5 de fevereiro de 2015

Do correto e do incorreto, politicamente ou não

Parece que dizer mal do “politicamente correto”, da pretensa tirania do “politicamente correto”, se tornou politicamente correto em certos círculos, mas eu acho isso incorreto (também politicamente), como acho incorreto definir-se o politicamente correto como se se tratasse de um determinado conjunto de ideias ou posições. Esta frase diz, a bem dizer, tudo o que quero dizer, mas, para não ser mal interpretado, explico-me melhor:

O que é politicamente correto varia conforme a perspetiva política de cada pessoa. Correto é um termo de aprovação*. Para um conservador, é correto (em qualquer sentido do termo) afirmar que o feminismo veio dar cabo da ordem social, que é natural as mulheres terem menos cargos de chefia, etc., ou que a desigualdade é um fenómeno natural entre humanos, pelo que o igualitarismo é uma utopia com maus resultados, e por aí fora. Para um feminista ou uma igualitarista, como eu, é o contrário disto que é correto. Não se vê, portanto, por que razão há de um conservador chamar politicamente correto ao que acha incorreto, para vir, em seguida, dizer que o “politicamente correto” causa muitos problemas, em vez de dizer, muito simplesmente, que acha incorreto o que afirmam certas pessoas (e explicar porquê, de preferência, mas não obrigatoriamente…).

Insisto: correto é, quando aplicado a ideias morais, exatamente como bom: um termo de aprovação, sem veleidades referenciais. Imaginemos que eu acho que aquilo de que o meu amigo Zé gosta é feio. Em vez de dizer que acho feio, devo antes pôr-me a dizer que o bom gosto dele é problemático? A ideia, muitas vezes implícita, às vezes explícita, na crítica ao politicamente correto é que o pretenso “politicamente correto”, por ser dominante, implica autocensura ou ostracismo de quem pense de outra forma. Mas continua a ser uma ideia estapafúrdia: a autocensura e o ostracismo existe sempre que há uma posição dominante, independentemente de ela fazer ou não parte do que os críticos do “politicamente correto” definam como “politicamente correto”. Quando racismos e xenofobias várias (acho que não poder dizer mal ou troçar das pessoas de outras etnias e crenças é um dos pretensos erros que imputam ao tal “politicamente correto”, gostava de perceber porquê…) eram a maneira de pensar dominante, por exemplo, muitas pessoas autocensuravam declarações igualitárias ou eram ostracizadas por as terem feito. E se uma pessoa é criticada por afirmações racistas ou xenófobas, não é porque exista a tirania de nenhum politicamente correto, é porque as pessoas que a criticam acham, com toda a justeza, que são criticáveis afirmações desse tipo. Voilà!

A moral da história é simples: politicamente correto é, para cada pessoa, o que ela achar politicamente correto. Quando essa pessoa quiser discordar das ideias políticas dos outros, faça isso mesmo, discorde, por favor, diga que acha essas ideias políticas incorretas, sem o disparatado artifício retórico de dizer que há algum problema num pretenso conjunto fixo de ideias a que se possa chamar politicamente correto.

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* Correto é sempre um termo de aprovação, mas não tem sempre o mesmo valor modal: há contextos em que correto significa “verdadeiro”:
“Grande parte de Lisboa foi destruída por um terramoto em 1755”
“Sim, isso é correto”
ou
“Sete vezes seis são quarenta e nove”
“Não, isso não é correto”.
No contexto da discussão que aqui tenho, a expressão não tem este valor. Isto não significa que a expressão signifique uma coisa para cada pessoa: é porque ela significa o mesmo para toda a gente que podemos discordar daquilo a que ela se aplica. Isto também não significa de modo algum que eu defenda algum tipo de relativismo radical segundo o qual o recurso a universais ou observáveis de algum tipo não cabe na discussão moral (a política é uma parte da moral); mas não posso arredar da discussão política quem se recuse a aceitar evidência, além de que, sobre muitas questões morais, não há evidência conclusiva ou as partes em conflito invocam evidências mutuamente contraditórias, cada qual a seu favor.

7 comentários:

jj.amarante disse...

Mais outra argumentação muito boa. Só é pena estar escrita neste Acordo Ortográfico que introduziu uma maior variedade ortográfica na escrita do Português, conduzindo a um resultado não necessariamente mau mas oposto da intenção declarada de uniformizar a ortografia. Pela minha parte surpreendo-me agora a pensar,por exemplo, "korréqueto" e a "pronunciar" o que antes eram consoantes mudas sempre que vejo a nova grafia de "corrrecto".

Edite Leal Gonçalves disse...

Permite-me outro ponto de vista. A frase "politicamente correto" é usada vulgarmente, com o sentido de "socialmente correto", já faz algum tempo. Talvez possa considerar-se uma variação linguística, das que se baseiam em alterações de conteúdo semântico, ou seja, o significado das palavras evolui, alargando-se restringindo-se ou modificando-se. Doutra forma não poderias dizer, "a água do mar engoliu várias casas", porque a água do mar não engole, porque não tem sistema digestivo, e muitas outras alterações de significado, desta nossa vivíssima língua.
Para mim, e para a maioria dos portugueses esta crítica não é politicamente correta embora não tenha nada de político.
Sob este ponto de vista, "politicamente correto
, poderá ser, então, um conjunto de ideias ou posições,tantas quantas as impostas pela mentalidade da comunidade em que te inseres.

Vítor Santos Lindegaard disse...

É verdade, José Júlio, que é difícil mudar algo tão profundamente enraizado como a maneira de escrever. Já se sabe que qualquer alteração da norma causa sempre esse tipo de problemas e uma nova ortografia demora sempre muito tempo a estabilizar. Vê-se, por exemplo, textos dos anos 20, talvez até 30, com a ortografia anterior à reforma de 1911.
Também a tendência para a hipercorreção que refere é natural nesta situação, creio eu. Note que essa mesma tendência também existia já relativamente à ortografia anterior, embora na escrita e não na pronúncia, e, mesmo antes de se falar de reforma ortográfica, era comum ver-se contracto por contrato, por exemplo, e coisas semelhantes.
O facto é que, se se compreende que tenham sido deixadas as consoantes mudas que marcavam a abertura de vogais, não se vê bem por que se manteve o c de correto e afins, que não tinha função na escrita (repleto ou concreto não precisam de marca nenhuma para se pronunciarem da mesma forma), quando se fizeram desaparecer as outras consoantes etimológicas em dicto ou escripto, etc. Enfim, uma incoerência da reforma de 1911…

Vítor Santos Lindegaard disse...

Bem-vinda, Edite! Obrigado pelo comentário. Fico mesmo muito contente de quereres entrar na conversa. E passo a responder-te:
De que o significado das palavras evolui, não há dúvida, e pode bem ser que o significado de político e correto tenham mudado nos últimos tempos. A minha ideia é que o significado de político sempre foi e continua a ser em parte determinado pela ideologia política de quem usa a palavra e, como todas as outras palavras, pelo contexto em que é utilizado. Muitas vezes, aliás, o que muda não é o significado, que deve ser suficientemente estável e abstrato para os falantes da língua se poderem entender e até discordar sobre aquilo a que se aplica a palavra, mas o sentido em que é utilizado. A variação de significado é linguística em sentido estrito, a variação de sentido já não, mas é melhor não ir agora longe demais nessa discussão.
A palavra correto (na aceção que aqui está em causa, insisto), não vejo bem como possa ter evoluído. Continua a ser um termo com um valor essencialmente modal, que diz a aprovação de uma pessoa daquilo de que é predicado. Não é como verde ou grande que referem um feixe de propriedades de objetos, por exemplo.
Agora, tu dizes que “politicamente correto” se usa no sentido de “socialmente correto” e que designa “um conjunto de ideias ou posições … impostas pela mentalidade da comunidade em que te inseres”. (É uma expressão importada do inglês, de passagem, não é nada que tenha surgido na nossa vivíssima língua que é, precisamente, tão viva como a grande maioria das outras línguas) É em parte verdade e é isso mesmo que eu digo: como esse conjunto de ideias varia de sociedade para sociedade, isto é, varia no tempo e/ou espaço, não existe um conjunto de ideias que se possa designar como o politicamente correto: uma ideia pode ser dominante numa determinada sociedade e uma ideia completamente antagónica pode ser dominante noutra sociedade. (Também não faz sentido criticar uma ideia por ela ser ou não dominante: uma ideia deve aprovar-se ou recusar-se pel(o que se acha ser)a sua justeza ou falta dela; mas, para não nos dispersarmos, deixemos também agora de lado essa discussão.)
O que me importa realçar aqui é que, precisamente, a crítica ao “politicamente correto” que por aí grassa nunca é uma crítica às ideias dominantes numa sociedade no seu todo, mas sempre uma crítica às ideias igualitaristas nas sociedades modernas (nota que isto não diz respeito a outros usos da expressão, menos comuns e com intenções outras, como o do teu texto). Por exemplo, uma ideia que claramente faz parte do discurso dominante nas sociedades europeias atuais é a ideia da fatalidade da sujeição política à lógica económica dos mercados, mas nunca vi incluir esta ideia no pacote criticado sob a designação de politicamente correto. Fala-se, na critica à preponderância do dogma neoliberal, de “hegemonia ideológica” ou algo semelhante, mas não de “politicamente correto”. Onde eu quero chegar com o meu texto – e, mais uma vez, não fui suficientemente claro, pelo que só posso pedir desculpa – é que a crítica ao “politicamente correto” é um truque retórico barato e inconsistente: quem ache que se deve poder contar anedotas racistas e machistas, que o defenda claramente, considerando incorreta a sua recusa, a sua falta de aceitação ou até a sua proibição, em vez de aludir aos pretenso perigos e à pretensa tirania de um pretenso “politicamente correto” que essa pessoa não acha, de facto, politicamente correto e de que é livre de discordar. Não sei se agora já ficou mais clara a minha posição.

Edite Leal Gonçalves disse...

Obrigada. Ficou mais claro, para mim, agora. Também te agradeço a possibilidade de debater ideias, e melhor ainda, poder escrevê-las.

ps: Vivíssimas não são a grande maioria. Há umas completamente mortas, e muitas moribundas.

J.Barreto disse...

Estou totalmente de acordo com a sua crítica do uso da expressão "politicamente correcto". Também já tenho escrito sobre isso na blogosfera.
Quando vejo alguém iniciar uma argumentação dizendo que vai ser um bocadinho "politicamente incorrecto", já sei que vai sair asneira. Gente conservadora tem um especial apreço por esses rótulos, sem se darem conta que correcção, incorrecção, correcto e incorrecto são conceitos universais e eternos, que não é possível torcerem a seu bel-prazer. No fundo, no fundo, acham que as suas ideias tradicionalistas ou retrógradas é que são correctas. Mas prestam uma homenagem involuntária àqueles de quem discordam chamando-lhes "politicamente correctos".
Claro que também há por vezes um abuso da chamada correcção política (que acaba por o não ser), quando se pretende erigir e impor a todos certos valores que podem ser discutíveis. Ou quando se usam eufemismos linguísticos para designar certas coisas julgadas "sensíveis". Mas daí a usar-se o rótulo "politicamente correcto" com sentido depreciativo vai um passo muito largo e... falso. Parece que as pessoas que o usam afinal valorizam a incorrecção.

Vítor Santos Lindegaard disse...

Caro J. Barreto,

Desculpe tão grande atraso, mas tenho andado completamente afastado dos blogues e só hoje estou, finalmente, a pôr em dia a resposta aos comentários. De facto, nem é tanto responder-lhe que quero, porque concordo com o que diz, mas antes agradecer-lhe o seu comentário.

Cumprimentos,

Vítor