28 de outubro de 2014

O mal maior

Não sei porque pensei nisto. Talvez por causa de uma série de fotos que vi algures de guardas de campos de concentração nazis, com legendas que diziam qualquer coisa como “estes monstros parecem, afinal, pessoas normais”. A maior parte das pessoas, pelo que tenho observado, estão sinceramente convencidas de que são pessoas boas e que as pessoas más são outro tipo de pessoa. E, se chegam a admitir, surpreendidas, a humanidade de criminosos e monstros de toda a classe, custa-lhes mais admitir uma outra proposição verdadeira: todos trazemos dentro de nós o mal todo de que os humanos são capazes. …Ou, pelo menos, a maior parte dele. E dedicamos uma parte importante do nosso tempo e da nossa energia a negar esse mal que temos cá dentro, a impedir que faça parte das nossas ações. É por isso que não é esse mal, por si, o maior problema – o maior problema é, claro está, não sermos capazes de negar o que não queremos ser; ou então, talvez pior ainda, não sei…, acreditarmos que, por estarem dentro de todos nós, esses horrores não podem, afinal, ser o mal que críamos serem e arranjarmos nomes bonitos com que os louvar…

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Uma coisa diferente, a propósito da expressão negar-se e de conflitos entre a nossa moral e outras partes de nós: Dizia um amigo meu que é mais fácil a vida de um conservador que a de quem queira mudar a sociedade, porque não tem o conservador de negar-se tanto. Uma parte do que é fundo em nós é adquirida muito cedo – o meu amigo falava, por exemplo, de modelos de género e da conceção da autoridade e das hierarquias – e sermos como nos ensinaram a ser causa menos inquietação do que vigiarmo-nos constantemente para agir e pensar de acordo com o que achamos bem e não como fomos socialmente programados para agir e pensar. Parece-me que a facilidade com que negamos educação e cultura depende também, em grande medida, do que se passe em torno de nós, da aprovação que haja da mudança nos grupos de que fazemos parte e em toda a sociedade. Mas acho que, em parte, esse meu amigo tem razão.

27 de outubro de 2014

Três canções bonitas deste ano de graça de 2014


É uma ideia generalizada, creio eu, que na música popular europeia e americana predomina o esquema de estrofes e refrão (um refrão sempre igual e curto, de um ou dois versos), com uma ponte, se a há, antes ou depois do refrão. É possível que  seja mesmo essa a estrutura mais comum ou que, pelo menos,  já o tenha sido – não sei; mas há muitos outras estruturas possíveis. E há também muitas canções que não obedecem a esquemas regulares, ou os alteram ou desorganizam. E passo a apresentar-vos, se as não conhecerdes, três canções bonitas deste ano de graça de 2014:

“Rêverie on Norfolk Street”, do duo Luluc, parece – e é-o, de facto! – uma canção popular bastante canónica, com uma melodia simpática, embora também não seja especialmente inspirada, e uma letra bem escrita, sem ter nenhum grande achado. Um olhar mais demorado revela algumas irregularidades na estrutura… E uma dúvida: o refrão deve ser o último verso de cada quadra e os três versos que se seguem à segunda e à terceira quadras devem considerar-se uma ponte, não é verdade*?



“Killer of birds”, de Jesca Hoop, tem uma estrutura, uma melodia e uma letra menos canónicas que “Rêverie on Norfolk Street” e, na minha opinião, bem mais inspiradas, mas partilha uma características da canção dos Luluc: não sei se devo considerar refrão a frase repetida no fim das estrofes (“love you the most”) ou a sequência de quadras que se repete …. A letra e melodia da canção repetem-se duas vezes, como as canções tradicionais do Chaco por exemplo (só falta alguém gritar “¡se va la segundita!” antes da repetição... )


“Arctic shark” é uma canção que muita gente podia ter escrito na década de 60 – e gostaria de o ter feito, acho eu –, mas que só agora foi composta pelos membros dos Quilt. Também não tem refrão, no sentido convencional da palavra, nem uma estrutura muito canónica. Há repetições, mas nenhum verso se repete completamente.  A métrica do verso altera-se um pouco nas várias vezes em que ocorre a mesma parte musical, produzindo,  por isso, melodias ligeiramente diferentes.



Em geral, há pouco a dizer sobre as canções populares, mas é claro que se pode dizer mais que apenas a estrutura de rimas e estrofes e refrães. Mas fica isso para outra vez, se a houver. O que quero agora dizer é o seguinte: Há quem defenda que uma das especificidades do humano relativamente aos outros animais é a capacidade de repetir estruturas em esquemas organizados, em sequências lineares ou encaixando-se umas dentro das outras. Somos, por isso, o único animal que  faz música. E, digo eu agora, somos também capazes de desorganizar as estruturas regulares que criamos – para as tornar mais interessantes, para realçar que cada criação é única, por muito que siga o esquema de base de outras criações.  Mas queria sobretudo apresentar-vos, se as não conhecíeis, três canções bonitas deste ano de graça de 2014.

  
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* Numa primeira versão deste texto descrevia pormenorizadamente a estrutura irregular das canções, mas achei que cabia mal essa descrição num texto destes e resolvi que, pondo aqui as letras, pode quem ler não só dar-se rapidamente conta dessas  irregularidades como acompanhar a canção. Também comecei a traduzir as letras das canções, para quem não percebesse inglês, mas o resultado foi tão insatisfatório que desisti de aqui publicar as traduções. Quero só chamar a atenção de um pormenor da letra de "Murder of birds" que creio que pode escapar mesmo a quem fale bem inglês: muitos saberão que bird significa, além de "pássaro", "rapariga", mas poucos devem saber que que, além do seu significado de "assassinato", a palavra murder se usa na expressão murder of crows, "bando de corvos". Ah, e embora, nas transcrições que encontro da letra "Arctic shark", o primeiro verso seja sempre "How can I proceed with thee?", parece-me que é de facto "these" que se ouve e não "thee"... 

7 de outubro de 2014

O sex appeal do relativismo linguístico (continuação de vários capítulos anteriores…)

Nos artigos sobre língua e linguística que vão aparecendo na comunicação social, a influência da língua na maneira de ver o mundo é um tema muito sexy. Os jornais não são, nesse aspeto, muito diferentes das conversas de café: pelo que vejo, é sempre sexy afirmar que “as categorias linguísticas influenciam o pensamento e algum comportamento não linguístico” ou qualquer coisa desse estilo. Evidentemente, os pressupostos e conclusões desta escola de pensamento são discutíveis – e efetivamente discutidos –, mas, embora a perspetiva contrária não esteja completamente ausente dos meios comunicação social, é-lhe dado menos espaço mediático. É muito menos sexy dizer, por exemplo, que a língua dá conta de como a mente funciona do que dizer que ela modela a maneira como a mente percebe o mundo.

Já aqui falei muito desta questão e, por muito que sobre ela haja muito mais a dizer, hoje falo antes de outra ideia relacionada com esta, também muito sexy e, por isso, também muito divulgada, que é a das palavras e construções muito, muito idiossincráticas, intimamente ligadas à cultura e à mundividência de um povo – tão idiossincráticas que chegam a ser intraduzíveis. É que há muito quem goste de empolar o idiomático e o intraduzível. E há também quem, como eu, goste de chamar a atenção para o muito que assim se exagera – quando não se dizem, pura e simplesmente, disparates atrás de disparates.

Fazendo uma recolha ao acaso de oito das muitas listas de palavras “intraduzíveis” que por aí circulam[1], as mais referidas (em seis dessas listas) são a família francesa dépayser/dépaysement e o checo prozvonit. Se, no caso dos termos dépayser/dépaysement/dépaysant, posso imaginar dificuldades de tradução de frases em que eles entrem (embora, em muitos contextos, exótico, por exemplo, traduza exatamente dépaysant), já prozvonit (creio que é um verbo, esquecem-se sempre de classificar morfologicamente os “intraduzíveis”) parece ser facilmente traduzível para muitos falantes do português ou do espanhol, já que há nas duas línguas uma expressão que traduz diretamente o termo checo: dar um toque é a expressão que usam para referir um telefonema que se desliga antes de o destinatário ter atendido, para o informar de alguma coisa previamente combinada sem ter de pagar uma chamada – ou para que ele ligue a quem ligou[2].

Em seguida, com cinco ocorrências nas oito listas, vêm hygge/hyggeligt em dinamarquês, mamihlapinatapai em iagane da Terra do Fogo, saudade em português, Schadenfreude em alemão e wabi-sabi em japonês. De hygge/hyggelig e de saudade já aqui falei e, em vez de me repetir, remeto-vos para o texto em que analiso a pretensa intraduzibilidade dessas e outras palavras, e a própria ideia de in/traduzibilidade. O que se traduz, explico eu nesse texto, não são palavras mas frases (para simplificar), pelo que a ideia de palavras intraduzíveis não faz grande sentido. Mas adiante. É-me completamente impossível saber de que elementos se compõem mamihlapinatapai e wabi-sabi e se há ou não marosca na definição dos termos. Se mamihlapinatapai significa de facto “um olhar trocado entre duas pessoas que querem ambas que a outra inicie algo que ambas desejam, mas não querem ser elas a começar”, um olhar cúmplice cobre provavelmente muito do uso do termo sem grande perda de informação, se não quisermos recorrer a, sei lá, “uma troca de olhares hesitantes de desejo”, qualquer coisa assim. Já a definição de wabi-sabi é tão estranha que gostaria que, além de explicarem de que categoria morfológica é o termo, me apresentassem a palavra em contexto: a definição de “encontrar beleza na imperfeição e aceitar o ciclo natural de crescimento e declínio” parece-me tão fantasiosa, que ou se trata do aproveitamento filosófico de um termo que não tem nada a ver com o seu uso línguístico comum[3] ou então imagino mal uma frase como “Ana amiúde wabi-sabi”, com o significado de “Ana encontra amiúde beleza na imperfeição e aceita o ciclo natural de crescimento e declínio”. Vocês não? Schadenfreude é, claro está, uma das palavras alemãs que muitas vezes se usa em enunciados de outras línguas sem a traduzir (como Blitzkrieg, Weltanschauung, Zeitgeist, etc., etc.), mas é por hábito que isso se faz (uma moda, de facto) e não por impossibilidade de dizer o mesmo com palavras que não sejam alemãs. Um nome não é, em princípio, predicador e é preciso, para propor uma tradução, ver as frases concretas em que a palavra aparece; mas se for de sentir Schadenfreude que se trate, deixo a tradução à minha avó, que falava de “ter gosto na desgraça alheia”. Num registo menos familiar, comprazer-se no sofrimento alheio resolve bem o problema, ou não?

E depois, em quatro das oito listas aparecem o cafuné do português, o espanhol duende (Spaniards got soul!), o inuíta iktsuarpok, que é “ir lá for a ver se lá vem alguém”; o jayus indonésio, “uma anedota tão má que dá vontade de rir”; o kyoikumama japonês, essa “mãe educativa”, que obriga o filho a ter boas notas na escola; o lítost checo, definido como “o estado de agonia ou tormento resultante pela súbita constatação da sua própria desgraça” (discutido no parágrafo seguinte); o pochemuchka russo, que é o Spørge Jørgen dinamarquês, aquele perguntador cujas línguas se comiam ao jantar quando eu perguntava à minha avó o que era o comer; o tartle escocês, que é “hesitar ao apresentar alguém porque, ups!, se esqueceu o seu nome”; um surpreendente tingo do rapanui, que é “pedir emprestado até deixar sem nada quem nos empresta” (esta cheira mesmo a esturro, não cheira?), o Torschlusspanik alemão, que é “a angústia de ter cada vez menos oportunidades à medida que o tempo passa”, mas que, de facto, é apenas uma metáfora compreensível por falantes de qualquer língua em cuja cultura existam portas, o “pânico d(e encontrar) a porta fechada”; e depois e depois e depois…

A verdade é que, como diz David Shariatmadari, num artigo no Guardian (traduzo eu) “todos gostaríamos de acreditar em palavras intraduzíveis. É uma ideia tão romântica: que existem aí algures, como ilhas desertas por descobrir, ideias que nunca concebemos. Cuidadosamente guardadas por estrangeiros ao longo dos séculos, joias de cultura ignoradas pelo resto do mundo”. Shariatmadari é, como eu, crítico deste romantizar da intraduzibilidade. Ainda bem que o Guardian, que costuma divulgar tanto a perspetiva oposta, dá também voz ao menos sexy: “Há alguns pressupostos linguísticos e não linguísticos ligados a este romance, a maior parte dos quais é decididamente duvidosa”, continua Shariatmadari, acrescentando que os exemplos comummente citados são “quase todos ridículos, quando se analisam em pormenor”. Além da saudade e do hyggelig já referidos, ou do mito das palavras inuítas para neve (de que também já aqui falei uma vez), Shariatmadari passa em revista várias palavras “intraduzíveis”, como a utepils norueguesa, o aware japonês, a Schnapsidee e a Waldeinsamkeit alemãs, a toska e o razbliuto russos e a goya do urdu. Do lítost checo, de que prometi desenvolvimento no parágrafo anterior, diz ele o seguinte:
Milan Kundera não conseguiu traduzir esta palavra checa para inglês. NO Livro do Riso e do Esquecimento, definia-a como “um estado de tormento criado pela repentina constatação da sua própria desgraça”. As línguas dividem de forma diferente o espectro do sofrimento humano. Mas o inglês tem com certeza uma quantidade de candidatos a equivalente aproximado: self-pity, remorse, regret, anguish, shame [autocomiseração, remorso, arrependimento, angústia, vergonha].
Pode ser que Shariatmadari tenha razão e pode ser que não. Não sei checo, não o posso discutir. Não parece haver dúvidas de que o verbo litovat significa “arrepender-se, ter remorsos” e que lítost significa “arrependimento” em certos contexto, mas a explicação de Kundera na obra referida parece dizer mais respeito a vergonha que a arrependimento. O que tenho por certo é não há nenhuma razão para crer que os checos conseguem fazer frases para descrever um sentimento que ninguém além deles consegue fazer. Isso implicaria uma de duas explicações: ou os checos sentem coisas que mais ninguém sente ou a língua checa tem uma capacidade de representação do mental diferente das outras. Ambas me parecem altamente improváveis…

Como Shariatmadari também explica, pode ainda acontecer que, por exemplo ao considerar intraduzível a “palavra” turca çekoslovakyalılaştıramadıklarımızdanmışsınız, se alargue tanto o conceito de palavra que se faz a batota de comparar “palavras” de certas línguas com “palavras” de outras línguas em que cabem numa “palavra” muitas “palavras”. Trata-se, de facto de um artifício fundamental no discurso do intraduzível: não especificar o que se entende por palavra, uma categoria muito vaga, sobretudo quando há línguas e tradições ortográficas em que se juntam palavras para formar novas palavras e outras em que as palavras mantém sempre, no som e/ou na escrita, alguma autonomia entre elas. Enfim…

E então? Palavras intraduzíveis são, com rigor, todas as palavras, porque não são, insisto, palavras que se traduzem. Mas, para não ir tão longe, palavras intraduzíveis são simplesmente as palavras que as pessoas que defendem a sua intraduzibilidade não sabem traduzir para nenhuma das outras línguas (entre 3.000 e 6.000, conforme se façam as contas), o mais das vezes porque nunca se deram a muito trabalho para encontrar uma tradução…; ou as palavras estrangeiras que não sabem traduzir para a sua própria língua, porque não compreendem o que elas querem dizer e aceitam explicações delirantes do seu significado[4]...

Mas passemos agora das “palavras” às expressões. Para voltar ao já referido artigo do Guardian sobre “vocabulários culturais”, é preciso, sinceramente, uma enorme dose de boa vontade e muitas voltas à retórica para dizer que “a individualidade nacional se exprime saudavelmente em expressões idiomáticas como o mesmo significado mas usos (???) amplamente diferentes e localmente inspirados” e dar como exemplo o contraste entre carrying coal to Newcastle (“levar carvão para Newcastle”), Eulen nach Athen tragen (“levar mochos para Atenas”), vendere ghiaccio agli eschimesi (“vender gelo aos esquimós”), llevar naranjas a Valencia (“levar laranjas a Valência”) e vizet hord a Dunába (“levar água ao Danúbio”)”[5]. Que o Danúbio não seja em Espanha e que as laranjas de Valência não possam fazer parte de um provérbio inglês parece relevar mais da geografia que da língua e, se se pode encontrar “individualidade nacional” no carvão em Newscastle, já se vê mal o que têm de especialmente alemão os dracmas atenienses ou o que há de especialmente italiano no gelo dos esquimós. Sejamos razoáveis: Não há nada na língua portuguesa (nem na cultura portuguesa, sequer) que determine ou justifique uma expressão como “ensinar a missa ao padre”[6] – houve apenas, por acaso, um falante do português que criou essa frase (mesmo que tenha sido traduzida) e ela teve fortuna entre os falantes da língua, voilà! Evidentemente (por razões que nada têm a ver com a língua!), seriam precisas algumas alterações para que a tradução de “ensinar a missa ao padre” fosse entendida por pessoas de países onde não há missa nem padres, mas é, em princípio, adaptável para qualquer língua do mundo.

São famosas as brincadeiras com traduções “literais” de expressões ditas idiomáticas, incluindo provérbios. Também já aqui falei uma vez disso.  Dizia que “muitas das expressões ditas idiomáticas (…) são figuras de estilo que só se tornaram populares numa determinada região e que, por isso, só se usam na língua dessa região, mas que nada impediria de terem tido a mesma fortuna noutra regiões e noutras línguas”. Agora, claro, “o que não se pode é traduzir [as expressões de cada país ou região] de uma maneira parva, como se faz normalmente nas anedotas para aumentar o efeito cómico”, escrevia eu nesse outro texto desta Travessa.

Não se pode dizer, por exemplo, “Tens uma descida que eu não gostava de subir de bicicleta!” por razões efetivamente linguísticas, mas é apenas porque é impossível traduzir assim para português um jogo de palavras francês. A frase é uma tradução “literal”, e por isso idiota, de uma expressão, que se diz a alguém que bebe muito: Tu as une descente que j’aimerais pas remonter à vélo ! Evidentemente, descente em francês não é só “descida”, mas também “capacidade de emborcar” e, se não houver, na língua alvo, uma palavra que tenha esses dois significados (não fui ver nas línguas todas do mundo, mas parece-me provável que essa coincidência se dê só em francês…), o jogo de palavras não funciona.

Também é óbvio que há que ter cuidado com a tradução “literal” de uma expressão como dia de São Nunca à tarde, mas, se a tradução for sensata, ela compreender-se-á mesmo nas línguas em que não se usa. Aliás, há em inglês uma expressão com a palavra never (“nunca”), twelfth of never, que significa o mesmo, e há noutras línguas europeias expressões com o mesmo significado com nomes de santos… inexistentes (ver aqui e aqui). Mesmo uma expressão como o olho da rua, em que a tradução direta de olho causaria sem dúvida muita estranheza e incompreensão, não é assim tão “idiomática” como pode parecer, porque olho também se usa noutras línguas para dizer “meio” , por exemplo quando se trata do centro de um furacão – e não só!

Eu uso muitas vezes, numa determinada língua, expressões que costumam usar-se noutra língua e toda a gente me compreende, se digo, por exemplo, que não vale a pena procurar o meio-dia às duas da tarde ou que não vale a pena procurar pulgas onde não há pulgas (expressões francesas, il ne faut pas chercher midi à catorze heures e il ne faut pas chercher des puces où il n'y en a pas). Agora vou passar também a dizer, para situar um acontecimento num passado muito distante, que isso foi no tempo em que o rei de ouros ainda era valete. É uma expressão dinamarquesa, dengang ruder kongen var knægt, que aprendi no outro dia. Por outro lado, há frases idiomáticas cujo significado não se compreende apenas por falar a língua em que elas ocorrem – tem de se aprender o seu significado, como se aprende o significado de uma palavra. Um exemplo óbvio é quem quer vai, quem não quer manda. A frase propriamente dita não significa, em português, o que significa o provérbio que ela constitui, pelo que ser falante do português não basta para adquirir esta parte do seu “vocabulário cultural”…

Conclusão (mais uma vez): um bocadinho de bom senso, sim?

Ah, e outra coisa que não tem nada a ver com isto, mas com o título do texto: há palavras inglesas que entram no português e outras que vão saindo – sex appeal era muito mais comum na geração do meu pai que na minha e tenho a impressão que está a cair em desuso, não está?

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[1] http://news.distractify.com/culture/untranslatable-words/; http://www.boredpanda.com/untranslatable-words-found-in-translation-anjana-iyer/; http://betterthanenglish.com/; http://boingboing.net/2014/09/22/ten-untranslatable-words.html; http://europeisnotdead.com/disco/words-of-europe/137-2/; http://travel.allwomenstalk.com/fantastic-untranslatable-words; http://matadornetwork.com/abroad/20-awesomely-untranslatable-words-from-around-the-world/; http://www.babbel.com/magazine/untranslatable-01

[2] Encontrei na Internet vários comentários de brasileiros e espanhóis propondo dar um/un toque como tradução direta de prozvonit. Os meus amigos portugueses que consultei sobre o tema parecem acordar que dar um toque, sem mais, é ambíguo e que acrescentariam qualquer coisa: dar um toque e desligar, por exemplo.

[3] Da mesma forma que, na boa tradição de Teixeira de Pascoaes, algumas definições de saudade que se encontram nestas listas de palavras intraduzíveis não têm nada a ver com a palavra saudade usada nas frases efetivamente produzidas por falantes do português: “vago e constante desejo de qualquer coisa que não existe e provavelmente não pode existir (…), que indica que nos viramos mentalmente para o passado ou para o futuro [!!!]”, que “não é um descontentamento ativo ou uma pungente tristeza mas sim uma melancolia indolente e sonhadora.” Desculpe, importa-se de repetir? Mas, mesmo que não se vá por tão fantasiosa definição e nos fiquemos pela (também completamente incorreta) “nostalgia de uma pessoa ou coisa que se perdeu e que já não volta”, como se aplica isso a, por exemplo “Bom, saudades de Portugal propriamente não tenho, mas tenho, claro, saudades dos amigos e da família – e de bom peixe fresco. Uma boa postinha de garoupa, ena, que saudades!” ou a “Ena, já tinha saudades de vir aqui dar uma volta à tarde, há mais de três meses que cá não vínhamos”. Enfim, quem não sabe é como quem não vê, diz o outro e com razão. Parece-me provável que a longa dissertação de Milan Kundera nO Livro do Riso e do Esquecimento sobre o termo lítost, que se discute neste texto, seja um devaneio do mesmo tipo que ignore completamente o uso real da palavra em checo, mas, claro, não posso disso ter a certeza…

[4] Ou até porque o seu vocabulário na sua própria língua é extremamente limitado. No blogue Better Than English , que é um exemplo acabado do disparate linguístico no que toca a palavras intraduzíveis, chega a afirmar-se que a palavra espanhola tocayo (o xará do português brasileiro) não tem tradução para inglês – mas então e a palavra namesake?

[5] Também não se percebe o que vem fazer no meio de tudo isto a constatação simples de que a expressão de dor é diferente em diferentes línguas. Em princípio, o que seria estranho é que o não fosse – tão estranho como uma mesa ser referida pela mesma palavra em todas as línguas. Não deixa de ser curioso, porém, que haja tanta semelhança entre a expressão da dor em línguas tão diferentes como o português e o mandarim – e talvez alguma razão para tal –, e é também muito curioso que este artigo se esqueça de o referir para acentuar o contrário…

[6] “Ensinar a missa ao padre” pode ter uma nuance de sentido que implique restrições no uso relativamente às frases referidas antes, que significam apenas “fazer algo inútil”. A Wikipedia em alemão, porém, inclui no seu artigo “Eulen nach Athen tragen” (uma variação dieletal d)a expressão meiner Großmutter das Beten lernen, “ensinar a minha avó a rezar” como sinónimo de levar mochos para Atenas – e esta parece corresponder de uma forma muito direta a “ensinar a missa ao padre”. Além de uma longa lista de expressões sinónimas em alemão, o artigo tem também uma lista de expressões equivalentes noutra línguas, estre as quais “levar bananas para a Madeira” e “vender mel ao colmeeiro” em português.

1 de outubro de 2014

Ponto da situação

Ilustração da Astronomie Populaire de Camille Flammarion, 1879, p 231 fig. 86 (da Wikipédia)
Faz hoje 7 anos que nasceu a Travessa do Fala-Só, com um texto em que conto a história do motivo célebre dos aventureiros que, conhecendo a previsão de um eclipse solar, assustam os seus captores convencendo-os de que comandam o sol.

E acho que, em 7 anos, 451 textos, quase 400.000 palavras (umas 1000 páginas, digamos assim), disse uma coisa original (pelo menos enquanto não descobrir que, afinal, já alguém tinha dito o mesmo antes de mim): que, nas descrições fonéticas do português europeu, há sempre um som que falta.

Não é chita. Tirando isso, é como se sabe: às vezes há mais assunto e mais inspiração, às vezes menos; às vezes, sai escorreito o texto, outras vezes não. É assim a vida.