores e árvores mais altas. (A Karen, a quem falei das minhas paisagens de infância e a quem mostrei o que delas resta, sabe que, na zona onde cresci, Rinchoa, Mercês, Meleças, é exatamente o contrário: onde havia pinhais e mato, só há agora cimento e asfalto.)

O Norte da Jutlândia sempre foi terra pobre. “O melhor investimento que se podia fazer nesta terra era comprar um bilhete para a América e nunca mais cá pôr os pés.” Foi um investimento que muita gente fez. Agora, já não é para a América que as pessoas vão, e sim para Aarhus ou Copenhaga, mas a região continua a despovoar-se. Uma das características curiosas desta parte da Jutlândia do Norte onde a Karen cresceu e passámos agora férias é a paisagem de rimmer e dobber. Traduzo o artigo da Wikipédia em dinamarquês que explica essa paisagem:
Rimmer e dobber são um tipo de paisagem natural que existe na bacia sedimentar marinha de Vendsyssel. Esta paisagem é um vestígio de uma antiga área de praia rasa, com uma ligeira inclinação. Nestas condições, as ondas causam um depósito de materiais na forma de bancos de areia sob a água e barreiras que se erguem acima do nível do mar. Se houver regressão (baixa do nível de água), os processos que criaram a barreira param e pode começar a formar-se uma nova barreira, mas a um nível ligeiramente abaixo da anterior. Se houver nova transgressão (subida do nível do mar), a barreira é movida para dentro. Formar-se-á, pois, uma paisagem plana ondulada de cristas de areia que se estendem por muitos quilómetros. Estas cristas de areia, chamadas rimmer, podem ser ampliadas pela formação de dunas, ao passo que as depressões entre elas, chamadas dobber, se tornarão húmidas e se transformarão em pântanos.
As estruturas de rimmer-dobber têm geralmente entre 10 m e 100 m de largura, com uma altura que pode variar entre 1 m e 8 m. As rimmer são compostas por areia de dunas e das praias, ao passo que as dobber se caracterizam pela formação de turfa.
As rimmer que ainda existem têm muitas vezes por uma vegetação de charneca ou árvores e arbustos espontâneos, enquanto nas dobber se costumam encontrar turfeiras e prados velhos.
As maiores áreas do tipo de paisagem de rimmer e dobber na Dinamarca encontram-se no Norte da Jutlândia, na Charneca de Jerup, a noroeste de Jerup, 13 km a noroeste de Frederikshavn, mas este tipo de paisagem também se encontra no Grenen
rimmer e dobber perto da casa de escoteiros que o meu cunhado alugou para as férias da família. Ena, a quantidade de matizes de verde que há numa charneca assim! Infelizmente, ilustram muito mal a descrição as fotografias que aqui vos deixo, porque não faço ideia de como se fotografe esse colorido.
À tardinha, desaparecem as cores e surge uma névoa mágica. É a mesma paisagem, mas é também outra paisagem muito diferente, vestida agora de uma beleza nova. “Mosekonen brygger”, é o que se diz nessa altura, “a mulher do pântano está a fazer cerveja”.

A mulher do pântano é uma criatura sobrenatural que, como o seu nome indica, vive nos pântanos e não tem outra atividade conhecida que não seja fabricar cerveja, produzindo esta névoa baixa que aparece nas zonas húmidas quando a temperatura desce de repente ao fim do dia. (Eis a mulher do pântano numa ilustração de G. Achen para um conto de Henrik Pontoppidan, 1887)
A praia de Skiveren
Não são as rimmer e dobber a dar à paisagem as dezenas de tonalidades de verde que ela tem. Na charneca entre as falésias de Skiveren e a igreja de Råbjerg, não há rimmer e dobber, mas continua o espetáculo de cor.

“O que é que estás a fotografar, se não há aqui para fotografar?”, pergunta-me o meu cunhado. Digo-lhe das matizes de verde.
“Ah, isso é verdade! E se pedires a um pintor para te pintar a paisagem, põe-te tudo verde – dois ou três tons de verde, vá – e já está. E o verde da paisagem nem sempre é realmente verde, às vezes são castanhos, amarelos ou pretos que se misturam.” Dependerá muito dos pintores, com certeza. Os grandes pintores dinamarqueses, suecos e noruegueses que se juntavam em Skagen fascinados pela luz desta terra preferiam olhar para o mar a olhar para a terra, quando não faziam retratos uns dos outros ou pintavam os tipos pitorescos dos pescadores da região. Se fizeram pinturas da fascinante paisagem da charneca, não são, pelo menos, muito conhecidas e não as encontro.


A igreja de Råbjerg não tem torre. A fé move montanhas, mas nem sempre chega para convencer os banqueiros a fazer empréstimos: como o dinheiro não chegava para um torre regular, pôs-se o sino numa torre de madeira ao lado da igreja. (Estou a vender-vos a história ao mesmo preço a que a comprei, como costuma dizer-se, mas não vos aconselho a comprar a preço de pechincha as histórias que vos contem.)